Saber-Literário

Diário Literário Online

Apesar de vocês
Rosiska Darcy de Oliveira

A recusa pelo TSE a cassar a chapa Dilma-Temer pode ter sido a gota d’água que transbordou o pote de mágoas dos brasileiros. Nas redes sociais, recorrente, uma indignação sofrida.

Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade; da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.

O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE, pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade. A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e Rosa Weber.

Apesar de vocês, políticos canastrões no papel de estadistas, com seus peitos estufados, suas gravatas espaventosas, apesar dos seus porões noturnos, seus sussurros e maquinações escabrosas, suas mesadas milionárias, seus empresários tão amigos, apesar da venda do país e de nós todos ao longo de décadas, todos rindo muito, trocando de cúmplices como de sapatos, nessa omertà insultuosa aos brasileiros que lhes sustentam com seu trabalho. Apesar de vocês, contra vocês e mais forte do que vocês, um outro Brasil já existe como querer coletivo.

À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem que não é sequer ideológica, é moral.

A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus próprios interesses de poder ou de dinheiro.

O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes, restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as sentenças virão.

A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.

Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que herdamos.

Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes. Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil. Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.

Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras. Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.

                                                                      - - - x - - -

Registro aqui minha repulsa à agressão sofrida pela jornalista Míriam Leitão. A intolerância dos agressores atingiu não só a ela, também à liberdade de imprensa.


Fontes:  O Globo e ABL

Piada do Dia: O Rabino e a Sua Masculinidade Comprometida

O rabino teve um acidente terrível, e sua "masculinidade" foi danificada no seu corpo. Seu médico assegurou-lhe que a medicina moderna poderia devolver sua masculinidade, mas que o seguro não cobriria o procedimento, já que era considerado uma cirurgia estética.

O médico disse que o custo seria de 10 mil reais para um "pequeno", 18 mil reais para um "mediano" e 40 mil reais para um "grande".

O rabino não sabia ao certo qual escolher, mas tinha certeza de que sua esposa queria ao menos um mediano... e talvez até um grande! O médico, percebendo a dúvida, pediu que ele conversasse com sua esposa antes de tomar uma decisão...



Piada: Qual tamanho você vai querer, senhor rabino?
O rabino chamou sua esposa pelo telefone e explicou suas opções. O médico voltou para a sala e achou o futuro paciente na cadeira bastante abatido.

"Bem, o que vocês dois decidiram?", perguntou o médico.


"Ela prefere reformar a cozinha!"


Fonte: Tudo por e-mail


Sheik saudita: Maomé manda “matar os apóstatas"
 Luis Dufaur (*)

 O “Islã é uma religião de paz”? O Middle East Media Research Institute (MEMRI) — instituto de pesquisa apartidário e independente, que fornece traduções de materiais originais do Oriente Médio —, publicou pregação pela TV Al-Ahwaz (Arábia Saudita) do clérigo Sheik Ayman Al-Anqari. Ele responde “ao problema da coexistência religiosa” do ponto de vista da moral de Maomé.

Ele a repele dizendo que a coexistência “deixa que as pessoas se tornem hereges, negando a existência de Alá, amaldiçoando Alá, amaldiçoando seu profeta e amaldiçoando o Islã”.

“Eles dizem que o castigo de apostasia deve ser abolido porque vai contra a coexistência. Ora, o castigo de apostasia é imutável e uma das grandes punições no Islã. O profeta Maomé disse: ‘Aquele que mudar de religião: mata-o’. Portanto, a coexistência no sentido de liberdade de religião é nula e sem significado, recusável e inaceitável”.

Sobre a guerra de conquista islâmica em andamento, ele esclareceu que “Alá disse: ‘Luta contra aqueles que não acreditam em Alá nem no Dia Final’. Alá fez do combate e da Jihad um quinhão contra a existência da heresia”.

E ainda Maomé disse: “Incursiona pela causa de Alá, combate contra aqueles que recusam Alá. Alá fez do combate e da Jihad um quinhão contra a existência da heresia. Isso significa combate ofensivo – obviamente sob certas condições, como ter possibilidades de fazê-lo, por exemplo”. O testemunho é de tal maneira acabrunhador, que dispensa comentários.

Porém, não acreditamos que ele mude a opinião dos arautos do “Islã, religião de paz”, que em nome de um falso ecumenismo não cessam de insistir em suas posições sectárias, contrárias à verdade conhecida como tal.
          

( * ) Luis Dufaur é escritor, jornalista, conferencista de política internacional e colaborador da ABIM



                

A Igreja Católica destruiu minha família perfeita', diz pai de duas filhas estupradas por padre

'A Igreja Católica destruiu minha família perfeita', diz pai de duas filhas estupradas por padre
Foto: AP Photo/Riccardo De Luca

O australiano Anthony Foster era pai de duas meninas, Emma e Katie, que estudavam na escola primária de Melboune. A família, perfeita segundo ele, foi dizimada física e psicologicamente pela Igreja Católica.

“Estas são minhas meninas (…) Um padre católico as violentou na época em que esta foto foi tirada e por isso estamos lutando há tanto tempo. Esta era minha família perfeita. Nós a fizemos assim e a Igreja Católica a destruiu”, afirmou o homem, em entrevista durante viagem a Roma em que mostrou a foto das meninas.

Foster, que morreu em maio deste ano, perdeu a filha mais velha, Emma, em 2008. A jovem, que tinha 26 anos na época, tomou medicamentos até causar uma overdose e morreu abraçada a um ursinho de pelúcia que ganhou com um ano de idade.

A menina mais nova, Katie, vive com deficiência física, já que foi atropelada em 1999, quando sofria de alcoolismo. Ela também tem problemas mentais.

Ambas foram estupradas por um padre católico entre 1988 e 1993, quando tinham entre 5 e 6 anos. O responsável pelo abuso, o padre Kevin O’Donnell, já havia sido denunciado por pedofilia em 1958, mas o caso foi ignorado pela Igreja.

Foster morreu lutando para que a instituição assumisse os erros publicamente. Ele a e esposa, Chrissie, denunciaram o caso, mas a primeira reclamação não foi levada para frente.

Só depois de uma batalha de dez anos, o casal foi indenizado em US$ 555 mil. Antes, em 1995, o padre responsável pelos estupros foi preso por abuso de menores. Ele morreu dois anos depois, em 1997.

“A Igreja deveria ter vergonha (…) Se tivessem sido abertos para ouvir sobre o abuso, Emma poderia estar aqui ainda”, afirmou o pai durante entrevista à Fairfax Media em 2010.

RECONHECIMENTO

“A história registrará que um homem chamado Anthony Foster mudou silenciosa e profundamente a história da Austrália”, disse o governador do Estado australiano de Victoria, Daniel Andrews.

“Ele lutou contra atos malignos que, vergonhosamente, foram negados e ocultados”, completou.


Fonte: Yahoo Notícias ter, 20 de jun 17:29 BRT


PESQUISA APONTA EMPATE TÉCNICO ENTRE LULA E BOLSONARO NO RIO
Lula já vê Bolsonaro avançando rumo à presidência
As intenções de voto para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do deputado federal Jair Bolsonaro em uma eventual disputa às eleições presidenciais de 2018 estão tecnicamente empatadas no Estado do Rio de Janeiro. O dado é do Instituto IBPS, segundo informações do colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo. O levantamento indica 20,6% de intenção de voto para Lula e 19,9% para Bolsonaro. Na mesma enquete, os 29% dos entrevistados disseram que votariam em branco ou nulo em 2018. Na análise do cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, responsável pela pesquisa, o empate ocorre em razão de uma queda nas intenções de voto de Lula, que tem 41,9% de rejeição. Bolsonaro acumula 18,6% de rejeição entre o eleitorado. BOLSONARO LIDERA PESQUISA EM BRASÍLIA E LULA É CONSIDERADO O MAIS NOCIVO - O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lidera nas intenções de voto para 2018 no Distrito Federal. Pelo menos é o que revela uma pesquisa do Instituto Paraná. Bolsonaro é preferência para 19,1% dos eleitores, enquanto Joaquim Barbosa, caso dispute, aparece em segundo, com 14,1%. O ex-presidente Lula é terceiro colocado, com 13,2% das intenções de voto. O ex-presidente Lula é considerado a personalidade mais nociva para o Brasil envolvida na Lava-Jato. É o que indica uma pesquisa do Instituto Paraná. No Distrito Federal, o petista é visto como o mais perigoso para 37%. Em seguida, para 14,5%, Aécio Neves. Preso, Eduardo Cunha é o pior deles para 12,7%.

Fonte: Blog do Val Cabral


Biografia de Clarice Lispector

Clarice Lispector, (1920-1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, de origem judia, foi reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século XX. "A Hora da Estrela" foi seu último romance, publicado em vida.

Clarice Lispector (1920-1977) nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Filha de família de origem judaica, seu pai Pinkouss e sua mãe Mania Lispector emigraram para o Brasil em março de 1922, para a cidade de Maceió, Alagoas, onde morava Zaina, irmã de sua mãe. Nascida Haia Pinkhasovna Lispector, por iniciativa do seu pai todos mudam de nome e Haia passa a se chamar Clarice.

Em 1925 muda-se com a família para a cidade do Recife onde Clarice passa sua infância no Bairro da Boa Vista. Aprendeu a ler e escrever muito nova. Estudou inglês e francês e cresceu ouvindo o idioma dos seus pais o iídiche. Com 9 anos fica órfã de mãe. Em 1931 ingressa no Ginásio Pernambucano, o melhor colégio público da cidade.

Em 1937 muda-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro da Tijuca. Ingressa no Colégio Sílvio Leite, onde era frequentadora assídua da biblioteca. Ingressa no curso de Direito. Com 19 anos publica seu primeiro conto "Triunfo" no semanário Pan. Em 1943 forma-se em Direito e casa-se com o amigo de turma Maury Gurgel Valente. Nesse mesmo ano estreou na literatura com o romance "Perto do Coração Selvagem", que retrata uma visão interiorizada do mundo da adolescência e teve calorosa acolhida da crítica, recebendo o Prêmio Graça Aranha.

Clarice Lispector acompanha seu marido em viagens, na carreira de Diplomata do Ministério das Relações Exteriores. Em sua primeira viagem para Nápoles, Clarice trabalha como voluntária de assistente de enfermagem no hospital da Força Expedicionária Brasileira. Também morou na Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, sempre acompanhando seu marido.

Em 1949 nasce na Suíça seu primeiro filho, Pedro e em 1953 nasce nos Estados Unidos o segundo filho, Paulo. Em 1959 Clarice se separa do marido e retorna ao Rio de Janeiro acompanhada de seus filhos. Logo começa a trabalhar no Jornal Correio da Manhã, assumindo a coluna "Correio Feminino". Em 1960 trabalha no Diário da Noite com a coluna "Só Para Mulheres" e nesse mesmo ano lança "Laços de Família", livro de contos que recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1961 publica "A Maçã no Escuro" pelo qual recebe o prêmio de melhor livro do ano em 1962.

Em 1966 Clarice Lispector sofre várias queimaduras no corpo e na mão direita enquanto dormia com um cigarro aceso. Passa por várias cirurgias e vive isolada, sempre escrevendo. No ano seguinte publica crônicas no Jornal do Brasil e lança "O Mistério do Coelho Pensante". Passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Em 1969 já tinha perto de doze volumes publicados. Recebeu o prêmio do X Concurso Literário Nacional de Brasília.

As melhores prosas da autora se mostra nos contos de "Laços de Família" (1960) e de "A Legião Estrangeira" (1964). Em obras como "A Maçã no Escuro" (1961), "A Paixão Segundo G.H." (1961) e "Água-Viva" (1973), os personagens alienados e em busca de um sentido para a vida, adquirem gradualmente consciência de si mesmos e aceitam seu lugar num universo arbitrário e eterno.

Em 1977 Clarice Lispector escreveu "Hora da Estrela" onde conta a história de Macabéa, uma moça do interior em busca de sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do festival de cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986.

Clarice Lispector morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro de 1977. Seu corpo foi sepultado no cemitério Israelita do Caju.

Obras de Clarice Lispector

Perto do Coração Selvagem, romance, 1944
O Lustre, romance, 1946
A Cidade Sitiada, romance, 1949
Alguns Contos, conto, 1952
Laços de Família, conto, 1960
A Maçã no Escuro, romance, 1961
A Paixão Segundo G.H., romance, 1961
A Legião Estrangeira, conto, 1964
O Mistério do Coelho Pensante, literatura infantil, 1967
A Mulher Que Matou os Peixes, literatura infantil, 1969
Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, romance, 1969
Felicidade de Clandestina, conto, 1971
Água Viva, romance, 1973
Imitação da Rosa, conto, 1973
A Via Crucis do Corpo, conto, 1974
A Vida Íntima de Laura, literatura infantil, 1974
A Hora da Estrela, romance, 1977




SEJA NOBRE -  JOÃO BATISTA DE PAULA .
 
É BOM TER UMA BOA VISÃO.
NOBRE NA GENTILEZA, NOBRE EM SER UTIL, NOBRE EM PRATICAR O BEM,
NOBRE EM SERVIR, NOBRE EM SORRIR, NOBRE EM GRATIDÃO,
NOBRE EM SINCERIDADE,
NOBRE EM PARTICIPAÇÃO,
NOBRE NA HUMILDADE, NOBRE NA TOLERÂNCIA,
NOBRE NO AMOR, NOBRE EM FAZER BOAS AMIZADES,
NOBRE EM PROPAGAR A CHAMA VIVA DO AMOR,
NOBRE EM SABER CEDER,
NOBRE EM APRENDER, NOBRE EM ORIENTAR,
NOBRE EM SABER SER FELIZ,
NOBRE EM BOM COMPORTAMENTO, NOBRE EM PROPAGAR O BEM E O BELO.
 
NOBRE POR SER SEU AMIGO...
ÚNICO COMO VOCÊ. AMIGO.
AMÁVEL.
GENEROSO.
ATENCIOSO.
SINCERO. MARAVILHOSO.
LEGAL.
CORTÊS.
PRESENTE.
IMPORTANTE.
 
SEJAMOS TODOS NOBRES, PORQUE O MUNDO PRECISA DE GETILEZA, BONDADE E CORTESIA; UMA NOBRE EDUCAÇÃO. 

Premonição
R. Santana
          
                A chuva torrencial escorria na janela envidraçada da residência da família Caldas. O relâmpago de quando em vez iluminava o quarto e os pipocos dos trovões estremeciam o ambiente.
Sílvia e o seu sogro Luiz estavam aflitos, não sabiam como socorrer Oscar, àquela hora da noite, ele arfava cada vez mais ofegante em busca de ar.  A filha do casal, de 4 anos de idade, era a única alheia  àquela situação dramática,  dormia profundo embalada pelos anjos.
         O medo de Oscar era morrer no escuro, ainda cedo, tinha levado pra casa um pacote de velas de espermacete e uma caixa de fósforos, porém, no momento de um grande trovão, o “Aladim” que iluminava o quarto entrou em blackout e, o fósforo e as velas sumiram na bruma da noite, Oscar sussurrava no ouvido da esposa, rogava-lhe ar e luz.
Não há escuridão que a chama de uma vela não ilumine... Sílvia encontrou em suas bugigangas uma vela e um fósforo e a luz foi restabelecida de maneira precária e atendeu parcialmente ao rogo de Oscar, seu semblante iluminou-se, tudo seria remediado se a chuva desse uma trégua e as janelas pudessem, também, ser abertas e o ar aliviasse o moribundo.
Às 23 horas e 50 minutos daquele dia, o céu parou de chorar, as lágrimas, agora, escorriam fininhas, o trovão e o relâmpago fizeram as pazes, aí, o velho Luiz abriu de repente as vidraças e uma rajada de ar envolveu o quarto. Oscar sugava o ar com vontade, porém, a força do vento além de apagar a vela consumiu todo o fósforo nas mãos trêmulas de Sílvia, novamente, o blackout tomou conta da casa.
A pequena Tereza, perto da meia noite, choramingou quando o movimento no quarto elevou o ruído dos objetos, Sílvia como não mais tinha fósforo, esqueceu-se do marido por minutos e voltou-se para filha, aconchegando-a, para que ela não acordasse de uma vez e o socorro ao marido ficasse comprometido, mas a Providência intercedeu e a criança parou de choramingar e voltou a dormir como antes.
O quadro cardiorrespiratório de Oscar teve uma pequena melhora, com a corrente de ar que entrava e saía do quarto. O ritmo descompassado de sua respiração parecia, agora, normal o que não agradou ao experiente Luiz que viveu até aquela data, com o adágio popular na cabeça: “... todo doente pra morrer sente um alívio...”, não queria pensar na morte de Oscar, pois seria sua própria morte: filho e pai eram um só, o que um pensava o outro adivinhava, os dois eram unha e carne, jamais tiveram rusgas, a felicidade do filho completava a felicidade do pai e a felicidade do pai era sentida pelo filho.
Minutos eternos de normalidade para Oscar...


***

Estimado leitor, no ano de 1943, mês de agosto, dia 2, Oscar Caldas de terno de casimira azul, chapéu panamá branco, camisa branca de mangas compridas com abotoadoras de ouro, gravata, cinto de fivelas de ouro, sapatos pretos engraxados, orientava 5 carroceiros que atravessaram a ponte Góis Calmon,  até avenida “Macuco”, onde ficava sua casa comercial, no bairro Nossa Senhora da Conceição, antiga Abissínia, na cidade  itabunense. Os carroceiros descarregaram as carroças e ajudaram o negro Tuiúca arrumar as mercadorias no armazém, compradas do outro lado da cidade.
Quem não o conhecia diria que o moço iria pra um evento ou reunião de negócios pelos trajes impecáveis, quem o conhecia no dia a dia, diria, apenas, que naquele dia, ele tinha exagerado, dado um toque a mais, porém, o terno e o chapéu panamá eram rotina em sua vida, às vezes, mais relaxado, ele dispensava a gravata. Sua elegância era admirada por conhecidos e não conhecidos, tanto que o negro Tuiúca o apelidara: “Il Príncipe”.
Esse traje almofadinha o tinha livrado de morrer 2 meses antes: um sujeito quase decepa o seu pescoço pra lhe roubar. A gola alta de sua camisa amorteceu o golpe. Mesmo com os cuidados do médico Dr. Moisés Hage que lhe atendeu de pronto, ele perdeu muito sangue. 
Oscar, meses depois, consultou o médico Dr. Victor Maron sobre sua saúde, pois ele vinha sentido um desconforto no peito e ouviu do médico a recomendação:
- Oscar, trabalhe menos. O nosso coração é uma bomba natural, se recebe uma sobrecarga, tende a pifar... – o médico assustou-se com a infausta resposta:
- Doutor, não passo deste mês!
- Não se agoure, meu caro, você ainda é moço!...
          Naquele dia, no finalzinho da tarde, depois do armazém arrumado, as mercadorias nos devidos lugares, prateleiras cheias e o que sobrou armazenado no depósito, Oscar chama a esposa para os fundos do armazém e inicia uma conversa estranha:
- Sílvia, eu não estou bem... Chame meu pai! – a esposa suaviza:
- Querido, não é nada... – Oscar deixa-a assustada:
- Sílvia, não me deixe morrer no escuro!
- Poupe-me desta conversa!...

***

Naquele dia, 02 de agosto de 1943, às 23 horas e 58 cinquenta e oito minutos, a chuva voltou abundante, o velho Luiz correu pra fechar as vidraças enquanto Sílvia afagava o marido. Os relâmpagos anunciaram novas trovoadas, mais estrondosas. O tempo fechou... 
Às 23 horas e 59 minutos, um relâmpago demorou alguns segundos e iluminou todo o quarto. Luiz e Sílvia juntos de Oscar foram testemunhas dos seus últimos estertores. Luiz não suportou tamanha perda, tombou sobre a cama e foi amparado por Sílvia - Luiz foi sepultado no mesmo dia do seu filho e Dr. Victor Maron o atestou vítima de AVC fulminante.
O presságio de Oscar se confirmou. Um relâmpago foi providencial para que ele não morresse no escuro.


***


Dias depois, a pequenina Tereza dizia vê-lo:
- Papai voltou mamãe!!!





Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons


COISAS DA VIDA – CLARICE LISPECTOR
Poema que eu AMO! E não me canso de ler!

"Já escondi um amor com medo de perdê-lo,
Já perdi um amor por escondê-lo...
Já segurei nas mãos de alguém por estar com medo,
Já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
já expulsei pessoas que amava de minha vida,
Já me arrependi por isso...
Já passei noites chorando até pegar no sono,
Já fui dormir tão feliz,
Ao ponto de nem conseguir fechar os olhos...
Já acreditei em amores perfeitos,
Já descobri que eles não existem...
Já amei pessoas que me decepcionaram,
Já decepcionei pessoas que me amaram...
Já passei horas na frente do espelho
Tentando descobrir quem sou,
Já tive tanta certeza de mim,
Ao ponto de querer sumir...
Já menti e me arrependi depois,
Já falei a verdade
E também me arrependi...
Já fingi não dar importância a pessoas que amava,
Para mais tarde chorar quieto em meu canto...
Já sorri chorando lágrimas de tristeza,
já chorei de tanto rir...
Já liguei pra quem não queria
Apenas para não ligar para quem realmente queria
já corri atrás de um carro,
por que ele levar alguém que eu amava embora.
Já chamei pela mãe no meio da noite
Fugindo de um pesadelo,
Mas ela não apareceu
E foi pesadelo maior ainda...
Já chamei pessoa próximas de "amigo"
E descobri que não eram;
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada
E sempre foram e serão especiais para mim...
Não me deem fórmulas certas,
Porque eu não espero acertar sempre...
Não me mostre o que esperam de mim,
Porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que eu não sou,
Não me convidem a ser igual,
Porque sou diferente!...
Não sei amar pela metade,
Não sei viver de mentiras,
Não sei voar com os pés no chão...
Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei a mesma para sempre...
Com o tempo aprendi que o que importa não é o que você tem na vida, mas QUEM você tem na vida..."


OS DEZ MANDAMENTOS PARA O BRASIL QUE QUEREMOS

O Brasil cansa. Esse tem sido o meu bordão, e convenhamos: é difícil não ficar pessimista com o “país do futuro”, que insiste tanto em se manter aprisionado aos mesmos erros do passado. Por isso mesmo, para contrapor minha quase desesperança, gosto de ler autores mais otimistas, que procuram focar nos aspectos positivos, ainda que sem cair em ilusões infantis. É o caso de Luiz Felipe D’Ávila.

Em seu novo livro, 10 Mandamentos: Do País que somos para o Brasil que queremos, D’Ávila percorre os principais problemas que impedem nosso avanço, mergulha nas características culturais da formação do povo brasileiro, e apresenta soluções práticas, mandamentos que precisam se tornar obsessões de todos aqueles que ainda escolhem acreditar no Brasil.

Apesar do tom mais propositivo e esperançoso, não falta realismo ao autor. A primeira frase da introdução já passa o recado: “O Estado brasileiro está quebrado, desacreditado e destruindo a credibilidade das instituições democráticas”. A seguir, D’Ávila explica os principais motivos para essa triste constatação, mostrando como é complicado empreender no Brasil para se criar riqueza, como a mentalidade estatizante criou um mecanismo perverso de incentivos, com inúmeros grupos parasitando em torno do governo em busca de privilégios, tudo isso sustentado por uma narrativa típica de criança mimada que olha para o “pai” como salvador de tudo.

Um Estado patrimonialista, corporativista e clientelista, eis o que temos no Brasil. Algo totalmente afastado dos princípios liberais e mais racionais do mundo desenvolvido, em que o tribalismo e o personalismo foram substituídos pela maior impessoalidade das regras, pela igualdade perante as leis (ainda que de forma imperfeita, e talvez em retrocesso hoje).

Como agravante, ainda temos a cultura da malandragem, do jeitinho, que faz com que o cidadão honesto que respeita as regras do jogo pareça um “otário”. Nesse sentido, o livro dialoga bastante com o meu Brasileiro é otário? – O alto custo da nossa malandragem, em que traço um paralelo dessa marca da cultura brasileira e a postura diferente dos americanos, imersos numa “sociedade de confiança”.

A vitimização dos “coitadinhos” é outro ranço que precisamos eliminar para progredir, o que o autor chama de “Síndrome de Adão e Eva”, a mania eterna de transferir culpa e responsabilidade para os outros. “Nenhuma nação deixou de ser subdesenvolvida com essa narrativa de vítima injustiçada”, diz ele, apontando para os tradicionais bodes expiatórios que adoramos: Portugal, o catolicismo, o capitalismo, a globalização etc. O Brasil precisa amadurecer, e isso significa abandonar o vitimismo e assumir as rédeas do nosso destino, aceitando que temos a capacidade de resolver os problemas prementes que impedem nossa evolução.

Na segunda parte do livro, D’Ávila busca em pensadores como Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre as “raízes culturais” do nosso povo, alegando que há coisas negativas que precisamos abandonar, como a preguiça, o misticismo e a infantilidade, e coisas positivas que podemos preservar, como a mestiçagem pacífica e a cordialidade. Tenho dúvidas se é possível ter e comer o bolo ao mesmo tempo, pois enxergo nessas características mais tribais grandes obstáculos ao progresso. O “pacato cidadão” brasileiro, que provavelmente não passa de um mito, dado o grau de violência que temos no país, talvez devesse se revoltar e se indignar com mais vontade para mudar as coisas.



Mas creio que o próprio D’Ávila no fundo concorda com isso, e ele mesmo diz: “A ética do trabalho, que preza o esforço duro da labuta, a perseverança em momentos de adversidade e a recompensa da disciplina e do talento na geração de riqueza, é incompatível com a ética da aventura; nela imperam a ‘audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo’. […] O personalismo e a cordialidade são incompatíveis com a impessoalidade do Estado e das leis que a democracia liberal exige para o florescimento da verdadeira cidadania e para o fortalecimento das instituições”.

Por fim, na terceira e última parte, chegamos nos dez mandamentos propriamente ditos. São eles:

“Adotarás o parlamentarismo como sistema de governo”. O Brasil precisa sepultar o regime presidencialista, argumenta o autor, mostrando como ele se tornou prejudicial para o povo, concentrando poder e fortalecendo a visão personalista e populista da população, além da demagogia, fazendo com que o cidadão seja tratado como uma criança mimada;
“Criarás o verdadeiro federalismo”. Como corolário do primeiro ponto, é fundamental descentralizar o poder, aproximando-o do povo, e só um verdadeiro federalismo seria capaz disso, com voto distrital e o fim da transferência de recursos do governo federal para municípios, o que fomenta a proliferação de vários municípios incapazes de sobreviver com autonomia e que jamais deveriam existir para começo de conversa;
“Criarás servidores públicos movidos pelos princípios da meritocracia e da política de resultado”. O “Brasil das filas” precisa acabar, a burocracia que engessa o funcionamento de toda repartição pública tem como principal causa a ausência de elo entre remuneração e resultado. O excesso de legislação em nada ajuda. É preciso dar autonomia para o servidor público, e cobrá-lo por isso, responsabilizando-o pelos resultados. É necessário separar carreiras de estado, com maior estabilidade, das de governo, que devem estar sujeitas ao rigor da meritocracia sob pena de demissão caso não atenda as demandas;
“Transformarás o Estado assistencial em um Estado prestador de serviço”. O assistencialismo criou uma legião de dependentes das benesses estatais, e em vez de uma rede básica de proteção, temos um forte incentivo à vida parasitária. Criou-se um ciclo vicioso no qual cidadãos viciados em vantagens do governo elegem candidatos que aumentam o gasto público de forma irresponsável;
“Acabarás com o capitalismo de Estado e adotarás a economia de mercado”. O capitalismo de compadrio é o câncer de nossa economia, com grupos de interesses organizados em torno do poder em Brasília para obter vantagens como barreiras protecionistas, subsídios etc, o que reduz nossa produtividade e contribui para o aumento da desigualdade social, concentrando riquezas de forma injusta numa casta de oligarcas. Isso sem falar da corrupção, claro. O livre mercado, com menor intervenção estatal, é a única saída;
“Integrarás o Brasil à economia global e impulsionarás a exportação”. Manter nossa economia fechada como é hoje significa blindar nossas empresas da competição global, o que impede nosso avanço. Comparar nossa situação com a dos tigres asiáticos é um exercício doloroso, mas fundamental para compreendermos o custo desse protecionismo;
“Educarás os brasileiros para o mundo globalizado”. Nosso sistema de ensino é um total fracasso, e não é por falta de recursos públicos. O aluno não aprende nada em sala de aula, os interesses corporativistas falam mais alto, os professores e diretores se protegem num mecanismo blindado contra o mérito, a ideologia tomou conta das escolas e universidades e por aí vai. O último na hierarquia de prioridades parece ser o aluno. Os “vouchers” poderiam ser uma alternativa aqui. Para tanto, será necessário enfrentar os sindicatos poderosos: “Um dos principais desafios da educação pública brasileira consiste em desinfetar as escolas de professores-burocratas”;
“Resgatarás a cidadania participativa”. Tocqueville temia que a democracia virasse uma simples “tirania da maioria”, e a participação do cidadão no processo, nos debates, na tomada de decisão era algo crucial para impedir tal destino. Bem antes dele, Aristóteles já defendia que o homem é um “animal político”, e que a formação do caráter do cidadão era um elemento essencial para o funcionamento da democracia, para se evitar o populismo e o despotismo. Distanciar-se da política significa deixar o caminho livre para os grupos de interesses e os demagogos;
“Não abrirás mão dos ganhos da globalização”. O autor insiste nessa tecla, pois considera que a abertura para o mundo é o único caminho para colocar pressão contra esses obstáculos ao progresso em nosso país. Aqui talvez haja uma discordância nossa, quando penso que ele confunde globalização com “globalismo” em alguns momentos, apesar de D’Ávila admitir os desvios de certas entidades globais de suas funções básicas, de preservar a própria globalização. Sua principal preocupação é com o nacionalismo, fazendo uma distinção entre ele e um patriotismo saudável, que pode garantir o sentimento de pertencimento aos indivíduos que compartilham de uma história comum;
“Resgatarás a credibilidade do Estado, a virtude da política e a defesa da democracia e da liberdade”. Basicamente um resumo dos demais mandamentos, fechando com uma mensagem de otimismo de Winston Churchill: “A civilização não vai durar, a liberdade não sobreviverá, a paz não será mantida, a menos que uma ampla maioria da humanidade se congregue para defendê-las e, estando ela a tal ponto mobilizada, só restará às forças da barbárie e do atavismo, a rendição”.

Rodrigo Constantino



Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

Ilmo Sr. Machado de Assis.

— Recebi ontem a visita de um poeta.
— O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto.
— O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda.
— Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.
— Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê? A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?
— O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices da tribuna brasileira. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio.
— Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora!
— Mas também quanto, nesse instante, deplorei minha pobreza, que não permitia dar a tão caros hóspedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da inteligência.
— Se, ao menos, tivesse nesse momento junto de mim a plêiade rica de jovens escritores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz, e tantos outros!...
— Entre estes, por que não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, a quem o destino fez ave de arribação na terra natal? Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família?
— Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera. Um fez da pena espada para defender a pátria. Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos.
— Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão.
— Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul.
— Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço.
— Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por este genuflexório, para se prostrar ao pés do Onipotente, conta três degraus; em cada um deles, uma contrição.
— No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, a alma que se havia atrofiado no foco do materialismo, sente-se homem. Embaixo era uma ambição; em cima contemplação.
— Transposto esse primeiro estádio, além, para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense. Dir-se-ia que Deus entregou a algum de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. Então o homem sente-se religioso.
— Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado oposto. Daí os olhos deslumbrados vêem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter. Parece que estes dois infinitos, o abismo e o céu, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio dessas imensidades, um átomo, mas um átomo-rei, de tanta magnitude. Aí o ímpio é cristão e adora o Deus verdadeiro.
— Quando a alma desce destas alturas e volve ao pá da civilização, leva consigo uns pensamentos sublimes, que do mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível primitivo a água derivada do topo da terra.
— Nestas paragens não podia meu hóspede sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio.
— A Tijuca esmerou-se na hospitalidade. Ela sabia que o jovem escritor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espaneja em lagos de luz diáfana, e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta.
— Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem daquelas impudências celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens de nuvens. A chuva a borrifou de aljôfares; as névoas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã.
— Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta.
— O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antiguidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro. Avaliando sobre medida minha experiência neste ramo difícil da literatura, desejou ler-me um drama, primícia de seu talento.
— Essa produção já passou pelas provas públicas em cena competente para julgá-la. A Bahia aplaudiu com júbilos de mãe a ascensão da nova estrela de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modéstia unicamente, é respeito à santidade de sua missão de poeta.
— Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assunto, colhido na tentativa revolucionária de Minas, grande manancial de poesia histórica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo autor com episódios de vivo interesse. O Sr. Castro Alves é um discípulo de Vítor Hugo, na arquitetura do drama, como no colorido da ideia. O poema pertence à mesma escola do ideal; o estilo tem os mesmos toques brilhantes.
— Imitar Vítor Hugo só é dado às inteligências de primor. O Ticiano da literatura possui uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua frase são como os de Benvenuto Cellini; se o metal não for de superior afinação, em vez de estátuas saem pastichos. — Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponta no drama a inspiração original, que mais tarde há de formar a individualidade literária do autor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos. — Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte.
— Há no drama Gonzaga exuberância de poesia. Mas deste defeito a culpa não foi do escritor; foi da idade. Que poeta aos vinte anos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda?
— A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo. — A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que ele há de achar um drama esboçado, em cada personagem desse drama. Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões.
— Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angústia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A ação, dirigida uma ou outra vez pelo acidente material, antes do que pela revolução íntima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna.
— Mas são esses defeitos da obra, ou do espírito em que ela se reflete? Muitas vezes já não surpreendeu seu pensamento a fazer a crítica de uma flor, de uma estrela, de uma aurora? Se o deixasse, creia que ele se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade.
— Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. "A Cascata de Paulo Afonso", "As Duas Ilhas" e "A Visão dos Mortos" não cedem às excelências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta.
— Nesta capital da Civilização brasileira, que o é também de nossa indiferença, pouco apreço tem o verdadeiro mérito quando se apresenta modestamente. Contudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o jovem poeta baiano, fora mais que uma descortesia. Não lhe parece?
— Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o teatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor desse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade.
— Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor.
— Seu melhor título, porém, é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.
— Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor.
— Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.


publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1868
 

http://www.jornaldepoesia.jor.br/machado04.html

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Machado de Assis
Resposta de Machado de Assis



Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.


Exmo. Sr. — É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Exa. mais do que uma animação generosa.
— A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido.
— Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela ideia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Exa, sabem exprimir sentimentos e ideias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.
— Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V. Ex.a que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também. — Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república.
— O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?
— Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel, contudo. entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Exa dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras.
— Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estreias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a?
— Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Exa não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.
— Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.
— Não tive, como V. Exa, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Exa chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval.
— No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão. — Ouvi o Gonzaga e algumas poesias.
— V. Exa já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta.
— Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas ideias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.
— Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas ideias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas.
— O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume.
— O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.
— Esta exuberância que V. Exa com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.
— Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washingtons. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica.
— Condensar estas ideias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não se pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Exa, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves.
— A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.
— Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance, casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horácio corneiliano: entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.
— O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta.
— Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a ideia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento. — Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça.
— O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação, ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréia.
— Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê V. Exa que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui à figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a ideia da abolição. Luís representa o elemento escravo Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.
— Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Exa aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.
— As cenas amorosas são escritas com paixão: as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes! — Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes: e uma ou outra locução suscetível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las: mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã?
— Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.
— Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas.
— O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de V. Exa. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e V. Exa. o sabe também: é a conspiração da indiferença. Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim. — Quanto a V. Exa, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve faze-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.


publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 1 de março de 1868



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