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Crônica da melhor idade

Postado por Rilvan Batista de Santana 16/04/2009


Crônica da melhor idade
R. Santana

A vida é uma mer... merreca!... O homem nasce, cresce e morre. É uma lei irrevogável do Criador. O meu tio Pedro do alto de sua sabedoria de vida diz: “quem novo não morre velho não escapa”. Se o dinheiro pudesse comprar ou adiar a morte, São Pedro estaria com os bancos abarrotados nos céus. Porém o Criador nivelou todo mundo. A partir do nascimento, o indivíduo entra na fila da eternidade. Uns no início, outros no meio e outros no finalzinho... Com o Criador não tem essa de furar fila e, é a única fila que ninguém quer furar. Pelo contrário, alguém cede de bom alvitre:
- Se quiserdes pode ir. Eu não tenho pressa...
- Não! Vades primeiro, se lá for bom vens me dizer! - Ninguém tem pressa. Até Cristo no seu momento humano disse: “Pai, afastas de mim este cálice!...”
O homem é o único animal que tem consciência da morte, da velhice, do final. Os outros animais não têm consciência, eles possuem o inato instinto de sobrevivência diante da iminência de um perigo.
Nora Ney cantou bem os versos do poeta que traduzem esse drama do ser humano: “...velhice chegando e eu chegando ao fim”. A velhice é o prenúncio da morte. A energia que dá ânimo à vida começa fluir como o som de um violão flui por suas cordas...
Entretanto, não diria que: “o salário do pecado é a morte”. Diria que o salário do pecado é a velhice. Acho que o Criador deixou a velhice para o homem como sinal de sua limitação, de sua pequenez e para que ele tome consciência que biologicamente obedece a um ciclo da natureza tanto quanto obedece um dos mais insignificantes seres vivos da natureza.
Graças ao Criador quem pela fé consegue sublimar esses conflitos da velhice e morte, fazendo de sua existência um repositório de promessas e esperanças, é feliz.
Não faz sentido se aprofundar nos mistérios da vida num diminuto texto, que sigamos o bom senso dos mais vividos: religião, política e mulher não se escolhem se abraça, pois nenhuma responde às nossas aspirações e às nossas perguntas. O homem tem qualidades e defeitos por mais que o sublimemos...
Mas deixando de lado essa filosofia de botequim, passemos falar da velhice e da morte de maneira mais suave e aprazível já que são estados irreversíveis da natureza.
Comecei dizendo que essa vida é uma merreca para não dizer outra palavra mais cacófona e nojenta. A vida velha, a idade velha, passou chamar melhor idade, mais light para designar sua decrepitude. Agora, como irei chamar de melhor idade? Idade da discriminação, da dor e do sofrimento? Poder-se-ia dizer que é a idade do “junta”. Junta tudo! Junta reumatismo, junta pressão alta, junta diabetes, juntam cardiopatias, juntam doenças respiratórias, junta mal de Parkinson, juntam doenças genitais... seria melhor idade se o homem com a experiência de 50 anos tivesse a vitalidade de 20 anos.
Quer deixar uma pessoa idosa fula da vida, pergunte-lhe a idade. Se for bem conservada, irá responder-lhe que tem a idade que aparenta, se for decrépita, irá responder-lhe que é falta de educação perguntar a idade do alguém. Quanto mais velha, maior o sentimento ferido. Não pela idade em si, mas, pela consciência do ocaso...
Lembro-me que numa roda de colegas, a professora H. quis tergiversar quando lhe perguntaram sua idade. Um colega moleque, brincalhão, espirituoso, notando seu embaraço, respondeu:
- H. é mais velha do que o rascunho da Bíblia!
- G., estou feia assim, mas já fui uma uva!
- Eh! H., eu já vi muita coisa neste mundo de meu Deus. Já vi lagarta virá borboleta, cactos dá flor mas uva virá abacaxi... Esta é demais H., vai com tuas mentiras pra lá!...
O pai do saudoso vereador Eduardo Fonseca, fundador do bairro que tem o seu nome, tinha ojeriza ser chamado de velho. Certo dia, apareceu um cigano em sua bodega e como não sabia seu nome, chamou-lhe pelo epíteto dos cabelos encanecidos: - velho quanto é um quilo daquela jabá? - Foi o bastante: - velho é molambo que se joga no lixo, me chamo Antônio Fonseca! – Cigano é uma raça que não leva desaforo pra casa, incontinenti: - não quer ser velho gajão?... Então, entra na forja!... – Foi-se embora sem a jabá.
Um conhecido de mesa de bar, depois de algumas caipirinhas e uns copos de cerveja, filosofava: - meu caro, toda essa teoria de melhor idade é balela, é conversa bonita para alimentar o ego dessa gente. Quer uma receita da melhor idade? A melhor idade é aquela que um desconhecido não lhe chama de “coroa”,”tio” ou “vô” e não precisa de acompanhante para pegar os trocados do banco no final do mês e viagra é produto publicitário!...


Autor:Rilvan Batista de Santana
Gênero: Crônica










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