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Seu José

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/02/2008

Seu José
R. Santana

I


Era “seu José” pra lá e “Seu José” pra cá. Não se sabia na verdade quem era ele. Se tinha filhos, se era viúvo, divorciado, casado, se tinha parentes, de onde vinha e para aonde ia, se pensava deixar a cidade de Itabuna naquele ano de 1968 ou fixar residência. Fixar residência seria o caminho mais provável, pois ele estava na terra fazia uns três anos, no Suez Hotel, o melhor da cidade.
No hotel também pouco se sabia. Conhecia-o como um hóspede simpático, que pagava em dia sua hospedagem e sempre de bem com a vida. Era tratado pelos empregados como um pai. Ajudava um, socorria outro e nunca cobrava o benefício concedido, às vezes, dispensava os pequenos valores emprestados quando estava convicto de uma boa causa.
Seu José não era um estróina, um abestalhado, um perdulário qualquer, um louco que queima dinheiro à toa, sua ética de compromisso era rígida, se o incauto devedor usasse de má fé, ele bronqueava:
-Filho, dado é dado e emprestado é emprestado, dê-me o meu dinheiro!
No hotel as más línguas andaram falando coisas desairosas dele, levantaram suspeitas do seu lado sexual, porque ele tinha o costume de doar roupas e sapatos para jovens rapazes no Natal, mas essas aleivosias, essas futricas morreram no nascedouro, Seu José também doava às moças, vestuários e sapatos femininos. Essas suspeitas e esses cochichos só foram definitivamente elucidados muito tempo depois.
Em Seu José tudo era nebuloso, não se conhecia nada ou quase nada de sua vida pessoal assim como não se sabia sua idade. Algumas pessoas achavam que há muito tempo, ele tinha descambado os sessenta anos; outros lhe davam um pouco mais de cinqüenta e os mais sensatos lhe davam cinqüenta e nove anos ou sessenta anos cravados. Era um homem alto, de forte compleição, branco e avermelhado.
Suspeitava-se que tinha vindo de Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina ou nenhum dos dois estados. Ele não se abria e fechava a cara ou olvidava a iniciativa de qualquer bisbilhoteiro e se o curioso insistia, ele brincava:
-Filho, vai ver se eu estou lá na esquina!...
Mas afora a preservação de sua vida particular, um direito que lhe assistia, Seu José era prestativo, simpático, amigueiro e respeitador.
II

O Bar de Pedro tinha três sinucas, duas mesas de dominó e uma mesa de baralho. As sinucas eram mesas antigas, mas funcionais e bonitas, com seis caçapas e oito bolas de cores variadas, sendo que cada bola tem um valor em pontos. A bola vermelha vale um ponto, a bola verde vale cinco pontos até à bola preta que vale sete pontos. As bolas são eliminadas pela ordem da menor à bola maior. Se o jogador encaçapava a bola sete ou qualquer outra bola antes de eliminar todas as bolas menores, ela voltava à mesa da sinuca quantas vezes fossem necessárias até completar a operação do mata – mata e o jogador vitorioso é aquele que acumula o maior número de pontos.
Os moleques pilheriavam com o jogador adversário sertanejo que em sua terra de verde só tinha “o pano da sinuca e as penas do papagaio”. A mesa de sinuca ou de bilhar é forrada por um pano verde específico.
Embora o ambiente fosse de jogatina, o Bar de Pedro nunca tinha registrado uma briga fratricida, de quando em vez, havia alguns entreveros, esperneio de perdedores que eram contidos pelos mais sensatos e a coisa acabava ali.
No fundo do bar rolava diuturnamente um jogo de baralho, um jogo de azar, com freqüentadores viciados e acostumados apostar quantias significativas. Embora existisse certa ética, às vezes, ocorriam algumas falcatruas. Elementos desonestos, num passe de mágica, enxertavam à mesa, baralhos com as cartas marcadas.
Porém, era no jogo de sinuca que reunia uma roda maior de perus, de torcedores, de simpatizantes. O peru só não podia falar nada que prejudicasse o adversário, mas podia torcer e apostar no taco do jogador que acreditasse.
Certa feita chegou um indivíduo não se sabe de onde, todo desajeitado, dando uma de tabaréu, de João sem braço, fazendo-se de pixote, perdendo pequenas apostas, espirrando na bola toda vez que ia jogar, provocando alguns risos nos esfomeados assistentes.
Seu José foi o único que ficou de espreita, na sua, desconfiado, achando que o indivíduo estava blefando e blefando muito bem, pois estava passando para maioria tratar-se de um pixote, de um bronco, de um abestalhado.
Ele observou que à medida que as apostas iam subindo, o desajeitado forasteiro foi evoluindo no jogo e embolsando as apostas, deixando muita gente sem entender o que estava acontecendo. Seu José chamou Zé Magrinho, um dos empregados do bar, um rapaz franzino de uns 20 anos de idade com aparência de 17 e advertiu-lhe:
-Filho, esse sujeito está escondendo o jogo, vai limpar todo mundo não a mim, vou carregar dinheiro em seu taco!
- O senhor tem razão. Ele já limpou João de Anita que é um dos melhores tacos daqui e agora, ele está levando em banho-maria o Juvenal, perde uma e ganha três. – esclareceu-lhe Zé Magrinho.
O sujeito freqüentou somente três dias o Bar de Pedro, deixou muitos jogadores viciados sem o dinheiro da feira, principalmente, os mais afoitos e os melhores tacos.
Soube-se depois que o desajeitado chamava-se Carne Frita, um exímio e famoso jogador de sinuca que quando caiu a máscara e não encontrou mais adversário, começou demonstrar sua competência e sua habilidade. Dava ao temerário adversário cinco ou mais pontos de vantagem e o direito de iniciar o jogo primeiro. O pobre coitado só pegava no taco uma vez, Carne Frita lhe deixava de queixo caído, encaçapava da bola um à bola sete, em jogadas de efeitos mirabolantes. Um espetáculo!...
Hoje, lamenta-se que naquela época não havia filmadora portátil de registro de imagem em movimento ou celulares com as câmaras mais sofisticadas para terem registrado essas imagens.


III


O apressado come cru e o crime do jovem Fadul Kalid, turco de nascimento, em um bairro da classe média alta da capital paulista, parecia ter sido cozido em fogo lento porque lhe deram vários tiros de pistola automática além de arrancarem-lhe o pinto e os ovos e levara cinco anos para acontecer de acordo os antecedentes criminais da vítima.
O crime teria sido mais um se a vítima não fosse filho de uma família de um rico comerciante turco casado com uma brasileira e as suspeitas não recaíssem em um coronel do Exército, com uma enorme folha de serviço prestado em postos de fronteira na Amazônia.
O móvel do crime, o motivo da vingança se confirmada, teria sido um crime de estupro e morte da filha de coronel José Maria Figueiredo, perpetrado pelo então adolescente Fadul.
Faz-se jus registrar que o rapaz ficou dos 15 aos 18 anos de idade preso numa instituição pública de menores infratores.
Contava-se ainda que o jovem Fadul saiu da instituição prisional mais atirado e mais danado, um dom Juan sem escrúpulos que assediava tanto moças solteiras como mulheres casadas com a mesma desenvoltura e cinismo.
Enquanto isso, o inferno desabara na cabeça do coronel José Maria, seis meses depois do crime de sua filha, sua esposa morre num acidente de carro e os seus outros três filhos, dois homens e uma mulher, tiveram de deixá-lo. Os homens também eram jovens oficiais do Exército e foram transferidos para 8ª. e 12ª. Regiões Militares, a filha mulher foi morar e trabalhar na Alemanha com uma tia materna.
Sozinho, colocado na reserva, o coronel José Maria, confiou os seus bens a um administrador e mudou-se para o Nordeste em 1965.


IV

O Suez Hotel ficava numa das transversais da Avenida Cinqüentenário em Itabuna. Hoje, já não se tem notícia de sua existência, é provável que o prédio seja outro, porém naquela época, era o principal hotel da cidade, nele se hospedavam o governador e o seu séqüito quando pernoitavam na cidade.
No final de 1968, num dia qualquer do mês de dezembro, às 18:30 horas, chegou ao hotel um jovem com cara de mau e corpo de atleta, buscando hospedagem por três dias.
Não trazia muita bagagem: uma valise modelo 007 e uma pequena mala. Feito os procedimentos normais, suíte escolhida, recebeu a chave da suíte 206 e um funcionário cuidou de pegar sua mala e levá-lo até à porta.
Era rotina àquelas horas, Seu José descer de sua suíte que ficava no 1º. pavimento para prosear com o pessoal da portaria. Naquele dia, enquanto proseava com um dos funcionários, um sexto sentido o despertou para iminência de algum perigo com a chegada daquele desconhecido. Querendo sem querer, quando a conveniência surgiu, Seu José pediu ao funcionário, a ficha do estranho que ele acabara de preencher:
-Filho, final de ano, a freqüência do nosso hotel melhora... – começou.
-É Seu José, que Deus nos ajude que este Natal seja gordo com a chegada desses novos hóspedes. As roupas que o senhor me deu, estão guardadas, irei usá-las em Ano – o funcionário estava feliz.
-Ah filho, enquanto viver, eu farei isso. Foi uma promessa que fiz quando era adolescente. O meu pai tinha muitos filhos e ficamos muitos natais sem roupa nova! – justificou sua solidariedade.
-O senhor é o nosso Papai-Noel! – brincou.
-Filho, uma coisa mexeu em mim...
-Foi o quê?
-Acho que conheço esse hóspede, não me lembro de onde, posso ler sua ficha? – o rapaz apressou em entregar-lhe.
Seu José com cuidado, leu a ficha, lá estava: “Fadul Kalid, filho de... RG nº... nascido em... residente à rua... Higienópolis, São Paulo-SP”. Naturalmente, devolveu a ficha ao rapaz:
-Conhece-o? – perguntou-lhe o funcionário.
-Não! – fez que ia sair e voltou:
-Filho, hoje eu vou descansar essa carcaça mais cedo. Seria possível você arranjar-me três travesseiros? - solicitou.
-Seu José, o seu pedido é uma ordem!...

V

Àquela hora da noite, o Suez Hotel estava mergulhado no sono, todos dormiam, o pessoal da portaria cochilava... Fadul desceu a escada na ponta dos pés com um “Taurus” 38 acoplado de um silenciador com destino à suíte 108. Uma luz lusco-fosca iluminava o 1º pavimento contribuindo para qualquer ação malfazeja. Fadul abriu com calma a porta da suíte 108, fechando-a atrás de si, pisando em ovos, adentrou no quarto, disparando quase todo o revólver na cama, com um recado:
-Coronel José Maria, Fadul lhe espera no inferno! – num relance percebeu que caíra numa armadilha, tinha disparado quase todos os tiros num corpo de travesseiros e a esmo disparou o último tiro em direção à voz que lhe respondia:
-Filho, o inferno é o seu lugar e daquela peste que se chamava Fadul Kalid!... Com maestria, Seu José, ou melhor, o coronel José Maria Figueiredo, empunhando uma arma saiu de detrás duma parede, atirando no pistoleiro da família Kalid, no peito e na cabeça.


Autor: Rilvan Batista de Santana










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