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Afrodite

Postado por Rilvan Batista de Santana 25/05/2008

Afrodite
R. Santana

“... Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-iá com ela, então o Senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”


Diz a tradição popular que quem conta um conto, aumenta um ponto... Porém, prometo ao leitor que ler este conto que procurarei ser um dos mais fiéis narradores dessa história. Não sei se ela já foi contada por alguém, se foi, espero que ele tenha sido fiel aos fatos. Não me incomodarei se seu estilo for mais rebuscado, mais inteligente, pois não sou um escritor mas um sofrível escrevedor.
Afrodite, bem nascida, bem educada, era a filha caçula de ricos empresários. Sua mãe descendia de uma família de abastados produtores de açúcar e álcool, dona de usinas e imensos canaviais no interior de Pernambuco. Seu pai, de uma família de políticos e empresários da construção civil paulista. Tinha ascendentes ingleses por parte de pai.
Afrodite, como uma deusa da mitologia grega, era linda. Uma morena alta, com formas e expressões faciais bem definidas como se a natureza tivesse esbanjado por capricho, seu estoque de beleza numa só pessoa. Sua beleza atraía e irritava...
Não era má. Era dócil, inteligente e solidária, sem ímpetos e ideais revolucionários. Nunca pensou em mudar o mundo mas viver para amá-lo. Gostava de viver o amor e o prazer sem ser fútil. Não perseguia o prazer e a beleza como fim último. Não era uma hedonista, não era uma radical, o prazer e a beleza eram conseqüências. Enfim, era uma pessoa normal, suas ações e reações eram circunstanciais.
Pela beleza, pelo viço e pela juventude, tinha sido perseguida por muitos mancebos da alta aristocracia paulista. Desde a adolescência, recebia propostas de namoro, de casamento e juras de amor eterno. Tinha a diplomacia no sangue, esgueirava-se dum e doutro sem deixar seqüelas.
Casou-se aos 25 anos com um jovem multimilionário e antes de completar seu trigésimo aniversário, teve três filhos, um homem e duas mulheres.
Seu marido era um engenheiro civil talentoso. Nunca foi empregado do governo. Não gostava da atividade política partidária. Cultivava algumas relações de amizade e comerciais com alguns políticos, por força de contratos que suas empresas tinham com o governo estadual e federal. Contribuía financeiramente, com todos candidatos a cargos eletivos, com potenciais condições eletivas não obstante o partido político dele ser da direita ou da esquerda.
O esposo de Afrodite, o empresário, Arnaldo Sá, deixou este mundo aos 42 anos de vida, vítima de um brutal acidente de automóvel, pela imperícia de um carreteiro, numa ultrapassagem irresponsável, o abateu na contramão.
Na época do desenlace, da tragédia, Afrodite estava à beira dos 40 anos de idade, era mais nova do que o marido uns dois anos. Ficou viúva ainda moça e rica. Nunca tinha enfrentado uma tragédia, o mundo tinha desabado em sua cabeça com a morte do marido. Seu casamento tinha sido por amor, embora sua família fosse menos rica do que a do esposo, era rica e tradicional. Arnaldo tinha sido o seu primeiro macho, os outros tinham sido namorados, pequenos affair e namoricos.
A perda do marido tinha transtornado e transformado a vida de Afrodite. Não que a tivesse se transformada numa mulher dissoluta, namoradeira impudica, desregrada, mas tinha saído da rotina do lar e do trabalho e passado a curtir noitadas de festas e bebedeiras.

Naquela manhã de setembro de 1993, ela tinha acordado de ressaca, mal humorada, indisposta e cansada. Não tinha nascido para libertinagem e licenciosidade. A maioria de suas colegas estavam afeitas àquela vida desregrada e achavam-na prazerosa. Ela não as censurava e não as condenava, tinha aprendido desde cedo “...não julguem e vocês não serão julgados...”, então, “...quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra...” , certamente, um dia, todos serão julgados pelo Criador do Universo.
Ao passar em frente ao espelho, levou um susto: sua mocidade e sua beleza escorriam na calha do tempo!... O tempo era mau, impiedoso, inexorável, infinito e jamais volta. Segue transformando, fazendo e refazendo. Alimenta sonhos, esperanças, constrói vitórias e testemunha derrotas. O tempo é a espada de Deus...

-Espelho, espelho meu... ah, ah, ah!... Tu pensas que irei repetir a pergunta daquela madrasta malvada da Branca de Neve dos irmãos Grimm? Estás enganado. Sei que não sou mais bonita como dantes!
-Oh!... Tu ainda és moça e bela. O quê diriam as feias e as velhas? – perguntou o espelho.
-Espelho tu és insensível e cruel em teu juízo. Não vedes que eu sou uma cópia embotada do passado. As feias nasceram feias, assim devem continuar e as velhas foram vítimas do tempo, Deus deveria lhes ter dado a graça de morrerem jovens e... – foi abruptamente interrompida pelo espelho.
-Senhora, estás blasfemando! Deus é eterno, não é imediato. Ele tem um plano para cada um de nós. A matéria é movimento e envelhece, a alma não!...
-Tu, espelho, não vedes que o homem foi mais generoso contigo que Deus comigo. Tu fostes trabalhado, lapidado e colocado numa linda moldura de mogno. Daqui uma centena de anos, tu poderás refletir a beleza das damas que passarem por aqui, com a mesma singeleza deste momento. Enquanto eu serei pó e à terra voltarei.
-Tu, madame, estás embebida de sentimentos e coisas efêmeras. A beleza e o prazer são efêmeros. Fui lapidado e trabalhado pelo homem, porém, ele poderá me destruir e tirar o meu brilho. O homem é mau e egoísta. Todavia, eu e tu jamais seremos destruídos em nossa essência. O ser é transcendental e eterno – concluiu o espelho.
-Espelho não me venhas com este pensamento aristotélico. Fazes um retrospecto da história e vedes que todos pintores e escultores perseguiram a perfeição em suas obras.
-Senhora, o homem ainda busca o prazer e a beleza como dantes. Acredito que, hoje, ainda mais, existem novos recursos científicos. Os pitanguys, as academias de ginástica e beleza e as enésimas fórmulas de cremes e ungüentos naturais não me deixam mentir – justificou o espelho.
-Tu és um ingênuo. O tempo é inflexível, já vistes que coisa horrível são as mulheres que querem se manter novas? O bisturi tira as rugas, muda as formas, suspende e siliconiza os peitos mas, ele não lhes devolvem o viço, o mimo e o frescor da juventude e não lhes cicatrizam as dores e angústias da alma, continuam velhas... ridículas!...
-Concordo contigo, sou testemunha do queixume delas. Quantas já passaram por aqui tristes e revoltadas? Muitas. Se todas entendessem que sua essência é a mesma, o mundo seria menos lamurioso.
-Espelho, depois nos veremos, bom dia!
-Bom dia, senhora!...


Afrodite passou usar os outros espelhos da casa. Quem iria acreditar nela que aquele espelho falava? Ninguém. Porém, dois depois, rompeu o trato consigo mesmo e resolveu confirmar se aquilo não teria sido produto de sua imaginação, voltou auscutá-lo e nada melhor do que provocar-lhe:

-Não irei mais passar defronte de ti!... Há dois dias que não te procuro e quando volto, vejo um fio de cabelo caindo na minha fronte. Parece-me que gostas de expor os meus defeitos...
-Senhora, não estou enxergando nenhum fio de cabelo branco. Aliás, tua cabeleireira é cuidadosa e profissional. Uma boa pintura resolve o problema.
-Espelho, tu vês aquele retrato?
-Vejo. Não faço outra coisa... ele fica defronte a mim. Vejo que tu eras bem jovem, deverias ter uns 20 anos de idade...

-Enganas-te. Ele foi tirado no dia que completei 25 anos – esclareceu Afrodite.
-Senhora, não diminuir a idade para te agradar. A pessoa tem a idade que aparenta. Naquele retrato, tu aparentas 20 anos ou menos, por isto, prefiro ficar com esta idade.
-Espelho, aquele retrato tem quase duas décadas... já começa desbotar... ele começa dar sinais de envelhecimento... e, tu me dizes que aparento ainda mais nova?...
-Senhora, percebi que a pintura começa desbotar mas o brilho dos olhos, as feições e a aura que existe nele permanecem como no primeiro dia. Eu o estou vendo com os olhos do coração e não com os olhos da crítica!...
-Espelho, em que fonte fostes buscar tanto romantismo? Ainda não percebestes que tudo envelhece e se transforma e me dizes que o brilho, as feições e a aura refletidas naquele pedaço de papel, são os mesmos de quase 20 anos atrás?...
-Senhora, não polemizemos! Talvez tu não alcançastes o meu pensamento ou talvez eu tenha exagerado nas minhas digressões... – desculpou-se o Espelho.
-Ah!!!..
-Pensastes o quê? – perguntou o Espelho.
-Tu és abelhudo! Queres conhecer os meus íntimos desejos?...
-Não!!... Fui criado para refletir o que está fora do ser, dentro dele é uma caixinha de segredo, só o eterno Criador tem esse poder – desabafou o Espelho.
-Espelho, percebo que és arrogante! Não entendes que posso te destruir? Não me leves à loucura!...
-Dorian Gray assassinou o pintor Basil Hallward e esfaqueou o seu retrato numa relação de sadismo, porém, não conseguiu destruir a beleza do quadro, morreu desfigurado e irreconhecível... – disse o Espelho.
-Estás me ameaçando? – perguntou Afrodite.
-Não!... Quero dizer-te que quando me destruíres, os estilhaços de cristais desprendidos de mim, te deixarás desfigurada e não poderei depois refletir tua bela imagem se eu for restaurado.
-Espelho, tu és esperto, tens justificativa pra tudo. Dizes-me então como farei para continuar jovem e bonita?
-Não existe um elixir da juventude. A beleza é um estado de espírito. O belo absoluto não existe é um componente estético e subjetivo duma obra, enquanto isto, a natureza é bela e eterna mesmo velha. Tu nunca conhecestes idosos de uma beleza genuína, plácida?
-Espelho, se eu morresse agora, aqui (apontou a cama), tu serás capaz de registrar, somente, esse estado de espírito que referistes?
-Senhora, como poderei fazê-lo se tu gozas de uma saúde de anjo? Pensas em suicidar-se?...
-Não tenho coragem. Penso em abandonar a vida. Deitar-me naquela cama, saudável e bonita e deixar-me morrer pouco e pouco, sem comer e beber até o último suspiro!
-Senhora, tu levarias muito tempo para morrer, enquanto tu ias definhando, perdendo o viço e o mimo, nos últimos dias, estarias velha e feia!...
-Para que serve os amigos? Tu registrarias o meu melhor momento, a minha melhor imagem. Os meus filhos te colocariam em um quadro de bronze, tu serás a lápide do meu mausoléu!
-Senhora, não possuo livre arbítrio, o poder de escolher a melhor imagem, a última imagem é a que fica. Acho que estarás feia e velha ao partir – o Espelho tentou persuadir-lhe da idéia do suicídio passivo.
-Então, combinemos uma morte súbita. Prometes guardar a minha bela imagem? – insistiu Afrodite.
-Senhora, sabes que não posso escolher. Porém, concedes-me o privilégio de guardar tua bela imagem, agora, para isto, quero tua promessa de não me vedes mais. Quando fores para vida eterna, te refletirei para sempre, não precisas abreviar tua morte!...
-Espelho, farei o teu pedido. Confio em ti. Não sei quanto tempo viverei e não mais te verei. Quando eu morrer, mesmo velhinha e enrugada, providenciarei para que os meus filhos te coloquem e te protejam em meu mausoléu, refletindo-me...

Não foi necessário Afrodite ficar velha e feia. Um ano depois foi sucumbida pela mesma tragédia do marido. No retorno do Rio para São Paulo, pela rodovia presidente Dutra, foi dilaceradamente morta por uma vil carreta.
Os seus filhos e parentes, cumpriram o seu último desejo: fixaram na principal parede de mármore do seu mausoléu um lindo espelho que reflete de forma tridimensional sua linda imagem. Todos acham que é uma obra encomendada de um pintor italiano – ela e o espelho sabem que não...
Alguém já tentou roubar o quadro mas foi surpreendido por uma voz de mulher que fala:
-Deixe-o aí!!!...

Autor: Rilvan Baatista de Santana

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