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A carta

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/02/2008

A carta
R. Santana


Não havia antigamente uma coisa mais prazerosa do que receber uma carta de um ente querido distante.
Quando o carteiro com sua mochila às costas, carregada de cartas, e outras correspondências, gritava à nossa porta: “carteiro!!!”, todos que estavam dentro de casa corriam para recebê-la na esperança de ser sua. E, quando a carta era dirigida ao dono da casa, ao esteio da família, todos se juntavam à sua volta, pois as notícias não tinham um caráter particular, mas eram notícias que interessavam ao dono da casa e todos da família.
Às vezes, as cartas traziam notícias pesarosas, de um ente querido que se foi, de um conhecido moribundo, de um parente distante falecido. Quem não se lembra de um telegrama tarjado de preto, anunciando desenlace? Mas as cartas traziam também, notícias alvissareiras, portadoras de boas novas, de alegria, de alguém que ia se formar, casar, alguém que tirou a sorte grande no jogo, boa safra, chuva e sol em abundância necessária.
As cartas eram usadas também em pequenas distâncias. Os jovens de épocas mais remotas usavam as famigeradas “cartas de amor”. Livros com modelos românticos de cartas eram coqueluches daqueles tempos. As moças de liberdade controlada pelos pais, recebiam os textos mais ingênuos e apaixonados dos seus pretendentes.
A carta não era apanágio somente dos mortais comuns. Grandes escritores, cientistas, governantes, militares, usaram-na para confessar suas angústias, seus dramas familiares e pessoais, suas descobertas científicas, suas conquistas militares e os governantes anunciarem, a priori, aos seus prepostos, medidas administrativas que tomariam em defesa do estado e do povo.
A carta também foi usada em uma das mais repulsivas e condenáveis atitudes do ser humano: a “carta anônima”. Quantos casamentos foram desfeitos? Quantos crimes foram praticados em decorrência dessa nojenta e abjeta forma de se comunicar? Pessoas de boa fé ou má fé se escondiam atrás de uma carta anônima, sem assinatura, sem identificação de autoria, para denunciar traições, crimes, conluios, sublevações, extorsões. Há em nosso país o caso emblemático da denúncia feita por carta, do coronel Joaquim Silvério dos Reis, ao governador de Minas, Visconde de Sabugosa, sobre a Inconfidência Mineira. Mesmo quando o denunciante anônimo era movido por causas nobres e necessárias, ele era tido como gente de caráter duvidoso e covarde.
A nossa carta mais famosa tem mais de 500 anos, é a carta de Pero Vaz de Caminha, comunicando o grande feito de Pedro Álvares Cabral, com a descoberta de uma nova terra para Portugal. Porém, têm registros mais antigos. Conta-se que Ramsés III, faraó do Egito, anunciou sua subida ao trono, aos seus súditos de terras longínquas, usando os pombos-correios para levar suas cartas, 6.500 anos antes de Cristo. E que os Persas, em tempos não menos distantes, usavam as cartas para comunicar os seus atos administrativos.
Outra carta não menos famosa é a carta testamento de Getúlio Vargas. Getúlio eleito presidente, depois de ter exercido à presidência do Brasil por 15 anos, em regime revolucionário, constitucional e ditatorial. Retorna nos braços do povo em eleições livres em 1951 e em 1954 suicida-se.
Sua carta é um testamento político cujo beneficiário era o povo. Não declinou nome de ninguém mas deixou como herança um conjunto de idéias políticas e administrativas e um legado de obras acabadas em todo o país.
Com o advento de novos meios de comunicação no Século XX, as cartas não perderam o seu valor afetivo, utilitário e oficial. Porém, pouco e pouco, foram substituídas por novas formas de correspondência: mais sucinta, mais rápida, mais eficiente no tempo, todavia, mais distante e menos afetiva.
Hoje, alguém não se debruça sobre uma escrivaninha para escrever uma carta de 2 ou 3 folhas, é cafonice, é irracional. O sistema de comunicação atual, é ágil e dispensa qualquer esforço maior ou dotes intelectuais. Alguns minutos de telefonema, a família, os vizinhos, todos interessados, ficam inteirados de todos os problemas e soluções, dos negócios ao lazer.
O aparelho de fax, a máquina de xérox, o telefone, o e-mail e a informatização, vieram colocar por terra todo romantismo que as pessoas tinham com missivas longas e redações buriladas. As correspondências são cada vez mais, econômicas, racionais e ágeis. Atualmente, a comunicação breve, a racionalização de tempo e o custo são os ingredientes indispensáveis na vida atribulada do homem moderno.
Com a chegada da rede mundial de computadores, a exemplo da Internet, e com a Internet o e-mail, o endereço eletrônico, o correio eletrônico e a informatização das mensagens, as distâncias foram encurtadas e o mundo ficou pequeno.
O e-mail, como sinônimo de mensagem eletrônica, é talvez, o maior instrumento da comunicação de todos os tempos.
O e-mail é democrático, imparcial, de acesso fácil, estabelece vínculos virtuais duradouros entre pessoas conhecidas ou não conhecidas, que tendem ser preservados toda vida. É evidente que o homem pode usá-lo também para difundir idéias más, suscitar discórdias e semear maldades. Porém, são escroques da sociedade que serão alijados pelas técnicas de filtragem e os avanços da ciência, da informática e da cibernética.
O e-mail tem sido muito usado para transmitir conhecimento, disseminar mensagens de auto-estima, divulgar filosofia de vida, exemplos de fé, estreitar laços de amizade e fazer novos amigos.
A história da humanidade é cíclica, os fatos travestidos com outra embalagem se repetem, contrariando o filósofo Heráclito, que dizia: “... não nos banhamos duas vezes no mesmo rio...” , para explicar o eterno movimento das coisas. Heráclito não era o dono da verdade, mas a eterna mudança é um fato, todavia, parece que a humanidade se move em círculo sempre voltando ao ponto de partida. Por isto, acreditamos que a carta retomará seu lugar como forma de expressão romântica.
A carta simples, ingênua, recheada de palavras esperançosas, juras de amor, de saudade, de alegria, de romantismo, será novamente, a forma mais humana para encurtar distâncias afetivas e aproximar corações e vencerá às formas mais modernas da comunicação e da tecnologia.




Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: crônica









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1 Responses to A carta

  1. Eu me recordo sempre desse tempo. Por muitas vezes fu ao correio postar cartas e muitas cartas eu enviava. Demorava, mas muitas cartas eu recebia. Desse tempo, eu ainda tenho algumas cartas que eu não mandei. Estão amareladas e guardadas em uma caixinha. Quanto ao carteiro, te sertão esperado, já fiz até Poema pra ele.Parabéns pela belíssima Crônica a Carta - Glória Brandão

     

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