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Susan, a feia.

Postado por Rilvan Batista de Santana 01/05/2009


Susan “Boyle”
R. Santana



Não tenho o talento de Morris West, o escritor australiano, que tão bem descreveu o conflito de um bispo na canonização do seu principal personagem, no seu livro: “O advogado do diabo”, mas quero fazer a defesa sem ser convidado dos jurados Simon Cowell, Piers Morgan e a linda loira Amanda Holden que debocharam e desdenharam discretamente, num primeiro momento, de Susan “Boyle”, no programa Britain´s got talent.
Os coitados dos jurados não tiveram culpa a priori, quem levaria a sério uma senhora sueca dos rincões de Blackburn, de cabelos grisalhos, gorducha, desengonçada, quarentona com roupas e trejeitos de sessenta perseguindo o sonho de ser cantora à Elaine Paige, uma atriz e cantora de sucesso na terra da rainha Elizabeth II? Ninguém! Os hipócritas e os cínicos diriam o contrário, porém, cínicos e hipócritas não têm compromisso com a verdade.
A imagem impressiona, todos nós cometemos o pecado de julgar as pessoas pela aparência por mais que desejemos não ter idéias preconcebidas. A estética, a beleza física e a boa aparência predominam nas relações primárias do homem, porém, é necessário esclarecer que a beleza física em si não se sustenta todo tempo, mas algum tempo. Os condimentos de inteligência, talento, cultura, polidez e bom caráter são fundamentais para que a beleza física de uma pessoa se sustente.
Sócrates, Gandhi, Einstein, Martinho Lutero, Napoleão, Bérgson e Gengis Kahn ou Gengis Cão, não eram modelos de beleza, mas dividiram a História e ganharam o mundo, foram homens do seu tempo, com inteligência, com sabedoria, com perspicácia, com liderança, com bravura e com amor.
O preconceito é apanágio da natureza humana assim como outros sentimentos nocivos. A instrução, a educação, a cultura, a sociedade e os instrumentos jurídicos penais atuais, ajudam moldá-lo, inibi-lo, jamais erradicá-lo.
O pobre, o feio, o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio e o velho, sempre vão ter pessoas para virar-lhes a cara, torcer-lhes o nariz, olhá-los de soslaio, de esguelha, ou cumprimentá-los com a ponta dos dedos. Em certo trecho da liturgia católica o padre pede que todos se cumprimentem com a mensagem: “o amor de Cristo nos unindo”. Se alguém colocasse uma câmara invisível nessa parte da liturgia, ficaria pasmo com os gestos discretos de esforço que alguns fazem para abraçar o irmão, muitos não arredam pé do seu lugar para cumprimentar o outro, mais alguns passos adiante...
Lembro-me de um episódio em que um motorista do antigo DNER ao encontrar um negro na sala do seu chefe, o Dr. Pedro Bastos, inquiriu-lhe com desdém: “... negrão aonde foi Dr. Pedro?”, à medida que o engenheiro-chefe não chegava, ele foi se ousando: “...negrão tire a bunda dessa cadeira e vá procurar o chefe!”, caiu do cavalo quando alguém lhe disse que aquele negro esquisito era o diretor regional do extinto DNER , hoje, DNIT, consequentemente, chefe do seu chefe.
Doutra feita, eu vi um eletricista se descabelar para ligar umas fluorescentes em série enquanto um moleque amarelo, desprezível, o olhava por baixo, intrigado com sua incompetência e quando lhe esgotou a paciência, ele com jeito se ofereceu: “O senhor deixa, eu tentar?...”, o pedido em princípio não foi aceito, na casa do sem jeito, o velho eletricista cedeu com desconfiança, depois de olhá-lo cismado. O Zé Aparecido subiu com destreza na escada, puxa fio daqui puxa fio acolá e minutos depois ele autoriza: “Ligue!”, para surpresa dos que não lhe confiavam um tostão furado, o salão ficou todo iluminado com a incandescência de sua meia dúzia de fluorescentes.
Porém, o fenômeno Susan “Boyle” é fantástico, suis generis, jamais alguém vai galvanizar a revolta de tanta gente em todos os continentes da Terra pelo descaso e deboche que ela foi recebida no Britain´s got talent. Todavia, a própria Susan “Boyle” nos deu a resposta, demonstrando humildade, simplicidade, segurança e desenvoltura. Ela não chegou ao show de talentos, agachada ou derrotada, em determinado trecho do vídeo do You Tube, ela diz: “Vou fazer esta platéia tremer” e quando Simon Cowell torceu o nariz pela resposta que ela lhe deu de sua idade, literalmente rebolou e disse-lhe: “Isto é apenas uma parte de mim”, isto é, demonstrou mais uma vez, esplendorosa segurança que não é comum aos débeis e aos incautos.
Machado de Assis e Tobias Barreto, apertados na cor, eram insociáveis, tímidos, mas quando a ocasião se fazia necessária, deixavam os seus complexos de lado e assumiam os seus talentos na arte da escrita ou da eloquência como gigantes fustigados, mas não extenuados e acabados.
Evocando o dito popular: “Por causa de uma cara feia se perde um bom coração.” Então, buscando no egrégio pensador Henry David Thoreau: “As coisas não mudam, nós é que mudamos” ou “Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos”.
Viva o exemplo Susan “Boyle”!...




Autor: Rilvan Batista de Santana

Gênero; Crônica.

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