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O Juiz

Postado por Rilvan Batista de Santana 01/04/2009

Rilvan Batista de Santana



















O Juiz



Ano 2007







O Juiz
R. Santana



Não existe data. Para quem gosta de data e tem obsessão por numerologia, diria que foi há umas quatro décadas atrás no Século XX, que chegou ao mundo o filho bastardo de Moisés Chacon e de sua amante Maria Mirtes dos Santos, conhecida na roda de amigos da madrugada pelo codinome de Ruiva.
Chacon embora tivesse uma mulher jovem e bonita, exercia culturalmente seu machismo. Com o tempo sua esposa já absorvia resignada aos comentários desairosos das aventuras amorosas do marido.
Ruiva era uma baita morena jambo, alta, corpo curvilíneo, cabelos ruivos lisos, bumbum empinado e seios fartos. Quando arrumada (uma regra e não uma exceção), deixava a moçada e os velhos alvoroçados quando passava, além dos dichotes menos polidos, ouvia propostas e gracejos: “morena gostosa”, “dou-lhe casa e comida, roupa lavada e carro na garagem”, “isso é que é mulher não é aquela bruxa que tenho”. Graciosa e faceira, ela ia levando a vida na troça...
O menino, loiro e parrudo, era admirado como um animalzinho em extinção pelos curiosos da casa da família Chacon. Deveria ter entre dois anos e meio a três anos de idade. Todos queriam apalpá-lo, colocá-lo no colo, beijá-lo. Somente a Senhora Chacon tentava num esforço desmedido conter o choro, é que o seu marido tinha trazido pra sua casa o seu filho bastardo para morar.
A Senhora Chacon era uma mulher educada, de uma dignidade inata que tinha passado boa parte de sua vida ensinando e trabalhando no comércio de sua cidade natal de Cristinópolis. Era uma mulher de hábitos interioranos. Tinha uma beleza ingênua e despretensiosa, sua única e principal atividade era o cuidado do marido, dos filhos e da casa. Vivia reclusa e sem vida social por opção. Adotou do marido o nome Chacon. Hoje, assinava Maria Chacon Silva. Não esperava do marido tanta falta de escrúpulo e grossura, levando para sua casa um filho da amante pra criá-lo.
Tinha discutido com o marido, ameaçou ir embora, deixando com ele os demais filhos do casal, que não era possível tamanha afronta moral e justificou:
- Acho que chegamos ao fim. Estou sendo motivo de dichotes e comentários maledicentes dos nossos vizinhos. Você não me respeita e não respeita os nossos filhos! - Ele não choramingou, não lhe pediu desculpa, não lhe pediu que ficasse ou que fosse, não era do seu feitio. Apenas, deixou-lhe claro as medidas que tomaria com sua saída, era homem de luta e da labuta, teria que levantar às escuras, o dia despontando, para ganhar o sustento dela e dos filhos, homem não era nenhum maricas para ficar cuidando de casa e de filhos, desabafou:
- Mulher, os mais velhos costumam dizer que formiga quando quer se perder cria asas. Não vou lhe pedir para ficar ou ir embora. Não vou lhe manter a pulso aqui. Tive que trazer o menino, ele é meu filho (retrato do pai), disto não tenho dúvida. Ademais que culpa tem o menino? Ele foi tirado à força da mãe. Garanto-lhe que neste momento, ela está lá se derramando em prantos!...
Não sei se houve tréplica, sei que os ânimos foram contidos e um mês depois o mais novo membro da família Chacon estava integrado e cercado de afetos e cuidados até da Senhora Chacon, a princípio, por desencargo de consciência, depois para suprir instintos maternais adormecidos já que o seu filho mais novo estava adolescente.
Chaconzinho, no início da mudança, estranhou demasiadamente os novos irmãos e agregados, com exceção do pai, ali tudo era diferente. Atitudes instintivas fizeram-no repelir, inicialmente, cada abraço ou cada beijo, parecia um bichinho do mato acuado e sem saída. Irritado, chorava a maior parte do tempo. Porém na casa do sem jeito, pouco e pouco, foi adaptando-se naquela casa. A ausência maternal, naturalmente foi substituída pela Senhora Chacon. As brincadeiras dos irmãos e os afagos de todos completaram o resto.
Desde cedo, Chaconzinho apresentava uma aptidão natural para os estudos, aprendeu os rudimentos da leitura e da escrita dentro de casa antes da idade escolar. Na escola o seu desempenho era superior aos demais meninos de sua idade. Para equacionar o problema, tiveram que transferi-lo para classes mais adiantadas, mesmo assim, era maior o seu rendimento de aprendizagem, tinha uma mente brilhante...



Baixa do Sapo era o nome do lugar, da cidade X, estado da Bahia. Baixa do Sapo era uma mistura de bairro, periferia e distrito. Não passava de um aglomerado de casas miseráveis. Algumas casas de taipas, outras casas de tijolos e alvenaria em quantidade menor, essas casas eram o requinte do lugar.
Esse nome era o apodo e a zombaria que os moradores encontraram para designar o lugar, pois havia nessa área invadida de uma fazenda desapropriada pelo município da cidade X, tinham muitos terrenos brejosos e como orquestra natural de fundo: o coaxar dos sapos noite adentro.
Sua topografia plana contribuía para as construções populares, arquitetura de concepção prática. Sua gente procurou construir os casebres dentro de um alinhamento empírico, “a olho nu”, sem auxílio de aparelhos topográficos, dando origem a uma praça no meio e quatro ruas perpendiculares em forma de cruz. Era um exagero dos moradores chamarem caminho de rua, todavia, não era exagero dizer que eles tinham formatado o início de um novo bairro.
Rua das Andorinhas era o nome que se dava à rua das prostitutas. Uma rua animada, que a partir das 20 horas, começava discretamente um movimento de entre e sai de homens e mulheres. Era exceção a casa que à noite, no seu interior, não rolava um clima de boate com um som às alturas de músicas bregas. Às vezes, os praças destacados ali, tinham que interceder para disciplinar os excessos.
D. Ruiva era a caftina mais popular dali. Sua casa era a mais freqüentada, pois ela tinha cuidado e experiência na contratação de ninfetas. Zelava “suas meninas” com zelo de mãe e exigência de dona de bordel. Não admitia que elas bebessem em excesso ou fizessem algum escândalo que extrapolasse os limites das quatro paredes. Tinham que discutir o preço de sua atividade com o seu cliente antes de ir para cama. Mulher enrabichada, de xodó. não contava tempo em sua casa. Sua máxima era: - Somos profissionais do sexo e não do amor! – E, esta fórmula funcionava...
A caftina tinha aparecido naquelas pirambeiras com dinheiro, pois logo montou casa e comércio. Ela nunca dizia sua idade, sempre que questionada: - Tenho a idade que aparento – respondia - Os amigos lhe davam 40 anos de idade, os desafetos lhe atribuíam 50 anos. Mas tirando a média daqueles que gostavam dela mais àquelas pessoas que não a tinham na conta do bem-querer, ela não passava dos 45 anos. Era uma mulher que ainda trazia muitos traços da juventude. Não obstante ter adquirido uma gordurinha da idade, seu corpo ainda teimava em perder suas curvas e os seus seios que acalentaram seis filhos, tinham uma plástica de fazer inveja a muitas meninas moças.
D. Ruiva tinha vários pretendentes, uns bem mais novos do que ela e outros da mesma idade ou um pouco mais velhos. Diplomata da escola da vida nunca se comprometia ou lhes alimentava alguma esperança, ia deslizando pelas veredas das oportunidades sem rastros de mágoas ou querelas. Ela aprendeu ao longo do tempo agradar gregos e troianos. No frigir dos ovos, ela tinha o afeto e o carinho de todos sem o compromisso de amá-los.
Não negava os seus serviços de prostituta. Se aparecia um cliente maduro que a preferia às meninas, ela procurava atendê-lo com o mais refinado profissionalismo. Ultimamente, os seus serviços pessoais eram raros, pouco e pouco, ia firmando sua marca de dona de prostíbulo e não de velha meretriz. Ia delegando as funções administrativas para as mais aptas, as mais confiáveis, recolhendo-se aos seus aposentos mais cedo. A vida tinha-lhe deixado marcas e dissabores que começavam deixá-la mais fria, calculista e consciente. Quando a comunidade promovia festas ou em feriados oficiais, que a clientela aumentava a freqüência, é que a presença de D. Ruiva era obrigatória.
Dia de domingo, mês de novembro do ano de 1996, tinha tudo para ser um primeiro dia da semana inesquecível. As meninas estavam acompanhadas. Elas bebiam, conversavam, brincavam, rodopiavam e dançavam no salão ao som de músicas populares, bregas, sozinhas, juntas ou com seus parceiros. O movimento na casa era intenso e dois moleques travestidos de garçom se revezavam de mesa em mesa. A caftina tinha todo motivo para está ali conversando com um e outro, fazendo as honras da casa.
Passava da meia noite, a maioria da clientela já tinha ido embora, outros tinham se recolhido com suas meninas e poucos continuavam na sala bebericando e jogando conversa fora, quando de repente, ouviram gritos estridentes de socorro no fundo da casa. Eram gritos lancinantes misturados com prantos. Como se obedecessem uma ordem de comando, todos partiram como num estouro duma boiada para socorro da vítima.
No penúltimo quarto do bordel, contíguo ao quarto da proprietária, eles encontraram Kátia, uma novata prostituta, apanhando covardemente de um cliente embriagado, por ela ter negado-o praticar sodomia. Antes mesmo que alguém pudesse acudir à prostituta, impedindo-a das bofetadas daquele malfeitor, ele, com reflexo de gato, a enlaça pelo pescoço e saca uma peixeira desafiando os demais:
- Vocês querem o quê?... Seus filhos da... em briga de marido e mulher... vão tomar no ... seus sacanas!...
- Deixe a mulher seu covarde – gritou alguém – venha me esbofetear!...
- Não perde por esperar seu defensor de puta. Acho que você está ofendido assim por causa de sua mãe. Primeiro quero dar uma lição nesta cachorra para aprender respeitar homem! – Não se sabe como, mas a jovem prostituta, aproveita-se da discussão, da troca de impropérios entre agressor e defensor, em fração de segundo, desenlaçou-se do seu agressor correndo nua porta fora. O agressor livre de sua presa, partiu como um desvairado para cima daquele que o tinha provocado. Com a agilidade de um animal felino o defensor se esquivou de um fatal golpe de faca que vinha em sua direção e, instintivamente, procurou abrigar-se atrás de uma parede que ao invés de lhe proteger da sanha do agressor, deixou-o acuado e sem movimento.
Na iminência do defensor sofrer um ferimento mortal, alguém o salvou;
- Deixe o rapaz, negro safado! – antes mesmo que o agressor se virasse para identificar de onde e de quem partira o insulto, recebeu na nuca uma forte cadeirada caindo por cima da faca.
Todos olharam-na abismados e admirados, principalmente, o rapaz que estava acuado e indefeso (D. Ruiva tinha-lhe salvo a vida), quando alguém falou alto:
- Ele está morto, D. Ruiva!... – Foi uma correria em cima do moribundo, todos queriam olhá-lo ao mesmo tempo. Viram que o elemento tinha caído em cima da faca trespassando-o. A caftina ainda em pé chorava e tremia de maneira compulsiva. Foi amparada e tirada dali imediatamente. O tumulto chamou à atenção da vizinhança e a polícia foi avisada.
No dia seguinte ao trágico acontecimento, os fatos começaram ser esclarecidos: a vítima fatal era um açougueiro recém-chegado ao lugarejo, por nome de Firmino Rocha, vulgo nego Firmo. Tinha um passado de desordens e arruaças. Por outro lado, os amigos e a família justificavam que sóbrio, sem bebida, nego Firmo era um exemplar chefe de família (pai de três filhos menores), um amigo solidário e leal, além disso era o protegido do Dr. Bento Fontoura de Amaral, maior pecuarista daquela região.
Não obstante, D. Ruiva gozar da amizade da maioria dos homens e também de moças e mulheres de Baixa do Sapo, ela foi presa em flagrante, conduzida à cidade X, num camburão da polícia militar e entregue ao delegado de plantão. Sua casa foi fechada por duas semanas, reaberta logo depois e entregue a uma preposta de confiança.






Dois anos depois. O salão do fórum Ruy Barbosa da cidade X estava repleto. As meretrizes conhecidas e não conhecidas de D. Ruiva estavam presentes. Jus se faz dizer que não foram ao júri somente as meretrizes de Baixa do Sapo, mas, todos os homens e mulheres que tinham pela caftina uma certa admiração e apreço. Além dessas pessoas de Baixa do Sapo, empresários, advogados, médicos, fazendeiros, comerciantes, comerciários e outros profissionais também fizeram questão de marcar suas presenças e prestar solidariedade àquela que tinha lhes proporcionado tantos prazeres extraconjugais.
A família do nego Firmo estava presente. Na primeira fila de cadeiras do tribunal, viam-se uma jovem mulher enlutada (vestiu a mesma roupa do sepultamento do marido), os filhos e os avós paternos.
O burburinho, os cochichos e o movimento de pessoas foram interrompidos quando um agente da justiça anunciou pelo serviço de som a entrada do meritíssimo juiz de direito da 3ª. Vara Criminal da Comarca da cidade X:
- Atenção senhores e senhoras!!! Pedimos-lhes que façam silêncio. Cada um tome o seu lugar para o início dos trabalhos deste júri, presidido por S. Exa. e M. Dr. Carlos Chacon. – Todos ficaram apostos em seus lugares simultaneamente. A ré ficou em êxtase com os olhos arregalados, alienada... Procurou no fundo do baú das reminiscências o nome Chacon... Sua mente começou latejar e perguntar: “ quem é Chacon?... Chacon?... Chacon?...” Não obteve resposta.

Carlos Moisés Chacon, 34 anos, loiro, alto, recém transferido para aquela circunscrição judiciária. Casado e pai de três filhos. Formou-se bacharel em direito ainda imberbe, foi o primeiro do curso e o orador dos formandos. Advogou pouco tempo, ingressando com nota de louvor na magistratura baiana. Comentava-se à boca pequena que pelo seu saber jurídico, retidão de caráter e inteligência chegaria cedo a desembargador. Tinha passado por outras duas comarcas menores antes da cidade X. Além disso, o jovem juiz Chacon tinha três obras jurídicas no mercado editorial com grande tiragem. Ultimamente, era presença obrigatória em seminários e conferências universitárias. Orador ímpar.
Seus colegas de magistratura achavam-no afetado e esnobe. Ninguém privava de sua intimidade. Não obstante ser educado no seu relacionamento profissional. Suas atitudes eram frias e calculadas. Jamais o Dr. Chacon manifestara algum gesto de descontração com qualquer dos seus subalternos ou mesmo com algum colega de magistratura. Os advogados tinham que agendar as entrevistas. A pauta era de assuntos profissionais. Poder-se-ia afirmar que socialmente o juiz Chacon era um misantropo, um solitário social.
Com a família observava-se que tinha certas extravagâncias: ia à praia, ao clube, às festas públicas, porém, discretamente sua família ficava à distância das demais. Os filhos menores e a mulher tinham a mesma conduta do Dr. Chacon. Parecia que o destino tinha moldado aquelas criaturas numa só alma.
O Sr. Juiz, circunspeto, vestido numa toga impecável adentra o salão do júri, com atitude altiva, toma assento em sua cadeira e começa a sessão com a escolha dos jurados. Depois dos entreveros dos advogados, na aceitação e recusa de alguns nomes para compor o Conselho de Sentença, ele faz um agradecimento à sociedade ali representada por seus diversos membros e uma exortação ao símbolo do direito e da justiça:

- Senhores, Senhoras (fez-se naquele momento, um silêncio fúnebre com a fala do magistrado), Exmº. Dr. Marcos Scknner, muito digno representante do Ministério Público da Bahia, Ilustríssimos colegas do direito, representantes da vítima e da ré. Senhores e Senhoras do Conselho de Sentença. Nesta oportunidade queremos agradecer em nome do Tribunal de Justiça do nosso estado, o comparecimento da sociedade, aqui representada por essa plêiade de homens e mulheres da nossa cidade. Agradecemos em especial, a presença dos nossos egrégios representantes do direito e da justiça baiana.
Oxalá que tenhamos sucesso na aplicação da lei e da justiça. Que nos pautemos pelos princípios da deusa Thémis, guardiã do juramento do homem e da Lei.
Rudolf Von Lhering, com propriedade sintetiza o símbolo da justiça (apontou para uma imagem sobre a mesa), representada por uma mulher com os olhos vendados, uma balança suspensa numa das mãos e uma espada na outra: “A Justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para a defender. A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é a impotência do direito”. Os artistas alemães acrescentaram ao símbolo da justiça uma faixa aos olhos para indicar imparcialidade. Ricos e pobres são iguais perante a Lei. Os romanos personificaram a justiça em sua deusa Justitia. Cega (extremo da imparcialidade), trazendo nas mãos uma balança com o fiel no meio, indicando equilíbrio e bom senso no julgamento.
Queremos fazer um apelo à consciência moral dos senhores jurados. Os senhores são os representantes da sociedade e os verdadeiros juízes. Não podem se comportar com leviandade. Temos que responder com justiça e imparcialidade cada questão formulada, analisando-a de maneira criteriosa. Na hora de responder, lembre-se que do seu ato impensado pode arruinar a vida do seu semelhante ou contribuir para impunidade.
Que iniciemos os nossos trabalhos com as bênçãos de Deus. Muito obrigado!...

D. Ruiva estava extasiada, enlevada... Bebia e degustava cada palavra do jovem magistrado como se fosse um vinho raro. Ao diabo o resultado da sentença! Tinha cumprido a prisão com dignidade. Na casa de detenção era tratada com respeito desde o faxineiro ao diretor do presídio. As presidiárias adoravam-na, algumas eram amizades antigas. Não queria matar ninguém, principalmente, um homem que não conhecia. Foi um lastimável acidente... Seus advogados tinham impetrado um hábeas corpus e convencido os juízes do Tribunal de Justiça do estado de sua inocência e dela aguardar o julgamento em liberdade. Ela acreditava que seria absolvida.
Não sabia os motivos daqueles sentimentos de empatia que estava sentindo pelo magistrado. Os seus advogados, pintaram-no como um homem justo, mas frio e inflexível. Ela tinha tido impressão contrária...

Fez-se a leitura dos autos. O inquérito da polícia era uma peça inteligível e bem acabada. A polícia tinha feito todos os procedimentos legais: da prisão em flagrante da caftina ao levantamento e autópsia do cadáver. Além de submeter Kátia, o móvel do crime, ao exame de corpo de delito. Ouviu todas as testemunhas, vasculhou todas circunstâncias graves e atenuantes, dentro dos prazos legais, remetido o inquérito à justiça e a acusada pronunciada.
Findo a leitura dos autos, S. Exa. Dr. Chacon inquiriu brevemente a ré sobre as circunstâncias do crime, fazendo em seguida uma exposição sucinta para os senhores jurados. E, determinando que se promovesse a entrada das testemunhas de acusação para inquirições e oitivas:

- Meu nome é Carla Amaral, brasileira, 26 anos, estado civil solteira. Trabalho de garçonete em um bar no distrito de Baixa do Sapo. – Assim começou a primeira testemunha de acusação desinibida e articulada.
Dr. Scknner, homem sociável, inteligentíssimo, conhecido no alto e no baixo mundo das meretrizes. Ele não escondia esse gosto mundano, tinha por máxima: “a mulher é tão especial que Deus lhe deu o dom da maternidade, sem ela a humanidade não existia”. Apreciador moderado de um bom vinho e uma boa cerveja e frequentador assíduo do futebol de várzea dos finais de semana, começou a fase de interpelação das testemunhas:
- A Srta. Carla Amaral era íntima da vítima? – Não, doutor! – Não o conhecia? – Conhecer, eu o conhecia. Ele era cliente do bar que trabalho, só não tinha intimidade!... – E, D. Ruiva?... Já freqüentou a casa dela? – D. Ruiva, a conheço de longe. Sou moça de família... nunca fui lá!... – Meritíssimo não tenho mais perguntas. – O colega de acusação do promotor, o jovem advogado Sílvio Freire, também dispensou a testemunha, por achar que a testemunha pouco acrescentava para acusação. O velho Armando Souto, advogado da ré, raposa jurídica inconteste, orador eloqüente e contumaz ganhador de causas impossíveis, foi quem prosseguiu com a testemunha:
- A senhorita disse que não tinha intimidade com a vítima. Conhece de longe a ré, moça de família, nunca freqüentou o bordel da minha cliente, o quê veio fazer aqui? – Protesto Meritíssimo!... O nobre colega da defesa está intimidando a testemunha. – Protesto negado. Responda senhorita! – Não tinha intimidade com a vítima, mas, sou amiga de sua esposa, desde que eles chegaram a Baixa do Sapo. Sei que seu Firmo era um ótimo pai de família e não merecia morrer daquela forma... – E, desse modo evasivo, sem subsídio, a inquirição ocorreu com as testemunhas de acusação. Não tinham presenciado o crime. Não estiveram no local, tinham sido arroladas por serem vizinhas da família, ter conhecido a vítima. Exortaram suas qualidades de esposo, de pai, de amigo. Afora algumas ações excessivas que praticava por força do álcool, nego Firmo tinha sido vítima da escória meretrícia que se envolveu. Embora as testemunhas não tivessem participado dos fatos circunstanciais de crime, seus testemunhos transformaram o nego Firmo em um santo sem auréola.
Todos estavam ansiosos em relação às testemunhas de defesa. A expectativa era geral. As testemunhas de acusação tinham deixado D. Ruiva em maus lençóis. O crime estava assumindo características fúteis e intencionais. A vítima queria apenas, gozar do prazer do sexo, coisa de macho... Não teve meios de defesa, foi brutamente atingido pelas costas por uma cadeirada. E, pelo raciocínio dessas testemunhas, teria sido fácil dominá-lo, não era um malfazejo. Além disso, estava embriagado. A primeira testemunha de defesa tinha sido a causa do crime:
- Sou Kátia Souza, 23 anos... trabalho na casa de mãe Ruiva – todas chamavam-na de mãe - , há três anos!... – A senhora já conhecia a vítima antes daquele dia?... – Perguntou o promotor. – Não, doutor! Ele me chamou pra beber, depois fomos para o quarto... – Aí... os senhores brigaram? – Ele queria... fazer... a força!... – Seria necessário o uso da força, a senhora não é profissional do sexo?... – Ele queria me comer por detrás doutor! O nego era um jegue!... – Houve um burburinho, a platéia caiu na gargalhada. Foi necessária a intercessão do Dr. Juiz para conter a balbúrdia, pedindo à testemunha que evitasse comentários desairosos e desnecessários. – Excelência não tenho mais perguntas. – O advogado de acusação perguntou à testemunha se ela tinha presenciado o crime: - A Senhora estava na hora do crime? – Não, doutor! Tinha apanhado muito. Assim que surgiu uma oportunidade, escondi-me no quarto de uma colega. Eu fugi nua com o corpo doído das porradas. Em menos de dez minutos houve um alvoroço das pessoas alguém gritando que tinham matado o nego. – A Senhora foi ver o corpo? – Não! Estava apavorada... – Estou satisfeito Excelência. – Dr. Armando Souto, perguntou-lhe: - Que diz de sua patroa? – Protesto Meritíssimo! A defesa estar querendo uma resposta tendenciosa. Tergiversando e fugindo dos fatos que deram origem ao crime – Protesto negado! A conduta da acusada poderá fornecer elementos para compreensão do crime. – Continue Dr. Armando! – Sra. Kátia, é necessário repetir a pergunta sobre sua patroa? – Não! Nós não consideramos D. Ruiva como patroa. Ela é tratada por todas como mãe Ruiva. Ela cuida da nossa saúde, da nossa alimentação, das nossas amizades, não quer que bebamos ou fumemos. Se insistimos beber ou fumar, ela não deixa que abusemos do excesso. Não nos explora e ainda insiste que guardemos em banco nossas economias. Sofre com a gente os momentos ruins. – Era tudo que a defesa queria ouvir. A depoente tinha conseguido chamar à atenção dos jurados para o caráter e grandeza moral da ré.
A segunda testemunha seguiu a mesma linha anterior. O jovem Ronaldo Santana contou as circunstâncias do crime. Ao ouvir os gritos de socorro, encontrou a vítima com uma peixeira ameaçando e batendo na prostituta e tinha provocado o nego Firmo, tentando distrair-lhe para que a mulher fugisse, objetivo atingido, mas, que tinha ficado contra-parede e o agressor, tornando-se alvo fácil da sanha criminosa da vítima. Graças a Deus e a presença de espírito da D. Ruiva, tinha sido salvo.
Os advogados e promotoria ficaram satisfeitos com os depoimentos e as informações trazidas pelas testemunhas. Começaram os libelos, fazendo uso da palavra inicial, o ilustre representante do Ministério Público o Dr. Marcos Scknner:

- Dr. Sílvio Freire, jovem promissor do direito e da lei. Egrégio Dr. Armando Souto, colega de tantos e memoráveis embates. Homem de cultura humanística considerável a serviço da lei e da justiça. Meritíssimo Dr. Carlos Chacon, representante exponencial da magistratura baiana, gênio precoce do saber jurídico. Minhas senhoras, meus senhores:

- A missão da promotoria, às vezes, é espinhosa. Tem por princípio intrínseco defender o estado e a sociedade, acusando e levando à punição os contraventores da Lei. Se Montesquieu fosse vivo, com certeza teria acrescentado à sua obra, o Espírito das Leis, um quarto poder, autônomo e soberano: o Ministério Público. Entretanto, Senhores do Conselho de Sentença, os fatos, as circunstâncias e a história de um delito andam na contramão das teses jurídicas. A lei em si é fria, cabe ao agente dela, dar-lhe movimento e humanizá-la. O arauto do racionalismo filosófico, René Descartes, ensinava que o homem deve empregar o bom senso em suas ações. Pelo bom senso de nossas ações construiremos a sabedoria e a justiça. Que Deus me ilumine neste momento para propugnar perante os senhores jurados não a lei fria e impessoal, mas o bom senso dela a serviço do homem.
Embora esse delito tenha sido causado em um antro de concupiscências, de vícios e pecados, como rotula a nossa hipócrita sociedade. Os fatos e as circunstâncias descritas nos autos apontam para um crime de morte por causas supervinientes. Explico-lhes senhores jurados: a cadeira desfechada na vítima pela ré (apontou para D. Ruiva), poderia ter causado a morte do nego Firmo. Sua morte, entretanto, ocorreu de acordo laudo médico da autópsia (leu o laudo), pela transfixação de um objeto pontiagudo e cortante no coração da vítima. Noutras palavras, não houve a intenção de matar da acusada. Não houve dolo. Não houve um ato consciente, premeditado, urdido, planejado e qualificado. A ré foi impelida a cometer esse crime por forte emoção moral em defesa de terceiro e acrescentaria: em legítima defesa!...
A platéia e o tribunal estavam pasmos. Dr. Scknner estava fazendo uma genial peça de defesa, alguém ainda cochichou: “eu não lhe disse que ele é o rei das putas!...” Foram duas horas de um persuasivo discurso. Invocou o Artigo 121, do Código Penal que caracteriza o homicídio simples e o parágrafo que estabelece o homicídio culposo sem intenção de matar, sem o acréscimo da pena. Além disso, reiterou por várias vezes, os instintos maternais da ré que se preocupava com bem estar de suas meninas mesmo elas não sendo suas filhas.
Doutor Sílvio Freire, neófito das lides jurídicas pouco acrescentou - depois de ouvir o apelo do mestre. Fez um discurso na mesma linha do promotor, deixando a critério da consciência dos verdadeiros juízes: os jurados.
O golpe fatal ficou por conta do advogado de defesa, Dr. Armando Souto. Depois das saudações de praxe, ele deu início à sua tese:

- Nós, homens civilizados, não abolimos do nosso psique os preconceitos atávicos. Não quero aqui fazer uma apologia exaltando a exploração do corpo e do sexo. Todavia, gostaria de fazer uma ode para louvar os valores estéticos da mulher e os prazeres da carne.
Muitos homens respeitáveis da nossa sociedade, às escondidas, na calada da noite, esgueiram-se pelas ruas e pelos becos para receberem os favores dessas profissionais do prazer: as prostituas. Acho que elas não são somente as profissionais do sexo. Para mim elas são profissionais do prazer porque além de sexo, elas servem como repositórios de queixas e desajustes conjugais, de fracassos profissionais e pessoais. Elas ainda servem para dar vazão às taras sexuais de homens psicologicamente desajustados. Quantos conseguem curar o corpo e a alma num prostíbulo? Muitos! É pena que os textos oficiais estatísticos não façam esses registros. Ao invés de condená-las, todos nós, governo e sociedade, procuremos ajudá-las e incentivá-las com políticas públicas específicas para que elas se tornem perfeitas cidadãs. A discriminação faz delas alvos fáceis de exploração inescrupulosa.
Cristo o homem que dividiu a história não fez nenhuma discriminação. Não levantou o dedo para apontar e condenar. Porém, fez uma desafio aos hipócritas daquela época quando encontraram uma mulher em adultério, desafiando os anciãos e a lei judaica: “ ... quem não tiver pecado atire a primeira pedra!...” Por isto, estou aqui, hoje, para defender uma digna representante de Maria Madalena...
Fez um esculacho na história de vida do nego Firmo. Respeitava os sentimentos dos filhos e da viúva. Lamentava também a morte prematura da vítima, era um ser humano... Como profissional do direito não podia esconder a verdade mesmo que tivesse de magoar os parentes da vítima.
O negro Firmo era um excrescência da sociedade, um arruaceiro, um desajustado e potencial criminoso, tinha uma folha policial (exibiu os BOs para os jurados), considerável de arruaças e agressões físicas às mulheres por onde passou. Finalizou: - Era um escroque, um pulha que não fará menor falta à sociedade.

Não houve tréplicas. O Exmº. Dr. Chacon autorizou um preposto distribuir as folhas de quesitos aos jurados. Fez uma elucidação de cada quesito e perguntou aos jurados se
eles tinham alguma dúvida. Eles responderam que as dúvidas foram sanadas com a análise feita pelo meritíssimo de cada quesito.
Antes deles deixaram a sala para procederem a votação, o Juiz perguntou à acusada:
-A ré deseja se pronunciar antes do veredicto?
-Excelência perdoe esse coração aflito, mas... gostaria... de saber o nome... de sua mãe?... – Foi um burburinho inesperado na platéia, o advogado de defesa procurou logo remediar a despropositada pergunta, preocupado em sua Excelência considerar uma pergunta acintosa. Entretanto, o Sr. Juiz procurou tranqüilizar o vexame e, olhando para ré respondeu: - Entendo que é uma informação desnecessária nesse processo e para ré!...
Na mitologia grega a deusa Thémis não teve filho homem. Teve três filhas mulheres: Eumônia que personifica a disciplina; Dikê que personifica a justiça e Eiriné, a paz. A deusa romana Justitia não também não teve filhos ou filhas.
Por isso, concluo para conhecimento da ré que o juiz agente do direito e da justiça não tem pais, porém, o cidadão Carlos Moisés Chacon, 34 anos, nascido na cidade Y, é o filho mais novo de Moisés Chacon e Maria Chacon Silva. Esp... – Antes do juiz terminar, ouviram a voz rouca e abafada de Maria Mirtes dos Santos:
- Não!... Ela não é... sua... mãe... sua mãe... sou...sou eu!... – D. Ruiva quedou-se, minutos depois ainda no tribunal, o médico avisava: - infarto fulminante!...
- Arquive-se o processo!... – Sentenciou Dr. Carlos Chacon.




O enigma
R. Santana

I
Era um casal menos jovem e mais maduro. Ele beirando os 42 anos de idade, ela, na faixa dos 38 anos com aparência de 30. Ele, escravo dos prazeres da vida. Ela, escrava da beleza. Ambos errados e ambos certos na vida que levavam, mas separados por convicções íntimas e contrárias. Ele condenava sua vida de renúncia e sacrifício para prolongar o encontro com o nada . Ela condenava sua vida farta e fútil para chegar mais cedo ao nada.
José Roberto Sampaio e Helena Santos Sampaio, para os amigos e não amigos por JR e Lena. JR, branco, alto, forte, cabelos entremeados de fios brancos e empregado público. Lena, morena, altura mediana, magra, cabelos de cor indefinida, às vezes castanhos, pretos doutras vezes, loiro e cor de mel quando estavam na moda Se não tinham um casamento sonhado, sonhavam em manter-se casados. Aos trancos e barrancos, na falta e na fartura, na tristeza e na alegria, na doença e na saúde, eles já tinham quase duas décadas juntos, comendo o mesmo sal, com as escovas de dente no mesmo armário e dormindo na mesma cama, exceto, quando o bafo de bebida de JR era insuportável. Enfim, um modelo de casal encontrado em qualquer lugar do mundo.

II
Não tinham filhos. No início do casamento, Lena tivera algumas perdas a contragosto. Quando a gravidez começava, ainda no primeiro mês ou no segundo mês, por motivos banais, quando Lena menos esperava, descia uma enxurrada de sangue em suas pernas anunciando o aborto involuntário. Tinha feito vários tratamentos, pensou até fazer uma inseminação artificial, mas desistiu diante dos custos, considerando também que naquele tempo o processo de inseminação artificial, do bebê de proveta, estava em fase incipiente mesmo em alguns centros médicos especializados.
JR e Lena começaram racionalizar: se Deus não lhes dera um filho é que o filho não seria a solução, mas parte dum problema existencial. Os anos foram passando, outros problemas exigindo solução e o desejo e o capricho foram esquecidos.
Ultimamente, ele só chegava a casa mais embriagado do que sóbrio. Depois do trabalho, ele e mais alguns colegas, sentavam-se no bar mais próximo, depois de alguns copos de cerveja ou de duas ou três talagadas de cachaça, conhaque ou whisky, estavam prontos para discutir e solucionar os problemas do Brasil e do mundo.
As discussões entre JR e Lena, nessa época, ficaram mais acirradas e azedas. Ela o culpava da vida dissoluta e irresponsável, com colegas, mulheres e barzinhos, que ele estava levando. Ele a culpava de ser uma pavonácea, refém de cosméticos e cremes, perseguindo uma beleza e um tempo perdidos.

-Lena, nós somos as uvas preferidas de Deus... Você já observou o seu processo de envelhecimento? – Lena estava com vontade de mandá-lo pra cucuia, mas quando se falava em “velho”, “envelhecimento”, “envelhecer”... seu medo e seu complexo eram mais fortes do que sua lucidez.
-Não entendi seu pinguço!... Por quê somos as uvas preferidas de Deus? – Lena estava azeda. Se não fosse a curiosidade atiçada por JR em comparar uva com ser humano, não lhe daria nenhuma trela, ultimamente, deixava-o conversando sozinho na maioria das vezes.

-È fácil querida observar como as uvas envelhecem. Novas, são viçosas, verdes ou vermelhas, elas têm uma cor viva, uma membrana lisa, hidratada, delicada, empencada e feliz, a fruta mais bela que a natureza pintou. À medida que vai envelhecendo, vai murchando, perdendo o viço, escurecendo a cor, desidratando, textura enrugada, virando passas...
O homem é a uva preferida de Deus. Dotou-o de bom senso, sabedoria e inteligência, mas não lhe poupou do envelhecimento e da consciência da morte.
Também, à medida que envelhece vai perdendo o viço, murchando, perdendo a cor, desidratando e enrugando a pele, perdendo os músculos, morrendo por dentro, secando... – Lena estava absorvida com a veracidade da semelhança. Nunca tinha prestado atenção que o homem e a uva envelhecem murchando... Todavia, não iria lhe dar mão à palmatória:

-O homem tem recurso para retardar o envelhecimento não se pode comparar com uma uva!... – argumentou.

-Não adianta. Retarda, mascara, puxa daqui, estica acolá, mas se novo não morre, a velhice é conseqüência e, o desfecho é parecido. Por isto, alguém já disse que seria bom se todos morressem jovens e bonitos! – disse-lhe JR.

-A ciência evolui dia-a-dia, não duvido que o homem não progrida a ponto de encontrar um elixir da juventude e de longa vida, uma panacéia para todos os males...


III


Aquilo não estava certo, porém, o pecado carnal e a libido eram mais fortes. Pela segunda vez tinha tido àquela mulher nos braços. Não tinha havido nada além de uns beijos ardentes e apaixonados e se não fosse sua mãe barulhenta, teria chegado à hora H. Se não fosse sua mãe, desta vez, os seus instintos carnais e os dela teriam sido. consumados. Bafejado pela sorte, Neto ainda teve tempo de justificar a presença de D.Lena naquela manhã em sua casa e não ser flagrado:

-Mãe, dona Lena vai me dar banca de português... – adiantou Neto.
-Menino, qual dinheiro que tenho pra pagar banca?
-Não é preciso dona Josefa. Neto tem feito muitos mandados pra mim sem cobrar um níquel, além dele colocar em ordem as tralhas do meu quintal e limpar a minha garagem.- acudiu Lena.
-Não sabia que vocês eram tão amigos! Quê hora tu faz isso pra dona Lena, Neto?
-À tarde, mãe, quando não estou na escola e a senhora está no trabalho. – Realmente. Lena foi lhe pedindo um favor, depois mais outro, inclusive, com o assentimento do marido em que a coisa foi tomando corpo e compromisso.
Um toque aqui, outro acolá, um olhar indiscreto, um seio à mostra, uma coxa a descoberto, romperam a timidez e os escrúpulos morais de Neto e Lena passou ser a mulher dos seus sonhos eróticos. E, se não fosse sua mãe, naquela tarde, os seus sonhos teriam sido transformado em realidade pela cumplicidade de ambos.
Emanuel Augusto Neto era um adolescente com cara de adolescente de 16 anos de idade. Compleição e altura acima de sua faixa etária, um pouco mais baixo que JR. Filho único de dona Josefa, não tinha outra obrigação naquela idade a não ser estudar, cuidar da casa na ausência da mãe e jogar bola nos finais da tarde quase todos os dias.

IV

-Juca, rendo-me aos desígnios da natureza feminina. Por mais que eu pense não consigo desvendar a alma da mulher. A minha por exemplo, nesses três primeiros meses está tão diferente, tão compreensiva, amiga, bem melhor do que quando começamos namorar. – desabafou JR.
-JR, não existe nenhum enigma, nenhum mistério. Lena está mais madura, centrada, estar tendo consciência de sua importância em sua vida. Embora você tenha seus defeitos, é com você que ela se acha... - explicou o amigo de JR.
-Sei disso Juca, à medida que ficamos mais velho, os impulsos vão diminuindo, os desejos arrefecidos, a cabeça no lugar... Mas, nada disso ocorreu com Lena. Ela continua vaidosa, brigando com cada ruga, emperiquitada de manhã à noite, fogosa na cama, mas com um senso de humor e uma felicidade surpreendentes. Às vezes Juca, penso que é sua irmã gêmea que tomou o seu lugar com um temperamento e um caráter diferentes. Como ela não tem irmã gêmea, o mistério permanece...

V

O chamego tinha virado xodó. Era Lena lá e Neto cá, principalmente, quando o marido e a mãe não se encontravam. Os cochichos maledicentes dos vizinhos não eram mais segredos, como em toda situação parecida, o marido e os pais são os últimos a saber, às vezes, nunca sabem e ninguém tem coragem de meter a mão em cumbuca. Quando alguém aparece querendo denunciar, cônscio de estar prestando um grande feito, é logo admoestado:

-Seu Zeca se eu fosse o senhor diria ao seu JR essa safadeza!
-D. Nina, ainda bem que a senhora falou se, se... se eu fosse a senhora não me meteria nessa casa de marimbondo. Primeiro, porque não viu nada, não pode provar nada; segundo, o marido dela anda com o moleque pra cima e pra baixo como um filho que não teve; terceiro, entre o marido e a mulher não se mete a colher. Se for um corno manso, além de achar ruim, vai lhe chamar de fofoqueira e desocupada e se for um corno brabo, poderá dar cabo da mulher e do moleque. O melhor dona Nina, é que deixemos como estar pra ver como é que fica... – ninguém da rua falou mais do assunto.

VI

JR tinha chegado mais cedo naquele dia. Encontrou a mulher mais alegre do que pinto no lixo. Seu pressentimento é que se sua sogra viria passar uma temporada com a filha, não quis precipitar–se, deixou que as coisas acontecessem, sua prudência foi recompensada:
-Jota, querido, tenho uma coisa pra lhe falar! – anunciou Lena.
-Sou todo ouvido!...
-Eu quero lhe falar no quarto, depois que fizermos amor...
-Você está me deixando nervoso!... derreteu-se JR..
Depois de muito affair e JR tomar uns dois goles de whisky, Lena conta para seu esposo que estava com dois meses de grávida e não lhe tinha ainda falado por não ter certeza. Acreditava que fosse uma irregularidade menstrual, e a gravidez fosse como tantos outros rebates falsos. Somente com os exames médicos em mãos é que se encheu de coragem. Agora, estava lhe contando e que ele não propalasse aos amigos para não ocorrer como doutras vezes que a gestação gorava e era grande sua frustração e a dele.
A alegria de JR para os colegas foi contida, graças aos veementes apelos da mulher para que deixasse naturalmente a barriga anunciar-se. Quando tivesse com cinco ou seis meses de grávida, sua protuberância abdominal, naturalmente, chamaria à atenção dos colegas e conhecidos. Na sua idade, e sendo o primeiro, seria alvo de exclamações e admiração “tu estás grávida?”, “JR você é um danado!”, “enfim, uma boa descoberta!”, por isto, JR engoliu seco, deixou as coisas acontecerem, confiava na intuição da mulher.


VII


-Tu estás grávida? – perguntou Neto.
-Estou grávida. – respondeu-lhe Lena.
-JR já sabe?
-Sim! E, é todo alegria. Só fala nesse filho... – foi a última conversa de Lena e Neto.

VIII


Sobre à mesa, em sua repartição, JR encontrou mais uma vez uma carta fechada, com poucas palavras e nenhuma explicação: “quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio”. Um enigma. Parecia mais uma charada do que uma denúncia. Era a terceira vez que chegava ao seu local de trabalho, uma missiva lhe endereçada. No início pensou que fosse alguma brincadeira de mal gosto de algum colega. Porém, depois de muita pergunta e especulação, concluiu que não era arte de nenhum colega. Além disto, ninguém em seu trabalho sabia da gravidez de Lena. Se Lena não estivesse grávida, teria dado menos importância àquela lúgubre mensagem e jogado-a no lixo. Mas o diabo da mulher apareceu grávida de um momento pra outro, depois de tantos anos e tantas perdas...
Ultimamente, andava triste, soturno e macambúzio. Tinha deixado até de ir tomar às saídas do trabalho, um trago com os colegas. O pessoal da repartição estava preocupado e sem condições de ajudá-lo, pois ele não se abria, por mais que eles perguntassem. Desculpava-se que não estava bem de saúde e não queria que a mulher soubesse. Um dos colegas ainda ousou-se:
-JR é nessa hora que a mulher tem que participar. Ela não respondeu: “... na saúde e na doença, na alegria e na dor...”, quando o padre fez o casamento? – JR terminava achando graça.
-Flávio você é um pilantra. Eu preocupado e você com os sacramentos do padre!... Faz tanto tempo que nem me lembro o quê respondi e muito menos as juras de Lena. Tem coisa Flávio, que a cumplicidade dói, é melhor que cada um carregue seu fardo. – assim, JR encerra o seu drama íntimo e impede que as especulações prosperem.


IX


Sete meses. Não era mais possível Lena esconder a barriga e não era necessário. Teve uma certa apreensão inicial em decorrência da idade. Suas colegas ficavam galhofando dela e do marido:

-Ah!!!... Agora que esses dois abriram o bico quando não mais tinham como esconder hein?... Você, JR, estava preocupado era com isso? Com um filho?... – era o tempo todo gozação dos colegas e amigos.

Lena já não mais tinha sossego. Fazia uma camisinha hoje, uma toca amanhã, uns sapatinhos de crochê depois... não parava a máquina de costura. Quando sobrava um dinheirinho extra, completava o enxoval com vestuário pronto das lojas.
Tinha se acostumado à rabugice do marido, seu enfezamento inexplicável, atribuía ao fato dele ser pai depois dos 40 anos de vida. Às vezes, ele estava feliz, fazendo planos para chegada do rebento, de outras vezes, se fechava em seu mundo e suas respostas eram monossilábicas, quando se dava ao trabalho de respondê-las.


X


Naquele dia JR tinha acordado bem humorado. À noite, tinha feito amor, tomando todos os cuidados e posições para não ser um estorvo na barriga da mulher. Tinha-lhe levado café na cama e impediu-lhe que saísse dela:

-Descanse querida, basta o prazer que você me proporcionou toda noite. Se prepare hoje, quero repetir a façanha de ontem, agora que deixei de extravagâncias, estou doando testosterona!... - brincou ele.

Existem pessoas que não nasceram pra ser feliz. Se o infortúnio e as desventuras as perseguem seus sensores e desconfiômetros ficam alertados a maior parte do tempo. Se tudo lhe vai bem na vida, algo interior diz-lhe que não existe tempo bom que não se acabe e JR nunca soube lidar com isso.
Logo naquele dia de céu limpo e azulado sem prenúncio de chuvisco, chuva, muito menos tempestade, que ao sair de casa, por debaixo da porta, alguém jogou um diabinho de um papel, jeitosamente dobrado em quadro com o seguinte veneno: “corno manso é pior do que corno de goteira; o primeiro, o marido deixa o lugar para o amante; o segundo, o amante deixa o lugar para o marido”.
A cabeça de JR entrou em parafuso. Passou o dia planejando matar a mulher e o amante. Mas, quem era o amante? Todos os seus suspeitos eram amigos comuns além de serem (segundo sua avaliação), incapazes de tal vilania e traição. Seria Neto o amante dela? Mas, Neto não passava de um adolescente crescido, com menos idade do que o primeiro filho perdido de Lena, além dele ser considerado um filho que ainda não tinham tido.

XI

À noite, daquele dia, amou-a como nunca. Estava sedento de sexo. Fez sexo na cama, na cozinha, no banheiro, no sofá... Lena estava perplexa com o novo homem. Tinha-lhe deixado cansada e saciada. Há anos que seu marido não tinha um desempenho daquele. Quê estaria acontecendo? Não quis respostas, ambos cansados e saciados, deitou-se e dormiu.
Pela manhã, cedo ainda, não o encontrou deitado ao seu lado como era costume. Pensou que estivesse preparando o seu café. Naqueles dias de gravidez e nos primeiros anos de casados, ele tinha-lhe deixado mal acostumada com o café na cama. À medida que o tempo passava, algo estranho começou crescer dentro de si. Pensou de início que o marido estava na cozinha fazendo o café, porém, o silêncio negava-lhe esse sentimento, depois, pensou que ele tivesse saído para o trabalho. Resolveu, da cama, chamá-lo:
-Amor!!!... – nenhuma viva alma. Não resistindo esperá-lo, levantou-se.

Quase desmaia de susto. Saiu gritando chamando os vizinhos que pela curiosidade e pelo seu estado interessante, todos acudiram-na. Lá estava estirado no sofá, José Roberto Sampaio, funcionário público federal, 44 anos, amigo dos prazeres da vida e fraco de espírito, morto por um tiro no peito, com o revólver crispado nos dedos e numa escrivaninha próxima, todas as cartas recebidas e um bilhete que dizia:

“Prefiro conceder-lhe o benefício da dúvida : in dubio pro reu”

JR





Autor: Rilvan Batista de Santana

Gênero: conto



Inferno Conjugal
R. Santana


Não digo quando nem onde esses fatos aconteceram nem se alguém pagar as minhas contas que não são poucas... Também não tenho ouvidos moucos. Ouvi cada palavra de graça e de graça estou lhe passando. Farei tudo para registrá-las aqui sem aumento de til ou cedilha. Se por acaso cometer algum deslize aumentando ou omitindo alguma frase que os autores dessas conversas matinais em praça pública me perdoem. Não fiz por mal, é que a minha memória não é de elefante e a minha inteligência é curta.
Se por desígnio do destino eles lerem este texto e acharem que quero lhes comprometer pela malversação dos fatos, não será necessário ir à justiça pedir direito de resposta, fá-lo-ei da melhor maneira possível e lhes darei uma polpuda indenização pelos danos morais. Não a darei por danos físicos porque não existe alguém mais covarde neste mundo de meu Deus, bateu os pés ameaçando, já estou correndo, pedindo socorro.
- E aí Zelito, tudo bem?
- Não, Adonias!... – Zelito estava visivelmente pra baixo, com olheiras e pálido. – Parece que você levou uma surra ou passou a noite insone?... - Completou Adonias.
- Estou mal assim? – Não, você está péssimo!
- É o diabo da mulher!... Você acredita que ontem ela cismou de medir a quantidade de por... por... na hora que estávamos fazendo amor? – O quê?... – Isso mesmo. Ela disse que a mulher do vizinho descobre esse delito... Terminei broxando.
- É... brincadeira!... – E o pior, ela anda dizendo à vizinhança que estou de caso com Artur. – Por quê?... Tem motivo? – Maluquice dela. Há limite na cabeça de mulher ciumenta? Acredito que por sairmos juntos para as peladas de finais de semana e tomarmos uma loirinha no bar de André de quando em vez.
- Você já tentou aproximar a mulher de Artur e ela pra diminuir a cisma? – Já! – E aí? – Ela cismou que a mulher de Artur era minha amante!...
- Zelito tem um provérbio oriental que diz: “... bata em sua mulher todos os dias porque se você não souber por que estar batendo, ela sabe porque estar apanhado...” – Adonias, você sabe que não sou disso. Sou de paz. Além disso, não posso dar desgosto aos meus filhos, eu amo-os.
Por capricho do destino, chega Artur também chateado, com a cara amarrada, de quem comeu e não gostou, foi a vez de zelito:
- E aí irmão?... – Tudo ok! – Mas o seu semblante, sua inquietude, falando e mexendo com as mãos e as pernas simultaneamente denunciavam Artur, seus colegas não deixaram por menos:
- Hum... Hum... Nesse mato tem coelho Zelito, parece-me que o nosso amigo também está em maus lençóis! – Zelito completa: - E lençol de carrapicho que você fica rebolando na cama e não consegue dormir!... – Artur explode: - Vocês vão tomar naquele lugar!... Estou aqui puto da vida e vocês ficam caçoando... – Mais fofoqueiro, querendo entrar na intimidade de Artur, Adonias contemporizou: - Olhe, eu e Zelito queremos lhe ajudar. Achamos que você não está legal, porém, precisamos saber o que houve, senão, por onde começar? – Artur se abriu como macaxeira cozida:
- Vocês têm razão!... A minha mulher e a mãe dela estão me enchendo os bofes. Pois a destrambelhada da velha e a filha deram pra vistoriar a minha cueca e a minha camisa! – Pra quê? – Perguntou Zelito. – Para encontrar cheiro de perfume ou marca de batom. Vocês já pensaram em alguma pessoa má? Se encontraram-na, multipliquem por dois que é minha sogra. Soube que maltratou tanto o ex-marido que ele se mandou pra São Paulo. E, o diacho ainda vive às minhas custas!... – Agora, Artur estava azedo e espumando cólera. Se sua sogra tivesse o infortúnio de passar por ali naquele momento, acho que a teria esganado tal a raiva que estava destilando. Para felicidade de todos, é que no meio da conversa chega mais um mal amado, Nildo. Divorciado e bonachão, ele leva as coisas na troça, aconselha-os:
- Não esquentem a cabeça! Quem esquenta a cabeça é palito de fósforo. Casamento é igual rolo de fumo. os primeiros cigarros são deliciosos... – E, o resto? – Perguntaram todos ao mesmo tempo. – Bem, o resto você fuma para não perder o dinheiro. – Todos caíram na gargalhada. Ele ainda justificou sua filosofia de vida:
- Entrei no casamento com apartamento e carro na garagem. Depois de quatro anos e dois filhos, tive que deixá-la. Hoje, não tenho apartamento nem carro. Moro de favor na casa da minha mãe e tenho que trabalhar como um condenado pra lhe dar uma pensão alimentícia. – O pessoal, então, disse:
- Você está mau companheiro!... – Não, estou feliz!... – Neste momento passa um menino vendendo jornal. Na primeira página está escrito com letras enormes:

“EMPRESÁRIO MATA MULHER E DEPOIS TENTA SUICÍDIO”

Na página policial depois da descrição do bárbaro e injustificável crime, o marido deixa escrito como epitáfio: “Me traiu.”







Diário de um homem
R. Santana


02 de janeiro, Ano Cristão de 2007– Hoje, sinto-me angustiado. Pela manhã, diante do espelho, percebo que o tempo tinha passado e eu estava envelhecido. As mechas brancas de cabelo e os vincos no rosto e no pescoço, confirmavam o que eu não queria admitir: o tempo estava imprimindo suas marcas. Não fui ao escritório, eu decidi que iria à cidade a pé, xeretar aqui e acolá, conversar com letrados e ignorantes para tentar descobrir os meus medos e as minhas angústias.
Sento no banco do jardim. Começo analisar como as pessoas passam apressadas, olhando para o relógio, numa luta contra o tempo para não chegarem atrasadas ao trabalho. Pela primeira vez, observo que cada pessoa é peça de uma grande engrenagem que funciona harmônica e sincronizada. Todos nós, ricos e pobres, brancos e pretos, letrados e ignorantes, cada um vive em função do outro. Se não houvesse o padeiro, não teríamos pão na mesa. Porém, foi preciso que alguém a quilômetros de distância, plantasse o trigo, ceifasse e vendesse para o dono do moinho que o industrializou. Depois, vendeu para a cooperativa. E a cooperativa repassasse para o dono da padaria e o padeiro fizesse o pão e que alguém comprasse para comê-lo. Isto é, operações e interações subjacentes do dia-a-dia, movem essa grande máquina que é a sociedade humana.
Comecei acreditar que Theilard Chardin tinha razão quando afirmou que no homem cruzam três infinitos: “o infinitamente pequeno, o infinitamente grande e o infinitamente complexo”. Pascal, filósofo francês, definiu o homem: “um nada diante do infinito e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde é tirado e o infinito para onde é engolido”. Embora tivesse na cabeça esses princípios que definem a pequenez do homem e seu destino, neste dia 02 de janeiro, queria tirar as minhas próprias conclusões da essência do homem. Melhor seria não absorver conceitos conhecidos desses sábios, porém, ouvir o homem em seu estado de ignorância ou o homem da rua.
- Doutor, não trouxe o carro para lavar? – Perguntou-me um jovem “flanelinha”, assim que cheguei. Ele sempre lavava o meu automóvel – Não, não é preciso. Quando eu voltar da fazenda, você fará uma limpeza geral, no momento, é como pegar água em um samburá, dinheiro jogado fora. O rapaz concordou. Fiz-lhe uma pergunta inesperada: - rapaz quanto você ganha por dia? - Doutor, não há um tanto certo, tem dia que ganho pra farinha; outro, para carne. Se tivesse um emprego, teria salário fixo, chovesse ou fizesse sol. Aqui, doutor, sou igual a Tarzan, vivo de aventura nesta selva de pedra e cimento. – Gostei da desenvoltura do rapaz. Ele apesar de simples, era articulado e pragmático, fiz-lhe uma proposta: - Saulo (tinha me dado o nome), hoje, não pense em disputar seu sustento, vamos ficar papeando, quando terminarmos, dar-lhe-ei a melhor féria que poderia obter trabalhando o dia todo. – Doutor, o tempo está chuvoso, não ganharia tanto neste dia, por isto, não aceitarei nenhum dispêndio, papear com o senhor é um aprendizado. Se quiser dar-me algo é por conta do seu coração e não do meu trabalho. – Falaremos nisto depois. Diga-me, qual o seu grau de escolaridade? – Não posso medir o meu conhecimento. A minha professora foi minha mãe. A minha escola, foi o bairro que nasci e fiquei homem, agora, estou estudando na faculdade do mundo. Não tive escola doutor, sou um autodidata da vida. – Ele era a pessoa que procurava...


03 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – A conversa com Saulo tinha me deixado impressionado. Falamos sobre amenidades: futebol, música, mulher, cotação do dólar, enfim, jogamos conversa fora. Fui trabalhar. Passei mais um dia no escritório. Fiz e peticionei alguns recursos jurídicos. Pelo fato dos juízes estarem em recesso, em férias, combinei com minha secretária que agendasse os meus compromissos, doravante, a partir das 14:00h.

04 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Novamente, fiz o mesmo trajeto do primeiro dia. Fui conversando com conhecidos e colegas pela cidade. Parei na mesma praça e sentei-me no mesmo banco. Tive a impressão que Saulo não estava trabalhando.

- E aí Saulo, de folga outra vez? – É doutor, o mar não está pra peixe... O tempo esses dias, não está ajudando. Quando chove é essa pasmaceira. – Então, façamos o seguinte: eu também, estou de folga do escritório esses dias de férias forenses, que tal sentarmos ali naquele bar (apontei-lhe o bar), e enquanto conversamos, tomaremos um vinho ou whisky para animar os ânimos? – Doutor, não lhe prometo acompanhar na bebida, mas, enquanto o senhor bebe seu whisky, eu tomo um refrigerante, combinado? – Tudo bem, não tenho nada contra o abstêmio e a sobriedade – encaminhamos para o bar.
Pedi um whisky com gelo e um refrigerante. Depois de um gole, voltei à carga sobre a nossa conversa de dois dias antes: - Saulo, com tantas coisas ocorrendo neste mundo de meu Deus, fico me perguntando: “o quê é o homem? De onde vem e para onde vai?” São perguntas que todos fazem, são conceitos primitivos que redundam num mesmo ponto. As respostas, às vezes, têm conotações religiosas. As respostas racionais, se apreendem mas também, não se comprovam. – Saulo era todo ouvido. Observei pelo canto do olho, que ele queria falar, deixei-o que tomasse iniciativa:
- É doutor, como todo mundo, tenho me questionado sobre a origem, a missão e o desfecho do homem. Melhor seria que aceitássemos a brincadeira de Diógenes, que depenou um frango e disse: “eis aí o homem de Platão!... “ - Confesso que não entendi, porém, não quis dar bandeira, ele completou: - Platão dizia que o homem ´”é um animal bípede sem pena”, Diógenes o satirizou.- Saulo, você tem uma definição das características físicas e por extensão biológica. Falo do homem em sua essência. Do homem metafísico do ser em si. – É um assunto inesgotável. Tenho umas idéias malucas. São idéias de uma autodidata. Não sei se vale a pena externá-las... – Insisti que ele deveria, que seu depoimento não iria passar daquela mesa de bar. Afinal, quem éramos nós para criar um novo modelo teórico de um assunto que varava séculos e tinha tido à atenção de filósofos e cientistas? Ele terminou se convencendo:
-Doutor, vou usar o termo limbo que é um espaço, um lugar onde ficavam as crianças, que sem culpa, tinham morrido sem batismo e ficavam lá enquanto expiavam o seu pecado original, segundo a tradição católica do Século XIII. Acho que o homem fica em forma de energia (alma para alguns), numa espécie de limbo, aguardando seu processo de transição, que é a passagem do estado de energia para o humano e retornando (na morte), em forma de energia.
O homem sob o aspecto da Ética, da Psicologia, da Gnosiologia, o homem é moral, é sentimento, é conhecimento e razão. Para mim a essência do homem está no bem e no mal. Para Rousseau “o homem nasce naturalmente bom e a sociedade o corrompe”. Com todo respeito que tenho ao pensamento francês, acho que o homem nasce naturalmente mau e a sociedade, através da educação, o torna necessariamente bom. Quando o processo educacional é falho, os instintos primitivos prevalecem e o indivíduo torna-se nocivo à sociedade. Não estou defendendo o maniqueísmo, Deus e o Diabo, forças antagônicas do bem e do mal. Estou querendo lhe provar doutor, que o homem é naturalmente mau e a sociedade imprime-lhe ao longo do tempo, sentimentos de solidariedade, de amizade, de gratidão, de fraternidade e de amor. Quando o indivíduo é egoísta, não tem consciência moral, tem desvio de personalidade, é “frio”, como diz o vulgo, é que o seu processo educacional foi falho, exceto, quando ele é portador de um doença mental patológica genética, suas atitudes são aleatórias e seu comportamento alienado. Com o progresso da ciência, essas áreas afetadas do cérebro não demorarão ser substituídas por “schips”. Eles irão substituir essas funções comportamentais incorretas. – Eu fiquei boquiaberto, não esperava que um simples trabalhador informal, tivesse idéias e conceitos filosóficos tão inteligíveis e um pensamento tão estruturado. Fiz-lhe uma provocação: - rapaz, você estudou em que universidade? – Doutor, hoje, com tanto livro espalhado pelo mundo e tantos meios de comunicação, basta ter gosto pela leitura, que não ficará desinformado. – Saulo, outro dia continuaremos nosso papo, irei lhe explorar!...

05 Janeiro, Ano Cristão de 2007 - Sexta-feira, último dia útil da semana para quem lida em repartições públicas. Pela manhã recebi alguns clientes, mais papo do que trabalho. À tarde dei uma passada nos cartórios para conversas com agentes da justiça. Na saída do escritório passei num barzinho conhecido e ente cervejas e Whiskys, fui para casa às 20:00 h.

06 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Passei o dia na biblioteca de casa, procurando respostas para as minhas inquietudes da vida.

07 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Fui à praia com a mulher e os filhos. Comemos, bebemos, jogamos bola, tomamos banho de mar, à noite, estava um caco.

08 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Deixei todos compromissos por conta da secretária e fui à fazenda. Instruir-lhe que se algum cliente procurasse por mim, que o agendasse para terça-feira, à tarde.


09 de janeiro, Ano Cristão de 2007 – Tive necessidade de lavar o carro. A estrada da fazenda tinha muitas poças de lama, por mais que tentasse desviar a camionete delas, a lama sujava os pára-lamas. Dei uma ducha no carro e fui procurar Saulo para que ele o secasse, lavasse os tapetes de borracha, e fizesse o resto da limpeza. Fui com a intenção de provocá-lo:

- Tudo ok, meu caro Saulo? – Doutor o senhor sumiu, nunca mais proseamos...
- Fui à fazenda. Vou fechar o cacau no armazém e precisava ver a quantidade na barcaça e quantas arrobas de cacau o pessoal já tinha ensacado.
- Doutor, com a vassoura-de-bruxa, cacau não é mais um bom negócio. Se tivesse dinheiro, seria pecuarista. Para o boi de corte não falta comprador. Além do leite, produz vários derivados.
- Saulo, não se iluda. Diz a sabedoria popular que “rapadura é doce mas, não é mole”. Bom negócio sempre é o do vizinho... Particularmente, não gosto de gado (crio umas duas cabecinhas para o leite da criançada). Para você ter lucro em gado, é preciso que você tenha muita terra, muito capim, muito gado, vacinas, manejo de pasto, é um inferno!...
- Então Doutor, prefiro não ter tanta dor de cabeça. Vou seguir o ensinamento de Cristo: “Não junteis para vós tesouro na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem”. – Lá vem você com sua filosofia de vida. Por falar em Cristo, qual sua opinião sobre religião?
- Doutor, sou um autodidata. O meu pensamento é falho, não tenho um embasamento teórico. Fico vermelho externando essas baboseiras, acredito que o senhor irá rir delas depois...
- Rapaz, não posso rir daquilo que estou sendo beneficiado. Não sei se concordo com tudo que você me expôs da última vez, entretanto, gosto de lhe ouvir. Se não gosta de religião, falaremos doutra coisa.
- Doutor, Karl Marx disse que religião “é o ópio do povo”. Ele era muito materialista, pensava somente na relação do capital e trabalho e nos meios produtivos. Não acho que a religião entorpece o povo, deixa o povo parvo. Claro que fazemos restrições às certas denominações religiosas. Tem gente usando a ingenuidade e o desespero dos incautos, ladrões com roupa de bispo.
Falei naquele dia que o homem é naturalmente mau, não foi? Acho que o senhor não se esqueceu. Também lhe falei que é através da educação que o homem se torna necessariamente bom. A religião está intrínseca nesse processo educacional de formação moral e intelectual do homem.
A religião está centrada no dogma, na doutrina da fé. Ela não torna o homem estúpido e entorpecido como pensava Marx. A religião dá ao homem expectativas transcendentais pela fé e pela razão. Alguém me disse que: “religião, política e mulher, não se escolhe se abraça”, se for escolher uma dessas sem defeito, não irá encontrar.
As históricas religiões asseguraram o limite do homem e do estado. Se não houvesse princípios religiosos rígidos, não teriam contido a sanha de muitos megalômanos, déspotas e criminosos travestidos de estadistas. As religiões estabeleceram os princípios da justiça, os “Dez Mandamentos” contribuíram para formação de sociedades antigas estribadas na lei e no direito.
Os líderes religiosos iluminaram a humanidade. Não se pode assegurar se foram seres divinos. Cristo, Maomé, Moisés, Buda, Confúcio e tantos outros foram marcos incontestes da História Universal. Não se pode negar que Cristo e Maomé dividiram o mundo.
Maomé foi um grande profeta, um iluminado, não obstante ter sido um homem comum, com mulheres, filhos e homem de negócio.
Cristo é o único que teve uma vida santa e sem mácula. Viveu e pregou o amor. Seus ensinamentos mudaram a face do mundo. Ele é a maior figura histórica. Não se sabe, porém, se ele era o Filho primogênito de Deus como proclamava-se. Em momento nenhum instigou a violência. As guerras religiosas feitas em seu nome, decorreram da sede de poder do homem.
Isso, doutor, é o que penso sobre a religião e sua função histórica e social – Saulo, mais uma vez gostei do seu discurso, obrigado.

10 de janeiro de 2007- Passei o dia no escritório, saindo somente, no intervalo de almoço. Profissionalmente, foi um dia bom, fomos contratados por novos clientes.

11 de janeiro de 2007- Tive que deslocar-me para uma cidade do interior para prestar assistência jurídica a uma cliente.

12 de janeiro de 2007 – Último dia útil da semana. Fui ao escritório à tarde. Na saída combinamos com uns colegas para uma pescaria na minha fazenda no domingo.

13 de janeiro de 2007 – Fui cedo convidar o meu amigo Saulo para pescaria de domingo.

14 de janeiro de 2007 – Eu e a esposa, dois filhos e mais três colegas e Saulo fomos em dois carros para minha fazenda. Observei que Saulo estava igual um peixe fora d´água. Procuramos ambientá-lo para que ele se sentisse bem. Tive ajuda dos filhos e da mulher nesta tarefa, procurei incuti-los que o meu amigo era uma pessoa simples, mas especial. E que só tínhamos a ganhar com sua amizade. Tivemos um dia excelente. Tomamos banho e pescamos pela manhã. À tarde, jogamos xadrez e dominó. No crepúsculo vespertino, nós, os homens, voltamos ao ribeirão para tomar banho. Agora, Saulo já brincava com os meus filhos e com os colegas de maneira natural, tinha havido uma interação espontânea, entre ele e os demais. Depois da janta, alguns foram jogar. Eu e Saulo sentamos no alpendre da casa e começamos conversar. Depois de fazermos um balanço daquele dia, quanto lúdico foi, provoquei o meu amigo para que pudéssemos fechar o assunto do homem, da religião e de Deus:

- Saulo, falamos do homem e sua ligação com Deus através da religião. Você falou de alguns líderes religiosos, porém, está em voga, algumas religiões monoteístas no momento, a exemplo do Zoroastrismo, Sikhismo e Bahaismo que não foram citadas. Elas não têm importância histórica? E, não falamos de Deus:
- Claro, elas estão inseridas em algumas culturas. Não as citei pelo fato delas representarem em sua maioria uma filosofia de vida do que propriamente uma doutrina religiosa, uma exegese bíblica, em que a palavra divina é exaustivamente analisada. Os fundadores dessas religiões as personalizaram. A exemplo do confucionismo, elas formam um corpo de preceitos morais e não de dogmas e princípios religiosos como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.
Não sou deísta, nem agnóstico ou ateu. Também, não sou adepto do panteísmo que encontra Deus em todo lugar. É um tema que requer uma discussão ou uma “descrição” pormenorizada. Poderei tecer alguns comentários despretensiosos sem comprovação matemática. São idéias assim como as que expus entre nós. Elas não poderão transpor o limiar de sua fazenda, senão, vão nos taxar de loucos ou ridículos.

- É um compromisso que vou levar para o túmulo. Sei que é um assunto delicado e inesgotável. Jamais o homem vai explicar Deus sem passar pelo crivo da fé.
- Doutor, o seu raciocínio é lógico e demonstra que aceita Deus com suas características religiosas conhecidas: onisciência, onipresença, onipotência... não é?
- Foram esses os conceitos que aprendi na escola. Por isto, gostaria de ouvi-lo, quais foram os resultados de suas pesquisas? Se você tem um pensamento tradicional, encerremos o assunto. Tem-se algo diferente e quer dar-me a honra de tecer comentários, serei todo ouvido.

- A honra é minha. Quem na condição de autodidata não gostaria de conhecer o pensamento estratificado do conhecimento convencional? Acho que qualquer ser humano que tem um pouquinho de miolo na cabeça sentir-se-ia feliz ouvi-lo. Mas pelo que entendi, grassa no senhor o pensamento comum dos homens de ciência.
- Então, se é diferente, desembuche!...

- Comecei observar historicamente, que todos os povos, os mais primitivos, criam em um deus. Os pagãos representaram deuses, semi-deuses, em ferro, em bronze em ouro e nas mais diversificadas figuras animais ou humanas. Nos poemas, Ilíada e Odisséia, de Homero, encontramos uma lista enorme de deuses: Apolo, Hera, Tétis, Afrodite, Poséidon, Ares, Dionísio, Eros, Zeus, etc. Todos eles tinham suas atividades voltadas para alguma coisa. Um era deus do amor, outro do vinho, da beleza, da sabedoria... isto é, cada deus tinha uma função específica. Até os nossos indígenas tinham os seus deuses com base no Sol, na Lua, na Terra... Nos seus rituais, eram invocados os deuses para os protegerem da doença, dos inimigos, ajudarem na colheita das plantações e na expulsão dos espíritos malignos e forças nocivas à natureza. O pajé e o xamã, substituíam o bruxo e o padre.
Com base nessas observações, entendi que o homem tinha criado deuses que eram de certa forma cópias daquilo que Platão defendeu na sua alegoria: o “Mito da Caverna”. O nosso mundo é uma cópia de um mundo real em si. Não é a cópia de um objeto particular, porém, a cópia do mundo das idéias como expressão maior do pensamento.
Deus não existe fora de nós, mas dentro de nós. Não é um Deus personalizado. Não é um Pai ou um Filho. Ele é energia inteligente, metafísica, transcendental. Emana dele tudo que existe. Não é um ser ontológico, que se possa explicar a priori, seus efeitos, é que são a posteriori. Poder-se-á dizer que é uma energia causal.
O homem é uma infinitésima potência dessa energia. Poderíamos afirmar que o homem é cópia de Deus como ser criador. Ele é capaz de produzir e gerar idéias de uma realidade a priori. Ele é diferente de Deus porque é potência e não ato.

- Então, meu caro Saulo, então seu Deus é energia, não existe amor, sentimento, que não somos seus filhos? Sinceramente, não gostei de seu discurso para provar a existência de Deus. Então, as promessas de vida eterna não são verdadeiras? O homem não tem espírito? Não existirá uma vida além morte? – Meu caro doutor, não fui explícito e não é fácil passar para o papel e para as pessoas essas idéias, já tentei escrever e não passei de duas linhas. Talvez, tenhamos que deixar para um momento mais inspirado!... – Por favor, Saulo, é somente o final de sua exposição que não ficou clara. Vou mandar trazer-lhe um café, para mim uma bebida, espaireçamos, depois retornemos somente no finalzinho. Prometo-lhe de hoje em diante não mais importunar-lhe, nem que eu tenha um milhão de dúvidas.
- O senhor tem razão, não podemos fazer um corte neste momento por conta da comodidade. Vou tentar responder suas últimas perguntas.
Não diria filho na acepção do dia-a-dia. Diria que somos suas criaturas, somos semelhantes a Ele, como único ser capaz de criar. É apanágio do homem e não doutro animal, a criação e a invenção.
Falei energia, para expressar algo que emana. Ele é amor, é bondade, mas não como entendemos e aprendemos. É como se fosse à essência da essência, algo sublime e de perfeição absoluta.
Acho que teremos outra vida ou outra forma de vida. Não essa vida de sofrimento e limitações. Não existirá reencarnação e a ressurreição será um retorno a essa emanação transcendental e eterna.
Tudo que dissertamos nos parágrafos anteriores, não seria possível se o homem fosse desprovido de espírito, que é uma energia vital que quando deixa a matéria retorna às emanações infinitas.

- Saulo, não posso lhe pedir mais do que eu lhe pedi. Porém, obrigado por tudo. Não é fácil apreender princípios novos, prometo-lhe que farei uma reflexão sobre os seus ensinamentos.





São Pedro
R. Santana


I

Não há dúvida que Pedro foi o discípulo mais querido de Jesus Cristo. É fácil entender isso por vários motivos: primeiro, fez-lhe o milagre da pesca abundante; depois, mudou-lhe o nome e estabeleceu às bases da sua Igreja, quando lhe disse: “... : que tu és Pedro, e sobre esta pedra, edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Esta frase histórica foi pronunciada quando Jesus perguntava aos doze: “Quem os homens dizem que sou?”, Pedro foi o único que usou da palavra, reconhecendo Jesus como o verdadeiro e único Filho de Deus, o Salvador.
Jesus não apelidou Simão de “pedra”, “rocha” e “cephas”, “khefas” em aramaico, somente por ter entre os doze, Simão, filho de Jonas e Simão, o Cananeu, porque assim não o fez com outros homônimos como Judas Iscariotes, o traidor, e Judas, filho de Alfeu.
Pedro foi apresentado a Cristo por André seu irmão e primeiro discípulo de Cristo. Ambos eram iguais e diferentes. Iguais no caráter, na honestidade, na bondade, na simplicidade. Diferentes no humor, na paixão e na razão. Pedro era falante, extrovertido, bonachão, ingênuo, simplório, apaixonado e apaixonante, mesmo assim, era modelo para seu irmão mais velho, André.
Conta-se que depois de uma pescaria fracassada, ele jogou as redes ao mar sob a palavra de Cristo e grande foi o seu espanto que ao retirá-las, elas rompiam de tanto peixe. E dando conta-se desse milagre e de sua nudez, pediu ao Mestre que se afastasse dali, que ele era um “pecador”. Todavia, menor não foi sua surpresa quando Jesus ordena que ele e André, deixassem peixes, redes, barco, e o seguisse, com a promessa de lhes fazerem “pescadores de homens”.
Jesus ainda soube lhe perdoar em sua fraqueza humana sem lhe admoestar, quando ele arrotava fidelidade mais do que os outros: “... mesmo que todos fiquem desorientados, eu não ficarei - Jesus respondeu-lhe: - Eu garanto a você: “ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, você me negará três vezes”, ele não se faz de rogado e repete: “ainda que eu tenha de morrer contigo, mesmo assim não te negarei”. Bem, a profecia do Mestre foi cumprida: Pedro o negou três vezes e dando-se conta da jura não cumprida, arrependeu-se para sempre e enfrentou as maiores dificuldades na divulgação da mensagem do Salvador.

II


Cristo reservou-lhe um lugar especial no céu. Hoje, ele é o chefe da portaria e o chaveiro do céu, antes de ressuscitar, Jesus disse-lhe: “... dar-te-ei as chaves do Reino do Céu e o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra, será desligado no céu”. São Pedro vem desempenhando esse papel a contento há 2000 anos, Cristo não tem o que reclamar, porém, o céu é uma pasmaceira, poucos entram nele, São Pedro e os assessores têm pouco trabalho, pois é estreita a porta da salvação e larga é a porta da perdição, Satanás e seus cupinchas têm muito trabalho. As portas do inferno estão sempre superlotadas. Por essas e outras razões, São Pedro insiste com Cristo para que eles deixassem o céu alguns dias e viessem visitar os seus filhos e irmãos na Terra:
-Mas Pedro, eu sei de tudo que se passa lá, não é necessário o nosso passeio, além disso, prometi voltar no Juízo Final, somente o Pai conhece esse desígnio. – respondeu-lhe Jesus.
-Senhor, perdoe-me a insistência. Sei que não sou digno de conhecer os planos do Pai, sou um servo do Senhor, faça de mim instrumento de tua vontade, porém, gostaria de percorrer os recônditos da Terra sem ser visto e ouvido. Quero sentir o cheiro da terra molhada, perscrutar a natureza humana. Será que o homem evoluiu em 20 séculos ou continua como dantes?... – Jesus não lhe deu resposta.
Os dias foram passando, São Pedro andava sorumbático, nada lhe alegrava, o céu estava chato, de quando em vez chegava uma alma digna dos auspícios do Senhor, raramente chegava ao céu um homem santo ou uma alma perdida, resgatada pela Providência, que nesses casos sui generis, era motivo de festa. Até sua pescaria, seu hobby principal, São Pedro a tinha desleixado. Tão acabrunhado estava que Jesus deu-lhe mão à palmatória:
-Pedro, homem sem paciência, espera pela vontade do Pai. Talvez, iremos lá o mais cedo possível. A minha promessa seria voltar lá cumprida as revelações apocalípticas, mas sua tristeza está contagiando todos aqui. Alguns dias são convenientes pra matar sua saudade? – perguntou-lhe Jesus.
-Mestre, seja feita à tua vontade!...
-Porém, previno-lhe não haverá nenhum vestígio da nossa passagem na Terra. Nenhuma intervenção, nenhum pedido de milagre, contente-se apenas em rever o homem... - marcaram no calendário do tempo o dia da viagem.

III

Os xiitas e hezbollah andavam explodindo bombas. Num dos últimos atentados, um homem-bomba tinha provocado a morte de 20 judeus na porta de um cinema e ferido outro tanto, na cidade Haifa. Os exércitos de Israel estavam concentrados na Faixa de Gaza e empurravam cada vez mais os palestinos. A Síria e o Líbano em conflito, nos Estados Unidos, o World Center tinha sido explodido por terroristas da Al-Kaida, causando milhares de vítimas, no Iraque Hussein arrotava desafios aos norte-americanos, esse era o clima encontrado na terra quando, Jesus e Pedro fizeram o seu passeio.
-Mestre, não daria para fazer alguma coisa em benefício da paz?
-Pedro, já lhe disse que não podemos dar sinais da nossa passagem! Os ânimos religiosos se acirrariam mais ainda. Os povos iriam reclamar à nossa presença e o nosso juízo. Iriam proclamar direitos e reclamar à nossa posição. Não podemos tomar partido... – Justificou Cristo.
-Mestre, nós ficaríamos do lado daqueles que empunham causas verdadeiras. Daqueles fiéis à palavra do Senhor!... – disse-lhe Pedro.
-Oh Pedro, você ainda não aprendeu que todos são criaturas do mesmo Criador? Todos são feitos da mesma essência e ao Pai não cabe tomar partido, mas harmonizar os interesses contrários, que os iguais e os diferentes tenham uma convivência comum? – questionou-lhe Cristo.
-Perdoe-me Mestre, ainda não perdi o meu jeito turrão e falador. Parece-me que à medida que fico mais velho, mais teimoso e mais descontente fico. Revolta-me o grito dos inocentes, ainda não perdi a minha condição humana. Perdoe-me Senhor, quem sou eu para discutir os planos do Altíssimo? – Pedro estava arrependido.
-Não se martirize Pedro. Para o homem essa compreensão é comum. Porém, o inocente, o Pai preserva-lhe a vida eterna. Disse-lhe isto há dois mil anos: “... se o teu olho te escandaliza, arranca-o, é melhor perder o seu corpo do que sua alma”. O Pai deu ao homem e não a outro animal, a razão e o direito de escolha. Ele um dia irá prestar conta dos seus atos e não poderá negar que essas propriedades da natureza lhes foram negadas. – concluiu Cristo.


IV

Cristo e Pedro perambularam pela Rússia, em Moscou, São Petersburgo, Samara, Stalingrado, Leningrado, Rostov, Kazon, Volgograd, os montes Urais, a Sibéria, o Mar Vermelho, as minas de carvão, os estaleiros, as plataformas de petróleo, os exércitos, as marinhas, as indústrias, as favelas, as fazendas coletivas... Pedro ficou maravilhado com tanto progresso e tanto trabalho, porém, percebeu que uma boa parcela da população era atéia.
Os países, Estônia, Bielorússia, Ucrânia, Lituânia e muitos outros foram contemplados com a presença de São Pedro e Jesus nessa viagem.
-Jesus, esse povo é trabalhador até nas adversidades da natureza. Porém, parece-me sofrido. – Observou Pedro.
-É um povo sofrido desde os seus ancestrais, eles construíram uma civilização com ajuda do cavalo e da espada. Além de ter enfrentado muitos invasores como Napoleão e Hitler e tribos nômades turcas. Suas próprias forças políticas dizimaram populações inteiras. Aqui, a minha Igreja cismou com a romana. Ultimamente, muitos dão mais valor à construção da nação às coisas do espírito. Seus vizinhos sofreram da mesma forma. Moisés e Maomé muito contribuíram para espiritualidade desses povos. – esclareceu-lhe Jesus.


VI

-Mestre, há dois dias que vagueamos por toda França. Tu perdoaste todos os atos de concupiscências, luxúrias, traições e depravações deste povo. Perdoe-me, mas os outros povos que visitamos não eram mais merecedores? – perguntou Pedro.
-Todos receberam as minhas bênçãos e o meu perdão. Este povo não é ruim, não é belicoso de natureza, tem culturalmente, uma conduta libidinosa extravagante. Eles são filhos do vício. Mas terei piedade de suas almas no Juízo Final. Eles contribuíram muito no passado para edificação da minha Igreja, divulgando os meus ensinamentos. Não somente eles, mas os seus irmãos alemães, ingleses, portugueses, enfim, toda Europa, neste particular, não contribuíram os povos asiáticos com o seu confucionismo e o seu budismo e os africanos com as suas seitas e o seu candomblé, até os povos americanos foram decisivos para construção da atual Igreja. Não de somenos importância foram os povos da Oceania e da Antártida. - Justificou Cristo.

VII

Cristo e São Pedro já tinham percorrido boa parte do mundo. Cristo bondosamente, ia lhe explicando os fatos e dirimindo suas dúvidas. São Pedro ainda não tinha perdido o hábito de falar muito e pensar pouco. Agora, estavam perambulando nos Estados Unidos, tinham visitado populosas cidades. Tinham visto muito progresso e alguma miséria. São Pedro rompeu o silêncio:
-Mestre, esse povo é muito rico e desenvolvido. Como estás tua Igreja?
-Pedro, nem todo aquele que diz: “Senhor, Senhor, entrará no reino do céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu”. Este povo tem desenvolvido uma política imperialista desastrosa. Movido por interesses econômicos, comerciais e tráfico de poder, tem dizimado muitas populações. É um povo que terá de se explicar ao meu Pai nos finais dos tempos. Aqui, a minha igreja não tem cumprido seus desígnios – respondeu-lhe Cristo.
VIII
Às margens do rio Hudson, na divisa de Nova Iorque e Nova Jersey, os adolescentes John e David brincavam e pescavam com o barco da família, quando David cai acidentalmente no rio. O desespero de John foi enorme. David não era um exímio nadador, quando se viu em águas correntes e profundas, o desespero, a aflição e o medo contribuíram para dificultar o seu retorno ao barco. John gritava para que o colega tivesse paciência, enquanto ele procurava controlar o barco que ia deslizando pela correnteza, fugindo-lhe das mãos:
-David, tenha calma!!!...
Não conseguindo acalmar o companheiro e preocupado que o barco se distanciasse ainda mais, ele pulou em socorro do colega. Mas, como todo náufrago, David não contribuía para o sucesso da empresa. John sufocado pela agonia de David, começava perder fôlego e ambos afundavam...

IX

-Pedro, você foi pescador até os 30 anos de idade, além de ter sido um talentoso nadador, o quê você espera? – provocou-lhe Cristo.
-Senhor, tu dissestes: “... nenhum pedido de milagre”, como irei salvá-los? – perguntou-lhe Pedro.
-Oh Pedro, não podemos deixar vestígios da nossa passagem, mas uma boa ação não é um milagre, você não deve negar a natureza da bondade, vai lá e leva até às margens do rio, os dois rapazes.

X

Com a chegada de John, David pouco e pouco foi se acalmando, deixou de ser um estorvo. Soltou-se de John e foi adquirindo movimentos próprios, parecia-lhe que com calma e frieza, ele e John teriam condições da voltar às margens do rio Hudson são e salvos.
Por outro lado, John sem o sufoco de David e senhor de alguma habilidade de nadador de piscina, refez-se das forças e mais orientado, foi empurrando o colega pra fora d´água.
Em terra firme, descansados e refeitos do perigo, ainda não se tinham dado conta do desaparecimento do barco, quando John perguntou ao amigo:
-David, que é de o barco? – David foi tomado de susto.
-Caracas, nem me lembrava do barco!... E agora, que diremos aos seus pais, John? – David mostrou-se preocupado.
-À merda barco!... O importante é que não sabemos como, fomos salvos para contar a história, os velhos que acionem as buscas para encontrá-lo inteiro ou os destroços – os dois rapazes riram-se do episódio e abraçaram-se felizes.

XI

Depois que São Pedro e Cristo percorreram alguns países da América Central, viram ali, in loco, inflacionada fome e pobreza daquela gente, é que decidem partir para os paises sul-americanos. São Pedro ainda quis saber:
-Mestre, esse povo é tão devoto em ti, por que sofre tanto? – perguntou Pedro.
-Pedro, cada povo constrói o seu próprio destino e o seu caminho. Quando estive aqui, não estimulei a cultura da miséria. Condenei a cobiça, a avareza e a ganância material, quando disse: “ ... não junteis tesouros aqui na terra,... porque, onde está o tesouro, aí estará o também o teu coração...”, mas também disse: “... dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus...”, ou seja, quem paga imposto produz e trabalha. Aqui, não cultivei o ócio, trabalhei diuturnamente pregando a Boa Nova e disse aos meus discípulos: “...ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” , não os estimulei que ficassem em casa esperando o manjar caí do céu. Este povo teve a desdita de encontrar maus governantes, mas suas aflições serão lembradas. – concluiu Cristo.

XII

São Pedro ficou encantado com a Cordilheira dos Andes, a região amazônica, a biodiversidade, a fauna e a flora. Como homem do mar, ficou impressionado com tantos mananciais. Rios parecendo mar, peixe de vários tamanhos e espécies. Se não fosse um homem santo, teria mergulhado naquelas águas para pescar. Mas não lhe cabia sacrificar nem aos peixes.
Desconhecia as nações indígenas e seus descendentes. Em sua terra não havia índio, nunca tinha visto um índio. Ficou encantado com sua simplicidade e seu modo de vida. No céu, onde era porteiro, não havia discriminação de raça, cor ou nacionalidade. Alma não tem raça. não tem cor, não tem riqueza, não tem pobreza, tem merecimento.
Percorreram quase todos países da América do Sul: Chile, Peru, Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia... porém, são Pedro ficou maravilhado com o Brasil, não se conteve de curiosidade e perguntou a Cristo:
-Mestre, não conhecia esse povo. Eles são alegres, despojados, aqui não existe fome, pobreza, miséria?
-Pedro, nós estamos chegando num período de festa: o carnaval. São três dias de festa e pouco trabalho. Nesse período, Sodoma e Gomorra são histórias da carochinha, Há cidades enormes aqui, com populações enésimas vezes maiores do que as de Sodoma e Gomorra e não encontraremos nenhum Ló e a profecia em Coríntios se faria se eu não tivesse assumido o pecado do homem, lá está escrito: “... não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas". – esclareceu-lhe Cristo.
-Senhor, esse povo todo não terá a vida eterna? – perguntou-lhe São Pedro.
-O meu Pai confiou a mim o destino da humanidade. Eles não morrerão com fogo e enxofre, mas terão que se arrepender dos seus atos imorais. – finalizou.
XIII


Jesus e São Pedro deixam o Sul e o Sudeste do Brasil e enveredam no Nordeste. Encontram muitas festas religiosas, romarias, cantos e danças folclóricas. São Pedro sempre curioso e perguntador. Não deixava escapar os mínimos detalhes. Em uma das bênçãos de Cristo, ele questionou:
-Senhor, nós passamos naquele vilarejo e uma velha ajoelhada no átrio da tua Igreja orava com todo fervor, contando conta por conta de um rosário desbotado pelo tempo e tu apenas falou: “filha, os teus pecados estão perdoados”. Nesse instante, passamos por um vaqueiro que ia xingando e dizendo impropérios e tu o abençoastes. Estendendo tua mão, disssestes: “Filho, te abençou-o para que tua aflição e o teu cansaço sejam leves”. –São Pedro estava aturdido...
-Oh Pedro, você sabe que conheço o coração do homem. Não há segredo que não seja revelado para mim e para o meu Pai... – São Pedro num surto de desespero, interrompeu Cristo:
-Senhor, Senhor, perdoe-me pela insurreição das palavras, jamais insurgirei contigo. Às vezes, não compreendo as coisas de Deus. Sou um ser limitado, julgo pelo que vejo, não sei discernir o coração mau do coração bom. Não penetro ainda na alma humana. – tentou justificar-se.
-Levante-se. Peça ao Pai para que não entre em tentação. Àquela velha, dedilhava conta por conta, pedindo-me mal para os seus inimigos, enquanto o vaqueiro xingava o que lhe vinha à boca, num desabafo de suas dificuldades no manejo dos animais. Como da mente à boca é uma distância infinitamaente pequena, as palavras saem impensadamente, sem maldade no seu âmago. Porém, ele é um bom filho, um bom pai, um filho escolhido. – esclareceu-lhe Cristo.
São Pedro, depois do ocorrido, caminhava triste e cabisbaixo. O Pedro falador tinha “comido a lingua”, suas respostas, agora, eram monossilábicas. Foi necessário que Cristo mexesse no seu ânimo
-Oh filho de Jonas e irmão de André, o quê fez do seu palavrório? Ânimo, homem! Você não sabe que temos muitas terras para andar e o mutismo e a tristeza não ajudam o tempo passar?
-Mestre, tu és o Senhor do tempo e da vida. Se quiserdes, transformará este passeio num piquenique prazeroso, anulando os efeitos do tempo. Hoje, sinto-me cabisbaixo com as minhas atitudes receosas. Quando te neguei há dois mil anos não fiz por mal nem falta de fé em ti, mas por fraqueza humana, agora, censurei as tuas ações... – penitenciou-se Pedro.


XIV

Dois depois, São Pedro tinha voltado o seu lado bonachão, o seu lado falador, o seu lado questionador. Já perguntava tudo e obsevava mais, não lhe escapava nenhum detalhe. Um fato que lhe chamou à atenção: a quantidade de denominações religiosas, de curas, de promessas em nome de Jesus. Por isto, São Pedro rompeu o seu silêncio:
-Senhor, quanta gente operando em teu nome, construindo novos templos e divultgando os teus evangelhos. Esses homens e mulheres terão assento no teu reino?
-Pedro, eu disse quando estive aqui que: “Quando orardes, dizei assim: Pai nosso... Porque, onde estiverem duas ou mais pessoas reúnidas em meu nome, estarei presente”. Porém, o fardo desses mercadores da minha palavra é pesado. Esses anti-Cristos terão que prestar conta dos seus atos e se arrependeram de suas maldades antes do Juízo Final, pois se não o fizerem, não terão lugar nos reino do céu. Não se brinca com o Espírito Santo. – esclareceu-lhe Jesus.
-Mestre, eles fazem milagres em teu nome? Não existe ali tua intercessão? – São Pedro não entendia donde se originavam as forças do milagre.
- Pedro, é grande a força do pensamento. O uso da enegia do pensamento poderá fazer maravilhas, todavia, o pecado desses homens, reside no mal uso da fé e na ludibriação dessas almas incautas. Já lhe disse que nem todos que clamam o meu nome, estará comigo nos finais dos tempos. – São Pedro ainda tinha dúvidas:
- -Senhor, não seria de bom alvitre cercear o poder desses falsos pastores? Eles ficariam desmascarados... – sugeriu-Lhe São Pedro.
-O meu Pai deixou o livre arbítrio desde Adão e Eva. Eles foram avisados que dentre todas as frutas do paraíso, somente na maçã residia o pecado e que não era proibido comê-la, desde que renunciasse viver naquele paraíso sem sofrimento e sem dor. Quê poder-lhes-ia exigir se a Árvore do Conhecimento fosse escondida? O homem a partir daí assume consciente o seu pecado. Mesmo o homem mais silvícola tem consciência moral e lampejos éticos.


XV

O passeio de Jesus e São Pedro na terra não foi percebida pelo homem. Tinha sido uma condição sine qua nom de Cristo a São Pedro. A natureza seguiu o seu curso normal, com enchentes, terremotos, tsunamis, incêndios florestais.e o mundo com suas mazelas de sempre: o homem destruindo a natureza, matando e escravizando o seu semelhante, sacrificando os animais e as doenças e os acidentes dando cabo de muita gente. Mas, é mais uma confirmação da palavra divina, quando diz: “... o salário do pecado é a morte”.

XVI

O quê diria ao meu leitor deste conto, desta fábula ou desta parábola? Dir-lhe-ei que não lhe contei uma fábula. A fábula, o seu desfecho é uma mensagem de fundo moral, também não é uma parábola, a parábola é uma mensagem curta, onde encerra uma lição de vida. Bem, diria ao meu leitor que este texto é uma história que sonhei.
Não sei se foi um delírio, sei que sonhei tudo que escrevi e muito mais. É pena que a memória tenha apagado boa parte do meu sonho e não pude colocar no papel tudo que vi e ouvir de Cristo e São Pedro. Às vezes, acho que o Senhor e Pedro não estiveram aqui, foram alucinações da minha mente.
Doutras vezes, acredito que tudo ocorreu, que não foi um delírio, mas uma mensagem em que o Senhor não quis dar sinais de sua passagem, porque o homem mau dessa vez inverteria o modus operandi da crucificação: Pedro seria crucificado de cabeça para cima e Cristo de cabeça para baixo.




O Escândalo
R. Santana

I

Era uma casa comercial grande para os padrões da época. Algumas pessoas quando queriam comprar algum produto, indicavam o armazém do Juca como a principal referência comercial do lugarejo de São Caetano. No armazém do Juca, o trabalhador rural comprava o feijão, a carne-do-sol, o café, o fumo, a cachaça, o fósforo, o querosene, o arroz, o facão, a foice, a estrovenga; sua mulher, comprava o espelho de pataca, o pano de chita, o batom, o perfume barato, o analgésico; seu moleque crescido, comprava a bola de gude, o badoque, a peixeira lambedeira e os mais afoitos, a última geração de espingarda de matar paca e apetrechos de pesca. O armazém do Juca era um hipermercado dos tempos modernos.
Juca era um bom homem. Não seria exagero dizer que Juca era um homem santo. Não bebia, não jogava, não fumava, sua única distração era participar dos eventos da igreja católica ou assistir às missas de finais de semana com o irmão, a mulher e os filhos menores. Afora isso, vivia enfurnado em seu armazém na labuta diária. O seu maior investimento tinha sido a aura de honradez construída ao longo dos anos de trabalho junto aos seus fregueses e aos seus fornecedores. Embora existissem outros estabelecimentos no lugarejo, todos só queriam comprar no armazém do Juca, tanto pela variedade e estoque como pelo preço e atendimento. Não fiava, vendia somente a dinheiro, não colocava a conta no prego, se alguém lhe falava em fiado, ele tinha a resposta na ponta da língua: - não vendo fiado! Quem vende fiado está sujeito perder o freguês e o amigo. Se não vendo, posso perder o freguês mas não perco o amigo.
Os fofoqueiros diziam que seu “Juquinha” (a maioria chamavam-no assim, pela sua baixa estatura), tinha construído seu patrimônio trabalhando inicialmente numa carvoaria que terminou como sócio; depois, vendendo gado, cavalos de raça e as mais variadas espécies de muares em feiras e exposições de animais em cidades do interior de Minas Gerais e do interior baiano, notadamente, as cidades de Itapé e Itapetinga que tinham um comércio tradicional de animais que extrapolava fronteiras. As más línguas diziam que seu “Juquinha” tinha aptidão inata de transformar um pangaré num animal de rara qualidade. Ressalvavam que ele não fazia por dolo, para enganar o comprador, mas pela capacidade natural de convencer o comprador à aquisição dos seus animais e enfocar, somente, as qualidades deles.
II

Leôncio Félix dos Santos, era um homem maduro, beirando à meia idade. Os cabelos já começavam encanecer em grande parte. Era um homem alto, branco e vistoso. Com uma quantidade de filhos acima da média, a maioria adulta. Um dos filhos, orgulho da família, tinha assentado praça na briosa policia baiana, no início da década dos anos de 1950. Leôncio não se cansava de exaltar as qualidades temerárias do filho (numa época em que o policial militar era escolhido mais pela bravura e força física do que pelo saber), nele depositava todos os projetos malogrados da sua juventude. Qualquer questiúncula dele ou dos vizinhos, o sargento Dílson Félix dos Santos (sargento Dico para maioria), era convocado por Leôncio para ser o delegado e o juiz da contenda. Era comum convocá-lo para situações mais bizarras:
- Zezinho, vai chamar seu irmão para solucionar o sumiço do porco da velha Maria!
Leôncio não era um beberrão, tomava seu pileque na hora do almoço e não mais que isso. Não se podia dizer a mesma coisa em relação ao tabaco. Costumava fazer um cigarro de palha em cada lugar que chegava. Abria seu estojo retangular de alumínio, cheio de fumo picado, cortava uma palha de milho tamanho padrão, enchia a palha com o fumo, enrolando-a, dando forma a um gostoso cigarro, que se não era desprovido de todos os produtos químicos cancerígenos dos cigarros industrializados de hoje, ganhava do cigarro convencional no cheiro e no sabor na opinião dos fumantes inveterados.

Não era um homem rico. Seu patrimônio consistia numa modesta casa residencial e numa pequena propriedade rural donde tirava o seu sustento e da família. Sua fazendola não passava de umas dez hectares. Os cacaueiros tinham sido plantados em boqueirões e sua produção não passava de cem arrobas. Seu maior rendimento provinha do cultivo de verduras, frutas e da criação de galinhas, porcos, marrecos, patos e de outros animais. Além disto, suas terras eram cortadas por ribeirões, represas e minadouros, formando um grande manancial. Desses recursos hídricos, Leôncio tirava o peixe que abastecia sua mesa e a mesa dos
amigos.
Era uma estróina, não tinha nada nas mãos, principalmente, se o pedido partia de algum rabo de saia. Não podia ver uma mulher passando necessidade que não a socorresse com dinheiro ou provisão de alimentos para matar sua fome. Seu socorro, às vezes, era movido somente, por princípios humanitários, por isto, era tão querido e admirado por muitas moças e mulheres livres de sua convivência. Sua esposa, D. Ana, era quem mais entendia e ajudava na filantropia do marido, sem ciúmes, talvez, movida pelo sentimento inconsciente e corporativista do gênero feminino.


III
Quem não a conhecia, jamais diria que aquele pedaço de mulher chegasse para o Juca. Flordeliz Alves Assunção no batistério e D. Flor para todos. Era uma mulher alta, morena, cabelos pretos e escorridos, olhos negros, dentição perfeita, face esculpida, corpo curvilíneo, peso proporcional à sua altura, seios médios, enfim, uma beleza de mulher. Tinha a perene idade das deusas. As mulheres despeitadas de sua beleza, atribuíam-lhe uma idade exagerada de 35 anos. Os homens enxergavam nela, apenas, a grandeza indescritível do belo. Sua idade era um detalhe do tempo de somenos importância. Os jovens mancebos que transgrediam o mandamento da Bíblia de não desejar a mulher alheia, nos seus sonhos libidinosos, ela aparecia como uma eterna e jovem princesa.
As más línguas diziam que D. Flor era de origem muito pobre, por isto, tinha sido presa fácil para seu Juquinha. Os mais amigos diziam que tinha sido um casamento por amor, não obstante Juquinha ser um homem de pequena estatura, tinha tido o seu charme quando moço. Além de Juquinha ser um gigante empreendedor e um trabalhador incansável, possuía uma lábia inigualável, capaz de romper quaisquer sentimentos contrários.
D. Flor, aparentemente, demonstrava um afeto especial pelo marido. Ajudava-lhe gerir os negócios. Com postura de mulher casada mas sem afetação, atendia os fregueses de sua casa comercial com espontaneidade e gestos impecáveis. Os limites das suas relações com a clientela, estavam circunscritos, exclusivamente, às praxes comerciais. Jamais alguém tinha sido testemunha de qualquer ato suspeito de D. Flor. Os seus empregados adoravam-na. Jamais suspendia a voz ou ralhava com algum empregado para corrigi-lo. Se a necessidade imperava, chamava o empregado ao improvisado escritório e o aconselhava com educação, porém, dura e firme se as circunstâncias exigiam.
Juca e D. Flor tinham tido dois filhos, um casal. O filho mais velho já adentrava à adolescência. A menina tinha uma pouco mais de 10 anos de idade. Soube-se depois que ambos tinham seguido a carreira eclesiástica, o filho mais velho indo até o fim, inclusive, recebendo as ordens sacerdotais e ingressado numa missão humanitária para prestar serviço em terras africanas. A filha ao longo de algum tempo, deixa tudo para trás quando já era noviça e casa-se com um moço rico.

IV
Os negócios do seu Juquinha iam de vento em popa. Já pensava em
ampliar sua casa comercial com a abertura de uma filial na outra ponta da cidade chamada Cajueiro. Para concretizar este projeto, ele adquiriu uma casa velha, edificada num terreno comprido e largo em uma rua de estratégia comercial. A casa foi parcialmente demolida, suas paredes
internas foram derrubadas, seu telhado substituído por uma espessa laje e
no lugar da antiga casa velha, pouco e pouco foi
surgindo um espaçoso salão com infra-estrutura sanitária para o uso separado de homem e mulher. Uma pequena sala contígua para um pequeno mais acomodável escritório e mais nos fundos do terreno, anexo ao salão principal e ao escritório, seu Juquinha tinha feito outro espaçoso salão com portas de ferro laterais e entradas independentes para carga e descarga de mercadoria.
Fazia parte também do salão principal, um espaçoso mezanino em forma de U, que seu Juca tinha incluído no projeto de construção, que seria o espaço para exposição e venda de utensílios domésticos, da xícara à panela de pressão (utensílio em voga), pequenas ferramentas rurais e utensílios de caça e pesca.
Seu Juquinha foi sem dúvida um dos precursores do mercado moderno tanto quanto à variedade de produtos a varejo que oferecia tanto quanto à forma de atendimento. Pois na entrada do mezanino instalou uma catraca e um balcão-caixa que em que o cliente depositava nele as mercadorias e pagava ao preposto, os produtos escolhidos. Para que não houvesse mão-de-gato, seu Juquinha colocou dois funcionários apostos e vigilantes e, em dia de feira-livre (o movimento da loja aumentava), acrescia o número desses funcionários-vigias. Se algum malandro era flagrado surrupiando o alheio, ele era discretamente agarrado e encaminhado ao gerente, se reincidisse era encaminhado à polícia.

Depois que essa loja foi inaugurada, seu Juquinha foi deixando à mulher a direção da matriz. Se alguma circunstância exigia sua presença, lá pisava e pouco ficava. Sua esposa reclamava:

- Juca, você deixou toda responsabilidade do armazém para mim! Não acha demais? – Ele justifica:
- Nós somos os donos. O boi engorda com o olho do dono... Ademais nega, tenho que colocar nos trilhos o novo negócio e escolher dentre os novos funcionários um gerente e um sub-gerente, isto leva tempo.
D. Flor deixou de queixar-se. Entendeu que o marido tinha razão, não era fácil encontrar gente de confiança e liderança para gerir os negócios, afora o fato dela ter conhecimento como ninguém, da reposição da mercadoria, do estoque, o valor agregado de cada produto, os encargos financeiros da pequena empresa e a folha de salário e previdência dos empregados.
V
Juca era afável, bom interlocutor, não vendia fiado, mas sabia como ninguém solucionar a carência e o poder de compra de cada cliente. Se o produto que o freguês queria levar o valor estava acima de sua posse, Juca dava um jeitinho, indicando outro produto mais em conta ou diminuindo nquantidade, todavia, o cliente sempre saía com a mercadoria e satisfeito. Ele sentia-se frustrado quando falhava no convencimento e o freguês saía de mãos abanando. Ele dizia que seu maior patrimônio era sua freguesia, argumentava para os empregados, principalmente, para os de má vontade:
- Meu filho, se a mercadoria apodrece ou fica encalhada na prateleira, perde eu e você. Eu, porque só ganho se houver rotatividade e você na minha inadimplência em lhe pagar o salário. Por isso filho (ele chamava todos empregados de filho), temos que exercitar sempre a arte de vender!...
VI
Não obstante a habilidade e o afastamento parcial do seu Juquinha, a matriz nas mãos de D. Flor tomou um novo impulso. O fluxo de clientes aumentou, consequentemente, a receita. A dona do estabelecimento se desdobrava para atender ao chamamento de todos. Embora assessorada pelos empregados, D. Flor fazia questão de dar aquele toque feminino no atendimento. Dentre todos os clientes, Leôncio Félix se tornou mais amiúde. Era comum vê-lo conversando com a proprietária do armazém quase todos os dias.
Há um dito popular que diz: “o povo aumenta mas não inventa”; então, “onde há fumaça, há fogo.” Começaram surgir comentários desairosos sobre Leôncio Félix e D. Flor. Inicialmente eram cochichos, ao longo do tempo, os cochichos foram tomando formas explícitas. Os donos da vida alheia não pediam mais segredo. Leôncio Félix, cada dia se fazia mais íntimo e necessário ao casal. Várias vezes, em público, seu Juquinha tinha lhe solicitado ajuda na condução dos negócios, principalmente, nos finais de semana e feriados quando dobrava o movimento da freguesia. Leôncio Félix se desdobrava em préstimos e atenção aos clientes, quem não o conhecesse, tomaria como dono ou gerente do empório.
Juca passou ser visto por alguns como um conformado cabrão. Outros mais complacentes, achavam-no vítima de traição da mulher e do amigo. Alegavam que nessas circunstâncias o marido traído era o último a saber. Os mais afoitos e inconseqüentes diziam gracejos quando D. Flor ia ou vinha da missa. Não se sabia se os gracejos eram ouvidos ou ela dava boca calada como resposta, preferindo a máxima: “bronca é arma de trouxa” ao confronto com moleques desocupados que terminaria numa auto-denúncia. Ela sabia que nenhum desses moleques, teria condições de peitá-la, ademais, ela continuava tendo a admiração e o respeito da maioria. Pessoas de bom senso não se envolvem em problemas conjugais: “entre marido e mulher não se mete a colher!...” Além disso, havia implicações jurídicas, difamação sem provas, é cadeia ou bala.

A filial J&F Ltda. tinha caído no gosto do povo. As pequenas vendolas do cajueiro tinham fechado as portas. Era grande o movimento de carga e descarga na casa J&FLtda. Seu Juquinha tinha resolvido o seu lugar-tenente com a recontratação do seu irmão José Assunção, tratado por todos como “Zito”. Seu Zito já tinha trabalhado na matriz algum tempo, deixou o emprego por motivos de foro íntimo. Falava-se a boca pequena que ele era apaixonado pela cunhada. Nada tinha sido comprovado, sabia-se apenas que havia muito apreço e consideração entre ambos. Era Deus no céu e D. Flor na terra. Ninguém atrever-se-ia falar algum senão dela em sua presença e a recíproca era verdadeira. Foram inúmeros os entreveros com o marido em defesa do cunhado:

- Ele não é somente seu empregado, ele é seu irmão. Deixe de rabugice! – Ele era mais racional e menos emocional:
- A empresa (ele deu para chamar de empresa sua casa comercial depois de algum tempo), não tem irmão. Eu que sou o dono sigo à risca todas as normas para o seu bom andamento.
- Vá para o inferno com sua empresa!... – E dava-lhe as costas. Passava dois ou mais dias emburrada. Juquinha tinha que empreender todo esforço de reconciliação. Ele era louco pela mulher.

VIII
José Assunção era mais velho dois anos que o irmão. Tinha nascido em 1922 em Pirajá do Sul e vindo morar no São Caetano, ainda rapazola. Estava com 39 anos de vida, três filhos e uma mulher bonita e trabalhadora.
Embora ele tenha vivido desde cedo no comércio, comprando e vendendo, não tinha tido a mesma sorte do irmão. Quem o conhecia, atribuía seu fracasso à vida mundana de prostíbulos e bebidas. Quanto mais ele ganhava, mais gastava. Seu irmão, ao contrário, era um mão-de-vaca, um sovina, um muquirana. Os mais íntimos diziam que Juquinha só abria a mão na hora de receber a hóstia ou rezar o padre-nosso.
Seu Zito nunca se firmava comercialmente. Sempre vivia à sombra do irmão. As pessoas diziam que ele era mais inteligente do que Juquinha e o igualava em honestidade. Sua mulher e os seus filhos, com todos os percalços, adoravam-no. Alguém se atrevesse falar do pai ou do marido. Para eles, Zito era um ingênuo, não tinha nada nas mãos, por isto, não tinha tido a mesma sorte do cunhado e do tio.
Zito ao contrário do irmão, era um homem alto, moreno, extrovertido, acreditava-se que tinha puxado à família do seu pai, enquanto Juca tinha puxado à mãe até na altura. Entretanto, com todas essas diferenças físicas e psicológicas, Zito e Juca se adoravam, podiam brigar ou discordar um do outro, mas tudo virava às avessas se alguém intercedesse a favor de um deles, mesmo as suas mulheres ou os filhos.


IX
Ano de 1961, os negócios da família Juca cresciam a olhos vistos. As duas casas comerciais tinham um estoque considerável. Juca só comprava a dinheiro, a pechincha e os descontos eram uma praxe nas negociações de Juca com os seus fornecedores. Se o fornecedor não oferecia o produto com bom preço e qualidade, ele não comprava e procurava outro fornecedor. Juca já falava em diversificar seus lucros em fazenda de cacau e pecuária.
Ninguém duvidava dos projetos de seu Juquinha. Quando ele falava para família seu próximo passo comercial, era porque já tinha construído de maneira discreta, as condições e os recursos para essa finalidade. Por isto, todos da família sabiam que era questão de oportunidade para ele se tornar um próspero fazendeiro de cacau ou de gado. Sabiam também, que daquele momento em diante, ele ia ficar na espreita igual uma onça quando quer abocanhar sua presa.
Sua estratégia para comprar alguma coisa relevante era soltar uma conversa aqui, outra conversa ali, quer mas não quer, não é pra mim, não tenho dinheiro, isso é para o futuro, assim, ele ia espalhando o bote... A noticia espalhava-se como fogo de monturo e as ofertas começavam aparecer. Dessa maneira sorrateira, ele tinha comprado as duas casas comerciais e outros imóveis urbanos.
Quando alguém lhe oferecia algo para comprar, tinha como princípio dizer não. Não lhe interessava por esse ou aquele defeito. O valor sempre estava superfaturado, o sicrano ou o beltrano estava escorchando, daquele jeito não tinha necessidade e não queria vender o produto e, por sua vez não tinha nenhum interesse em adquiri-lo e com esse jogo de esconde-esconde, acabava realizando seus intentos.


X
Final do ano de 1962, seu Juquinha tinha finalmente, adquirido uma sesmaria de terra. Exagero dizer sesmaria, porém era uma fazenda com uns 500 hectares. Tinha sido um negócio intermediado por Leôncio Félix. A fazenda estava maltratada. Tinha sido de um casal idoso. Seu Juquinha tinha dado em troca dela, três casas residenciais modestas na cidade e um bom valor em espécie. O negócio tinha sido tão vantajoso que na hora de escriturá-la, Seu Juquinha sugeriu ao tabelião que se acrescesse o seguinte: “Fazenda Ouro Achado, antiga Três Corações”.
Realmente, não podia ter encontrado outra mamata melhor. Embora a fazenda estivesse maltratada, possuía umas cem cabeças de gado, uns duzentos hectares de cacau (era mista), produtivo. A sede era uma casa grande e avarandada. Tinha seis quartos, três banheiros, duas salas enormes, uma cozinha grande e um reservatório com capacidade para 5000 l de água que recebia água encanada contínua de um minadouro de uma serra, quando o reservatório excedia sua capacidade, a água descia por um “ladrão” para uma enorme presa que ficava nos fundos da casa numa distância razoável. A presa possuía um sangradouro para dar vazão da água acima do seu nível. Na parte baixa da presa havia construído uma espessa alvenaria que servia para as pessoas pescarem sentados nela ou para a molecada pular de cima dentro d´ água.
A fazenda ainda dispunha de três ou quatro avenidas de quartos para trabalhadores solteiros e quatros casas para trabalhadores casados com mulher e filhos. Currais e estábulos para gado leiteiro. Só tinha luz elétrica na casa do patrão e na casa do gerente, mesmo assim, com um motor a diesel de poucos cavalos, acoplado a umas baterias de caminhão que sustentavam meia dúzia de lâmpadas por duas ou três horas com um dispositivo que à medida que luz ia perdendo a intensidade o motor automaticamente tornava funcionar re-carregando as baterias.
Juca convocou seu irmão Zito para tomar conta da roça. De início o irmão ficou irredutível. Alegando que não poderia sair da cidade, deixando mulher e filhos em idade escolar para se embrenhar na roça e ir “arrastar cobra”. Seu irmão Juca procurou persuadir-lhe:

- Zito, aqui na cidade não existe mais possibilidade de crescimento. Na fazenda, além do salário que lhe pago aqui, você terá 25% do lucro líquido anual, você sabe quanto isto representa?
- Juca, eu gosto muito de você, porém, sua fazenda tão cedo não terá boa produção! Além disso, tenho aqui, mulher e filhos na escola.
- Você não está enxergando as possibilidades potenciais que essa fazenda representa. Ela tem 200 ha de cacau produtivo e umas cem cabeças de gado. Ela está maltratada, mas eu vou lhe dar mais 50 homens por seis meses, para você deixá-la limpa, tirar todos os brotos, cabrocar e vou comprar mais uns vinte garrotes, garanto-lhe que daqui um ano, se não houver intempéries, você estará cheio de dinheiro. Além do mais, não é necessário levar os filhos, eles ficam lá em casa como os meus. – Teceu tanto que o irmão mudou-se pra fazenda com mala e cuia com a mulher.


XI
Juca tinha razão, quatorze meses depois, os resultados do cacau foram promissores. A produção quintuplicou, o gado já estava em ponto de corte e as vacas leiteiras sustentavam de leite os trabalhadores e ainda sobrava leite para se fazer queijo e coalhada. Juca era decerto um iluminado!...

XII
Alguém já disse que o homem que não é supersticioso não tem alma. Juca era supersticioso e beato por natureza. Se não fosse a vocação comercial, o desejo de ganhar dinheiro, ele seria padre. Este desejo crescente contrastava com sua fé. Os amigos brincavam dizendo: “Juquinha vai à igreja barganhar com o Senhor e sempre sai ganhando”. Havia uma certa maldade dos amigos. Juquinha era um homem bom, aprendeu ganhar dinheiro no início da vida por necessidade, depois vestiu o hábito do monge às avessas, acostumou-se acumular.
Acordou naquela sexta-feira 13 com pressentimentos ruins, maus agouros, sentia que alguma desgraça estava a caminho. Fez suas orações matinais, pegou o carro e saiu cedo ainda, deixou mulher e filhos na cama.
Após algum tempo rodando pela cidade, sem rumo certo, passeando à toa, foi para sua filial. Lá, os empregados já estavam apostos, o gerente com voz de comando sugeria novas ações para aquele dia. Seu Juca entrou, cumprimentou todos de maneira cortês e dirigiu-se para seu escritório que ficava no fundo da loja. Depois de mexer em alguns papéis espalhados sobre a escrivaninha, encontrou uma carta. Leu o nome do remetente (não o conhecia), observou que lhe estava endereçada. Não a abriu. Não era uma carta comercial, pelo envelope sem selo ou carimbo dos Correios e pelo sobrescrito, pareceu-lhe uma carta anônima à primeira vista. Por isto, chamou o gerente:
- Mendes quem entregou esta carta? – O gerente pegou a carta, leu o sobrescrito e respondeu:
- Seu Juca, não sei!... – E como ela vai parar em cima da minha mesa? – O gerente estava parvo e atrapalhado, não admitia que algo ocorresse em baixo do seu nariz e ele não tivesse conhecimento. Será que havia entre seus prepostos alguém querendo-lhe puxar o tapete para assumir o seu lugar? Depressa, começou remediar o fato:
- Seu Juca, dê-me por favor essa carta um instante, nem que tenha de demitir todos os funcionários, alguém terá que me dizer porque a colocou em seu escritório sem passar por mim, exceto, se a entregou à Srta. Marlene (secretária particular do seu Juca), mas terá que aparecer quem a colocou aqui, afinal, carta não tem pernas!... – Juca começou amenizar o problema – Calma rapaz, não se pode demitir alguém por não se encontrar o culpado e não sabemos se existe culpado. Primeiro, vamos aguardar a minha secretária, talvez, ela saiba quem a entregou; depois, iremos ler a esta carta, pode ser alguma coisa de somenos importância. Chamei-lhe aqui porque não conheço o remetente e não vem dos Correios – neste momento, a secretária, Srta. Marlene chega ao trabalho, cumprimentando o gerente e o patrão:
- Bom dia Senhores! Atrapalho? – Não, senhorita. Pelo contrário, poderá nos ajudar... quem lhe entregou esta carta? – A moça pegou a carta, a examinou, enfim, lembrou-se:
- Esta carta seu Juca, foi entregue pelo Natanael que trabalha no mezanino. Ele me disse que a encontrou numa das prateleiras e mandou lhe entregar. Está endereçada ao senhor. – O gerente ameaçou convocar o empregado, foi retido pelo patrão:
- Não, Mendes. Já sabemos como ela vai parar aqui no escritório. Acredito que Natanael não terá outra explicação além dessa que a senhorita Marlene deu. Pode voltar ao seu posto. Hoje, é sexta-feira, final de semana, a maioria dos trabalhadores gosta de fazer feira neste dia.
Quando os empregados deixaram sua sala, Juca sentou-se em sua cadeira funcional móvel, frente à sua escrivaninha e começou abrir a carta pausadamente. Era um carta escrita com letra de forma e inteligível. O pseudo-remetente inicia desculpando-se por não se identificar. Em seguida descreve um rosário de situações suspeitas envolvendo D. Flor e Leôncio Félix. Termina a missiva dizendo que muitos moradores do São Caetano eram testemunhas por ouvir dizer; outros, tinham flagrados pessoalmente o casal prevaricando. Diziam ainda que os seus empregados da matriz eram as testemunhas mais significativas. Não os tinham denunciado para não comprometerem os seus empregos, ninguém se atreveria no período de vacas magras, colocar o seu pescoço no patíbulo. Além disso, muitos criam que havia um certo conformismo não explícito e conveniente dele, não foi Leôncio Félix que lhe propiciou uma sesmaria de terra por preço de banana? Quando Juca terminou de ler a carta, quedou-se sobre a mesa. Não podia acreditar que tanta infâmia fosse verdade. Teria sido sua mulher tão pérfida e de tanta maldade? Seu amigo tão calhorda? Não, não era possível, deveria estar tendo um grande pesadelo!... Adormeceu em cima da carta.
XIII
- Seu Juca... seu Juca... seu Juca, o senhor está bem? – Acordou-o, a secretária apavorada. Ele levantou-se, extremamente pálido:
- Senhorita Marlene, chame o Mendes e venham aqui depressa, quero-lhes passar algumas instruções, tenho que viajar. – Juca avisou-lhes que iria passar dois ou mais dias fora, que eles assumissem a direção da empresa, que comprassem de acordo às demandas e não deixassem faltar nenhum produto nas prateleiras. O resto da receita, eles depositassem na conta da empresa. Iria à fazenda resolver um problema imediato que não informassem o seu paradeiro a ninguém e não tomassem nenhuma decisão contrária daquelas que ele estava lhes dando, senão, não gozariam mais de sua confiança.

- Nem de D. Flor, seu Juca? – Não, rapaz de ninguém. Estou depositando a minha confiança na capacidade administrativa de vocês, não quero me decepcionar. Gostaria que o Sr. Mandes levasse isso (entregou-lhe um bilhete), para D. Flor.

XIV
A Voz da Liberdade era formado por meia dúzia de alto-falantes e um estúdio moderno para os padrões da época. Trabalhava na Voz da Liberdade, três locutores (um por turno), três discotecários, um diretor de programação e um diretor comercial, além do proprietário. Não era uma emissora de rádio, mas tinha uma estrutura que fazia inveja às pequenas emissoras de rádio do interior. Tinha todos anunciantes do São Caetano, seus jingles ganhavam pela sonoridade e criatividade. A Voz da liberdade anunciava óbitos e o horário de sepultamento, casamentos, aniversários, últimas notícias do Brasil e do estrangeiro, prestava serviços sociais, enfim, era um serviço de comunicação à altura dos moradores e do comércio do lugar.

- Senhor Francisco, recebi esta carta ontem, posso incluí-la na programação, abrindo o editorial? – Francisco, diretor de programação, leu a carta, fez algumas conjecturas sobre a maldade humana, respondeu:

- Meu rapaz, quantos anos você tem? – Fiz 22 anos no mês de julho deste ano. – Mário, deixa pra lê-la quando completar os 50 anos de vida, você quer morrer na flor da idade? – Perdoe-me senhor Francisco, mas não ouço outra coisa aqui, senão, a defesa da liberdade de imprensa, inclusive, sorrateiramente, os senhores peitando os militares de plantão no governo – Você tem razão Mário, combatemos idéias déspotas e prisões injustas de compatriotas, todavia, não mexemos e não gostamos de mexer em assunto de família, denegrindo a honra de A ou de B, honra lava-se com sangue. Carta anônima é coisa de covarde, que destrói pessoas por trás de um anonimato. Iremos incluí-la na programação dando uma resposta contundente a esse escroque da sociedade, jamais iremos abordar problemas de infidelidade mesmo que tivéssemos uma montanha de provas, isto é assunto de velhas mexeriqueiras que não têm o que fazer.
Mário saiu da sala do diretor bufando de raiva, era um locutor novo, queria dar todas informações, mas, entendeu que o diretor de programação tinha sua razão, não era justo transformar a imprensa em um serviço de aleivosias e perfídias em informações sérias e necessárias aos interesses da comunidade, ainda mais informações embasadas em carta anônima.
À noite, Mário com seu vozeirão, lia uma nota da redação, explicando que a Voz da Liberdade não estava a serviço de atitudes espúrias, de mexericos, de pessoas inescrupulosas que se escondiam em cartas anônimas para denegrir e desonrar pessoas de bem que contribuía para o progresso daquela comunidade. Que o serviço da Voz da Liberdade era usado para o crescimento e a preservação de princípios morais edificantes e na defesa da família grapiúna. Leu a nota duas ou mais vezes. A maioria das pessoas que estavam na praça passeando, soube pelos burburinhos e cochichos que era uma resposta aos comentários que se arrastavam ao longo de meses de Leôncio e Flordeliz Alves Assunção, a conhecida D. Flor, mulher casada com um homem empreendedor e de ilibada conduta moral, Juca Assunção.


XV

Zito não sabia mais como proceder para tirar o irmão daquele marasmo, daquele acabrunhamento. Juca taciturno, lia o tempo todo àquela carta, parece que queria descobrir na repetição da sua leitura, as respostas para amenizar seu desespero. Sua cunhada, também, lhe fazia todos gostos. Inventava as mais variadas comidas para despertar a comilança do Juquinha e levá-lo esquecer os seus problemas conjugais. E, aconselhava-o

- Compadre Juquinha, dê tempo ao tempo. Mande comadre passar uns tempos na capital. Nesse ínterim, o senhor terá tempo e cabeça para apurar os fatos. Pode ser aleivosia dessas pessoas, elas são invejosas, querem atrapalhar sua vida e a de comadre.- Zito concordava com a mulher e acrescentava:

- Meu irmão, a mulher tem razão. Nesse mundo de meu Deus o que não falta é inveja e olho grande. Não sabemos também até que ponto essas infâmias são verdadeiras. Gosto muito de comadre e não acredito em um til no que lhe enviou esse maluco ou essa maluca. Se você não quiser mandar comadre para capital, mande-a para aqui que Joana irá cuidar dela como se fosse uma irmã. Aqui ela não será descoberta e você cuidará do restante. Mesmo que seja verdade, você não irá deixá-la na miséria, ela é mãe dos seus filhos. Nada melhor que os pintos fiquem sob as asas da galinha. Ela também tem seu merecimento, muito lhe ajudou!...


XVI
Não foi necessário Juca levá-la para Salvador. As circunstâncias foram atropelando os fatos. A esposa de Leôncio Félix, também, tinha recebido uma cópia da carta. Como era uma mulher atirada, destemida e barraqueira, quebrou o pau com o marido e fez um furdunço na porta de Juca chamando à atenção da rua. Foi um bafafá, um Deus nos acuda, a mulher de Leôncio era mesmo uma maluca e D. Flor ficou na casa do sem jeito e sumiu com as economias que tinha na calada da noite.
Leôncio também mandou-se para sua roça com ajuda do filho militar, senão, seria esfaqueado pela mulher.
- Mãe, isso é coisa de homem! Ninguém é santo, quem acha encaixa. A senhora quer ir para cadeia, querendo matar o seu marido?...




XVII
O tempo é o senhor da razão. Nada melhor do que um dia após o outro. Juca voltou para os seus afazeres. Embora Juca continuasse arredio, conversando com os seus clientes só o necessário, não demoraria retornar à rotina e às festividades de sua igreja. O pároco, depois do seu afastamento, tinha-lhe feito diversas visitas. Nelas, sempre invocava o perdão e a solidariedade.

- Lembre-se do que Cristo respondeu aos escribas e fariseus da mulher que foi encontrada em pecado: “quem não tem pecado atire a primeira pedra”. De fininho foi saindo um por um, principalmente, os mais velhos...

- Frei Raimundo, Jesus é o pai de todos nós. Qual é o pai que não perdoa seu filho? Não possuo esse desígnio de perdoar. Entretanto, desejo que eles sejam felizes – o amado e a amante - , porém, nunca vou esquecer que eles foram desleais e traidores. Por desencargo de consciência, dei-lhe uma casa em nome dela e dos filhos em um dos melhores bairros de Salvador e mando-lhe uma pensão mensal. – Frei Raimundo ficava sem argumento.

XVIII
Dois anos depois:

- Mandou me chamar patrão? – Sim. Estava fazendo o quê? – Estava cabrocando naquela parte da roça onde mora João Dias. – Tenho um serviço extra, que exige perícia, confiança e lealdade. Perícia eu sei que você tem, preciso, entretanto, saber se você é confiável e leal!... – Patrão, pelo jeito a coisa é séria? – Sim. É Leôncio... você disse que quando eu quisesse... chegou a hora! – Palavra dada patrão, palavra emprenhada. Diga onde e quando, este negro aqui, nunca falhou com os amigos. Pensei até que já tinha esquecido. – Não, estava esperando a poeira baixar. Cuidado com a língua, ele tem um filho sargento da polícia e Juca não quer nem ouvir falar nessas coisas... – Deixe comigo, conheço a natureza do seu Juquinha, é homem de igreja.
XIX
Um mês depois o São Caetano estava em polvorosa. A polícia militar, por corporativismo, estava em todo lugar. Leôncio Félix tinha sido assassinado com um tiro na testa, dois quilômetros depois de sua roça. Não havia vestígios do assassino. Leôncio Félix recebeu um tiro num lugar mortal em um caminho de mata fechada às 17:00 horas de uma quinta-feira. Seu animal retornou intacto para roça com sela e alforje.
Supunha-se que tinha sido um crime de mando e feito por um profissional. Além de não terem roubado nada, encontraram ao pé de uma frondosa jaqueira, um embornal com resto de farinha e pontas de cigarro no chão. O assassino tinha escolhido estrategicamente aquele lugar, ficava na saída de uma curva e pouco antes de uma cancela. Se o primeiro tiro não fosse mortal, o cavaleiro não teria tempo e condições de abrir a cancela, teria que voltar, oferecendo as costas ao chumbo de clavinote.

Muitos desafetos da vítima foram ouvidos pelo delegado, inclusive, o negociante de secos e molhados e fazendeiro, Juca Assunção. Como era de praxe para pessoas abastadas, levou consigo dois advogados. Provou que não tinha o menor interesse na morte de Leôncio Félix, que sua vida tinha voltado à normalidade há dois anos e tanto. Estava noivo e sua ex-mulher fazia parte do passado. Sugeria ao delegado, data vênia, que outras vítimas de Leôncio Félix fossem ouvidas, já que ele possuía uma lista enorme de inimigos. Ele era um homem de igreja e do trabalho. Não tinha tempo para ficar maquinando morte de ninguém.
O filho militar de Leôncio, sargento Dico, foi o primeiro a descartar qualquer participação de Juca no crime. Achava-o por demais religioso e íntegro. Lastimou em diversas ocasiões os problemas conjugais do casal Assunção em que seu pai tinha sido o principal agente.

XX
Na Fazenda Ouro Achado, o negro Teodoro recebia do senhor Zito Assunção, os elogios pelo serviço assim que a notícia da morte de Leôncio tornou-se pública:

- Negro, gostei do serviço. Juca não pode nem sonhar que estou por trás desse crime. Comprei a rocinha de Manoel das Onças para você. Não precisa ninguém saber que lhe dei. Espalhe que tinha guardado comigo umas economias com essa finalidade. Ainda lhe darei seis meses de salário para você tocar sua roça com tranqüilidade.
- Patrão, já que o Senhor comprou não vou lhe fazer desfeita. Não vou trabalhar lá. Nela vou botar um irmão que anda arrastando cobra para os pés no roçado dos outros. Enquanto o senhor me quiser, estarei à disposição. Em relação ao serviço do canalha, não se preocupe, não fui mandado pelo senhor. Fiz porque considero seu Juca como um pai, tive pena do pobre naqueles dias que passou aqui todo macambúzio, jurei para mim mesmo limpar a honra do patrãozinho, estava somente esperando o momento oportuno.- Zito lhe agradeceu. Ponto final, vamos trabalhar, quem trabalha Deus ajuda.
XXI
Dez meses depois da morte de Leôncio Félix, morre na capital, nos braços dos filhos, Flordeliz Alves Assunção, D. Flor para os amigos e parentes. Morreu esquecida e ultrajada. Seu nome no lugarejo do São Caetano, era emblema de mulher desavergonhada. Não tinha lamentado a morte do ex-amante, pelo contrário, tinha sentido uma pontinha de satisfação e vingança. Tinha certeza que não tinha sido Juca, o conhecia como ninguém. Ele seria incapaz de matar uma barata. Quando fugiu, o fez por remorso e vergonha e não por medo dele.
Prestes a morrer (sérios problemas de cardiopatia), escreveu para o ex-marido pedindo perdão. Na carta, dizia-lhe que não iria viver muito tempo e queria seu perdão. Não se eximia da culpa mas tinha sido ludibriada pela lábia do seu sedutor. Não acreditava em feitiço, porém, seu envolvimento com seu ex-amante só tinha essa justificativa.
Disse-lhe que ainda o amava e o admirava. Na sua falta cuidasse dos filhos e de seus estudos.
Ele nunca respondeu suas cartas. Quando escrevia, escrevia para os seus filhos. Suas cartas eram para saber se eles estavam precisando de alguma de coisa, como iam nos estudos se eles viriam passar as férias na fazenda, se estavam gostando da escola etc, etc. Porém, não fazia nenhuma referência à mãe deles.
Juca soube muito bem cultivar o desprezo pela ex-mulher. Se ele a tivesse batido ou a tivesse agredido fisicamente, ela não teria sofrido tanto quanto tinha sofrido no seu auto-exílio.

XXII
A igreja estava repleta. Pessoas da alta sociedade tinham sido convidadas. Zito, a mulher e os filhos estavam sentados na primeira fila. Os fotógrafos disputavam os lugares estratégicos. Os padrinhos dos noivos estavam num lugar especial, perto do altar. A porta-aliança e as crianças incumbidas de ajeitar o vestido da noiva, levar o buquê, espalhar as flores no tapete da igreja, tinham tomado seus lugares. O padre e os sacristãos demonstravam em certo vexame e pressa.
O coro constituído de soprano, contralto, orfeão, tenor e baixo, começou executar músicas sacras e músicas de Beethoven, de Mozart e Haendel, enquanto os noivos não chegavam, para deleite da platéia.
Juca, para não quebrar a tradição do casamento, chegou junto com os filhos antes da noiva. Estava nervoso mas feliz. Seus filhos não se cansavam de abraçar e acariciar o pai, pareciam contentes.
A noiva estava linda. Não parecia nada com a secretária perfeccionista e preocupada do dia-a-dia das casas J&F Ltda. (o logotipo da empresa ficou o mesmo, onde se lia: Juca e Flor, lia-se agora, Juca e Filhos). A senhorita Marlene Marióstenes, passaria doravante, assinar Marlene Marióstenes Assunção, esposa do empresário e fazendeiro Juca Assunção.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero Literário: Conto
Texto livre
Proibido plágio ou modificação
15/01/2007


Bichinho de pelúcia
R. Santana


I

No dia 13 (não sei se era uma sexta-feira) de janeiro do ano 2005, o jovem executivo Dalton Bianchini, acordou cedo com uma missão inadiável: comprar um bichinho de pelúcia para presentear sua filha Júlia que fazia 10 anos de idade naquele dia. Uma tarefa simples, ele poderia usar até um dos seus prepostos da sua empresa para comprar um brinquedo no Shopping da primeira esquina, o objeto de desejo de Julia, no dia anterior, na hora de dormir, ela cobrou:
-Papai, amanhã será o meu aniversário, não esqueça do meu bichinho de pelúcia!
Levantou-se cedo, antes de sair, foi ao quarto de Júlia, deu-lhe efusivos e carinhosos parabéns, fez um desjejum rápido e saiu. Noutros dias, saía de casa um pouco antes das 9 h, mas naquele dia, tinha que tomar algumas providências internas na sua loja de auto-peças, antes de atender os seus clientes.
Saiu de casa com uma dor no peito inexplicável. Não era uma dor física, mas um crescente mal estar, uma angústia que se manifestou ao longo do dia de trabalho. De quando em quando ouvia a voz de sua mulher, recomendando que chegasse cedo em casa para celebrar o aniversário da filha:
-Dalton chegue cedo, só iremos cantar os parabéns quando você voltar!
-Não se preocupe, à tardinha, quando o movimento da loja estiver fraquinho, irei comprar o presente de Júlio e virei direto para casa. – prometeu.

II
Palavra dada promessa cumprida. Às 17h e 10 min, Dalton tomou as últimas providências de praxe na empresa, pegou o carro e entrou na avenida que levava ao Shopping Mar&Mar, o principal centro comercial varejista de Ilhéus e das cidades circunvizinhas.
Não foi fácil encontrar um brinquedo de pelúcia que atendesse às exigências de Júlia. Não que faltassem brinquedos, mas pelo excesso deles. Dalton já tinha percorrido algumas lojas que lhes apresentaram uma quantidade variada de bichinhos em beleza e preço. Ele não estava preocupado com o preço, Júlia lhe era especial e o seu dia natalício também, por isto, mandou enrolar um lindo e grande Scoby Doo.
Ela não queria boneca tão comum em sua idade. Com fixação em desenho animado, Scoby Doo era o seu principal herói virtual, então, pediu que o seu pai o transformasse em pelúcia.

III


A senhora Bianchini já tinha subido e descido várias vezes as escadas de sua residência. Era um duplex com designe arquitetônico moderno. O prédio ficava numa área com garagem, jardim, piscina e uma quadra esportiva com gangorra, trepa-trepa, balanço, escorregadores e outros brinquedos de recreação.
As mesas e as cadeiras da festa já tinham sido distribuídas e arrumadas na garagem e na quadra. Afora as três empregadas, Mary Bianchini tinha contratado um buffet que tinha providenciado os quitutes, os tira-gostos, a bebida e a arrumação do ambiente.
Às 19:00 horas, o nervosismo da senhora Bianchini era visível. Os convidados e os colegas de Júlia começavam chegar e o seu marido não retornava do trabalho. Já tinha ligado para meio mundo, mas a resposta era a mesma: tinha saído quase no final do dia para comprar um presente pra filha.

IV

À saída do Shopping, na área de estacionamento, Dalton é arremessado por um automóvel, dirigido por um jovem e imprudente motorista. Um acidente besta, imprevisível, numa área bem sinalizada e a velocidade desenvolvida pelos automóveis, é inferior a 20 km/h, gravidade maior é que no atropelamento uma das pernas teve uma fratura exposta.
Dalton estirado no chão, agarrado ao bichinho de pelúcia (protegeu-o com o corpo), gritava com dores lancinantes. Tentou levantar, mas debalde, preferiu ficar deitado no asfalto e gritar por socorro.
Constrangia-lhe o ajuntamento de curiosos e a dor tornava-o mais desesperado quando pensava que naquela hora, sua família o esperava para comemorar o aniversário de Júlia.
A ambulância não tardou chegar ao local do sinistro. Todas as providências de socorro foram tomadas pelo pessoal da administração do shopping e o jovem atropelador também não foi omisso em socorrer-lhe.


.
V
-Dr. Armando, chegou nesse instante no pronto-socorro um homem atropelado por um carro, com uma fratura exposta na perna direita, aparentemente, só teve isso – avisou-lhe a enfermeira.

- Senhorita, eu estou de saída. Hoje é o aniversário de minha filha mais nova e a minha mulher já ligou uma dúzia de vezes. Procure outro!...
-Doutor, eu já procurei outros cirurgiões da área, ninguém responde, os celulares estão em caixas-postais ou fora de área. Parece-me que todos estão combinados ou falta de sorte desse senhor que está gritando de dor. – argumentou.
-Peça ao médico clínico, aplicar-lhe umas injeções à base de codeína ou tromadol para conter as dores do paciente até os médicos plantonistas chegarem.– estava irredutível.
-Doutor, eu ouvi dizer que é um rico empresário, inclusive é conhecido por alguns funcionários daqui. O clínico que me pediu para lhe falar. Desculpe-me doutor, mas se esse homem tiver qualquer problema, vão lhe acusar de omissão. – sentenciou sua secretária.
-Oficialmente, o computador vai dizer que não estou mais aqui. Há uns 10 minutos que fechei a pauta da minha freqüência. Informe ao Dr. Cazuza que não me encontrou. – sugeriu-lhe.
-Doutor, há um provérbio popular que “a corda quebra no lugar mais fraco”, não vou mentir. – respondeu-lhe.
-A senhorita está desafiando-me?! – perguntou-lhe nervoso.
-Não, não, porém, eu não serei culpada se alguma coisa ocorrer. Se chamada para prestar algum esclarecimento, irei dizer que lhe dei o recado do médico clínico. O senhor assuma seus pepinos. Tenho família para sustentar e preciso deste emprego. – ela estava decidida.
-Tudo bem, vai lá diga ao Dr. Cazuza que tome todas as providências e faça os procedimentos necessários antes de encaminhar o paciente para sala de cirurgia – quando a enfermeira Mônica ia saindo:
-Não se esqueça de avisar ao anestesista! – estava fulo de raiva.

VI
Doutor Armando não era má pessoa, era um profissional responsável, humano, todavia, como todo ser humano tinha os seus dias de fraqueza. Naquele dia seria a festa de aniversário da filha mais nova. Demais estava de saco-cheio. Se não tivesse feito o juramento de Hipócrates, não teria atendido os apelos de sua enfermeira, que tudo fosse para o inferno!... Gostava da profissão, mas para manter o padrão social da família e as crescentes despesas educacionais dos filhos em detrimento de uma política de governo de salários achatados na saúde, exigia que o profissional trabalhasse cada vez mais.
Por outro lado, Dalton Bianchini não tinha problemas financeiros imediatos, mas naquele dia 13, ele acordou com urucubaca. Pense em um dia que tudo sai errado? Pensou? Pois, esse foi o dia de Dalton. Saiu de casa com um mal estar inexplicável, na empresa teve que passar o dia driblando maus clientes e solucionando problemas. Se não fosse o diretor da empresa não teria saído para comprar o presente de Júlia, pareceu-lhe que todos os problemas da empresa tinham despencado de uma vez em sua mesa de trabalho. No final da tarde, deixou que o tempo e o destino se incumbissem da solução dos problemas e comunicou à secretária:
-Senhorita Sílvia, não estou mais para ninguém. Algum problema agende-o para amanhã. Tenho que ir comprar o presente de Júlia. Eu e Mary não lhe dispensamos à noite.
Para cumprir os maus presságios, surge um jovem inconseqüente, que entra num estacionamento de um shopping como se estivesse numa pista de mão única e fosse o dono do asfalto que estivesse à sua frente, deixando a preocupação e os riscos com o motorista que viesse à sua traseira.

VII

-Alô, é dona Mary?
-Sim, o quê deseja?
-Dona Mary, aqui é do hospital Santo Antônio... – foi abruptamente interrompida.
-Hospital? Meu Deus... O quê houve com Dalton!? – estava desesperada.
-Calma senhora, foi um acidente...
-Acidente?
-Sim, mas tenha calma, tudo está sob controle. O senhor Dalton foi atropelado por um carro e fraturou a perna direita... – foi interrompida mais uma vez.
-A senhorita me pede calma e meu marido aí hospitalizado!!! – gritou.
-Por favor, senhora, nada de pânico. Seu marido está lúcido e pediu-me para que não estragasse o aniversário da garota com sinistras notícias, logo, ele estará em casa. – tentou tranqüilizá-la.
Mary era impulsiva, não fez alarde, mas dispensou os convidados, informando-lhes os fatos e rumou-se para o hospital...

VIII

Um dia depois. Dalton estirado numa cama de hospital com a perna direita parafusada, enfaixada, mantinha certa fleuma, parecia menos desesperado que a mulher e os filhos. O pós-operatório era traumático, ainda sentia dores e o mal estar dos aparelhos, mas procurou dissimular com a entrada de Júlia no apartamento:
-Vem cá querida! - abriu os braços. Júlia choramingando, abraçou-se ao pai calorosa.
-Calma querida, o pai está inteiro (riu e apontou os aparelhos), mesmo com essa perna quebrada. Quero lhe dar os parabéns, mesmo extemporaneamente... – brincou. Clamou à enfermeira:
-Senhorita, que é de o nosso bichinho? – Mônica saiu e voltou logo depois com um objeto enrolado de papel presente e amarrado de fitas e entregou-o ao senhor Dalton.
-Pensa que me esqueci da minha princesa?... – entregou-lhe o pacote. Júlia abriu o embrulho, extasiada gritou:

-Meu bichinho de pelúcia, meu bichinho de pelúcia, meu bichinho de pelúcia!...




O Excêntrico
R. Santana

I
Ele tinha um pouco mais de 70 anos, não aparentava. Tinha herdado do pai a compleição e a cor do europeu germânico e da mãe, o temperamento caboclo da Região Norte. Calado e desconfiado, tinha construído ao longo desses setenta anos, uma fortuna em ações de empresas estatais e privadas brasileiras, títulos da dívida pública, títulos de prazo fixo, depósito em poupança, além de uma quantidade significativa de imóveis urbanos, José Amadeu Wolfong, conhecido por Amadeu, só não investia em propriedades rurais, tinha ojeriza à vida campestre, era um indivíduo de hábitos burguês. Depois de velho tinha se refugiado em pequenas cidades, levando uma vida simples e anônima. Soturno e arredio, seu Amadeu não despertava nenhuma atenção de homem rico. Se apresentava como um funcionário público de carreira aposentado.
II
Em maio de 1986, comprou no centro da cidade litorânea de Canavieiras, que fica às margens do rio Pardo, em frente para o mar no Sul da Bahia, uma modesta casa onde morava sem parente ou aderente, deixando os afazeres domésticos a cargo duma robusta negra de meia idade. Viúvo e sem filhos e perdido o vínculo dos seus parentes pela distância e pelo tempo, tinha feito dele um velho solitário, carente de afeto e cuidados, essa negra o estimava como um pai. Cuidando de suas roupas, dos seus chás, de sua comida e quando necessário, levava-o ao médico em raras vezes, face ele ter horror a remédios convencionais, médicos e hospitais, além dele ter uma saúde invejável para sua idade. Tinha aprendido com a mãe valorizar os remédios caseiros. Possuía receitas para todos os males. Guardava como relíquia um velho livro herdado de sua mãe, “As Plantas Curam”, que era um repositório de diagnósticos, profilaxias, terapias, indicações, uma verdadeira panacéia.
III
Não confiava em ninguém. Aprendera com o pai uma lição oriental que um judeu colocava seu filho sobre à mesa e pedia-lhe que pulasse, amparando-o antes de atingir o chão. A criança já repetia isso mecanicamente, numa atitude condicionada, até um dia que caiu estatelado. Seu pai lhe tinha negado propositadamente os braços e como lição: “filho, não confie em ninguém! Nem mesmo em seu pai...”, por isto, seus negócios eram dirigidos à distância por telefone fora do horário de expediente, quando a negra retornava para sua casa à noite. Um de seus apegos por ela, era que ela não sabia ler e escrever e tinha uma mentalidade curta, incapaz de articular e interpretar raciocínios complexos.
Quando mudava de uma cidade para outra (não demorava mais de dois ou três anos), uma de suas providências imediatas, era adquirir uma linha telefônica e uma caixa postal. O telefone era trancado à chave em seu quarto, empregada não era autorizada passar ou receber chamada telefônica e se por descuido o fizesse, não o faria de novo, era sumariamente despedida. Seu contador e administrador dos seus negócios, recebia orientação para não passar nenhuma informação aos seus empregados domésticos, além de um aviso de retorno.
IV
Otávio Macedo administrava os seus negócios há uns 20 anos. Poder-se-ia dizer que era seu amigo incondicional se não fosse as restrições que o velho Amadeu colocava nas relações comerciais e contratuais. Delegava para o seu contador procurações específicas, para comprar ou renegociar locações. Nunca delegava procurações para vender ou permutar um dos seus imóveis, quando urgia uma necessidade, ele comparecia pessoalmente, estivesse onde estivesse. Otávio teria que informá-lo através de planilhas padronizadas, as receitas mensais e os recibos de depósitos. No final do ano fiscal, fazia questão que a Receita Federal, fosse informada de cada centavo que tinha entrado em sua empresa imobiliária e, não menos cuidadoso com sua declaração de renda de pessoa física e os tributos municipais. Amadeu era um homem desconfiado mas extremamente direito. Não teria consistência nenhuma acusação maledicente de má fé que ele tivesse praticado às pessoas ou instituições. Tinha como filosofia: “ninguém engana o governo, porém, engana o irmão, diminuindo as ações solidárias do estado pela sonegação dos tributos. Se os governos não cumprem suas obrigações constitucionais, não quero ser cúmplice e partícipe desse pecado.”.
V
Estava em Canavieiras há dois anos. Chegou para descansar uns dias, gozar a beleza das praia da Costa, da Atalaia, tomar “banho” de lama na Ilha das Garças ou ver o pôr-do-sol da ponte Lloyd do rio Pardo, degustar a moqueca de caranguejo, o catado de siri, o caldo de lambreta e deliciar as vistas com os corpos esculturais das baianas do litoral e ficou. Embora velho, preservava ainda marcas simpáticas da juventude. Viúvo há anos, nunca entrava de cabeça em relacionamentos amorosos. Gostava de namorar... Era um pé na frente e dois atrás nos seus flertes. Quando seu relacionamento criava limo ou a parceira era viscosa, ele de fininho se mandava.
Depois de dois meses em Canavieiras, na pousada “Recanto da Paz”, acompanhado da negra Filomena de Jesus, a negra “Filó”, sua fiel escudeira desde a finada mulher e responsável pelos pratos apetitosos do patrão. Fiel como uma cachorra pé-dura, adivinhava os desejos mais recônditos do seu benfeitor. Findo esse tempo, ele comprou uma casa para si e outra para negra, pois fazia questão que ela tivesse também sua privacidade depois do expediente de trabalho.
Amadeu ficou conhecido meses depois pela maioria dos nativos da terra. Os seus vizinhos já conheciam os seus costumes do dia-a-dia. Pela manhã não saia de casa. Lia os principais jornais, assistia os noticiários da tevê, fazia seu breakfast. Antes do meio dia, tomava banho, almoçava e saia a circundar pela cidade e parava no jardim principal de árvores enormes e sombreiros. Procurava sentar-se no banco do jardim mais isolado, de preferência que não tivesse ninguém por perto, se aparecia algum desconhecido procurando prosear, era monossilábico no diálogo, cansando e aborrecendo seu interlocutor que percebendo sua má vontade de conversar, se afastava tão sorrateiramente como quando chegou. Às horas marianas, o velho Amadeu voltava para casa, trocava uns dois dedos de prosa com o vizinho e depois do jornal da tevê ia dormir.

VI

Embora os filósofos e sociólogos não acreditem em predestinação, em destino, sobrando para os espíritas a missão de explicar os carmas das vidas passadas e a reencarnação como um processo de aperfeiçoamento espiritual permanente, é como se explica o encontro e a empatia imediata entre o velho Amadeu e o moleque de doze anos, Fábio Sheldon Oliveira, tratado carinhosamente pelos demais por “Fabinho”.
Fabinho não aparentava que tinha doze anos. Loiro, tipo longilíneo, simpático, falante e de maneiras educadas, embora não descendesse de uma família rica e tradicional da cidade, herdara do pai, um professor inglês, que desembarcara em Canavieiras na década de setenta, fazendo turismo ecológico, conhecer a faixa litorânea e adentrar no que restou da mata Atlântica. Depois de dois anos perambulando, conheceu e casou-se com uma linda baiana do lugar e teve três filhos, Fabinho era o mais velho. Versado em vários idiomas estrangeiros, fixou-se no lugar como professor particular, completando seus rendimentos com um contrato na rede estadual e outro na rede municipal para ensinar inglês. Era um homem versátil, com formação universitária em seu país e bastante viajado.
Fabinho vinha da escola, descendo a rua Otávio Mangabeira e numa das transversais tropeça involuntariamente no velho Amadeu, derrubando todos os livros que trazia nas mãos. O velho vexa-se em prestar socorro, abaixando-se de imediato para recolher os livros e remediar a afobação e o constrangimento estampados nos gestos nervosos do jovem estudante.
- Desculpe-me, não tive a menor intenção desse incidente, fui olhar para um carro que vinha atrás de mim e deparei-me abruptamente com o senhor.
- Não se desculpe meu filho, percebi tudo, você não teve culpa, se alguém aqui tem que se desculpar sou eu, derrubei todos os seus livros... – Amadeu devolveu os livros do jovem estudante e apressou apresentar-se:
- José Amadeu Wolfong, todos me tratam por Amadeu, velho Amadeu às suas ordens, tudo em ordem com os seus livros? Não os sujou? – Recuperado do susto e pela espontaneidade do senhor Amadeu, Fabinho soltou-se e extrovertido que era, jovialmente apresentou-se:
- Fábio Sheldon Oliveira, Fabinho para os amigos e inimigos, ao seu dispor. Os livros não estão sujos nem amarrotados, embora tenha chovido esse dias, dei sorte que eles caíram no enxuto. – Feitas as apresentações, o velho Amadeu procurou saber para onde ia o impúbere jovem:
- Vou para casa, à rua São Francisco, nº. ... , venho da escola. – O velho Amadeu, arredio e desconfiado, abriu-se naturalmente para o garoto como se o conhecesse de longo tempo e propôs-lhe que fossem juntos, sendo que ele, primeiro, lhe deixaria em casa e retornaria para o centro da cidade onde ficava sua residência. Proposta aceita, saíram os dois papeando como velhos conhecidos e amigos.

V

Os laços de amizade entre o menino e o velho tomaram feições afetivas que pouco e pouco suas casas tornaram-se lugares comuns. O velho Amadeu passou ser o vô de Fabinho e membro honorário da família. Fabinho passava, agora, mais tempo na casa do vô do que em sua própria casa, para desespero e ciúmes da negra Filó, contido a tempo pelo velho Amadeu:
- Filó deixe de rabugice com o menino. Depois dele esta casa ficou mais alegre. Isto é bom para mim que estou velho e você que já está descambando a ladeira do cinqüenta. Além disso, Fabinho é educado e estudioso, ao invés de brincar, comum em sua idade, passa o tempo todo debruçado nessa mesa e nos livros. Eu, às vezes, insisto para que saiamos ver a cidade. – A negra Filó obtusa que era, demorou entender às novas circunstâncias, mas levada pelo instinto de sobrevivência funcional e pelo o afeto que tinha ao patrão, adequou-se rápida às novas condições.

VI
O senhor Amadeu remoçou. Seu comportamento calado, soturno e solitário, foi substituído por um comportamento mais efusivo e comunicativo. Com Fabinho e sua família, sentia-se como um peixe dentro d ´água: no seu verdadeiro habitat.
Todavia, sua condição econômica de homem rico era mantida e camuflada. Não havia desperdício dentro de casa e menos ainda ostentação. Continuava econômico na manutenção da casa, entre o fausto e o indispensável. Noutras palavras tinha tudo dentro das necessidades do dia-a-dia. Aos domingos e feriados quando não ia à casa dos pais de Fabinho, era costume recebê-los em casa para almoço e janta. Tinha virado rotina o regresso deles para casa, depois das novelas ou do noticiário televisivo. Mais comum era a estada de Fabinho na casa do vô, que ultimamente, tinha-lhe designado quarto permanente.

VII
No final do ano de 1989, desaba sobre a família de Fabinho uma tragédia. Canavieiras e Belmonte são separadas pelo rio Pardo. O trajeto entre as duas cidades é feito por barcos e balsas. É uma viagem breve, mas arriscada, principalmente pelas precárias condições de manutenção dessas embarcações. Por maior que seja a fiscalização da Marinha e das delegacias portuárias, um ou outro caso lhe escapa ao controle, além das naturais falhas e negligências humanas.
Numa festa religiosa católica de Nossa Senhora do Carmo, cidade de Belmonte, os pais e os irmãos de Fabinho foram à cidade vizinha participar dos festejos religiosos católicos. Fabinho ficou com o avô Amadeu por encontrar-se em estado febril, particularmente, tinha um medo premonitório dessa viagem, era obrigado pela autoridade dos pais fazê-la todos os anos a contragosto, nesse ano de 1989, a doença e os medos atávicos e o respaldo do vô, contribuíram para que ele ficasse.
No retorno, o rio ficou infestado de embarcações, a maioria com excesso de passageiros, na bruma da noite, o tempo fechado de relâmpagos e trovoadas, muita chuva, duas embarcações se chocam, arremessando ao rio umas duas centenas de passageiros.
Grande foram os esforços dos salva-vidas. Botes com gente treinada, deslizavam na água, procurando sobreviventes. O tumulto, o pavor e o desespero foram decisivos para morte de uns vinte náufragos. Dentre os não sobreviventes, o registro maior era de crianças e mulheres, no meio desses corpos, os da senhora Madalena Sheldon Oliveira e seus dois filhos mais novos, o marido, mister George Sheldon Jr., foi encontrado agarrado ao casco da embarcação, gritando pelos filhos e pela mulher.

VIII

Dois meses depois, mister Sheldon, após um período traumático, retoma suas atividades docentes. Não era mais o mesmo homem jovial e alegre. A perda da mulher e dos filhos o deixou com o coração amargurado. No trabalho, limitava-se ao cumprimento das suas obrigações profissionais sem o entusiasmo doutrora. Antes suas aulas eram recheadas de histórias e episódios do mundo. Grande parte dos seus 42 anos de vida, tinha sido cruzando terras e mares. Quando chegou à Canavieiras, não pensava passar mais de um ou dois meses. Sua estada ali estaria condicionada à ajuda financeira dos seus pais das terras bretãs, que em ocasiões difíceis, ele recorria. Filho de uma família de classe média alta, largou tudo para aventurar-se pelo mundo afora, sob o protesto dos pais e dos irmãos mais novos. Sua mãe rompeu com a fleuma do seu caráter inglês e quase tem um faniquito de tanto implorá-lo a ficar. Ele a consolava, garantindo-lhe que seria o tempo suficiente para completar sua educação, tinha como máxima: “a escola lhe abre os olhos e o mundo o faz enxergar”, e dava o exemplo do seu conterrâneo Charles Darwin que cruzou mares, rios e florestas para fundamentar sua Teoria da Evolução, sua família cedeu e foi-se...


IX

Quando a conheceu tinha menos de trinta anos de idade. Entrara na “Young Shoes”, para comprar um sapato social. Lá estava ela: morena, bonita, estatura mediana, corpo escultural, cor tostada de praia, Madalena. Foi pura emoção. Empatia, perturbação nervosa, perturbação estética, perturbação espiritual... e todas as emoções juntas em um infinitésimo tempo que o relógio não marca.
- George Sheldon! – Apresentou -se.
- Your name?
- My name is Madalena!

Daí em diante funcionou a linguagem do amor. Só o rio os separou depois. Foi tudo rápido. Se apresentaram, se conheceram, namoraram e casaram-se três meses depois. Mais uma vez, George pediu socorro aos pais e exigiu que eles pegassem um avião e rasgassem os céus ingleses e brasileiros com destino à Canavieiras e para surpresa dos nubentes, o velho Sheldon e Lady Anne chegaram a tempo para selar essa união.
No começo não foi fácil, mais difícil teria sido se seus pais não tivessem comprado uma casa pequena mais aconchegante para George antes de retornar para terra da rainha Elizabeth. Madalena continuou trabalhando na loja de calçados. Ele foi contratado para o serviço de manutenção das bombas de captação de água da cidade, pois era um exímio eletro-técnico e mecânico de motores hidráulicos, pelo governo municipal de Canavieiras. Embora a função fosse qualificada, o ordenado estava aquém dos salários dos grandes municípios.
Veio o primeiro filho. Mister. Sheldon ampliou os recursos de sua bolsa com contratos na área de educação como professor de inglês. Antes de viajar para terras brasileiras, tinha estudado espanhol e latim que lhes facilitou o domínio do português em pouco tempo, às vezes, tropeçava no uso da posição dos adjetivos e substantivos e na dicção proparoxítona de sua língua.
Jovens, estabilizados economicamente, com recém-nascido, eram felizes.

X

Pai e filho mudaram-se para casa do vô Amadeu. Fabinho já o tinha feito de fato. Seu pai,
devagarzinho foi se deixando ficar. Hoje, um convite para o almoço, amanhã, a janta, aquém para
dormir e foi ficando e ficou. Justiça se faça, Sheldon era um homem de pruridos morais, não era um oferecido, um inescrupuloso, porém, tinha uma dívida de gratidão com o velho Amadeu. Ele tinha lhe dado o ombro para chorar no seu infortúnio. Além disso, Fabinho tinha se apegado tanto ao avô adotivo que um arranhão nessa relação seria um enorme prejuízo emocional. Era uma simbiose de pensamento e afeto entre essas duas pessoas, de sangue e faixa-etária diferentes tão perfeita, que jamais alguém iria duvidar que não tivessem tido uma relação de parentesco em vidas passadas.
Antes que a negra Filó chegasse para o cuidado das atividades domésticas, o vô Amadeu levantava–se, às vezes, antes do sol nascer, para preparar o breakfast do neto e arrumar os seus livros conforme as aulas do dia. Quando Fabinho acordava sua refeição matinal já estava à mesa. Não menos recíprocos eram os cuidados com o avô. Acompanhava-o em todos os lugares, quando um era encontrado o outros estava por perto. Ele quase que não saía ou conversava com o pai. Justificava que seu avô merecia mais dedicação face à decrepitude de sua idade.


XI

George Sheldon foi chamado às pressas pela família, sua mãe estava bastante enferma e clamava por sua presença. A viagem foi imediata, por razões burocráticas – passaporte e autorização judicial – Fabinho não pode ir com o pai à Grã-Bretanha, além disso, não havia nenhum desejo explícito de vê-la, a conhecia de fotografia e falavam-se por telefone – o pai lhe tinha ensinado a língua inglesa – esporadicamente. O avô paterno já tinha vindo ao Brasil duas ou três vezes, depois dele ter nascido, mesmo assim, sua relação afetiva com o seu avô era tênue e superficial. Seus avós maternos já tinham falecidos. Sua mãe era filha única e antes dela morrer, soube da existência alguns parentes distantes por parte dos seus avós maternos, que socialmente e afetivamente, não tinham significado para si.
Seis meses depois, Mr. Sheldon escreveu para o filho e para vô Amadeu que com a morte de sua mãe, por ser o filho mais velho e por seu pai está numa idade decrépita, fora incumbido de cuidar dos negócios e interesses da família. Por isto, pedia ao filho que junto com seu amigo, providenciasse sua ida imediata para Inglaterra, junto com o pedido, todos os recursos financeiros e burocráticos necessários.
A separação foi dolorosa. Fabinho não queria deixar o vô Amadeu e o Brasil. Até a negra Filó quis resistir à idéia da separação, já tinha se afeiçoado ao jovem Fabinho. Porém, o vô que era um homem de bom senso, definiu:
- Meu filho, você tem que ir. Você ainda não atingiu a maioridade. Além disso, não é bom desobedecer aos pais.
- Mas vô, eu não quero sair perto de você e do meu país, não gosto da fleuma inglesa. Eles são desprovidos de alegria.
- Concordo com você. Todavia, ele é seu pai e reclama sua presença. Falta pouco tempo para sua maioridade, aproveite para melhorar o seu inglês e se não gostar de forma nenhuma e seu pai concordar, mandar-lhe-ei buscar.
- Vô, o senhor não tem o dinheiro pra isso. Uma passagem de avião de volta é cara e não sei se meu pai e meu avô querem ou podem comprar. Parece-me que um dos meus tios deu-lhes um prejuízo e eles não estão nadando em dinheiro...
- Não se preocupe quanto a isso, tenho uns amigos que posso recorrer. Ademais, uma passagem de avião de lá pra cá ou daqui pra lá, não é tão cara que um velho viúvo sem filhos e quase sem despesa não possa comprar. Tenho alguma parca economia. E, se tudo falhar ainda tem a minha amiga Filó (risos) que só faz ganhar, que posso recorrer. A burra dela está cheia (risos), qualquer dia vou assaltá-la!... – A negra que pouco falava ou ria, se desmanchou de solicitude:

- Num se preocupe meu senhorzinho, dinheiro não vai faltar – Pela primeira vez, Fabinho a abraçou e tentou colocá-la no colo, que pelo seu corpanzil e pelos gestos arredios da negra, não teve forças para completar o carinho.


XII

Menos de um ano depois, Fabinho estava de volta para o Brasil com o pai. Não se adaptando ao clima, ao povo e às comidas de lá. Além disso, não tinha uma semana que não ligasse para o vô Amadeu cobrando seu regresso. O velho preocupado com o pai dele e para não ser o responsável do seu retorno imediato, ia protelando tomar decisão, alegando falta de recursos para lhe trazer de volta.
Porém, não teve outro jeito, senão pai e filho voltarem. Fabinho não falava noutra coisa, aporrinhava o pai pedindo para voltar e com a morte do velho Sheldon seu avô, seu pai vendeu tudo que lhe cabia como herança aos irmãos, pegou o filho pelo braço e aterrissaram em Ilhéus, recebidos festivamente pelo Sr. José Amadeu Wolfong e Filomena de Jesus.

XIII

Pituba, rua Ceará, Edifício Amadeu Wolfong, nº.... , apartamento nº. 2501, Salvador, capital baiana, cinco anos depois, numa grande sala, espalhados por poltronas, sofás e cadeiras luxuosas, Fabinho, Mr. Sheldon e mulher (tinha contraído um novo casamento), a negra Filó, Otávio Macedo, seu filho mais velho e seu braço direito no escritório de contabilidade, dois jovens advogados que há mais de três anos vinham dando suporte jurídico ao Sr. Amadeu Wolfong e a Srta. Marilene Spinoza, secretária particular do Sr. Wolfong desde que ele deixara Canavieiras, todos ansiosos para que a carta-testamento que Sr. Amadeu Wolfong deixara fosse lida.
Com o retorno de Fabinho e o pai dele e a premente necessidade de estar mais perto dos seus negócios, Sr.Wolfong mudou-se definitivamente para Salvador e junto consigo, a negra Filó, Fabinho e o pai.
Fabinho estudioso não teve dificuldade de entrar em uma universidade pública e seu pai foi trabalhar em uma multinacional de distribuição de petróleo. O mistério Wolfong continuava, agora, todos sabiam que ele era um homem rico, mas não sabiam que era extremamente rico.
- Senhores (começou a Srta. Spinoza), antes de morrer, meu patrão confiou-me, esta carta para que fosse lida quando ele aqui não mais estivesse e em seguida se tomasse as providências necessárias para o cumprimento do seu último desejo. Por isto, peço-lhes atenção:



“Salvador, 10 dezembro de 1994.


Senhores:


Por desejo particular, deixo registrado no Cartório de Registro e Documentos da .......
Vara da Comarca desta capital, o Estatuto da Fundação Catarina Amadeu Santana. Este nome da fundação é uma homenagem àquela que me deu à luz e nos momentos mais adversos e trabalhou para que eu tivesse uma formação moral e intelectual embasadas em princípios solidários e cristãos.
Essa fundação será constituída por 90 % do meu patrimônio, num montante estimado em 800 milhões de reais.
A Fundação Catarina Amadeu Santana terá por função precípua, subsidiar financeiramente e materialmente o tratamento de pessoas com doenças crônicas e infecto-contagiosa, desprovidas de recursos.
Cinco por cento desse patrimônio será entregue ao meu neto adotivo, Sr. Fábio Sheldon Oliveira, com exceção de um apartamento na Pituba, à rua Minas Gerais, nº. ..., apartamento nº. 503, que será ocupado pela Sra. Filomena de Jesus, em regime de comodato que em morte, será transferido automaticamente para aludida fundação e mais um título de renda fixa que lhe dará condições de sobrevivência e estará vinculado às condições anteriores.
Enfim, designo o Sr. Otávio Macedo, meu amigo e administrador, como primeiro presidente da Fundação Catarina Amadeu Santana. Ele ficará com os 5% restantes do meu patrimônio e a incumbência de efetivar o meu desejo: que é levar um pouco de condição para os desprovidos de meios para enfrentar a dor e o sofrimento.”


José Amadeu Wolfong



Pedrinho
R. Santana


A maioria das histórias da carochinha, o moleque peralta chama-se Joãozinho. Não vou lhe contar uma história da carochinha, mas uma história verdadeira, ocorrida nos bons tempos do curso científico, o antigo colegial. Porém, o peralta desta história é Pedrinho. Moleque pela idade, mas de uma argúcia e uma inteligência incomuns, naquela época, ele não passava dos 15 anos. Pedrinho era o mais novo da turma, entrou na universidade ainda imberbe.
Não era o mais bonito mas ganhava todas garotas que cruzavam seu caminho. Acredito que era pelo seu bom humor, seu jeito irresponsável e ingênuo. Não urdia nenhuma maldade, seu negócio era pregar peças hilárias, levando todos ao riso, às vezes, a própria vitima de suas galhofas. Tinha uma aptidão inata para colocar apelido. Os apelidos que Pedrinho colocava nos professores e nos colegas, pegavam como visgo, lembro-me de alguns: “Macarrão 18”, “Pingüim”, “Chabu”, “Chuchu”, “Saborosa”... cada apelido estava relacionado ao estereótipo da pessoa, algum traço da personalidade ou outro detalhe da conduta que chamasse à atenção dos demais colegas e professores.

Chabu era uma professor de Física que passou umas três aulas para calcular 10 elevado à 7ª. Potência. Quando ele começava calcular, os alunos cientes de sua inaptidão matemática, cada um dava um palpite e o infeliz se enrolava todo. Com uma dor de barriga de mentirinha, se mandava para secretaria e lá ficava até o término da aula e aí ficávamos a ver navio com as fundamentais aulas de Física e o cálculo adiado para o outro dia, até que Pedrinho que era um craque em matemática deu um basta e solucionou o problema.
Professora Georgina era uma alma boa. Era uma coroa solteirona que continuava trabalhando por amor à profissão e aos alunos. Suas aulas de História eram recheadas de tiradas divertidas e curiosas sobre generais, imperadores, príncipes e estadistas. Era uma mulher avançada para o seu tempo:
-Vocês sabiam que todos Césares gostavam de homem? – Pedrinho tomou a defesa de Júlio:
-Julio César era macho, professora!...
-Machochô filho, aquilo era uma bichona gulosa. Seu séqüito era formado pelos mais fortes gladiadores que nas horas vagas, eles transformavam-no numa Cleópatra! - todos caíram na risada.
Não pense o leitor que suas aulas de História eram desprovidas de conteúdo teórico. Quando ela abordava um tema histórico, ela abordava o fato com as causas, as conseqüências, os efeitos econômicos, os aspectos religiosos e por aí a fora. Jamais fez uma prova decoreba, ou o aluno assimilava ou não respondia.
Professora Georgina não era uma professora, era mais do que isso, era uma educadora.

Leite (leite só no nome e na brancura dos dentes), diretor da colégio CEI e capitão da Polícia Militar da Bahia, era um negro forte e exigente. Era uma exigência autoritária. Embora fosse uma exigência com base em regras discutidas a priori com todos segmentos interessados, à aplicação dessas regras, excediam ao bom senso. Se um aluno cometesse uma falta grave ou fosse reprovado mais de uma vez, ele não concederia matrícula no ano subseqüente, seu lema era: “a escola foi feita para todos, porém, vamos priorizar os alunos que reconhecem seu valor”.
Entre os alunos, capitão Leite era tratado por “Mr. Coffee” (mais um feito de Pedrinho), embora tivesse uma fachada de lutador de sumô e fosse durão, Mr. Coffee não resistia à lábia de Pedrinho:

-Capitão Leite, o colégio não vai desfilar no dia 7 de setembro?
-Pedrinho, o problema é que tem poucos instrumentos e alguns danificados, além disso falta pouco mais de um mês. Não sei se daria tempo para arrumarmos tudo até lá.

-Se o Senhor me autorizar, irei formar um grupo e fazer uma campanha para recuperar e comprar mais instrumentos. Porém, é preciso que os professores de educação física sejam engajados. – Pedrinho era danado na brincadeira mas quando se tratava de coisa séria, ele se transformava. Sabia planejar, administrar, tinha boas idéias e gostava de ouvir novas sugestões.
Ele envolveu toda escola, do matutino ao noturno. Os pirralhos que eram relegados noutros desfiles por causa do tamanho e da série, foram os mais comprometidos e quando alguém argumentava, Pedrinho justificava: - é o sonho da maioria, ademais, eles se cotizaram com ajuda dos pais e compraram os instrumentos que faltavam. Teve uma mãe que em comissão visitou os principais empresários e conseguiu todo pleito reivindicado.

O desfile foi um sucesso. Na frente saiu um rapaz travestido de D. Pedro I, montado a cavalo de puro sangue (emprestado de um fazendeiro), empunhando a espada, gritando: “Independência ou Morte!...” e, atrás, um grande retrato a óleo de José Bonifácio, levado por duas lindas jovens. No meio das alas, a banda marcial tocando hinos alusivos à Independência do Brasil.
Cada ala caracterizava feito, tradição ou folclore. Havia a ala indígena, a ala de soldados com armas primitivas e uma ala de cartazes e tabuleiros de alimentos, representando as comidas e as bebidas da época. Para fechar as alas, foram acrescidas alas de simbologias mais populares, como as de capoeira, colheita do cacau e as indispensáveis baianas com suas vestimentas típicas.
O capitão Leite ia à frente, com sua farda de gala, parecendo um imperador africano sem a serpentina trasladada por escravos. Ia a pé, postura ereta e queixo pra cima, olhando no horizonte, de quando em vez, acenava com a cabeça para cumprimentar uma autoridade ou uma pessoa de sua intimidade. Ia orgulhoso de sua escola.

Passados os festejos, a rotina volta ao dia-a-dia da moçada. Pedrinho ficou de bola cheia. Ele não tinha recebido os louros do reconhecimento da direção, todavia, colegas e professores entenderam que se não fosse o denodo e o trabalho dele na organização, o desfile não teria tido tanto sucesso. Os mais velhos diziam que nunca tinham visto nada igual. Quando insistiam com Pedrinho que a direção foi omissa, ele respondia da boca pra fora:

-Foi um trabalho de equipe. Todos merecem os louros da vitória. A direção fez sua parte, reconheço que poderia ter feito muito mais. Para mim, se tivesse havido um prêmio, teria que ser dividido com cada mãe e cada pai. Eles foram os mais abnegados. Teve um pai que alugou um carro para ir e levar na fazenda, o cavalo montado por D.Pedro I. Outro doou sozinho dois instrumentos. Além disso, cada pai teve de fazer uma vestimenta nova para seu filho. Mister Coffee condicionou que ninguém desfilaria com farda velha e surrada.

-Senhores alunos, apresento-lhe o professor Heyde Muller. Ele é odontólogo e vai ficar conosco até o final do ano – falou o Jô Arbages, vice-diretor da escola. – De chofre, Pedrinho observou: - José, ele parece um camarão de vermelho – passamos chamá-lo de “Camarão”.
Professor Heyde era um homem de altura acima da média. Usava paletó e camisa listrada colorida. Um pouco descuidado no trajar. Um paletó azul desbotado, calça bege e camisa avermelhada, destoando do conjunto. Quando o professor Arbages deixou a sala, ele começou falar :

-Sou filho de Jaguaquara, formado pela Universidade Federal da Bahia. Acho que vou ficar pouco tempo aqui em Itabuna – tinha voz nasalada. Chegamos a comentar, eu e Pedrinho, “deve ser outro Chabu” – Ledo engano, depois da rápida apresentação, o professor Camarão dissertou sobre célula vegetal. O homem era um ás!... Passeava na Botânica, corria na Biologia, enveredava na Zoologia e brincava com a Química e a Física. Ficamos impressionados. Comentei com Pedrinho:

-O homem é cobra Pedrinho!
-Quebramos a cara em nosso juízo – admitiu Pedrinho.

Tudo que é bom dura pouco. Três meses depois o professor Heyde foi embora para o Sul do país ensinar em uma universidade federal. Soubemos depois que tinha feito um concurso, muito concorrido e passado com louvor.


Professor Arbages, tinha sido exonerado da vice-direção e retornado à sala de aula. Ensinava Matemática.Tinha sido nosso professor na 1ª.. Série do curso científico e voltava agora para concluir a terceira série.
Hoje, acho que o professor Arbages não dominava o conteúdo matemático com profundidade. Porém, era um mestre na organização e na didática. No primeiro dia de aula, ele dava todo conteúdo programático da série, a bibliografia e o mais assombroso, as datas a priori das provas, inclusive, os dias de revisão. Chovesse ou fizesse sol, suas datas eram intransferíveis, salvo por força de um imprevisto na escola ou pessoal. Se tivesse de fazer uma alteração a posteriori, ele o faria com enorme antecedência. Suas aulas eram esquematizadas em fichas, a maioria ensebadas pelo uso.
Certa feita, a turma encabeçada por Pedrinho, fez uma proposta ao professor Arbages:

-Professor, nós queremos falar com o senhor!
-À vontade Pedrinho...
-Professor, nós estamos no último ano. Todos aqui estão cônscios que se não estudarmos muito, não iremos passar no vestibular. Lá ninguém irá nos ajudar, cada um que cuide de si. Cada um é fiscal do outro, porque todos são concorrentes entre si. Por isto, gostaríamos de obter de todos professores uma ralação de confiança. O professor aplica a prova e nos deixa a sós. Ninguém irá colar, todos serão fiscalizados simultaneamente!...
-Pedrinho, é uma situação nova, tem que ser testada. Se vocês corresponderem à confiança dos professores, a mim em particular,eu aceito
A primeira prova foi de português, foi um sucesso. Um ajudou o outro mas na maior discrição. Tínhamos feito um acordo que só ajudaríamos o colega em pequenas dúvidas, todos teriam que estudar.
Todos estavam ansiosos em relação à prova de matemática. Arbages era um bicho-papão. No dia da prova ele aprontou uma pegadinha, se não fosse a perspicácia de Pedrinho todo mundo teria caído. Na hora de distribuir a prova, ele deixou cair “inadvertidamente” o gabarito.
-Colegas, pode ser uma cilada. Vamos confirmar esses resultados se forem verdadeiros, iremos usá-los com critério para não gerar o gérmen da desconfiança no professor.
Eram as respostas da prova. Porém, foram usadas alternando os erros e acertos de um pra outro que o professor Arbages não teve a menor desconfiança. Ademais a folha de gabarito foi deixada onde caiu e entregue ao professor no seu retorno.

Duas historinhas que ocorreram antes do término do ano letivo que não as esqueço: uma com a professora de Geografia e a outra com o capitão Leite.
A falta de reconhecimento do dia 7 de setembro do diretor da escola tinha mexido com os brios de Pedrinho. Embora ele dissesse que a organização do desfile tinha sido um trabalho de equipe, no fundo ele sabia que tinha sido o principal timoneiro. E cozinhou em banho-maria uma oportunidade para pregar um estratagema em Mr. Coffee. Essa oportunidade surgiu. Uma autoridade importante da Secretaria de Educação da Bahia, tinha agendado uma palestra sobre “As Perspectivas do Mercado de Trabalho”.
José Antônio, um dos nossos colegas, era eletricista prático. Era um aluno esforçado, mas tinha dificuldade de aprendizagem, Pedrinho que lhe ajudava nas tarefas da escola, às vezes, nas provas. José Antônio era seu amigo e devedor.

-José Antônio, quero lhe pedir um favor!

-Pedrinho, não me peça, ordene!...

-Então, vamos combinar em casa, depois das aulas. Eu você e José. Combinado? – Combinado! - respondemos simultaneamente.

Depois das aulas fomos para casa de Pedrinho. Era cedo ainda, menos das 22:00 h, fomos bem recebidos pelos pais dele. José Antônio era íntimo da casa, da cozinha à geladeira. Eu nunca tinha ido. Fomos levados para o seu quarto. Eu e José Antônio, estávamos ansiosos para saber as intenções de Pedrinho, deveria ser algo importante, ele estava muito cheio de salamaleque.

-Amanhã à noite, irá ter uma palestra no CEI. Gostaria de melar a festa do Leite!- falou Pedrinho.
-Como? –perguntei-lhe.
-Nosso engenheiro eletricista irá dar um jeito!...- apontou para José Antônio.
-Quê jeito? – perguntou José Antônio.
-Um black-out na escola. Já comprei o silêncio do porteiro e sua cumplicidade. Combinamos que vocês irão chegar mais cedo para armar o alçapão e na hora de levar o palestrante e os alunos para o auditório ou pouco depois, é só desarmá-lo e provocar àquela escuridão!...
-Qual a minha participação? – perguntei-lhe.
-Você vai assoviar se alguém da direção chegar para que José Antônio fique ciente. Nenhum aluno vai entrar antes de vocês.
-Pedrinho, isso pode dar expulsão!
-Não se preocupem, se algo der errado, estarei lá para assumir a culpa. Tenho pontos de sobra em todas matérias. Eles podem expulsar-me mas não podem me reprovar. Qualquer problema, tenho tio advogado, coloco-os na justiça e, se for reprovado, estou novo, irei concluir o científico numa escola particular. Somente o porteiro poderia abrir o bico, porém, acho difícil, dei-lhe dinheiro na presença de dois colegas a título de pagamento de uma velha dívida. Se ele der na língua, tudo será esclarecido e ele poderá perder o emprego. Lembrem-se também que sou menor - Pedrinho tinha pensado em todos os detalhes. – Conjeturei:

-Pedrinho, seus pais têm dinheiro, eles podem pagar uma escola particular. Se nós formos flagrados, iremos ter sérios problemas. Talvez tenhamos que deixar de estudar por um tempo. Além disso, qual é seu objetivo? Não estamos enxergando...
-Garanto-lhes que tudo está sob controle. Vocês não irão ser flagrados, exceto se o porteiro nos trair, todavia, acho improvável, ele seria o mais prejudicado. O meu objetivo é desmoralizar Leite. Ele foi o único que não reconheceu o nosso trabalho. Afora administrar a escola com mão-de-ferro, truculência, como numa academia militar. Todos estão desgostosos com sua administração. Os colegas estão esperando uma oportunidade para declarar: “fora Leite!!!”, se vocês não quiserem participar, não iremos fazer o repúdio, não estar aqui quem falou, tchau! – Antônio José bronqueou:

-José responde por si. Você é meu colega e meu irmão. Dê o diabo, estaremos juntos para o que der e vier. Se for expulso que se dane Leite e sua escola! – fiquei envergonhado e procurei consertar de imediato:

-Peço-lhes desculpas. Não falei por medo. Também, não gosto de Leite e de seus métodos ditatoriais. Porém, tenho medo do que possa acontecer com um prédio daquele às escuras e a balbúrdia que os alunos irão fazer.

- Ninguém sabe do nosso projeto de black-out, exceto o porteiro. Na escuridão, ele irá abrir os portões e deixar que a turba passe. Ficou acordado com o pessoal das outras salas que se houvesse uma oportunidade de protesto, seria dirigida ao Leite, que não haverá quebra-quebra, será uma manifestação pacífica – esclareceu Pedrinho.

Tudo ocorreu como Pedrinho tinha Planejado. O auditório estava repleto. Na mesa principal o assessor do governo, os vice-diretores, Leite e os professores convidados. Quando o serviço de som anunciou que sua excelência o doutor fulano de tal ia falar, a rede elétrica da escola começou pipocar com um curto-circuito generalizado que dentro de poucos segundos, tudo estava às escuras. Os silvos, os assovios, os gritos de “fora Leite”, de “ditador tupiniquim”, de “negro burro”, “capitão do mato”, “feitor do governo”., “bote esse negro na senzala”, “negro truculento” ... foram ouvidos por mais de 10 minutos. A balbúrdia foi generalizada. As professoras e alunas foram as primeiras a debandar. O assessor do governo foi levado às pressas para o carro e salvo das vaias.
O boicote não poderia ter sido melhor. Não houve agressão física. Com exceção de meia dúzia de lâmpadas e alguns metros de fio, o prejuízo material foi de somenos importância em relação à repercussão que a manifestação teve nos meios de comunicação e na comunidade. Leite foi exonerado alguns dias depois e nomeado um professor bem quisto por todos segmentos do CEI. Não houve retaliação e tudo foi creditado ao regime de opressão imprimido por Leite na condução da escola. Para os psicólogos de plantão, que estudam as reações das massas, foi uma maneira que os alunos encontraram para extravasar as frustrações e os sentimentos de ódio contidos.
A escola ficou leve e solta sem ser transformada num território sem lei e sem ordem. Tudo ocorria dentro dos limites do regimento, todavia, as brincadeiras e as artes próprias do espírito jovem, não eram mais consideradas como faltas de suspensão e expulsão.
Ao apagar das luzes do nosso último ano letivo, a sala contígua fez uma brincadeira com a professora de Geografia. Ela ouvia parcialmente, às vezes, tínhamos que conversar acima do normal quando lhe íamos falar. Porém, era craque na leitura labial, se o incauto aluno fosse lhe dizer qualquer gracejo, teria que lhe dizer de modo que ela não tivesse a percepção dos seus lábios, senão, estaria fadado ir para sala de Orientação Pedagógica, que era mais uma sala de reprimendas e ameaças do que um serviço de orientação, principalmente, na direção do Leite.
Professora Helena ainda não tinha marcado sua prova final de geografia. A turma não estava nem aí!... Todos estavam passados por média. Sua deficiência auditiva dificultava-lhe conter o recurso da pesca dos alunos, por outro lado, ela não era ranzinza e enjoada, alguns entreveros, entre ela e os alunos, decorreram por excesso de abuso do alunado.
Quando a professora Helena chegou na sala, a encontrou vazia. Os alunos tinham lhe deixado uma charada na lousa: “Tu és pecadora, porém, tu lembras uma ilha no oceano Atlântico a sudoeste da África e a morte do imperador, 2 e 3”, e acrescentava que o retorno da turma estaria condicionado à resposta do enigma.
Ela pacientemente, desenhou um burro feio e orelhudo, com o recado:

“Diga aos seus colegas orelhudos que a ilha de Santa Helena foi o degredo de Napoleão e o tema da nossa prova amanhã. Helena”.

Pedrinho completa a contenda entre os alunos e a professora:

-José, você que tem mania de escrever, coloque em seu caderno: “um bom professor transforma um animal frágil e delicado em um ser humano; um mau professor transforma um ser humano em um animal sórdido e destrutivo”.



O velho e o rio
R.Santana



I

Era um velho de compleição forte e alto. Moreno trigueiro, que os seus sessenta e tantos anos de vida, mais na fazenda do que na cidade, tinham-no deixado moreno escuro. Tinha por hábito ficar o dia todo dentro d´água quando estava na fazenda. Quando moleque, seus pais faziam-no vestir a pulso, a contragosto, uma camisa comprida que lhe cobria o calção e parte das coxas para lhe proteger do sol. Rapaz, morto os pais, sem irmãos, sem tutor, de nariz empinado, sem conta a prestar a parente ou aderente, fazendeiro por acidente, passava o tempo todo pescando e usava como vestimenta um folgado calção. Quando o sol estava muito forte, saia da água e se estirava embaixo da primeira árvore frondosa que encontrava à margem do rio e dormia o sono dos justos, assim envelheceu...
II
Preservara a propriedade da fazenda Bom Sossego, mista de cacau e gado, no município de Itapé, cidade baiana, às margens do rio Salgado-Colônia e algumas casas de aluguel na cidade de Itabuna e uma casa na praia dos milionários na cidade de Ilhéus. Há mais de 30 anos tinha herdado essa pequena fortuna. Não tinha se tornado mais rico mas não tinha se tornado menos rico. Tinha tido o mérito de conservar e zelar pelos bens que os seus pais lhe deixara, até um Jeep Willys, automóvel usado pela maioria dos fazendeiros, apropriado para romper veredas e estradas de chão, xodó do seu pai, estava em condições de uso, trancado numa garagem. Quando o velho morreu, Lucas Camões de Sá pulverizou o carro de óleo e graxa, cobriu-o com uma grande lona e guardou-o na garagem da fazenda.
III
“Professor Lucas”(todos chamavam-no assim), não era professor. Tinha feito o curso ginasial em Itabuna, no ginásio Divina Comédia, escola famosa pela organização, cobrança pedagógica de sua direção e competência dos seus mestres e concluído o curso “científico” em Salvador. Não quis ser doutor. Os pais ainda vivos, rogou-lhes por uma viagem aos países europeus, em especial, França e Alemanha, onde morou e trabalhou mais de 5 anos só retornando ao seu país, quando o seu pai estava à beira da morte e necessitava de sua presença para cuidar dos negócios e da sua velha mãe.
Voltou mais simples do que quando tinha saído e afora os fumos intelectuais adquiridos lá fora, era o mesmo Lucas que muita gente vira crescer, montando a cavalo e tangendo as poucas cabeças de gado para o curral que o velho criava para o leite da fazenda. Porém, voltou mais maduro e introspectivo. Ouvia mais do que falava, ultimamente, depois que a mãe morreu, tinha fincado os pés na terra, de lá saía se urgia uma necessidade intransferível que não pudesse ser delegada a um empregado, quando sua presença era reclamada.
IV
. Meus pais eram seus vizinhos de fazenda. As nossas terras não representavam um terço das dele. Quando o conheci ele já era um senhor sexagenário de cabelos grisalhos, mas exprimia uma vitalidade e uma jovialidade de um homem mais novo. Eu era um adolescente. Pela proximidade das nossas terras e pelo fato do professor Lucas ser uma referência intelectual naquela região de gente simples, fui me chegando e não muito tempo depois era seu amigo e cúmplice de suas estripulias no manejo do gado, na pescaria e nos banhos de rio. Mesmo mais novo meio século, não tinha a força e o fôlego para acompanhá-lo nas lides diárias da fazenda.
De todas as atividades e ações empreendidas pelo professor Lucas, me deleitava de prazer com as pescarias e os banhos no rio Salgado. Lá na beira do rio, tínhamos tempo para discutir os mais variados assuntos, sem afetação e sem esnobismo. Embora fosse um homem lido e viajado, explicava-me as coisas com clareza e simplicidade. Não me lembro de nenhum momento que tenha perdido as estribeiras ou quisesse mostrar-se superior intelectualmente ou culturalmente aos demais.


V

Janeiro de 1981, domingo de madrugada, céu sem chuva e muita neblina, era sinal de sol escaldante ao longo do dia. Embora já tivéssemos acertado a viagem no dia anterior, o professor Lucas risca com seu jipe lá em casa mais cedo do que o combinado, chamando-me para pescaria. Não estava sozinho, dois camaradas estavam sentados nos bancos detrás. Meus pais ainda esboçaram uma certa resistência deixar-me ir ao passeio, alegando que eu não sabia nadar, foi necessário que o professor Lucas intercedesse em nome da velha amizade familiar:
-Não se preocupem, eu também não sou bom nadador. Ficaremos em lugares de águas rasas. João e Armando (apontou-os), são pescadores profissionais, qualquer incidente, eles estarão apostos. – foi o bastante para que os meus pais me liberassem e eu me aboletasse no banco da frente do jipe ao lado do professor.
Embora levássemos uma meia hora da minha casa até próximo do lugar onde íamos acampar em decorrência do péssimo estado de conservação da estrada e tivéssemos de deixar o carro e fôssemos a pé uns 500 m até à beira do rio Salgado, o esforço tinha valido à pena. O lugar era paradisíaco. A mata se estendia, praticamente, até a margem do rio, com árvores centenárias e copas enormes de sombreamento perene.
Colocamos os nossos apetrechos em cima de uma comprida pedra à beira d´ água, que consistia uma verdadeira plataforma feita pela natureza, enquanto os camaradas se distanciavam para o meio do rio com uma canoa. Eu e o professor Lucas sentamos na pedra e lançamos os nossos anzóis.


VI



Professor Lucas tinha levado uma caixa de isopor com gelo e umas seis cervejas que ao meio dia, o sol a pino, começou bebericar com os demais companheiros de passeio. Para mim, ele tinha levado uns dois ou três refrigerantes que foram consumidos depois dos banhos de rio e almoço.
Quando terminamos de comer a farofa, nos sentamos embaixo de uma jaqueira, que parecia ser ponto preferido doutras pessoas ociosas que por ali passavam, pois ao pé do seu tronco, o capim apresentava-se rasteiro e limpo num raio de 4 ou 5 metros, para jogar conversa fora.
Os camaradas bebiam mais do que falavam, talvez inibidos pela fama intelectual do senhor Lucas, tido e havido como homem de letras e do imberbe estudante ginasial que naquela época e naquele lugar era um fato raro. Porém, quando a conversa começou esquentar e a bebida tinha feito sua função natural, pouco e pouco, eles começaram se soltar, perguntando e emitindo os seus pontos de vista. Isto nos deixou mais confortável, não queríamos ser tomados como pernósticos ou metidos à besta em nossas digressões intelectuais.
Por isso, tomei a iniciativa em nome do meu professor, não queria assumir na minha idade, preocupações comuns às pessoas adultas e ser rotulado de precoce:

-Professor, na minha escola, a professora de Ensino Religioso, acha o casamento uma união indissolúvel; outro professor, uma instituição falida, qual é sua opinião? – ele parou como se estivesse pensando...
-Gugu, eu não posso opinar sobre o casamento, nem devo, sou um solteiro por opção há sessenta e três anos e alguns meses, ah, ah, ah!... – deu uma risada debochada que me deixou desconsertado e arrependido por tê-lo provocado.
-Desculpe-me professor. Pensei que tivesse uma opinião formada sobre o assunto! – falei um pouco enfezado.
-Calma rapaz, eu respondi-lhe que não tenho uma opinião particular, porém, não me custa nada, junto com você e os demais amigos aqui, fazermos uma análise do casamento com todas suas nuances. – contemporizou o professor.
-Professor, Maria é a minha terceira mulher. Comigo não tem isso, não deu certo, arrumo a minha mala e dou um tchau!... – foi o testemunho de vida de João, o mais novo deles.
-Gugu, o casamento não é uma instituição falida. O casamento é uma necessidade social e emocional. O homem não nasceu para viver sozinho. A mulher além de procriar, ser a matriz genética, a mãe, é o lado esquerdo do homem, o lado da emoção, é uma simbiose perfeita, o homem e a mulher se completam. Por isto, nunca será uma instituição falida, não significa, entretanto, que seja indissolúvel, novos modelos de casamento, de convivência, de relacionamento, surgirão em decorrência das transformações sociais e econômicas. – Não estava satisfeito com a resposta do professor Lucas. Não tinha ficado claro, o final de sua fala, principalmente, os “novos modelos de casamento”, por isto, tornei provocá-lo:
-Professor não entendi de sua fala: “os novos modelos de casamento”, significa mudança no modelo de família? – perguntei.
-O casamento como uma união civil, religiosa, e a família patriarcal, na essência são perenes, todavia, quanto à forma, haverá transformações. A ascensão econômica e profissional da mulher, a educação e o aperfeiçoamento das leis, contribuirão para casamentos menos atrelados, com domicílios diferentes, de menos dependência econômica, mais vínculos afetivos duradouros, filhos menos dependentes e mais conscientes do papel do pai e da mãe. – concluiu o professor Lucas.
-Professor, com papéis tão independentes, os casais não se tornariam mais promíscuos, de princípios morais mais vulneráveis? – questionei.
-Meu rapazola, o sexo é uma necessidade animal. A paixão, o sentimento de posse, o egoísmo e o sexo não são decisivos para fidelidade conjugal, os deveres e as obrigações. Só o amor, sentimento da alma, produz consciência moral. O casamento por amor é uma rocha que as intempéries do tempo, não destrói. – finalizou.
Os camaradas que nos acompanhavam, deixaram o local sorrateiramente. Embora não desejássemos, o nosso papo estava descambando para chatice com conjecturas intelectuais. Por isto, propus ao professor que voltássemos para beira do rio, que ele continuasse pescando enquanto eu voltaria para dentro d´água:
-Professor, os seus amigos ficaram entediados com a nosso papo e nos deixaram quase às escondidas, é melhor que voltemos ao rio e á pescaria!... – disse.-lhe.
-Gugu, a pessoa aprende quando a coisa tem significado. Vimos o que pensa João em relação ao casamento. Sua experiência de vida lhe ensinou que casamento é amigação, é amásio, é amancebo. Ele é muito pobre, não teve educação e suas necessidades têm exigências mínimas, satisfeitas suas necessidades imediatas, primárias, tudo vai bem, o resto é de somenos importância, é luxo, é invenção social, não existe em sua lógica de vida simples que tem como aspiração maior: viver. Essa realidade é comum para Armando e João. – contra-argumentei:
-A educação é a saída professor!
-Concordo, meu jovem Gugu!...




VII


João e Armando estavam com dois samburás cheios de pequenos camarões. O lastro da canoa também tinha boa quantidade de traíras, tilápias, pacus, carpas e lambaris. João ainda tinha fisgado uns dois ou três quilos de acari em um poço profundo de águas turvas e de muitas locas de pedra. O professor não tinha pescado nada, soube depois que ele devolvia ao rio toda vez que pescava um peixe. Armando ainda troçou:
-Professor Lucas é rico, compra o peixe e diz aos amigos que pescou!... – Era uma brincadeira de Armando, professor Lucas usava como apetrechos, somente, vara e anzol, quando pegava um peixe, devolvia ao rio. A pesca pra ele era uma terapia e um passatempo. Além da pesca não representar uma fonte de sobrevivência para si, era a favor da vida, da simples até a mais complexa, propositadamente, abstinha-se de ceifar a vida de qualquer ser.
-Professor, qual a diferença que há entre não matar o peixe e devolvê-lo ferido? – perguntei.
-Acho que a vida é um dádiva do Criador. O homem é o único animal que tem consciência da morte, os demais animais possuem apenas o instinto de sobrevivência.
-Mas não é judiação devolver o peixe com ferimento do anzol ao rio se o senhor é a favor da vida? – voltei à pergunta.
-Devolvo-o ferido não morto. Se a causa do ferimento ficar registrada em sua memória, ele não será fisgado doutras vezes por um outro anzol!... - brincou.
-Não existe sentido!...
-Gugu, a vida não tem muito sentido. Pescando ou fazendo outra coisa, estou dando tempo ao tempo. O tempo é o senhor da razão, pois tudo soluciona, porém, ele é implacável. Nasci nessas terras, percorri grande parte do mundo, hoje, idoso, sinto-me jovem de coração mas os anos e o corpo dizem que estou velho. O tempo é como este rio, suas águas descem em sentido ao mar e não mais retornam, um filósofo grego teve razão em dizer que “não banhamos duas vezes no mesmo rio”. As perguntas seculares: “quem sou eu?”; “de onde vim?” e “para onde vou?”, jamais serão respondidas. Quando me pergunto: “quem sou eu?”, obtenho respostas psíquicas, físicas; as metafísicas, para essência do eu, do ser, não tenho respostas. A mesma coisa ocorre quando formulo as outras duas perguntas. Conheço a história do meu nascimento, todavia, não sei de onde vim nem para onde... – por favor professor (eu o interrompi), as religiões têm suas versões!...
-Se cada religião tem uma versão, só uma versão é verdadeira ou nenhuma. Lembre-se que as religiões estão embasadas na palavra, na fé. Muitos dogmas antigos e preceitos não têm nenhum significado nos dias atuais. Por exemplo, ou você acredita na história da maçã, da criação ou na reencarnação. Seria uma heresia pra qualquer prosélito dessas teorias religiosas, admitir a evolução na origem dos seres vivos. A religião é necessária para estabelecer o equilíbrio existencial e esperança de vida eter... – Professor (tornei interromper-lhe), desculpe-me, do jeito que fala, a vida do ser humano e de outro animal qualquer têm o mesmo significado. Acho sua fala uma digressão intelectual, um recurso de oratória, então, quê fazer da vida? – perguntei-lhe.
-Viver. Não usei de recurso retórico. Não quis lhe impressionar nem tergiversar o meu pensamento, quis lhe dizer que penso dessa maneira. Posso estar errado, mas é assim que penso. Quando os meus pais morreram, muitos pensaram que eu ia dilapidar o patrimônio de herança porque estava algum tempo perambulando e trabalhando no estrangeiro. Não o fiz, por respeito a mim e aos meus pais. Não dilapidei, também, não acrescentei mais patrimônio, preservei o patrimônio que herdei para na velhice não ser um peso para sociedade e para o governo. Hoje, tenho a velhice garantida, não será necessário estender a mão à caridade pública. Não dilapidei mas vivi bem todo esse tempo, fazendo do trabalho um meio de vida não de morte.



VIII


A minha amizade com o professor Lucas durou até sua morte, 3 anos atrás, velhinho. Morreu lúcido, com as mesmas convicções que me passou às margens do rio Salgado.
Fui visitá-lo várias vezes e mais amiúde prestes dele morrer. Fui surpreendido na antevéspera da sua morte. Ele com a voz um pouco cansada, pegou em meu braço e perguntou-me
-Gugu, lembra-se das nossas conversas lá no Salgado?
-Professor foram tantas... qual em especial? – lembrava-me, queria testá-lo.
-Sobre o sentido da vida!...
-Ah, lembro-me de cada palavra. Noutras palavras, que a vida é para ser vivida, que não perscrutássemos seus mistérios. Não foi? – ele ficou olhando-me com ar paternal...
-Você é o filho que não tive. Nunca quis tê-los. Os filhos geralmente, são cópias apagadas dos pais. Há um dito que o filho só puxa ao pai quando é cego, aí, ele puxa o pai pelo braço!... – brincou.
-Considero-lhe como um pai. Se não fosse esnobação, roubaria a frase de Alexandre sobre Aristóteles e o seu pai: “...se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Aprendi e continuo aprendendo com o senhor!... – os olhos dele começaram marejar – Quê é isso? Vamos mudar de assunto, o clima aqui está de despedida, de velório!... – brinquei.
-Olhe Gugu, estou chegando ao fim (quis protestar, mas ele não deixou), por isto, estou deixando os meus negócios organizados. Como não tive filhos, você foi contemplado com aquilo que mais gosto: a fazenda. Os outros imóveis e dinheiro irão para instituições públicas sem fins lucrativos. Gerencie a fazenda (para ele, nós somos gerentes e não donos de nada), até os finais dos seus dias. Aquilo é uma pontinha do paraíso. Se tiver de vender a fazenda, venda-a para quem gosta de terra, não a venda para especulador de caráter suspeito. – pegou-me de surpresa, estupefato, perguntei-lhe:
-E agora, amigo?...
-Viva!...:





O oleiro
R. Santana

I
Era um homem baixo, um metro e sessenta, não passava disso. Branco, cabelos pretos e lisos. Era oleiro de profissão, quando moço, trabalhou na lavoura de Simão Dias, cidade sergipana. Casou-se com uma bonita sergipana de Lagarto. Debandou para o Sul da Bahia ainda jovem. Fixou-se de início no município de Ilhéus em Maria jape. Tempos depois, passou a residir e trabalhar no município de Itabuna e terminou seus dias, louco, numa fazenda próxima do Salobrinho, lugarejo de Ilhéus. Era conhecido como Nozinho, mas no Cartório de Lagarto, constava João Rodrigues Ramos.
Nozinho vivia em conflito entre ser o único provedor de sua casa com um mísero salário de oleiro e a dificuldade de autoridade e mando com a linda mulher que tinha.
Judy, sua mulher, era uma morena cor de canela, com seios grandes, altura mediana, bumbum arrebitado, lábios carnudos, peso proporcional à altura e um rosto escultural. Era uma tentação de mulher.
A ingenuidade de Nozinho doía na alma. Era difícil acreditar que no meado do século passado, ainda houvesse gente tão simples e sem maldade como o senhor João Rodrigues Ramos. Saía pela manhã com o embornal nas costas, levando nele, a marmita com o cardápio trivial: arroz, feijão, carne assada ou mantinhas de bife com rodelas de batata inglesa em cima e, salada de pepino com tomate e alface. Nozinho não era o famoso “bóia fria” da lavoura, mas era o “bóia fria” da olaria. Passava o dia todo amassando barro e moldando tijolos. À tardinha, voltava para casa sujo, exausto e feliz com Judy lhe esperando.







II
Edvaldo Fonseca era o que se pode chamar de
despreocupado. Novo ainda, aprendeu dirigir automóvel e caminhão de carga pesada. Era disputado por todo tipo de mulher, principalmente, àquelas chamadas de “Maria gasolina”. Numa época em que motorista de transporte de carga era uma raridade, Edvaldo tirava proveito desse status quo profissional.
Divorciado da primeira mulher, após oito anos de casado com Nelza Fonseca, Edvaldo por mais que tenha querido se desvencilhar da mulher e dos filhos não conseguia. A justiça o atormentava no cumprimento da pensão alimentícia, pois seus filhotes eram todos pequenos e sua ex-mulher impedida de trabalhar noutro lugar sem prejuízo da ninhada. Embora fosse um folgazão, pouco responsável, mulherengo, procurava não faltar aos filhos, o lado afetivo de pai.
Nelza o tinha expulsado de casa. Era impossível conviver com um rufião como Edvaldo, que a cada dia, ela tomava conhecimento de suas novas peripécias amorosas. Passou de mulher à amante, é que depois de separados judicialmente, tinham tido mais dois filhos. Era normal vê-lo saindo da casa de sua ex-mulher ao romper da aurora. Esta rotina só era quebrada quando ele estava enrabichado por outra. Ela, mesmo depois de separada, permaneceu-lhe fiel.

III
Não se podia afirmar que Nelza fosse uma mulher feia. Era uma morena simpática, não lhe davam 30 anos de idade. Tinha casado de véu e grinalda com Edvaldo na flor da adolescência. Não pensava em casar-se cedo. Quando o conheceu, cultivava o sonho de entrar para o convento da Ordem santa Madalena, ainda relutou em aceitar o namoro, mas foi envolvida com as promessas e juras de amor do jovem caminhoneiro. Se seus pais não tivessem pressionado o dom Juan, Nelza tinha se casado com a barriga na boca. Aos primeiros sintomas de gravidez o malandro foi chamado à responsabilidade:
- Senhor Fonseca, não tenho filha para falatório de vizinhos. Tratemos logo desse casamento, senão, um de nós dois pode ir encomendando sua alma ao Criador!... – Fonseca não era covarde, mas a consciência moral clamava por correção:

- Senhor João, não me preocupo com os mexericos dos vizinhos, preocupo-me em fazer sua filha feliz e com um ser que está a caminho, o senhor pode providenciar o enxoval e a data do casamento. Quanto às despesas que forem minhas, eu as assumirei.


IV
O casamento foi feito. E, durante alguns anos, Nelza não desejaria outro marido melhor. Edvaldo era um trabalhador incansável, cumpridor de suas obrigações domésticas, bom pai, bom marido, mas pouco e pouco foi dando menos atenção à esposa e mais atenção às mulheres da rua.


V


Nozinho era um simplório, não enxergava maldade ao seu redor. Para ele todas pessoas eram honestas. Todavia, o seu instinto de preservação e sua intuição estavam dando sinais de que alguma coisa de ruim estava acontecendo, deu pra aconselhar-se com o seu velho colega de trabalho Manoel Dias:

- Dias, ultimamente, ela sempre tem uma desculpa. Há mais de dois meses que não temos relações sexuais. É dor de cabeça, é mal estar, é naquele dia vermelho do mês, há um pretexto a cada dia.

-Nozinho, procure outras mulheres. Quem sabe se numa provocação, o ciúme aparece e tudo volta ao normal.

-Dias, jamais vou fazer isso. Mesmo que quisesse não conseguiria. Amo minha mulher. Nunca disse isso a ninguém, vou lhe dizer agora, por confiança e sei que você não vai me gozar: nos casamos virgens!...

-Nozinho, fique tranqüilo, isso não é nenhum crime. Apenas, prova que você sempre foi um rapaz contido, se preservou para mulher dos seus sonhos. Ela também, entregou –se - lhe depois de casada. Mas meu amigo, tenha cuidado, mulher quando fica muito dada ou arredia, por debaixo desse angu tem


caroço. Cuidado, comece mudar a rotina. Dê para chegar em casa nos momentos mais inesperados. Use todos artifícios de um homem desconfiado e enciumado.


VI


Judy e Fonseca encontraram-se por acaso. Ela tinha ido comprar um novelo de linha numa vendola não muito distante de sua casa quando o encontrou a papear e a beber com alguns amigos. Ele ao vê-la, não se conteve de admiração:

- Juvenal (dono da bodega), eu pensei que as deusas só fossem encontradas nos livros, mas estou diante de uma delas, posso saber sua graça senhorita? – Judy ficou desconcertada, desnorteada, não esperava galanteio àquela hora, ainda mais, diante de tantos homens desconhecidos – Não sou senhorita. Sou a senhora Ramos. O senhor não acha imprudente elogiar mulher casada? – Senhora Ramos me perdoe pela imprudência. Não sabia que era casada, tão jovem!... Porém, o que disse é verdade, não posso negar sua beleza. Negar sua beleza é como negar a beleza das flores... – Ela deu-lhe às costas, pagou ao bodegueiro e saiu.
Fonseca continuou bebendo e proseando com os amigos. Porém, lia-se no seu semblante que o encontro com Judy, o tinha incomodado. Não descansou enquanto não soube quase tudo dela.

VII

Nozinho encontrou mais uma vez a casa fechada. Depois da conversa que tivera com o colega Manoel Dias, deu para chegar em casa nos momentos mais inesperados. Judy estava cada vez mais estranha e distante. Às vezes, quando passava para o trabalho, notava nos vizinhos atitudes diferentes das usuais. Eram cumprimentos demorados, conversas reticentes ou conselhos não pedidos.
Naquele dia, tinha chegado em casa mais cedo. Judy não estava. Isto já não lhe surpreendia. Porém ao adentrá-la teve um pressentimento sombrio e solitário. Inquieto, cheio de idéias confusas, ia de um canto a outro da moradia procurando respostas para suas perguntas silenciosas: “Será que ela me abandonou?”, “Para onde foi?”, “Que devo fazer?” Todas essas perguntas vinham à sua cabeça aos turbilhões, tão envolvido estava que não pressentia que o seu cachorro o lambia dum lado enquanto o gato rosnava do outro. Num momento de insight, lembrou que todos os segredos, os dele e os dela eram guardados numa caixinha metálica que ficava dentro de uma gaveta da cômoda de cinco gavetas no quarto do casal.
Levou um susto, lá dentro da caixinha estava um bilhete com uma letrinha redonda e inteligível. Nele lia-se: “Perdoe-me, não queria magoá-lo. Não lhe mereço... Adeus.” Ele saiu cambaleando da casa porta fora.

No quintal da casa, embaixo de uma mangueira, sentado em um toco, resto de uma árvore apodrecida: ele, o cão e o gato, abraçados, choraram!...




Sovinice
R. Santana


I
Na relação de consumo, existem as pessoas de bom senso, as perdulárias e as sovinas. As primeiras compram somente o necessário, sem ansiedade, equilibrando despesa e receita, são as mais felizes, as perdulária são estróinas, gastam o seu e o dos outros. Gastam por antecipação, o salário de um mês, elas gastam em um dia. São pessoas irresponsáveis, compulsivas, comprometem sua sobrevivência e de seus dependentes. Lá dentro da sua cabecinha deve haver genes codificados com um comando esbanjador. Essas pessoas aparentemente normais, são emocionalmente desajustadas e infelizes. Por último, as pessoas sovinas, as mais infelizes. Sacrificam literalmente suas vidas e daquelas pessoas que gravitam em torno delas.
Deja pertencia ao universo dos mesquinhos e dos somíticos. Era um pão-duro, um avarento. Seus conterrâneos achincalhavam-no, dizendo que Deja só abria a mão para receber a hóstia porque era de graça. Economizava tudo, menos palavra. Era falante, conversador, conselheiro e extrovertido. Sua política era da boa vizinhança, não cismava com ninguém. Se alguém queixava-se de um amigo comum, ele não dava razão nem tirava. Tinha no sangue a arte de agradar, de acender uma vela para Deus e outra para o diabo.
Eu era menino quando o conheci. Ele deveria ter na época uns quarenta anos. Porém, seu rosto vincado e queimado pelo sol, dava-lhe marcas de expressão de um homem mais velho. Gostava de usar botas meio cano, chapéu de abas largas, calças cáqui e camisa de mangas compridas de brim cáqui. Era um homem branco, alto, bem apessoado mas rústico devido a labuta do trabalho grosseiro.
Para a maioria pobre da cidade sergipana de Lagarto, Deja era considerado um homem rico. Possuía fazendas de gado, malhadas de fumo, olaria, casas residenciais e salões alugados na cidade. Distante uma légua de Lagarto, num lugarejo chamado Coqueiro, ele possuía um sítio que era misto de residência e quartel general dos seus negócios. Lá ele recebia vendedores e compradores de gado, vendia tijolos e vendia toneladas de fumo para exportação. Pagava aos seus empregados da cidade, aos trabalhadores das malhadas, aos peões do gado e os vaqueiros. Poder-se-ia dizer que lá, em sua residência-escritório, era também, o lugar das suas transações financeiras. Quando alguém lhe tomava um dinheiro emprestado, era ali que ele atendia. Por questão de segurança, simulava pegar o dinheiro no banco e o entregava um ou dois dias depois. Se uma pessoa já lhe devia e queria mais dinheiro emprestado, ele dizia:
- Meu filho (chamava todos de filho, mesmo se fosse mais velho), um velho não suporta um novo nas costas!. – Então, quando alguém o surrupiava com coisa à toa:
- Quem rouba um tostão, rouba um milhão! – Se uma pessoa queixava-se que trabalhava muito e nada adquiria, ele o consolava:
- Meu filho, a quem Deus prometeu vintém não dar dez réis. Quem nasceu para ser tatu, morre cavando! – Certa feita flagrou um dos seus empregados jogando fora umas esporas velhas:
- Meu filho, não jogue nada fora, tudo tem sua serventia. Se no momento algo não presta, guarde-o por seis meses. – Seu Deja e se daqui a seis meses não tiver utilidade? – Guarde-o por mais seis meses, irá ter serventia uma dia!... – Era uma sovinice racional.

II
A mulher e os filhos comiam o pão que o diabo amassou. Os filhos
estudavam em escola pública. Além de percorrerem uma distância de seis quilômetros todos os dias, a pé ou escanchados em um animal, nunca eram vistos com dinheiro fazendo festanças. Se levassem algum dinheiro, por certo, tinha sido dinheiro por serviço prestado ao pai. Se não tinham dinheiro para merenda, sua mãe enchia as mochilas de frutas do próprio pomar.
Guiomar Rodrigues, mulher de Deja, tratada por D. Guidinha, tinha sido escolhida desde infância pelos pais de ambos para desposá-la. Era uma tradição da terra, os pais escolhiam a esposa para os seus filhos em tenra idade. Além disso, Deja era primo carnal de sua mulher pelo lado de sua mãe.
D. Guidinha era uma morena afoita, temperada pelo clima íngreme do nordeste. Embora tenha tido estudo regular, concluindo o curso de magistério em Aracajú, adaptou-se fácil à lides da lavoura e da pecuária. Ordenhava como poucos as vacas de sua fazenda. Não era estróina mas não tinha se acostumado com a mesquinhez do marido, por isto, as brigas eram constantes e quando o assunto era filho, o conflito do casal excedia ao normal em palavras e impropérios.
- Seu Deja, as nossa filhas estão mocinhas, não.podem vestir-se como umas peregrinas!
-Elas têm que trabalhar. Nunca achei nada de mão-beijada. Quando chegava da escola, meu pai mandava ir almoçar e procurar o caminho da malhada num sol de 38 graus, se não fosse o chapelão que eu usava, morria estorricado!
-Seu unha–de-fome (quase gritando), não estou lhe pedindo nada!... Lembre-se que sou sua sócia pelo casamento. Afora isto, meu pai me deu como dote 300 cabeças de gado e dois alqueires de terra, patrimônio maior do que você tinha naquela época. Me dê o dinheiro, senão, vou vender o gado e se é homem vá lá empatar, seu miserável !... – A mulher virava uma fera, Deja tremia de raiva, mas na casa do sem jeito cônscio da fera mãe que tinha, acabava cedendo...
III
João de Juvêncio e Amália Santana, era um casal que tinha tido uma convivência feliz por alguns anos depois do casamento. Ele, primo de primeiro grau de Deja; ela, tinha sido a segunda mãe de D. Guidinha, tanto pelo batismo, como era comum a mãe de Guidinha deixá-la dias a fio com D. Amália. Não tendo filhos, João e Amália tinham loucura pela afilhada.Depois que ela casou-se, pela distância e rotina do casal, as relações do dia-a-dia de Guidinha e seus padrinhos foram esfriando-se, permanecendo o amor e a consideração.
João era um homem trabalhador. Tinha construído um patrimônio razoável. Como não tinha filhos nem irmãos, depois dos 50 anos, ele e a mulher, começaram dilapidar seu patrimônio por força do vício da cachaça e por ele ficar entregue ao cuidados de pessoas inescrupulosas e desonestas. Se Deja e a mulher não intercedessem, ficariam às esmolas, Guidinha despertou o marido.
- Deja padrinho precisa de socorro. Já vendeu o gado quase todo, não trabalha mais.A fazenda está entregue ao léu da sorte. Ele e madrinha passam o dia bebendo. Bodegueiro manda-lhes de 2 ou 3 litros de cachaça por dia. Estão esbanjando os seus recursos, além disso estão sendo usurpados e vilipendiados em seu patrimônio. Se não tomarmos providências, irão se acabar na miséria. – Deja que não deva prego sem estopa, foi-lhe fácil tomar as rédeas do negócio do primo e padrinho de sua mulher.
Deja e Guidinha, devagar foram colocando ordem na casa e na vida do casal alcoólatra. Para Amália e João, Guidinha era uma filha e a recíproca era verdadeira. Ela tinha um grande apreço pelos padrinhos, principalmente, por não ter mais os pais biológicos. Não de mala e cuia, mas com marido e filhos, ela mudou-se para casa deles.
Algum tempo depois, Guidinha tinha transformado a casa dos padrinhos em um lugar higiênico e aprazível de morar. Entendendo que era impossível suspender de vez a bebida dos padrinhos, passou racionar com carinho e disciplina a bebedeira de João e Amália. Deixou de comprar na bodega que os estavam espoliando e passou encomendar barris de 50 litros de cachaça por mês. E forçá-los na alimentação. Por outro lado, Deja soergueu a fazenda do primo e as coisas começaram tomar o ritmo de antes.
João e Amália no aconchego da afilhada e dos filhos dela, netos adquiridos, começaram tomar gosto na vida e diminuíram de maneira considerável o vício. Sua afilhada tinha reduzido em mais da metade o uso de bebida, meses depois.
Poucos anos depois, vítimas de seqüelas da bebida e da idade, morrem quase ao mesmo tempo, João Juvêncio e Amália, deixando para Guiomar Rodrigues, sua herdeira universal, todos os bens.

IV
D. Guidinha morreu 10 anos depois que os padrinhos se foram, contraiu um carcinoma no seio. No início da década de 80 do século passado, o tratamento dessa doença era incipiente ou quase nenhum, em conseqüência da doença, ela morre na flor da maturidade, em estado deplorável, na capital paulista, ladeada de filhos e netos. Seu marido recusou-se acompanhá-la à cidade de São Paulo, alegando falta de aptidão par transitar num grande centro urbano – as más línguas diziam que Deja estava preocupado com o tamanho da conta...


D. Guidinha morta a casa cai. Ela era o ponto de equilíbrio da família, ela que aparava todas as arestas e conflitos entre pai e filhos, deixou um enorme vazio. Deja à medida que envelhecia, tornava-se ranzinza e mais avarento. Com a morte da esposa, torna-se taciturno e intratável, um dos motivos é que teria de dividir por força de lei, a fortuna com os filhos. Filhos independentes, começam afastar-se cada vez mais dele.

As pessoas mais velhas e mesmo as mais novas, juravam de pés juntos que Deja era possuidor de muitos milhões de dinheiro. Nos últimos anos de vida, era um asceta desprovido de ascetismo. Comia pouco e vestia as roupas surradas pelo uso e pelo tempo. Enquanto isso, o seu saco da usura não tinha fundo, seus negócios não paravam de crescer, cada dia mais rico e mais ridículo.

V
Início de 1985, morre em seus aposentos, de infarto aos 67 anos de idade Benjamin Deja Santos Rodrigues, fora da família, na companhia de uma velha governante, duas ajudantes de cozinha e dois agregados que faziam quando necessário o papel de segurança.
Passado velório e sepultamento, filhos e netos começam vasculhar os ativos e passivos do pai e avô. Não encontraram dívida, Deja tinha aprendido desde cedo que a compra à vista lhe proporcionava maior capacidade de negócio e pechincha e como conseqüência, aferia grandes lucros.
A surpresa estaria por vir. Consultado os bancos, não havia saldo devedor, todavia, o crédito era ínfimo em relação ao volume de negócios de Deja. Os filhos e os netos não entendiam como seu pai e avô, movimentava um grande latifúndio e um comércio de aluguéis na capital e no interior, uma olaria, comércio de fumo, compra e venda de gado etc, etc... com aquele pingo de dinheiro.

O filho mais velho de Deja, que tinha-lhe herdado o nome e a mesquinhez só que de forma mais burilada, começou suspeitar que seu pai tinha usado algum artifício para esconder o dinheiro ou o tinha emprestado a juros que era uma de suas práticas. Mas dentre os papéis encontrados, a quantidade de notas promissórias e os valores não eram significativos Por isto, procurou sua madrinha, a única pessoa depois de sua mãe que seu pai confiava cegamente e com a morte dela, essa relação se tornou mais recorrente. Tudo que Deja fazia ou ia fazer, madrinha Josefa (como todos chamavam-na), sua governanta e amiga há 40 anos, era a primeira a tomar conhecimento e opinar.

- Madrinha, meu pai deixou algum dinheiro? – Sim, meu filho, mas ele me fez uma recomendação... – Qual foi? – perguntou Dejinha – Que se fizesse uma reunião com todos para entregar o dinheiro!... – Madrinha, já deveria ter nos falado! - Meu filho, deixe seu pai esfriar na cova, que pressa é essa? – Não é pressa, é que temos de tocar os negócios e é necessário dinheiro. – Então, todos aqui amanhã – convocou a negra.

O quarto era enorme. Um misto de quarto e escritório. Em frente à porta ficava um guarda-roupa de jacarandá de 6 portas, do lado esquerdo, uma prateleira de livros e objetos pessoais, do lado direito, outro guarda-roupa menor e completava o espaço, um escrivaninha de 5 gavetas, nela, Deja usava sua máquina “Remington”antiga de datilografar, em um dos cantos, um porta-chapéu repleto deles, noutro lado, a porta da suíte. A cama ficava no meio do quarto, em cima de um tapete persa retangular azul. Todas essas peças, tinham sido estrategicamente colocadas com a finalidade de deixar o ambiente aconchegante e transitável. Nele se enxergava a mão feminina de D. Guidinha.

A cama merece um parágrafo especial. Feita e trabalhada no jacarandá. Armada, um homem era incapaz de deslocá-la de um lugar pra outro face o seu peso. Os pés grossos e torneados, recebiam as duas cabeceiras e as peças laterais. Não era muito alta, porém, uma pessoa de baixa estatura, sentado, não arrastaria os pés no chão. Na cabeceira mais alta, ficavam duas gavetas espaçosas que serviam para colocar um livro e um abajur em cima das tampas. Além disso, na cabeceira mais alta, ela estampava um lindo desenho talhado em que um moço oferecia uma flor a uma linda jovem. A cama era uma obra de arte...
Os herdeiros estavam apreensivos dentro do quarto. Madrinha Josefa pede aos mais moços que tirem da cama um pesado colchão ortopédico e puxa uma trava disfarçada, de madeira, liberando o lastro da cama em forma de tampa, pondo à vista milhões de cruzeiros em maços de dez mil cada.

Nossa, quanto dinheiro!!! – gritaram todos.


Hoje, na cidade de Lagarto interior de Sergipe no mausoléu da família Deja, ler-se uma lápide:



“Jaz aqui um homem que tinha como divisa o dinheiro e sobre ele pereceu”


Deja

1918/1985








Doglândia
R. Santana



Os cachorros estavam em polvorosa, todos queriam falar ao mesmo tempo. O cachorro que estava com o microfone pedia silêncio e ordem:
- Senhores, há uns 15 minutos que lhes peço silêncio e ordem para que eu possa ler a pauta. Depois os senhores reclamam dos humanos... – esbravejou.
A Confederação dos Cachorros Nacionais – CCN, tinha marcado uma assembléia para discutir os problemas urgentes que grosso modo eram os empecilhos para que todos tivessem uma digna vida de cachorro.
Lá estavam representados todos os cachorros do país: do vira-lata ao sofisticado pit-bull do presidente da república de Doglândia. Nas primeiras cadeiras ficaram os Poodles, os Rottweilleres, os São Bernardos, os Yorksires, os Malteses, os Labradores, os Huskys Siberianos, os Foxes Terrieres e os filas brasileiros.
Lá em Doglândia também se encontravam: o cachorro do presidente, o cachorro do ministro, o cachorro do secretário, a cachorra da primeira dama, o cachorro do deputado, o cachorro do senador e o cachorro do ministro da Justiça. Todavia quem estava conduzindo os trabalhos, era um cachorro barbudo, sem pedigree, mas que tinha notoriedade nacional, pois transitava em todas as camadas sociais, nas classes sociais pobres, ele tinha mais penetração.
-Senhores, nós iremos falar inicialmente, sobre a nossa comida que com algumas exceções, torna-se cada vez pior – alguém no auditório solicita à palavra:





-Senhor Secretário, eu represento o Nordeste. A vida de cachorro lá não é fácil, nós comemos as sobras dos nossos amigos humanos. A recíproca que “é melhor ter um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, lá não é verdadeira. Esse negócio de ração é pra cachorrada rica do Sul de Doglândia. Eu soube que aqui na Capital Federal, os cachorros almoçam alcatra e filé mignon... – o orador não terminou de falar:
-uau, uau, uau, uau, uau...o latido era geral!...- o cachorro Secretário bateu na mesa:
-Senhores cachorros, assim não é possível! A algazarra não constrói. Ganhar no grito é coisa de humano, temos que ouvir o nosso orador, depois cada um se manifesta – o silêncio voltou a reinar no auditório.
-Ia dizendo que os cachorros dos deputados, os cachorros dos senadores, os cachorros dos ministros... comem filé mignon, alcatra e outras delícias humanas, quando fui interrompido. Não é nenhuma aleivosia, é verdade, aqui todos passam bem, lá no Nordeste, nem os nossos amigos humanos degustam dessas iguarias... – foi interrompido mais uma vez:
- O Laulau me concede um aparte?
- Aparte concedido. Porém, gostaria de informar ao cachorro amigo, que não me chamo de Laulau, mas de Lulinha, fique à vontade! – esclareceu o orador.
-Desculpe-me companheiro, tudo começa com “L”, troquei alho por bugalho. Mas quero esclarecer ao nobre orador que onde há fumaça, existe fogo. Não é de todo mentira, sei que isso acontece quando os nossos amigos humanos deixam os seus sobejos. Geralmente, os cachorros daqui comem comida industrializada em nome de uma boa saúde e, diga-se de passagem, alimentação cada vez mais fedorenta, come-se apulso... é àquela história: “quem não tem cachorro, caça com gato”. A mídia extrapola um pouco, mas não é de todo mentira. - Justificou o orador.



O Secretário mais uma vez, chamou à atenção dos demais companheiros para não divagar com discussões estéreis de somenos importância, lembrava-lhes que havia uma pauta extensa e significativa para maioria:
-Senhores cachorros, não vamos transformar nossa assembléia em um caldeirão de futilidades. Se os nossos amigos estão comendo bem na Capital Federal não lhes cabem críticas, o importante é que trabalhemos para que todos tenham uma vida de cachorro digna. – falou o Secretário.
No meio da cachorrada surgiu uma cachorra magrinha, de pelos luzidios, da raça Basset, doida para falar. Pelo seu pequeno tamanho e sua voz rouca não tinha conseguido ainda ser ouvida. Pelos olhos de lince do Secretário, foi enxergada de longe, com as mãozinhas levantadas pedindo para falar.
-Senhores, nós vamos ouvir à senhorita ali do meio! – interrompeu o Secretário. Todos fizeram silêncio. A pequerrucha com um bonezinho branco e óculos escuros se destacava pela beleza.
-Amigos, eu comungo com o cachorro Secretário. Se houver dissensão entre nós, jamais iremos ter sucesso nas nossas reivindicações. A comida não é a coisa mais importante das nossas discussões. Eu sou do Nordeste, jamais irei trocar uma buchada de carneiro ou um pedaço de carne de bode por um prato refinado de caviar. Além disso, lá desfrutamos de liberdade que não a encontramos aqui. – todos foram unânimes nas ovações.
-Muito bem senhorita! Posso saber sua graça? – perguntou o Secretário.
-Hanna!
-Senhorita... – interrompeu a cachorra:
-Por favor, pode me tratar por “senhora”, embora eu seja nova, já tenho três filhotes e um marido. – advertiu Hanna.
-Eu gostei do seu aparte. A senhora foi lúcida e objetiva em suas colocações. Temos que nos unir naquilo que é do interesse da maioria e não aos casos pontuais. O cachorro do presidente, do ministro, do deputado e de outras autoridades, são cachorros que vivem no bem bom e milhões doutros cachorros passando fome e necessidade. Por isto, na pauta colocamos os assuntos relevantes e do interesse da maioria. – definiu o Secretário.

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Uma Poodle tratada, cheia de lacinho, perfumada, de nariz arrebitado, suspendeu a mão pedindo pra falar. Foi atendida, pois estava com a mão estirada fazia algum tempo:
-Senhores, eu não concordo com o Secretário que tenhamos que seguir literalmente sua pauta. Ele definiu muito bem os assuntos, mas se esqueceu de acrescentar em sua pauta “o quê houver...”, de praxe em todas as reuniões, às vezes, surgem coisas importantes para discussão que não estão na pauta! – todos concordaram. - O Secretário, político, polido e educado, pediu-lhe para que a elitizada cachorra continuasse sua fala:
-Senhores, eu não quero causar nenhum mal estar, porém, têm coisas que são do interesse duma classe privilegiada que passam ser do interesse de todos pela gravidade e... por exemplo... - fez uma pausa como se tivesse esquecido de algo, aí começou uma balbúrdia... – O Secretário teve que intervir:
-Senhores, quando um cachorro fala, o outro murcha a orelha. Vamos ouvir as colocações da senhorita Poodle! – a balbúrdia foi controlada.
-Senhores cachorros, o meu nome é Laika, moro em uma casa rica aqui na capital de Doglândia. A minha queixa talvez não tenha sentido para maioria da minha raça, mas muitos irão considerar a minha queixa procedente. Explico-lhes:
-Eu e mais milhares de cachorros somos agredidos no dia-a-dia em nossa natureza. Alguns humanos sublimam suas frustrações, seus complexos, suas fobias, suas decepções amorosas em cima dos cachorros.
Enchem-nos de perfume, de laços de fita, de vestuário, transformando-nos em seus bibelôs de luxo e de prazer. Pensam os humanos que é fácil ficar o tempo todo perfumado ou cheio de talco? Não, não é fácil. Quero ter cheiro de cachorro. Além disso, senhores cachorros, muitos nos usam em suas fantasias sexuais doentias.
As filhas das dondocas nos aborrecem, levando-nos pra aqui e pra acolá contra nossa vontade.
Tenho dito!... – todos bateram palmas de pé.

A discussão continuou. Um vira-lata usou da palavra para manifestar sua vida de cão vagabundo:
-Cachorros amigos, eu não tenho dono, moro na rua, não me queixo por isso. Sou livre. Vou para onde quero sem dar satisfação a ninguém, mas nem tudo é flor! Não desejo perfume nem talco, todavia, sinto falta de alguns cuidados como um banho de vez em quando, remédios, inseticidas para debelar os nossos inimigos carrapatos e pulgas.
Hoje, antes de chegar aqui, corri como um cachorro-louco, porque os humanos estão com uma carrocinha levando os cachorros sem dono para fazer lingüiça. Quando o cachorro é saudável, é bonito, eles deixam-no de quarentena até surgir um humano que se interesse e leve-o para sua casa. Os humanos fazem isso também com os seus filhos adotivos.
Por isso, quero passar um abaixo-assinado, para os senhores entregá-lo à Sociedade Protetora dos Animais, em nome de todos. – concluiu.


O Secretário comunicou à Assembléia que o cachorro de Bush, Barney, tinha tido a gentileza de enviar um e-mail, desculpando sua ausência, justificando as preventivas medidas de segurança que tinha de seguir para não ser mordido pelo cachorro de Osama bin Laden, terrorista raivoso, que quando não mordia, explodia carrocinhas de bombas, espalhando carne de cachorro para todos os lados...
Alguém da platéia, intempestivamente, sem os mínimos requisitos de civilidade, interrompe a fala do Secretário:
-Não seria necessário ler as desculpas desse famoso cachorro! Ele quer fazer média diplomática com os seus irmãos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Para mim, tanto o cachorro de Bush e de Osama são da mesma laia. Dou um pelo outro e não quero volta! – mesmo sem ser chamado, foi aplaudido com fervor.
-Senhores, em todo lugar há bons e maus cachorros. Cachorros sérios, cachorros corruptos e cachorros ladrões ocupam simultaneamente, os tribunais, os legislativos, os executivos, os Estados Maiores, as Forças Armadas, as polícias, os bancos, as indústrias, o comércio, enfim, como os humanos, nós temos, também, tumores benignos e malignos, mas graças ao nosso protetor São Roque, os benignos são maioria. – todos assentiram.


-Senhores, nós estamos aqui há 4 horas, já colocamos enésimos problemas, porém, nenhuma proposta para encaminhamento. Quero ouvir, doravante, propostas sucintas para solução dos nossos problemas. Para racionalizar os nossos trabalhos, de agora em diante, somente o cachorro inscrito usará à palavra por um minuto, um minuto e meio para réplica e tréplica, os demais cachorros usarão a prerrogativa do voto. – o Secretário exigiu objetividade dos conferencistas e delegados, surge à primeira proposta:
-Senhores, meu nome é Kid, nasci aqui em Basilândia, capital do país e sou companheiro do ex-deputado Robert Justus. Gostaria de levar aos meus pares à proposição: “... serão denunciados ao Fórum Internacional dos Cachorros – FIC, os corruptos, os corruptores, os traficantes, os ladrões, os sonegadores, os mentirosos, os facínoras. Que sejam presos sem direito a sursis ou gozem de redução progressiva de pena, suas aposentadorias anuladas, suas rações reduzidas e seus bens confiscados...” – não terminou de falar. As palmas estridentes e os gritos de vivas ouviam-se nas galerias, nos mezaninos e até fora do prédio. Parecia que Kid tinha solucionado, com uma dúzia de palavras, os males de 500 anos de história de Doglândia. O Secretário, também convencido da panacéia de Kid, disparou a campainha, conclamando para que todos retornassem aos seus lugares, que iria formalizar a proposta:
-Cachorros amigos, o senhor Kid tem uma proposta interessante, acho que teve apoio da maioria absoluta. Quero apenas convidar os cachorros advogados para analisarem os aspectos jurídicos, em seguida, encaminharemos formalmente aos órgãos da República e aos Fóruns Internacionais... - os sábios juristas já se encaminhavam pra mesa, quando do fundo da sala se ouve uma voz de barítono:

-Senhores, um momento, eu gostaria de fazer algumas considerações se me for permitido... – era um fila brasileiro que pelo seu tamanho, ele tinha se acomodado nas poltronas do fundo por serem mais espaçosas. O Secretário concedeu-lhe a contragosto à palavra:

-Senhor, a proposta do nosso companheiro Kid já foi ovacionada e encaminhada à mesa para ser formalizada. Concedo-lhe à palavra se for uma questão de ordem, senão, que não haja solução de continuidade em nossa reunião!
-Senhor Secretário, sou um tabaréu do interior, não sei bem o que é “questão de ordem” e não me interessa saber. Só sei que estava aqui em meu canto lhes ouvindo e ruminando no meu pensamento o certo e o errado. Sei também, que uma democracia se caracteriza pela opinião de todos, inclusive, a opinião dos que não concordam. – o desconhecido se firmava...
-Não estamos aqui para cercear o direito de ninguém, mas o conflito não é bem vindo em matéria discutida e aprovada. – falou o Secretário.
-Concordo com o ilustre Secretário quando fala em matéria “discutida e aprovada”. O senhor Kid teve a sorte de sua proposta ser aprovada sem discussão como um axioma. Não sei se sua proposta resolveria os nossos problemas endêmicos. Não me agrada a onda de “denuncismos”, de delações, de dedos-duros, de falsos moralistas. Já vimos esse filme com os humanos, nada melhorou, nada solucionou... – foi interrompido:
-Seu nome, senhor? – perguntou o cachorro Kid. –Descartes, Senhor!
-Senhor Descartes, sua crítica a priori à nossa proposta, teria que ser embasada numa solução – argumentou Kid.
-Acho que não existe uma solução à vista, de imediato. Não se resolvem maus costumes, somente, com denúncias, delações, decretos e punições. É necessário que se crie uma cultura ética duradoura de pais para filhos. Denúncias vazias, poderes corrompidos, delações, impunidades e injustiças são os exemplos que os humanos estão nos oferecendo, ultimamente, sem soluções efetivas, sua proposta é semelhante. Pergunto-lhe e aos demais companheiros, é essa a solução que queremos?... – contra-argumentou. A maioria dos cachorros presentes, estava dividida. Um burburinho começou tomar corpo, foi necessário que o Secretário disparasse a campainha pedindo-lhes silêncio:
-Senhores, nós não podemos continuar o trabalho nesta balbúrdia. Silêncio!... Uma oradora está inscrita e quer falar. – as coisas foram se acomodando. Todos viram quando uma cachorra gatinha subiu no palco com um papel nas mãos com a intenção de dizer alguma coisa:

-Senhores e senhoras, eu me chamo Picles da família Poodle, uma das famílias mais elitizada de Doglândia. Eu concordo um pouco com o senhor Descartes, o “denuncismo” termina atingindo e enxovalhando inocentes. Neste país todo mundo tem o rabo preso, principalmente, os poderosos, por isto, escrevinhei uma proposta e gostaria de ler o resumo para os senhores. – e leu alto para que todos ouvissem-na, desde o cachorro da primeira fila até o último do mezanino ou da galeria, o sistema de som lhe ajudava:
-A minha proposta consiste em:
-Eleger 16 de agosto o dia do protesto, doravante. Nesse dia, faríamos manifestações em praças públicas, na mídia, com o auxílio de cachorros famosos como Floquinho, Rin Tin Tin, Scoby Doo, Snoopy, Bidu, Banzé, Ideiafix e outros artistas, divulgando e exaltando as boas ações da nossa raça;
-Os cachorros privados e de rua espalhariam pum, coco, xixi, pipi, nos tapetes, dos órgãos públicos e empresas privadas, nas ruas, nas praças no comércio nos bancos, nas indústrias, proporcionais às ações ruins praticadas no ano anterior, ou seja, quanto maior tivesse sido os escândalos, em dobro seria a sujeira;
-Deixarmos a critério dos órgãos policiais, da Justiça, do Ministério Público, a tarefa preventiva, investigativa e punitiva;
-Enfim, que as más ações não sejam as manchetes principais de qualquer mídia, que criemos na mídia uma consciência e uma cultura éticas.
-Tenho dito!- as aclamações foram duradouras e estridentes.
Pickles tinha surpreendido a cachorrada. Sua proposta não era uma caça às bruxas ou um ode à impunidade, mas um drama sem final trágico.
Não houve mais aparte nem réplica, nem tréplica, talvez, a cachorrada estivesse cansada. À saída, alguém falou com Spinoza:
-E aí cachorro filósofo?
-Se a razão não resolve, talvez, a merda e o xixi sejam a solução!
Assim terminou a assembléia e o grande encontro da cachorrada em Doglândia. Qualquer semelhança não é mera coincidência, é semelhança mesmo!...


Autor: Rilvan B. Santana
Gênero: Fábula
Imagens de domínio público-GOOGLE




A C R U Z
R. Santana


“Tens tu lido
Da dura cruz
Na qual Jesus morreu,
Desfazendo as trevas raiou a luz,
Manando sangue seu?”


Conta-se que um fazendeiro do interior da Bahia vivia sempre reclamando e maldizendo-se da vida. Fazia da rotina pessimismo. Se o céu escurecesse durante o dia, prenunciava tempestade, se fizesse sol mais de uma semana, achava que ia haver uma calamidade!... Se houvesse um déficit anual de sua produção agrícola em decorrência das intempéries da natureza, culpava todos os Santos que conhecia. Reclamava da mulher, dos filhos, dos empregados, pelos seus infortúnios. Em suma: era um rabugento insuportável de dar porre em Sonrisal...
Certo dia, depois de farto jantar, foi mais cedo pra cama. Sonhou que tinha morrido e ido para o céu. No céu foi recebido com alegria por São Pedro e sua staff. Ficou surpreso pela auspiciosa recepção. Quis se desculpar mas, São Pedro adiantou:
- Filho lembra-se das palavras do Mestre? Ele disse: “... haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
O lamuriento começou percorrer as ruas, as praças, os condomínios e os shoppings. Quando em vez, reclamava do desperdício, dos transeuntes, da suntuosidade, da fartura alimentícia e do fausto. E, para o anjo que o acompanhava:
- Isso é um desperdício. Não há controle das contas públicas? É o caos!... – O Anjo lhe explicava que no céu era diferente da Terra. Não havia Tribunais de Contas, Ministério da Fazenda, Banco Central, Controladoria Geral da União, impostos... e completava: - aqui todos trabalham em mutirão, cada um prover sua casa de acordo suas necessidades - o fazendeiro interrompia: - e os desonestos? Os mais argutos? – O Anjo discorria que lá não havia ladrão ou desonestos de qualquer espécie, todos tinham consigo o Espírito Santo e andavam de acordo a palavra do Mestre. E se alguém saísse da linha, voltaria para Terra para purgar seus pecados. Desonestidade, crime de morte e outros crimes eram coisas de seres imperfeitos da Terra e de outras casas de Deus, nos céus somente os redimidos do pecado. O nosso amargo amigo ouviu, ouviu mas saiu dali atendido sem ser convencido.
No terceiro e último dia de sua estada no céu, já chateado e irritado com tanta alegria e felicidade daquele povo, procurou São Pedro: - São Pedro, quero voltar para Terra. A minha fazenda está entregue aos cuidados daqueles incompetentes, se eu demorar aqui só vou encontrar o casco! – São Pedro: - calma filho, sua fazenda está em boas mãos, os seus lhes são fiéis... quer conhecer o Cartório de Registro? Vamos lá? – O fazendeiro, mesmo contragosto, não poderia ser ingrato aos auspícios recebidos ali. Apenas, solicitou de São Pedro que o mandasse de volta às suas terras logo.
O Cartório de Registro ocupava um quarteirão com vários departamentos. As prateleiras estavam lotadas de livros. Havia um movimento enorme de pessoas trabalhando. São Pedro percorria as salas, era um cicerone perfeito. Era estimado e venerado por todos. Após algum tempo de visita, chegaram a um departamento lotado de cruzes de madeira, de ferro, de latão, de prata, de ouro... umas pequenas, outras médias, outras grandes e outras enormes! Todas simetricamente arrumadas. O lamurioso fazendeiro ficou curioso pela diversificação das peças, não entendia porque tantas variedades e tamanhos, quais os significados? Não eram todas peças cruzes? E, passou para São Pedro suas preocupações...
- Filho, cada cruz aqui, representa uma pessoa na Terra, cada pessoa lá tem sua cruz. As cruzes de madeira representam a maioria das pessoas, as de metais representam homens e mulheres que lutam em favor da humanidade, quanto maior é a cruz, maior é sua tribulação, há cruzes de vidro, de plástico, marfim, gesso... – o fazendeiro estava intrigado, qual daquelas cruzes seria a dele? Mas não podia romper a indiscrição, será que São Pedro poderia lhe informar? Ou, eram informações sigilosas que só o Criador era detentor? Mas arriscou:
- São Pedro, eu conheço alguns donos dessas cruzes? – Sim! Nesta sala estão todas pessoas do seu convívio. Aquela cruz é de Antônio seu vizinho (enorme), a outra de Pedro seu tio, a outra de Manoel seu cunhado, e foi nomeando.... Cada cruz uma maior do que a outra – faltou-lhe paciência, perguntou: - a minha São Pedro?
- a sua é aquela – apontou - a maior da esquerda? – não, é aquela do fundo a menor de todas! – Não podia acreditar, com tantas tribulações, carregava a menor cruz daquele salão, irritado perguntou: - e a cruz de Maria, minha mulher? – São Pedro apontou a maior de todas à direita – não é possível, ela é bem maior do que a minha! Eu que me acabo para sustentá-la - São Pedro justifica:
- É filho, Maria caminha com você, para que maior atribulação? Maior, só a cruz do Mestre que nela morreu para redenção dos nossos pecados!...


“ achamos sempre que a cruz do outro é menor do que a nossa!...”



Eu sou é macho
R Santana



Ele abriu os olhos e procurou o relógio, eram 6: 00 h. Embora o quarto estivesse fechado, com cortinas vermelhas escuras cerradas, uma réstia invadia pouco e pouco o ambiente: o dia prometia muito sol e muito calor. Observou da cama, que era um quarto retangular, aconchegante, mobília nova e laqueada, teto espelhado, um abajur em cima de uma cômoda de quatro gavetas, guarda-roupa embutido, ar condicionado por controle remoto, TV 42 Tela Plana Plasma, aparelho de DVD e CD. No canto direito do quarto ficava o toalete e anexo o sanitário. Deu-se conta que estava num quarto de motel.
Ainda zonzo, bocejando, estirou-se na cama quanto pôde. Percebeu que ao seu lado dormia uma linda morena. Devagar, foi dobrando o edredom que a cobria, do rosto à cintura, deixando a descoberto dois voluptuosos e sensuais peitos, sem ela esboçar nenhuma reação.
Túlio Assunção Alvarez, jovem advogado de tradicional família soteropolitana, com casamento marcado para dois dias depois, tinha sido alvo da brincadeira de dois colegas do curso de direito, Marcos Sanches e Júlio Pedroso. Marcos e Júlio programaram com os demais amigos, uma festa de despedida de solteiro para Túlio, com a condição de lhe pregar uma peça e a boate “Arco Íris”, foi o lugar escolhido.
A boate “Arco Íris” tinha sido recém inaugurada em uma rua movimentada da capital baiana. Uma casa noturna de padrão internacional, com área de estacionamento, manobrista, segurança, salão de baile, bar, barman e um palco móvel, onde as meninas e os travestis deixavam os homens alucinados com suas danças eróticas e sensuais. Embora seja uma casa dirigida a uma clientela GLS, pelo seu alto padrão e a passagem de cantores brasileiros e internacionais, fizeram dela uma casa para todos gostos e idades.
Túlio não se conteve com a visão daqueles seios, daquela pele lisa e morena, daqueles cabelos pretos escorridos e daquela boca carnuda. Começou abraçá-la, beijá-la, pelo nariz, pela boca, descendo pelo umbigo e quando atingiu a região pubiana, deu um grito abafado e estupefato:
- Que... que... é... isso... que... é... isso !?
- Eh, eh, bem... isso é um peru! – Túlio avançou pra cima daquele desconhecido com vontade de esganá-lo. Estava atordoado, confuso, como tinha ido parar ali naquele motel com um homem? Deveria ter sido coisa daqueles safados! Iria matá-los...
- Saia daqui sua nojenta, antes que lhe quebre as fuças!...
- Agora eu sou nojenta não é? Mas ontem, você me chamava de seu macho, bicha enrustida!... – Túlio perdeu o controle, deu uma bofetada no estranho que ele caiu estatelado em cima da cama. Completou:
- Não me chame bicha enrustida, senão, eu lhe mato! – Foi como cutucar o cão com vara curta:
- Você é uma bicha enrustida mesmo, passou a noite dizendo que queria ser a minha menina e foi a minha menina!... Agora, vem com essa de machão? Estou acostumada com esses machões. Se me tocar novamente, vou colocar este motel abaixo e com ele sua reputação! – Túlio freou o ímpeto, não poderia deixar que aquilo acontecesse. Seria sua palavra contra aquele degenerado. Quem iria acreditar nele naquelas circunstâncias? E se o entrevero fosse parar na polícia? Seria o fim do seu noivado e adeus casamento. Para não se denunciar e ser vítima de chantagens e achaques daquele pervertido sexual e moral, depois:
- Estou lá preocupado com por... ra ... por... ra de reputação!... Saia daqui, senão, vou ligar para polícia e falar que você embebedou-me e roubou-me enquanto eu dormia. – Pareceu-lhe que tinha descoberto o calcanhar de Aquiles, o desconhecido arrumou-se de imediato, calçou os sapatos de salto alto e foi-se...

Túlio livre da indesejável companhia, pegou a toalha e dirigiu-se para o banheiro. Não sabia como as coisas tinham acontecido. Lembrava-se vagamente, que no dia anterior tinha ido com Marcos, Júlio, mais três amigos à boate. E, depois das tantas da noite e tantos goles de whisky, os amigos deixaram-no na companhia de uma linda mulher. Agora, uma pergunta vinha-lhe à cabeça: “será que essa mulher era o travesti?” Eles não perdiam por esperar, sua vingança seria em dobro. Mas, “será que eles sabiam? Poderiam ter sido enganados. Ela, ele, era uma mulher.”

Fez um bochecho, raspou a barba e... quando tirou a cueca... ela estava... manchada de sangue... no traseiro. A bicha não mentiu, o seu corpo o denunciava: ele tinha sido a menina e não o menino. E agora? Noivo ou Noiva? Menino ou Menina?
- Vá pra... eu sou é macho!!!



O Tempo
R. Santana



Estava exausto depois de seis horas de viagem. Embora o ônibus fosse confortável para classe comercial, suas paradas obrigatórias para troca de passageiros me deixavam estressado. O meu filho ainda recomendou na saída de casa: - Pai, o Senhor deveria ter comprado passagem em ônibus Vip, o comercial pára toda hora! – Filho, estou sem pressa. Depois de tantos anos longe da terra grapiúna, quero relembrar cada fazenda e cada porteira por onde passar!...
“Quantos anos teria Clara?” Esta pergunta vinha me perseguindo a mente desde que sair de casa. Comecei puxar pelos meus dotes aritméticos... Eu estava com 52 anos, ela era uns dois ou três anos mais nova... então, ela teria uns 49 ou 50 anos... Não conseguia enxergar Clara com essa idade... Para mim, era a eterna e doce Clara dos folguedos de criança.
- Vamos brincar de esconder? todos responderam uníssono: - Vamos!... Era o que eu queria... Mais velho e mais safado, via naquela brincadeira a minha quase única oportunidade de beijar e sentir Clara nos meus braços, mesmo em fração de tempo... Mas que me importava o tempo? Se o meu tempo era medido pelo relógio do coração que pulsava no peito de Clara. Cada segundo sentindo seu peito arfar junto ao meu e a sua boca colada à minha, representava um tempo infinito.
Os nossos encontros nesses entretenimentos de criança, às escondidas, não permitiam que nos falássemos. Os nossos olhos e as nossas mãos traduziam os nossos sentimentos. Falar seria denunciar onde estávamos. Quantas vezes cingimos nossos corpos de tal maneira que esgueirávamos o oitão da barcaça e a molecada não nos encontrávamos, sempre nós que o descobríamos... e... levávamos aos demais nossas descobertas, impingindo ao desafortunado o pagamento de prenda!...
Bons tempos aqueles da fazenda Ouro Achado. Nela moravam e trabalhavam quatro famílias, inclusive, a minha. Os meus pais eram trabalhadores rurais. Éramos uma família de sete pessoas, o casal e cinco filhos. O Dr. Amaral Silva, grande agricultor, mantinha com os seus agregados as mais íntimas relações de amizade. Esporadicamente, quando ia à fazenda, passar as férias de sua garotada, divertia-se com os seus trabalhadores nas festas que fazia e nos jogos de futebol que promovia nos finais de semana em um campo de várzea que mandou fazer com o seus empregados e os empregados das fazendas vizinhas. Era um homem humano que sempre estava atento às necessidades dos seus camaradas. Quando aos finais da tarde se reunia à turma da fazenda, ninguém o tomava como patrão. Era um homem boníssimo! Todos nós, crianças e adultos o admirávamos. Sua mulher e filhos, embora educados e tratáveis, não dispensavam maiores intimidades...
O ônibus parou. Começou um entre sai de passageiros. Passei mais de três horas ao lado de uma jovem sem dar-lhe uma palavra. Ela desembarcou e não consigo lembrar nem a cor do seu cabelo... Descubro que estou sendo um péssimo cavalheiro, não exercitando princípios de educação tão elementares como os cumprimentos convencionais comum às pessoas civilizadas. Porém, não o fazia por mal, é que as lembranças da fazenda Ouro Achado, vinham com a força de redemoinho à minha cabeça. Eu não atinava para as circunstâncias, as circunstâncias que reparavam em mim. Ademais não queria ver outra mulher, Clara era o meu sonho e realidade, a minha obsessão e o desejo incontido de encontrá-la.
Os meus filhos tinham ido levar-me à Estação Rodoviária da capital baiana para o embarque das 10:30 h de um dia de sábado, mês de setembro do ano 2004. Depois de tanto tempo, não me lembro da data... Sei que tinha comprado uma passagem para o Sul do estado, tencionava pernoitar em Pau Brasil e de lá viajar mais uns 15 quilômetros de automóvel em estrada de chão. Eles acharam estranho tão longa viagem: - Pai, depois de longos anos e sem parente lá, o Senhor vai fazer o quê? Não quis lhes dizer os verdadeiros motivos (atrás duma namorada de infância), ainda mais, que não fazia um ano que tinha perdido a mãe deles. Ela tinha adoecido e morrido subitamente... Gaguejei: - Filhos, vou matar a saudade daquela terra e reencontrar alguns amigos de infância! Sei que não fui convincente, eu os conhecia, principalmente, a mais nova que era perspicaz e desconfiada. Mas, e daí? Todos eles estavam situados e encaminhados. O mais velho era médico e as duas mulheres funcionárias públicas federais além de bem casadas...
Recostei-me cômoda e prazerosamente na poltrona do ônibus, estirei as pernas e tentei cochilar, não consegui, perguntava a mim mesmo: “como estaria Clara? Será que continuaria viçosa e graciosa como a deixei?” Lembro-me que numa de nossas brincadeiras noturnas em que nos escondíamos dos demais meninos, ao enlaçá-la nos meus braços, tinha-a apertado contra o peito e sentindo o seu corpo tremer de emoção, roubei-lhe um beijo que depois de longos anos o seu sabor permanecia como se fora instantes antes...
Cheguei à noite em Pau Brasil, depois de fazer uma breve parada em Itabuna e um rápida baldeação de ônibus. Embora tivesse passado muitos anos sem retornar à minha cidade natal, Pau Brasil pouco tinha mudado, exceto o nome. Continuava uma cidadezinha pacata do interior, tendo como lazer algumas praças e bares, pontos obrigatórios de encontros e desencontros dos jovens apaixonados e de velhos conhecidos. A vida noturna estava restrita a um clube da cidade e umas duas casas de entretenimentos, que esporadicamente promoviam festas com artístas de fora ou os artistas da terra.
Depois de passar uma noite praticamente insone, ansioso para que aquela noite fosse a mais curta da minha existência, levantei-me assim que os galos do quintal da pensão começaram cacarejar e cantar avisando-me que o dia estava despontando. Fiz um lauto desjejum com farofa de cuscuz, inhame, batata-doce, carne-do-sol e ovos estrelados. Quando sair à rua as pessoas já estavam se movimentando para o trabalho.
- Amigo, tu conheces a fazenda Ouro Achado? – Sim! Respondeu o motorista do táxi estacionado à frente da pensão que eu tinha pernoitado. – Quanto queres para irmos até lá? – É uma estrada de chão. Além de ter chovido muito em nossa região... deve estar intransitável... vou lá por R$ 150,00. Ainda espero-lhe com o carro estacionado o resto do dia!... Não lhe fiz pechincha, entrei na pensão peguei a sacola e disse-lhe: - Vamos! E, seguimos estrada fora...
O taxista não me tinha ludibriado, a estrada estava péssima. Os sulcos e valetas provocados pelas chuvas deixaram-na intransitável e perigosa. O motorista dirigia com aptidão cirúrgica, parecia que conhecia cada metro daquele caminho-estrada. Às vezes, eu fechava os olhos na iminência de um perigo fatal. As ribanceiras excediam em mais de 15 ou 20 metros de altura. Se o carro despencasse embaixo, sobraria pouco de nós, mas, pouco e pouco fomos deixando para trás os perigos e chegamos à fazenda Ouro Achado com sol a pino!...
Desci do carro e fui abrir a cancela. Parecia a mesma cancela que tinha deixado anos atrás. Se não era a mesma cancela o cenário era o mesmo: os pés de jambo enfileirados, um pontilhão na chegada, o matagal ralo, a chácara ao fundo das casas, as barcaças, uma ladeirinha antes da sede e ao longo do caminho uma fileira de casas de trabalhadores. Acolá avistava-se ainda o campo de futebol limitado por suas traves. O orgulho dos empregados e do patrão da minha época. Todavia, a fazenda não tinha o mesmo esmero dos meus tempos. As casas pareciam estar com a pintura de anos atrás, algumas delas, o limo e a fuligem as tinham encardidos e os telhados tinham perdido a cor do barro queimado, tornando-os pretos e sujos.
- Oi de casa!... Tem gente aqui?... É de paz!!! Apareceu um moleque adolescente, com os cabelos desgrenhados, roupa mais suja do que rota, mal-encarado, carrancudo, que daria medo se tivesse um porte físico mais avantajado: - Qui deseja sinhô? – Estou procurando por uma moça... uma mulher chamada Clara... se ainda mora aqui? Ele ficou pensativo e depois de longo tempo perguntou: - Num é dona Clarinda, mãe di Zoião e vó di Chica di Zé? Não sabia respondê-lo. “A minha Clara já tinha neta casada?...” - Não! Ela se chama Clara e não Clarinda!... O rapaz ficou atoleimado, não atinava quem eu estava procurando, por fim falou: - Num cunheço ninhuma Clara, sô cunheço D. Clarinda, fia de seu Manué das onças!... – Manoel das Onças?... Clara era filha do famigerado pistoleiro Manoel das Onças, caboclo afamado pela bravura e pelos crimes. Corria mundo caçando e pescando. O sustento da família provinha mais dessas atividades extras do que seu trabalho na roça. Diziam as más línguas que ainda não tinha sido despedido da fazenda porque o patrão tinha medo do seu clavinote. Era melhor ter ao seu lado do que longe de si.
O rapazola convenceu-me esperar mais um pouco. Os trabalhadores não tardavam chegar das roças de cacau. Era tempo de colheita, safra temporão e pouco restava. A maior parte daquela safra temporão já estava nos cochos e nas barcaças, por isso, eles voltariam mais cedo para sede.
Pedi autorização ao rapaz para adentrar e percorrer a chácara. Enquanto andava fui rememorando àquelas árvores, muitas delas, eu, meu pai e meus irmãos as tínhamos plantados. D. Lúcia, a sinhá Lúcia, como todos tratavam-na, tinha o maior xodó por aquele pedaço de terra que produzia tantas frutas exóticas e deliciosas. O apreço dela pelo meu pai provinha do zelo que tinha de manter e ampliar sua chácara com novas mudas frutíferas.
Fiquei sabendo que o Dr. Amaral Silva tinha falecido na capital da Bahia dois anos antes. Hoje, a fazenda pertencia a viúva e filhos. A sinhá Lúcia já estava velha e alquebrada e os filhos eram doutores. Raramente vinham à fazenda, eles não gostavam de mato. Se não fosse o apego da velha por suas terras, os seus filhos já as tinham torrado no cobre.
O tempo passava e os trabalhadores não voltavam. O relógio marcava 14:45h, começava preocupar-me com um retorno à tardinha, numa estrada sinuosa e mal cuidada. O motorista alertou-me para nova recomposição de preço e a impossibilidade de sairmos dali à noite. Procurei-lhe acalmar no preço do táxi e na viagem de volta. Garanti-lhe que seria uma temeridade viajar à noite naqueles cafundós. Ele também seria recompensado pelo tempo excedente. Prometi-lhe ainda que sairíamos dali cedo, então, iríamos pernoitar na fazenda e voltarmos para cidade pela manhã.
Não demorou um quarto de hora, os trabalhadores começaram chegar pouco e pouco. Vinham suados, dorso nu, facão pendurado na cintura, alguns com ferramentas e cachos de banana nas costas. Procurei com os olhos Clara mas não a encontrava. Avistei algumas mulheres novas e umas velhas com cabelos desgrenhados e soltos. A maioria de calça e bota de cano curto. Algumas mocinhas estavam de saias curtas e sandálias de borracha.
O coração começou bater aceleradamente. Ali não estava o homem maduro curtido pelo tempo e pelo trabalho. Ali estava o adolescente com a chama da vida que não tinha envelhecido. Não era um coração velho, era um coração que pulsava ansioso para encontrar a mulher dos meus sonhos. Se fosse um rei, trocaria meu reino por um cavalo para levá-la dali. Como não sou o rei Ricardo, teria que aguardar o destino tecer seus desígnios. Só tinha uma certeza: estava prestes vê-la. O magricela que me recebeu na chegada, levou-me até Clara.
Era a mesma casa que tanta peraltice tinha feito. Apenas, como tudo na vida, tinha envelhecido ao longo do tempo. Parecia-me que a casa tinha encolhido... Outrora, achava-a enorme, mas naquele momento, achava-a pequena e acanhada. As paredes sujas e encardidas de fumaça (fogão à lenha), dava-lhe um aspecto sombrio e repulsivo. O rapaz começou chamar a dona da casa:
- Sinhá Clarinda!... Ten um hômi porcurando por vosmicê!! Surgiu da cozinha uma senhora que se encaminhou para atender o chamamento do rapaz: - Qui é Bastião? – O hômi quer falar cum vosmicê! Ela olhou-me de cima abaixo, interrogando-me com os olhos, mal-encarada, com cara de pouca conversa: - Qui diseja? – Estou procurando por Clara, filha de Manoel das Onças e D. Josefa! Ela olhou-me fundo nos olhos como se estivesse procurando alguém lá dentro e disse: - Su eu. Qando piquena o pessoá mi chamava de Clara! Fiquei estupefato, não era possível que a minha Clara tivesse se transformado naquele trambolho. Por mais que tentasse dissimular, eu não consegui controlar a minha surpresa. Será que aquele diabo velho, gorda, cheia de rugas, cabelos brancos, desdentada, era Clara? Não podia ser... eu estava imaginando coisas... quando ela voltou falar: - Cumo si chama o sinhô? – Sou Marcos, filho do Sr. Antônio e D. Maria. Meu pai era o gerente do Dr, Amaral!... A velha de alegria quase que avança em mim, involuntariamente a afastei: “vai pra lá besta fera”, não podia acreditar que tinha viajado mais de 700 km para encontrar aquele espantalho de gente. – Vala mi Deus!... É Marcos di seu Tonho e D. Maria!... Num lembra de eu? Vosmicê dizia qui ia casar cumigo... Num lembra? Não me lembrava. Balbuciei um turbilhão de palavras. Saiu da minha boca pretextos para sair dali e agradecimentos pela breve acolhida, minutos infinitos... Já tinha matado a saudade de todos. Esperava vê-los noutra oportunidade e, fui embora...
No carro, permaneci calado toda estrada. O motorista ainda aventurou arrancar de mim algumas palavras: - Sr. Marcos parece que o passeio não lhe fez bem? – Sim e não! – Nunca ouvi esta resposta Sr. Marcos. Ou dizemos sim ou dizemos não para uma mesma coisa! – Quando você tiver a minha idade, vai descobrir que a vida é uma moeda de duas faces. Uma face da moeda tem a vida a outra face o tempo. A vida é a dádiva de Deus e o tempo é o senhor da razão e o flagelo da humanidade.



Gênero literário: Conto
Autor: Rilvan B. Santana
Não autorizado: modificação ou plágio.

























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