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“Mãe Judite”

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/03/2011


“Mãe Judite”


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Um pouco de pecadora e muito de santa. Hoje, com quase 90 anos, lúcida, ainda preserva atitudes prestativas e solidárias da mocidade. Onde mora, dentro de pouco tempo, faz-se íntima e amiga dos vizinhos e conhecidos.

Ela não tem ranço saudosista e rabugento comum às velhas de sua idade, embora não cultive idéias revolucionárias, adapta-se com facilidade aos novos costumes e compreende como ninguém os arroubos e as extravagâncias da juventude. Ela lida com a neta e a bisneta com a cabeça de uma mulher dos tempos modernos apesar de não ter nenhuma instrução.

Jogado em Lagarto com os meus avôs, ela trouxe-me para o Sul da Bahia, nos anos 50, com apenas um ano de idade a contragosto do marido que não desejava ter filho, menos ainda, criar filho de outrem.

Não fiquei com “mãe Judite” até a adolescência, os reveses nos empurraram para lados diferentes aos oito ou nove anos de convivência, não que tivéssemos desejado essa separação, já tínhamos, ao longo desse tempo, construído vínculo de “filho” e “mãe”, cumplicidade... Lembro-me que a nossa separação foi sofrida e dolorida, deixou-me traumas de insegurança, medo e revolta.

Ela também deve ter sofrido, pois além de filho de criação, filho único, eu era seu sobrinho pelo lado materno. E, nos apegamos até aos animais...

O filho de pobre não tem luxo, brinquedo sofisticado, todo tipo de mordomia, mas sobra-lhe liberdade, alegria de viver, mesmo que o seu almoço e a sua janta não sejam fartos. Quantas vezes, eu fui pra cama, à noite, em jejum ou com um chazinho de erva-doce no lugar da janta? Inúmeras vezes! Porém, não havia lamentação, mas o desejo que a noite passasse rápida e a providência no outro dia batesse em nossa porta ou tomássemos o caminho da roça em busca de jaca, banana, aipim, batata, abóbora, inhame, milho, verduras, além disto, a minha “mãe Judite” “pendurava” no caderno de fiado da bodega: farinha, feijão, café, fubá, jabá, carne-de-sol, toucinho, costela, carne de porco, querosene (não havia gás nem eletricidade na roça, mas fogão à lenha e candeeiro), fósforo, vela, sabão-de-coco, sabão-massa - talco e alfazema para os dias de festa.

Naquela época, “mãe Judite” deveria ter uns 23 ou 24 anos de idade, mas com experiência de uma mulher de 35 ou 40. Arranjaram-lhe um casamento em Lagarto com um cidadão que tinha a profissão de oleiro e um pouco mais velho.

Ele não era má pessoa, porém, as más línguas diziam que lhe faltavam atributos físicos e econômicos para manter aquele mulherão e alguns anos depois, o seu casamento com Judite foi pra o beleléu...

Tenho a firme convicção que “mãe” é um ser social que se constrói através da convivência, dos vínculos, das dificuldades, dos obstáculos da cumplicidade e do bem-querer recheado de amor. Parir um ser é reproduzi-lo biologicamente, uma função natural, mas desprovido de sentimentos emocionais profundos que surgem com o tempo e a convivência social.

Hoje, mais experiente, mais amadurecido, mais eufemístico, menos egoísta e menos rancoroso, exorcizei todos os sentimentos não legais que eu nutria pela mulher que me pariu e parodiando Aristóteles, quero lhe dizer leitor, que sou grato por ter nascido e fechar este capítulo, reconhecendo que se “uma me pariu, a outra; ensinou-me a viver”, portanto, “mãe” foi aquela que me criou.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Capítulo IV do livro: "Lágrimas rolando..." 

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