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O mulato Lima Barreto

Postado por Rilvan Batista de Santana 01/04/2011

O mulato Lima Barreto


R. Santana


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Caro leitor, imagine alguém que nasceu em no século XIX, em plena efervescência anti-escravagista, precisamente, no ano de 1881 e num dia e mês emblemáticos: 13 de maio, em um país de tradição racista dissimulada, filho de pai mulato, nascido escravo e mãe, filha de escrava.liberta da família Mendes de Souza. Imaginou? Acredito que o leitor tenha concluído que esse indivíduo não passaria dos limites da senzala à casa grande dos senhores escravocratas. Se fosse um mulatinho simpático, prestimoso e diligente, ficaria à disposição da matrona sinhá e dos caprichos da sinhazinha; senão, terminaria os seus dias de vida, arrastando cobra para os pés numa remota lavoura de algodão ou de cana desse imenso Brasil.

Porém, esse mulato teve a sorte de ter nascido sob o signo da Lei do Vente Livre, mais ainda, ter sido afilhado de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o famoso Visconde de Ouro Preto. Homem culto, político, rico, monarquista, amigo do rei, abolicionista, de recursos retóricos admiráveis e protetor de Manoel Joaquim de Lima Barreto, tipógrafo, monarquista, marido de Amália Amado Barreto, professora primária e pai de Afonso Henrique de Lima Barreto, conhecido por Lima Barreto, jornalista, escritor, amanuense do Ministério da Guerra e precursor da prosa moderna, com o seu livro Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Lima Barreto foi um gênio do século XIX. Nasceu pobre, filho de um tipógrafo e de uma professora e o mais velho de quatro irmãos, fez seu curso fundamental em escola pública do Rio de Janeiro, concluindo o curso médio com louvor, no Colégio D. Pedro II, a escola dos herdeiros da nobreza e os filhos da elite econômica do país. Os principais vultos históricos da monarquia e da primeira república passaram pelos bancos do colégio D. Pedro II, muitos anos depois, voltavam fazer parte do seu corpo docente.

Era um crítico mordaz do regime republicano. Em Policarpo Quaresma, um pacato funcionário do Arsenal de Guerra, que aposentado, se envolve em realizações delirantes e de um nacionalismo exacerbado. Um tragicômico, um sonhador, um bairrista contumaz, um maluco empreendedor de projetos e incursões esdrúxulas. Na música, aprende tocar violão, por achar que é o único instrumento que expressa musicalmente, o sentimento nacional. Na agricultura, adquire uma terra de poucos recursos naturais, o sítio ”Sossego” e trava uma guerra com as formigas saúvas que consomem arvoradamente toda suas economias.

Quando eclode uma revolução com resquício anti-republicano, larga seu sítio “Sossego” e seus sonhos e alista-se como oficial voluntário no batalhão “Cruzeiro do Sul” em defesa do governo do marechal de Ferro, Floriano Peixoto. Caboclo rude, desconfiado, sanguinário, nascido nas terras nordestinas das alagoas, presidente do incipiente país republicano brasileiro, depois agraciado com o título de “Consolidador da República”.

No seu livro, Recordações do Escrivão Isaias Caminha, faz uma crítica panfletária à imprensa, aos inimigos, satiriza e critica os intelectuais do seu tempo, principalmente, os jornalistas e os literatos que tanto desprezava.

Lima Barreto não era afeito aos trabalhos mecânicos e à rotina de horários e compromissos de trabalhos não eram do seu temperamento. Talvez, fosse uma rejeição atávica do período escravocrata dos seus antepassados, privados de liberdade.

Péssimo aluno da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, deixando de se graduar em Mecânica, reprovado várias vezes, não por falta de talento, de raciocínio lógico, de senso crítico, de conhecimento empírico, mas por sentir aversão às formulas e conceitos teóricos prontos. Gostava de sentir-se livre, leve e solto. Freqüentava assiduamente a Biblioteca Nacional, enquanto suas aulas rolavam na escola Politécnica. Para Lima Barreto, eram de somenos importância os problemas e as teorias de Mecânica, importava-lhe conhecer os expoentes da literatura local e estrangeira. Era gênio naquilo que gostava e medíocre naquilo que odiava.

Insurgiu-se contra uma literatura certinha, presa às regras gramaticais, à ditadura da língua, para imprimir nos seus textos uma linguagem coloquial, sem complicação, fácil e sonora ao ouvido do povo.

O seu conto, “O homem que sabia javanês”, pode ser comparado, pela genialidade, ao conto, “A cartomante”, do não menos genial mulato Machado de Assis. São temas diferentes, um fala de infidelidade, de amor e crime; o outro, perspicácia, auto-estima e determinação. Têm em comum que são duas jóias raras da literatura nacional, dois poemas-prosa. Um explora o lado místico, o lado supersticioso do homem, um sentimento hereditário que o conhecimento formal e a ilustração científica não conseguem extirpá-lo da alma. O outro, a audácia, a inteligência, a temeridade e o jeitinho que um jovem usa para sobreviver sozinho numa cidade grande.

Muito cedo ficou órfão de mãe, seu pai, Manoel Joaquim de Lima Barreto, cuidou dos quatro filhos com paternalismo responsável, orientando-os na senda do saber, todavia, como uma maldição de família, termina seus dias, homiziado no quarto de um hospital de malucos. É Lima Barreto que pega na alça do caixão da responsabilidade para terminar a criação e a educação dos demais irmãos em 1904.

Amanuense por concurso do Ministério da Guerra e colaborador remunerado dos jornais Cartas da Tarde, Jornal do dia, Gazeta da Manhã e outros, dá-lhe na telha empreender junto com colegas visionários, a fundação duma revista chamada Floreal que logo morreu, não ultrapassando a 2ª. Edição.

A rotina de escriturário, de um governo republicano, numa função modesta, burocrática e rotineira para quem desejava alçar vôos mais significativos na literatura nacional, começam-lhe conturbar o espírito, encher-lhe o saco e a saída que encontra, é refugiar suas mágoas nas mesas e copos de cachaça dos botequins e na boemia. O uso costumeiro da bebida alcoólica, trouxe-lhe internações psiquiátricas freqüentes para tratamento de doenças neurastênicas e depressão profunda...

Outro fato marcante na vida de Lima Barreto foi sua rejeição para integrar o seleto mundo dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Pense leitor, no início do século XX, um mulato que escrevia de maneira despojada, coloquial, de origem negra, pobre, de vida desregrada, ter a petulância e a ousadia de imaginar sua inserção no reduzido mundo dos deuses das letras de seu país? Ele poderia argumentar para sua vaidade, que lá também teve um presidente e fundador, mulato, egresso da periferia do Rio de Janeiro, o egrégio Maria Joaquim Machado de Assis. Mas contra-argumentar-se-ia que os dedos das mãos são irmãos e são diferentes. Machado teve uma origem semelhante, entretanto, sempre andou no caminho da probidade, da retidão e tinha um temperamento burguês, não reacionário. Era um exemplo de homem e escritor. Funcionário graduado do governo federal, soube conviver com Deus e o diabo ao mesmo tempo. Acendia uma vela para os monarquistas e duas para os republicanos. Enquanto abraçava um monarquista, apertava no peito um republicano, mesmo as subjacentes críticas que fazia em seus textos à Igreja Católica, eram eivadas de sutilezas, no fundo era um pusilânime, um medroso, um egoísta, um comodista, não era destemido nem irresponsável como o seu conterrâneo.

Jorge Amado, em seu livro, “Farda, fardão, camisola de dormir”, foi o primeiro escritor de nomeada que escancarou a política e o jogo de interesses escusos que permeiam os membros daquele colegiado. Claro, que Lima Barreto, não tinha pedigree para ser indicado membro daquela casa, em vida, por vários fatores, dentre alguns, sua posição política reacionária e socialista.

Alguns críticos literários de indiscutível saber, rotulam a literatura de Lima Barreto como uma arte inferior, panfletária, coloquial, de infidelidade gramatical. Uma arte usada para depreciar pessoas, vingativa e venenosa. Sua sátira é condenável e pusilânime porque mascara os verdadeiros personagens.de sua crítica. Ele não era claro, direto, corajoso a exemplo de um Gregório de Matos.

Nessa linha de crítica mordaz, contundente, que não reconheceu ou não quis abonar os seus trabalhos literários, que não quis reconhecê-lo como um representante dos oprimidos, a voz daqueles que não foram bafejados pela fortuna, estão os críticos literários Medeiros e Albuquerque, Carlos Eduardo e Alcides Maia.

Esta crônica se propõe a enxergar Lima Barreto sob um viés diferente. Não interessa aqui discutir a conduta vingativa, a revolta, a insatisfação do autor de “Recordações do escrivão Isaias Caminha” e outras obras. Mas enxergá-lo como um dos gênios da arte literária brasileira, sem discussão e análise dos aspectos técnicos. Enxergá-lo como um gênio criador, que foi capaz de retratar os costumes, a insatisfação política e as mazelas da sociedade daquela época com clareza e estilo próprios, rompendo com escolas literárias, conceitos arraigados e alguns poderosos.

José Veríssimo, principal crítico literário daqueles tempos, reconheceu a clareza, a riqueza de detalhes, a objetividade e o humor nos textos do então jovem escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto. Mário Matos, simplifica em sua análise, aquilo que representa o pensamento de muitos analistas da literatura brasileira dos dias atuais:

“A sua escrita traz o calor de uma alma inquieta, que padece a ânsia do mistério das coisas, do sortilégio que paira sobre a existência humana. A maior influência literária e moral sobre a organização de Lima Barreto é Dostoyevski... O seu processo é angustioso e tem uma piedade fácil por aqueles que são dominados pela idéia fixa, contanto que essa idéia seja um sentimento nobre. As Recordações são uma autobiografia. Aí está, porventura, o segredo de seu atrativo, da grande questão da sua palavra escrita... Os defeitos do seu livro vêm também deste feitio e estes defeitos são unicamente o tom muito pessoal que, em certas páginas, transparece”.

Depois de várias internações psiquiátricas, morre triste e esquecido o afilhado do Visconde de Ouro Preto, no Rio de Janeiro, aos 41 anos de idade, um dos mais geniais escritores da língua portuguesa de todos os tempos, Afonso Henrique Joaquim de Lima Barreto.

Carnaval carioca de 1982, cem anos depois do seu nascimento, seus compatriotas resolvem homenageá-lo pela Escola de Samba Unidos da Tijuca, resgatando o seu passado, com o samba-enredo: “Lima Barreto, mulato pobre mas livre”.


Gênero: Crônica

Autor: Rilvan Batista de Santana

























1 Responses to O mulato Lima Barreto

  1. Ótimo texto, Professor Rilvan! O Blog SABER-LITERÁRIO a cada postagem torna evidente o seu destino que é tornar-se cada vez mais fonte límpida e confiável de pesquisas, sempre a serviço da lídima informação. Assim o SABER-LITERÁRIO vai fazendo escola e se tornando modelo para os muitos Blogs e Sites que surgem por aí todos os dias...

     

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