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Doglândia

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/02/2008







Doglândia
R. Santana



Os cachorros estavam em polvorosa, todos queriam falar ao mesmo tempo. O cachorro que estava com o microfone pedia silêncio e ordem:
- Senhores, há uns 15 minutos que lhes peço silêncio e ordem para que eu possa ler a pauta. Depois os senhores reclamam dos humanos... – esbravejou.
A Confederação dos Cachorros Nacionais – CCN, tinha marcado uma assembléia para discutir os problemas urgentes que grosso modo eram os empecilhos para que todos tivessem uma digna vida de cachorro.
Lá estavam representados todos os cachorros do país: do vira-lata ao sofisticado pit-bull do presidente da república de Doglândia. Nas primeiras cadeiras ficaram os Poodles, os Rottweilleres, os São Bernardos, os Yorksires, os Malteses, os Labradores, os Huskys Siberianos, os Foxes Terrieres e os filas brasileiros.
Lá em Doglândia também se encontravam: o cachorro do presidente, o cachorro do ministro, o cachorro do secretário, a cachorra da primeira dama, o cachorro do deputado, o cachorro do senador e o cachorro do ministro da Justiça. Todavia quem estava conduzindo os trabalhos, era um cachorro barbudo, sem pedigree, mas que tinha notoriedade nacional, pois transitava em todas as camadas sociais, nas classes sociais pobres, ele tinha mais penetração.
-Senhores, nós iremos falar inicialmente, sobre a nossa comida que com algumas exceções, torna-se cada vez pior – alguém no auditório solicita à palavra:





-Senhor Secretário, eu represento o Nordeste. A vida de cachorro lá não é fácil, nós comemos as sobras dos nossos amigos humanos. A recíproca que “é melhor ter um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, lá não é verdadeira. Esse negócio de ração é pra cachorrada rica do Sul de Doglândia. Eu soube que aqui na Capital Federal, os cachorros almoçam alcatra e filé mignon... – o orador não terminou de falar:
-uau, uau, uau, uau, uau...o latido era geral!...- o cachorro Secretário bateu na mesa:
-Senhores cachorros, assim não é possível! A algazarra não constrói. Ganhar no grito é coisa de humano, temos que ouvir o nosso orador, depois cada um se manifesta – o silêncio voltou a reinar no auditório.
-Ia dizendo que os cachorros dos deputados, os cachorros dos senadores, os cachorros dos ministros... comem filé mignon, alcatra e outras delícias humanas, quando fui interrompido. Não é nenhuma aleivosia, é verdade, aqui todos passam bem, lá no Nordeste, nem os nossos amigos humanos degustam dessas iguarias... – foi interrompido mais uma vez:
- O Laulau me concede um aparte?
- Aparte concedido. Porém, gostaria de informar ao cachorro amigo, que não me chamo de Laulau, mas de Lulinha, fique à vontade! – esclareceu o orador.
-Desculpe-me companheiro, tudo começa com “L”, troquei alho por bugalho. Mas quero esclarecer ao nobre orador que onde há fumaça, existe fogo. Não é de todo mentira, sei que isso acontece quando os nossos amigos humanos deixam os seus sobejos. Geralmente, os cachorros daqui comem comida industrializada em nome de uma boa saúde e, diga-se de passagem, alimentação cada vez mais fedorenta, come-se apulso... é àquela história: “quem não tem cachorro, caça com gato”. A mídia extrapola um pouco, mas não é de todo mentira. - Justificou o orador.



O Secretário mais uma vez, chamou à atenção dos demais companheiros para não divagar com discussões estéreis de somenos importância, lembrava-lhes que havia uma pauta extensa e significativa para maioria:
-Senhores cachorros, não vamos transformar nossa assembléia em um caldeirão de futilidades. Se os nossos amigos estão comendo bem na Capital Federal não lhes cabem críticas, o importante é que trabalhemos para que todos tenham uma vida de cachorro digna. – falou o Secretário.
No meio da cachorrada surgiu uma cachorra magrinha, de pelos luzidios, da raça Basset, doida para falar. Pelo seu pequeno tamanho e sua voz rouca não tinha conseguido ainda ser ouvida. Pelos olhos de lince do Secretário, foi enxergada de longe, com as mãozinhas levantadas pedindo para falar.
-Senhores, nós vamos ouvir à senhorita ali do meio! – interrompeu o Secretário. Todos fizeram silêncio. A pequerrucha com um bonezinho branco e óculos escuros se destacava pela beleza.
-Amigos, eu comungo com o cachorro Secretário. Se houver dissensão entre nós, jamais iremos ter sucesso nas nossas reivindicações. A comida não é a coisa mais importante das nossas discussões. Eu sou do Nordeste, jamais irei trocar uma buchada de carneiro ou um pedaço de carne de bode por um prato refinado de caviar. Além disso, lá desfrutamos de liberdade que não a encontramos aqui. – todos foram unânimes nas ovações.
-Muito bem senhorita! Posso saber sua graça? – perguntou o Secretário.
-Hanna!
-Senhorita... – interrompeu a cachorra:
-Por favor, pode me tratar por “senhora”, embora eu seja nova, já tenho três filhotes e um marido. – advertiu Hanna.
-Eu gostei do seu aparte. A senhora foi lúcida e objetiva em suas colocações. Temos que nos unir naquilo que é do interesse da maioria e não aos casos pontuais. O cachorro do presidente, do ministro, do deputado e de outras autoridades, são cachorros que vivem no bem bom e milhões doutros cachorros passando fome e necessidade. Por isto, na pauta colocamos os assuntos relevantes e do interesse da maioria. – definiu o Secretário.

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Uma Poodle tratada, cheia de lacinho, perfumada, de nariz arrebitado, suspendeu a mão pedindo pra falar. Foi atendida, pois estava com a mão estirada fazia algum tempo:
-Senhores, eu não concordo com o Secretário que tenhamos que seguir literalmente sua pauta. Ele definiu muito bem os assuntos, mas se esqueceu de acrescentar em sua pauta “o quê houver...”, de praxe em todas as reuniões, às vezes, surgem coisas importantes para discussão que não estão na pauta! – todos concordaram. - O Secretário, político, polido e educado, pediu-lhe para que a elitizada cachorra continuasse sua fala:
-Senhores, eu não quero causar nenhum mal estar, porém, têm coisas que são do interesse duma classe privilegiada que passam ser do interesse de todos pela gravidade e... por exemplo... - fez uma pausa como se tivesse esquecido de algo, aí começou uma balbúrdia... – O Secretário teve que intervir:
-Senhores, quando um cachorro fala, o outro murcha a orelha. Vamos ouvir as colocações da senhorita Poodle! – a balbúrdia foi controlada.
-Senhores cachorros, o meu nome é Laika, moro em uma casa rica aqui na capital de Doglândia. A minha queixa talvez não tenha sentido para maioria da minha raça, mas muitos irão considerar a minha queixa procedente. Explico-lhes:
-Eu e mais milhares de cachorros somos agredidos no dia-a-dia em nossa natureza. Alguns humanos sublimam suas frustrações, seus complexos, suas fobias, suas decepções amorosas em cima dos cachorros.
Enchem-nos de perfume, de laços de fita, de vestuário, transformando-nos em seus bibelôs de luxo e de prazer. Pensam os humanos que é fácil ficar o tempo todo perfumado ou cheio de talco? Não, não é fácil. Quero ter cheiro de cachorro. Além disso, senhores cachorros, muitos nos usam em suas fantasias sexuais doentias.
As filhas das dondocas nos aborrecem, levando-nos pra aqui e pra acolá contra nossa vontade.
Tenho dito!... – todos bateram palmas de pé.

A discussão continuou. Um vira-lata usou da palavra para manifestar sua vida de cão vagabundo:
-Cachorros amigos, eu não tenho dono, moro na rua, não me queixo por isso. Sou livre. Vou para onde quero sem dar satisfação a ninguém, mas nem tudo é flor! Não desejo perfume nem talco, todavia, sinto falta de alguns cuidados como um banho de vez em quando, remédios, inseticidas para debelar os nossos inimigos carrapatos e pulgas.
Hoje, antes de chegar aqui, corri como um cachorro-louco, porque os humanos estão com uma carrocinha levando os cachorros sem dono para fazer lingüiça. Quando o cachorro é saudável, é bonito, eles deixam-no de quarentena até surgir um humano que se interesse e leve-o para sua casa. Os humanos fazem isso também com os seus filhos adotivos.
Por isso, quero passar um abaixo-assinado, para os senhores entregá-lo à Sociedade Protetora dos Animais, em nome de todos. – concluiu.


O Secretário comunicou à Assembléia que o cachorro de Bush, Barney, tinha tido a gentileza de enviar um e-mail, desculpando sua ausência, justificando as preventivas medidas de segurança que tinha de seguir para não ser mordido pelo cachorro de Osama bin Laden, terrorista raivoso, que quando não mordia, explodia carrocinhas de bombas, espalhando carne de cachorro para todos os lados...
Alguém da platéia, intempestivamente, sem os mínimos requisitos de civilidade, interrompe a fala do Secretário:
-Não seria necessário ler as desculpas desse famoso cachorro! Ele quer fazer média diplomática com os seus irmãos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Para mim, tanto o cachorro de Bush e de Osama são da mesma laia. Dou um pelo outro e não quero volta! – mesmo sem ser chamado, foi aplaudido com fervor.
-Senhores, em todo lugar há bons e maus cachorros. Cachorros sérios, cachorros corruptos e cachorros ladrões ocupam simultaneamente, os tribunais, os legislativos, os executivos, os Estados Maiores, as Forças Armadas, as polícias, os bancos, as indústrias, o comércio, enfim, como os humanos, nós temos, também, tumores benignos e malignos, mas graças ao nosso protetor São Roque, os benignos são maioria. – todos assentiram.


-Senhores, nós estamos aqui há 4 horas, já colocamos enésimos problemas, porém, nenhuma proposta para encaminhamento. Quero ouvir, doravante, propostas sucintas para solução dos nossos problemas. Para racionalizar os nossos trabalhos, de agora em diante, somente o cachorro inscrito usará à palavra por um minuto, um minuto e meio para réplica e tréplica, os demais cachorros usarão a prerrogativa do voto. – o Secretário exigiu objetividade dos conferencistas e delegados, surge à primeira proposta:
-Senhores, meu nome é Kid, nasci aqui em Basilândia, capital do país e sou companheiro do ex-deputado Robert Justus. Gostaria de levar aos meus pares à proposição: “... serão denunciados ao Fórum Internacional dos Cachorros – FIC, os corruptos, os corruptores, os traficantes, os ladrões, os sonegadores, os mentirosos, os facínoras. Que sejam presos sem direito a sursis ou gozem de redução progressiva de pena, suas aposentadorias anuladas, suas rações reduzidas e seus bens confiscados...” – não terminou de falar. As palmas estridentes e os gritos de vivas ouviam-se nas galerias, nos mezaninos e até fora do prédio. Parecia que Kid tinha solucionado, com uma dúzia de palavras, os males de 500 anos de história de Doglândia. O Secretário, também convencido da panacéia de Kid, disparou a campainha, conclamando para que todos retornassem aos seus lugares, que iria formalizar a proposta:
-Cachorros amigos, o senhor Kid tem uma proposta interessante, acho que teve apoio da maioria absoluta. Quero apenas convidar os cachorros advogados para analisarem os aspectos jurídicos, em seguida, encaminharemos formalmente aos órgãos da República e aos Fóruns Internacionais... - os sábios juristas já se encaminhavam pra mesa, quando do fundo da sala se ouve uma voz de barítono:
-Senhores, um momento, eu gostaria de fazer algumas considerações se me for permitido... – era um fila brasileiro que pelo seu tamanho, ele tinha se acomodado nas poltronas do fundo por serem mais espaçosas. O Secretário concedeu-lhe a contragosto à palavra:

-Senhor, a proposta do nosso companheiro Kid já foi ovacionada e encaminhada à mesa para ser formalizada. Concedo-lhe à palavra se for uma questão de ordem, senão, que não haja solução de continuidade em nossa reunião!
-Senhor Secretário, sou um tabaréu do interior, não sei bem o que é “questão de ordem” e não me interessa saber. Só sei que estava aqui em meu canto lhes ouvindo e ruminando no meu pensamento o certo e o errado. Sei também, que uma democracia se caracteriza pela opinião de todos, inclusive, a opinião dos que não concordam. – o desconhecido se firmava...
-Não estamos aqui para cercear o direito de ninguém, mas o conflito não é bem vindo em matéria discutida e aprovada. – falou o Secretário.
-Concordo com o ilustre Secretário quando fala em matéria “discutida e aprovada”. O senhor Kid teve a sorte de sua proposta ser aprovada sem discussão como um axioma. Não sei se sua proposta resolveria os nossos problemas endêmicos. Não me agrada a onda de “denuncismos”, de delações, de dedos-duros, de falsos moralistas. Já vimos esse filme com os humanos, nada melhorou, nada solucionou... – foi interrompido:
-Seu nome, senhor? – perguntou o cachorro Kid. –Descartes, Senhor!
-Senhor Descartes, sua crítica a priori à nossa proposta, teria que ser embasada numa solução – argumentou Kid.
-Acho que não existe uma solução à vista, de imediato. Não se resolvem maus costumes, somente, com denúncias, delações, decretos e punições. É necessário que se crie uma cultura ética duradoura de pais para filhos. Denúncias vazias, poderes corrompidos, delações, impunidades e injustiças são os exemplos que os humanos estão nos oferecendo, ultimamente, sem soluções efetivas, sua proposta é semelhante. Pergunto-lhe e aos demais companheiros, é essa a solução que queremos?... – contra-argumentou. A maioria dos cachorros presentes, estava dividida. Um burburinho começou tomar corpo, foi necessário que o Secretário disparasse a campainha pedindo-lhes silêncio:
-Senhores, nós não podemos continuar o trabalho nesta balbúrdia. Silêncio!... Uma oradora está inscrita e quer falar. – as coisas foram se acomodando. Todos viram quando uma cachorra gatinha subiu no palco com um papel nas mãos com a intenção de dizer alguma coisa:

-Senhores e senhoras, eu me chamo Picles da família Poodle, uma das famílias mais elitizada de Doglândia. Eu concordo um pouco com o senhor Descartes, o “denuncismo” termina atingindo e enxovalhando inocentes. Neste país todo mundo tem o rabo preso, principalmente, os poderosos, por isto, escrevinhei uma proposta e gostaria de ler o resumo para os senhores. – e leu alto para que todos ouvissem-na, desde o cachorro da primeira fila até o último do mezanino ou da galeria, o sistema de som lhe ajudava:
-A minha proposta consiste em:
-Eleger 16 de agosto o dia do protesto, doravante. Nesse dia, faríamos manifestações em praças públicas, na mídia, com o auxílio de cachorros famosos como Floquinho, Rin Tin Tin, Scoby Doo, Snoopy, Bidu, Banzé, Ideiafix e outros artistas, divulgando e exaltando as boas ações da nossa raça;
-Os cachorros privados e de rua espalhariam pum, coco, xixi, pipi, nos tapetes, dos órgãos públicos e empresas privadas, nas ruas, nas praças no comércio nos bancos, nas indústrias, proporcionais às ações ruins praticadas no ano anterior, ou seja, quanto maior tivesse sido os escândalos, em dobro seria a sujeira;
-Deixarmos a critério dos órgãos policiais, da Justiça, do Ministério Público, a tarefa preventiva, investigativa e punitiva;
-Enfim, que as más ações não sejam as manchetes principais de qualquer mídia, que criemos na mídia uma consciência e uma cultura éticas.
-Tenho dito!- as aclamações foram duradouras e estridentes.
Pickles tinha surpreendido a cachorrada. Sua proposta não era uma caça às bruxas ou um ode à impunidade, mas um drama sem final trágico.
Não houve mais aparte nem réplica, nem tréplica, talvez, a cachorrada estivesse cansada. À saída, alguém falou com Spinoza:
-E aí cachorro filósofo?
-Se a razão não resolve, talvez, a merda e o xixi sejam a solução!
Assim terminou a assembléia e o grande encontro da cachorrada em Doglândia. Qualquer semelhança não é mera coincidência, é semelhança mesmo!...


Autor: Rilvan B. Santana
Gênero: Fábula Imagens de domínio público-GOOGLE




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