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Orgulho gay

Postado por Rilvan Batista de Santana 05/03/2008

Orgulho Gay
R. Santana



1

Nos finais dos anos 80, o caboclo Júlio Barata, conhecido pelos seus amigos e inimigos por “Pezão”, bem aquinhoado financeiramente, comprou uma casa em um bairro de classe média alta em Itabuna, no interior da Bahia, principal cidade do Sul do estado.
Se o leitor exigente quiser detalhes desta história, quiser saber, por exemplo, se os protagonistas ainda estão vivos, se Julio Barata é Júlio Barata e se Pezão é Pezão, lhe responderei que todo ficcionista é um mentiroso por necessidade, ou melhor, ele trabalha com a verdade às avessas, meias verdades, pois não se pode expor a história de vida com as personagens vivas, por óbvios motivos e às personagens mortas, por respeito à memória daqueles que se foram.
Porém, para arrefecer a curiosidade do leitor, quero jurar por todos os santos homens e homens santos que Pezão faz pouco tempo que morreu de um infarto fulminante enquanto assistia os flashes de uma parada gay pela tevê, sua mulher morreu faz mais tempo e filho, filhas e netos estão vivinhos aí, e, tomara que nenhum deles, leia estas páginas, pois quem conta um conto aumenta um ponto.

2


Pezão não era má pessoa. Não era um intelectual, mas não era um ignorante do pé de serra, escondido no recôndito das matas. Embora tivesse nascido e crescido na roça, assim que comprou suas primeiras terras, instalou na casa da sede, do fogão a gás a uma geladeira e um rádio de pilha de ondas médias e curtas para ouvir a Rádio Nacional, coqueluche de uma época distante.
Com a chegada da energia elétrica, mais situado, com a burra cheia de dinheiro, ele encheu a casa de aparelho de tevê, parabólica, aparelho de som e, mais algumas novidades da vida contemporânea.
Porém, Pezão não abria mão de certos princípios herdados dos pais e dos avós. Trazia a mulher em corda curta e os filhos em corda mais curta ainda.
Descarregava os seus medos, as suas frustrações e as suas opiniões em cima de Zé Pequeno, seu preposto de confiança, que junto com o chefe, enfrentava qualquer dificuldade: um Sancho Pança quixotiano que escudava Pezão há mais de trinta anos:
-É uma safadeza de dar gosto, os homens já estão nascendo efeminados! – Zé Pequeno confirmava:
-Sinhô sim! – era o seu único vocabulário, se o patrão lhe dissesse: “Zé Pequeno, mate o João”, ele respondia: ” Sinhô sim!”, fiel mais do que um cachorro e traiçoeiro como uma serpente.
-Zé Pequeno, eles dizem que já nasceram efeminados, eu acho que é falta de couro no lombo!
-Sinhô sim!
-Quem já se viu? Usar seios postiços, plástica no bumbum, sutiã, calcinha, saia, corpete, salto à Luis XV e deitar com homem... Quem Já se viu?...
-Sinhô sim!
-Se Juninho virar bicha, eu mato-o!
-Sinhô sim... – Zé foi reticente, amava o filho do patrão.
-Saia é coisa de mulher e calça é coisa de homem! Já falei com Maria: se ela usar calça, ela sai daqui com uma quente e outra fervendo...
--Sinhô sim!...

3

Juninho e as irmãs deixaram a fazendo e foram morar e estudar em Itabuna. Juninho crescia em beleza e frescura, seu pai andava meio desconfiado:
-Será que vou pagar minha língua?– Pezão dialogava com o seu escudeiro:
-Sinhô sim!
-Você acha Zé pequeno?
-Sinhô... – já entendi, você quis dizer:
-Sinhô não, não é seu maluco?
-Sinhô sim!...


4

Como naquela época, a UESC não tinha curso de medicina, Juninho, aluno brilhante, e doido para ficar livre das rédeas de Pezão, convence todos em particular sua mãe, que sabia como conter a brabeza do marido, usando da fraqueza força, estudar em Salvador e com louvor é aprovado de primeira no vestibular da Ufba em medicina.
Esporadicamente vinha visitar os pais. Sua frescura tinha sido burilada, afora a fala um pouco feminina, os trejeitos tinham sido aperfeiçoados e se ele não se expusesse por muito tempo, ninguém diria que aquele homem de mais um metro e oitenta era uma bicha conhecida e disputada, no seu tempo, pelos homens que gostam dessa fruta nas noitadas e farras estudantis da cidade de Salvador. Não bebia nem fumava.
Sua mãe morria de amores pelo filho, os dois se entendiam pelo olhar. O amor do seu pai não era menor. O velho Julio escondia no peito o medo de descobrir que o filho não fosse macho e quando esses pensamentos lhe vinham à cabeça eram inconscientemente, rejeitados e repudiados.
Certa feita, Pezão, o seu fiel escudeiro e Juninho foram passear na fazenda. Juninho adolescente, respirando euforia por ter sido aprovado num vestibular de medicina, desleixou-se em esconder os seus trejeitos e acirrava mais a cisma do seu velho, que numa parada obrigatória do carro para o filho mijar, ele adverte ao Zé Pequeno:
-Se esse filho da puta, mijar de cócoras como uma mulher, eu arranco-lhe a cabeça com essa escopeta!... – manuseou a arma. Zé Pequeno sem entender muito bem, implorou:
-Sinhô... Sinhô... Sinhô não!... – Zé Pequeno com a destreza e a precisão de um felino tomou-lhe a arma e implorou-lhe com sua linguagem:
-Sinhô não, Sinhô não!...
Distante alguns metros do carro, Juninho não percebeu a luta entre a ignorância e o bom senso e como um macho de verdade, lavou o chão de urina ao invés de sujá-lo com sangue.
Alguns anos depois, Pezão via tevê quando em flashes de reportagem sobre o Orgulho Gay baiano, aparece Juninho travestido e empunhando a bandeira do movimento, defendendo mais liberdade, mais respeito e mais inclusão social. Enquanto isto, o seu pai aturdido confirmava aquilo que há muito tempo desconfiava e com a mão no peito balbuciava:
-Fi... lho... do peca...do, vergo...nha... da família, vea...do des...cara...do, ver...go...nha da huma...ni...dade!... – desabou e Zé pequeno acudiu—o:
--Sinhô... Sinhô... Sinhô não! – o moribundo com voz rouca, estertora, reprovou o seu fiel companheiro que emendou:
-Morte... Sinhô não!!!...
Zé Pequeno chorou, chorou...


Gênero: conto
Autor: Rilvan Batista de Santana









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