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Mea Culpa

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/04/2009


M e a C u l p a
R. Santana




Estamos num período de campanha política e no próximo mês de outubro teremos o seu desfecho. É uma fase da vida pública que muitos cidadãos fazem questão de ignorar. O horário político, geralmente, é fechado pelo controle-remoto dos aparelhos de televisão ou o dial do rádio é desligado. Na mídia escrita, o descaso com a página política ainda é mais agressivo - o cidadão utiliza a página política para embrulho. A política para esses, é uma atividade que lhes provocam uma inexplicável ojeriza, eles fazem a política da omissão, a política da avestruz...
Pelo fato do espaço na mídia escrita e falada ter um custo elevado para maioria dos candidatos e para não deixar que o poder econômico prevalecesse sobre os menos aquinhoados, o horário político foi o instrumento democrático que a Justiça Eleitoral encontrou para dar igualdade de condições a todos os partidos políticos e candidatos, concomitante, levar informação para o eleitorado. Entretanto, a quantidade de partidos políticos e candidatos, cresceu tanto que na mídia falada, às vezes, só aparece a foto e o número de cada candidato sem direito deles externarem suas idéias políticas e administrativas. Há o caso emblemático do candidato a presidente da República Enéas que dispunha de 5 segundos do seu partido PRONA, para apenas falar: “o meu nome é Enéas!”, pela sua criatividade e pela sua figura pitoresca, obteve mais de 5 milhões de votos, deixando para trás o ilustre caudilho político Leonel Brizola. Político tradicional, conhecido naquela época em todo país pela sua audácia e pelo seu tino administrativo, além de ter sido o fundador do PDT.
Para Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, precursor de várias ciências, “o homem é um animal político”, isto é, o homem é um ser social incapaz de viver e produzir isoladamente. O homem de Robson Crosué, isolado de tudo e de todos é uma ficção literária. O homem só se completa (físico-psíquico), quando ele é capaz de influenciar e ser influenciado no seu meio social, interagindo no dia-a-dia, participando das decisões do seu grupo, desenvolvendo sua linguagem, seu pensamento, ou seja, se o homem não se integra sócio-politicamente, ele torna-se um animal, a exemplo das meninas-lobo, Amala e Kamala, que quando reintegradas aos cuidados sociais não sobreviveram muito tempo.
Nossa intenção nesse texto é fundamentar que precisamos participar das decisões políticas e sociais do nosso município, do nosso clube de futebol, do estado, do pais ... Sem a nossa participação nessas decisões que, às vezes, atingem milhões de pessoas, não haverá perspectiva de melhora nem nessa geração nem naquelas que virão. As decisões políticas conscientes de um povo, não darão lugar aos desumanos sanguessugas, aos valeriodutos, aos dólares na cueca e às corrupções praticadas em estatais e no aparelho de estado. Precisamos de homens de bem e não de homens de bens. A história registra que saindo do teatro, José Bonifácio, o Patriarca da Independência, foi roubado em todo o seu salário daquele mês, que se encontrava dentro da aba interna do chapéu. Seus amigos intercederam e pediram ao imperador D. Pedro I, para que seu ministro da Fazenda, Antônio Carlos de Andrade, irmão de José Bonifácio, lhe concedesse um adiantamento. A resposta do ministro foi rápida: “... que S. Majestade se dignasse mandar retirar o pedido para não incorrer num ato de sinecura e mau exemplo – acrescentando – que todos servidores do estado brasileiro só tinham direito a doze (não havia décimo terceiro), salários por ano e que o Sr. José Bonifácio tivesse mais cuidado com suas economias. E, completava: que ele e mais outro irmão iriam dividir os seus salários em socorro do seu irmão José Bonifácio, esse sacrifício seria melhor do que espoliar os recursos do erário público...”.
Devemos exigir dos atuais candidatos a cargos executivos, compromissos com educação, saúde, moradia, transporte, segurança, reforma previdenciária, reforma tributária, políticas públicas de proteção à natureza e dos nossos legisladores, leis que dêem um embasamento jurídico de prevenção e punição às mazelas sociais e corrigir as injustiças do estado. Que tenhamos um estado enxuto, não deficitário, uma distribuição de renda equilibrada e uma maior perspectiva de vida saudável da sua população.
Por isso, é necessário que não desliguemos o nosso aparelho de tv e o nosso radinho de pilha no horário-político, que não exerçamos o sagrado direito do voto somente para cumprir a Legislação Eleitoral, mas que o exerçamos com consciência, analisando a vida pregressa de todos os candidatos e sua competência. Nada de populismo, de engodo, de idéias radicais e mirabolantes, de discurso messiânico. Devemos ouvir dos candidatos propostas reais, condizentes com a prática do mundo globalizado (não existe espaço para arrogância política insustentável, veja o caso de Evo Morales. O presidente Chaves ainda arrota suas bravatas porque está em cima duma das maiores reservas petrolíferas do mundo), não adianta, no mundo atual, os gritos de guerra: “fora FMI!!!” ou “abaixo os yanques!!!”, então, “calote à divida externa!!!”. Tudo isto é de uma época mais romântica, estratégia de chegar ao poder, porém, na prática a linguagem diplomática e as ações políticas-administrativas de governo são diferentes pelo peso das circunstâncias e dos contratos. Em pouco tempo, qualquer nação sitiada econômica-politicamente não se sustenta, exemplo histórico recente é Cuba que seu povo tem amargado e sofrido décadas de miséria e de pobreza pelo autoritarismo de um grupo comunista leninista que detém o poder político há meio século.
Hoje, eu afirmo sem rodeios, sem pruridos intelectuais, sem receio de ser achincalhado que não me lembro dos candidatos que votei para o legislativo e executivo há quatro anos e o pior, quais os critérios que usei para que eles me representassem, isto é, dei-lhes uma procuração em branco, com todos os poderes, mesmo para os mais desonestos. Por isto, volto afirmar e confessar que tudo está acontecendo em Brasília é minha culpa e de outros milhões de desavisados eleitores. Portanto, ouçamos e vejamos o horário-político e exerçamos o maior legado democrático que os gregos nos deixaram: o voto. Não, o “voto nulo” ou o “voto em branco” só para cumprir exigências da Justiça Eleitoral, mas o voto consciente, o voto de mudança e transformações sociais. Que tomemos como exemplo o beija-flor, que tentava apagar sozinho, um incêndio em uma grande floresta e quando alguém achou o seu trabalho inútil, ele respondeu: “estou fazendo a minha parte”. Que cada um faça sua parte, para que nos próximos quatro anos não confessemos: “Mea Culpa!!!”.


Autor: Rilvan Batista de Santana

Gênero: Crônica



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