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Carta para Elma

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/03/2012

Carta para Elma


R. Santana

Querida Elma:





Ontem, quase que não preguei os olhos, pois li por acaso o seu desabafo... Não me surpreendeu o estilo correto, a forma inteligente do seu desabafo, não me surpreendeu a gramática impecável, nem me surpreendeu o recurso textual subjacente usado pelos bons escritores para que sua mensagem seja lida e entendida por poucos, mas me surpreendeu a agressividade de suas palavras, surpreendeu-me o veneno que escorre no seu texto desde a primeira palavra até a última, ora, com ironia explícita, ora, através de pensamentos de gênios universais.

            Não sou egoísta, não sou mesquinho, não sou afetado, não sou intelectual, nem sou escritor. Eu sou uma pessoa simples, humilde, uma pessoa desprovida de brilho, sem carisma e sem genialidade. Eu sou, apenas, uma pessoa comum como tantas outras que perambulam, diuturnamente, neste mundo de meu Deus, mas sem falha de caráter.   

            Minha amiga Elma, eu não sou ingrato, gosto de preservar as minhas amizades, às vezes, sou apunhalado pelas costas, face cultivar como norte da minha vida a franqueza e a verdade quando se fazem necessárias, não uso como moeda de conduta a falsidade, tenho “o pavio curto” como diz a sabedoria popular, no entanto, sou fiel e amigo como um cão.

            Reconheço as minhas falhas intelectuais porque além da falta de talento (Deus não me deu talento em abundância), estudei em escola pública todo o tempo, a minha amiga poderá vir com o contra-argumento que a maioria dos brasileiros teve o mesmo destino, porém, a maioria que se sobressaiu em várias atividades profissionais, teve família,  pobre, mas estável, teve estabilidade afetiva, emocional, enquanto, eu não perdi, até hoje, o complexo de inferioridade, a falta de autoestima, achar que ele e ela sabem e eu não, tudo por conta dessa falha estrutural da personalidade. 

            Querida Elma, quero lhe contar no próximo parágrafo, não para lhe inspirar piedade, pena, tampouco, lhe deixar com complexo de culpa pelas palavras ácidas e ferinas que a amiga verteu em seu desabafo sobre mim, talvez, eu queira lhe dizer quão de generosidade lhe falta na vida. Não somos íntimos, o nosso conhecimento é virtual, porém, ao longo do tempo, pude perceber que a ilustre intelectual tem uma personalidade forte, crítica, moralista, egocêntrica, perfeccionista, não dispensa a falha do outro, mesmo com toda carga religiosa e cultural que carrega. Mais ainda: a generosidade, o perdão, a compaixão, a piedade e o amor cristão pelo ser menos perfeito, possuem valores relativos no seu modo de ver.

            Fui parido de uma mulher sem marido, no interior de Sergipe, numa família extremamente pobre, trazido para aqui, desnutrido e doente, com um ano de idade, para ser adotado a contragosto do seu marido, por minha tia materna, mulher de um oleiro. E, o pior estaria por vir, quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade, eles se largaram e tive daí em diante, viver de favor na casa de um ou de outro parente do lado materno, pois não conheci meu pai nem seus parentes nem aderentes.

            Tive infância (não nasci velho), mas não gozei a infância, desde cedo, tive que me preocupar não com a bola de gude, o carrinho de madeira, a bola de pano, o bodoque, o papagaio, o cavalo-de-pau, mas com o café, o almoço e a janta, e não foram poucos, os dias, que pirão de água e sal, ovo, chá de capim-santo (substituía o café) e tripinha e bucho eram manjares dos céus.

            Adolescente e moço, tive como lazer o trabalho, vivi grande parte dessas faixas etárias, enfurnado num bar, trabalhando todos os dias da semana, inclusive, domingos e feriados, sem descanso, o Colégio Estadual de Itabuna – CEI, à noite, era a minha saída, o meu lugar de fuga, por isto, não fui um aluno brilhante, não poderia sê-lo, pois chegava lá cansado e quando voltava ia fazer as atividades escolares á luz de fifó. Tornei-me um misantropo, um solitário e fiz da leitura contumaz, estilo de vida.

            Hoje, não me queixo dos meus criadores, nem da minha mãe, parodiando Alexandre, o macedônico – se uns me deram a vida, outros me deram arte de viver.    

Aprendi com essas pessoas simples, lições de dignidade, de ética, de amor ao próximo e a Deus, se não me deram ciência, foram pródigos em sabedoria. Não foram poucas as lições de honestidade que tive subsidiada pela psicóloga palmatória, não fiquei com traumas nem desvios de conduta.

Não me sinto à vontade com os pseudointelectuais, eles são críticos, egoístas e afetados, não são generosos, acham que sabe tudo, são os mais inteligentes, são os mais cultos, são censores de plantão, se deslumbram fácil com suas produções medíocres, não reconhecem com humildade suas falhas intelectuais, tergiversam a verdade para não serem taxados de ignorantes, eles não têm o gênio nem a sabedoria de Sócrates que reconheceu sua ignorância.

Não sou escritor, não sou literato, tenho ojeriza pelas convenções, acho uma mediocridade alguém que se debruça sobre um texto e depois de lê-lo, ao invés de interpretá-lo, sorver nas entrelinhas, a mensagem, ele se presta descobrir as incorreções gramaticais. Não sei se foi Bérgson que disse: “quem sabe faz e quem não sabe ensina”, se não foi Bérgson, é de somenos importância quem o disse, é uma verdade universal.

Querida Elma, confesso-lhe que gostaria de ser um escritor, com a virtuose de um Machado de Assis, de um Guimarães Rosa, de um Graciliano Ramos, de um Euclides da Cunha, duma Rachel de Queiróz, de um Saint- Exupéry, de um Morris West, de um Harold Robbins, de um Hemingway; o regionalismo de um Jorge Amado, de um Adonias Filho; o romantismo de um Vítor Hugo; o romance científico de um Júlio Verne e o absurdo de um Kafka; a poesia de um Castro Alves, de um Fernando Pessoa, de um Bocage, Camões, de um Khalil Gibran, dentre outros luminares das letras que, agora, não me vêm à memória.

Desde adolescente que escrevo, mas não sou um escritor, sou um escrevinhador,  graças ao advento da INTERNET, pude mostrar as minhas “bobagens” para o mundo, por isto, agradeço a Deus, ter me concedido tempo para alcançar a informática, o celular, o telefone e a ciência cibernética. Se fosse noutros tempos, com a minha falta de talento, de conhecimento, de genialidade, todas essas matérias teriam servido para jogar na lata de lixo. Hoje, tenho o prazer de vê-las rondando mundo, sei que quando eu morrer, esses textos virarão lixo eletrônico, mas o importante é o momento, afora Deus, nada é eterno, nem mesmo a vida!...

Quero lhe dizer que as ideias maniqueístas absolutas são perigosas, o mal e o bem vivem em comunhão na mesma pessoa em equilíbrio, ninguém é completamente ruim ou completamente bom, mesmo as personalidades santas ou as personalidades patológicas, ambas, possuem momentos de lucidez e de maldade.

Querida Elma, não devemos ser um repositório de ressentimentos, de mágoas fúteis, de inveja, de ego inflado. Devemos cultivar a humildade, a simplicidade, o perdão, a caridade e o amor cristão, não o amor de boca pra fora, social, fariseu, mas o amor ensinado por Jesus Cristo, o amor sem limite, o amor ágape. Para mim, leigo em exegese, o cristão deveria ter em mente sempre os ensinamentos de Jesus Cristo: - perdoar o seu inimigo setenta vezes sete, e, amar ao seu próximo e a Deus sobre todas as coisas, o resto é ilação, é releitura.

Enfim, do seu amigo, hoje, “persona non grata”,



Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 26 de março de 2012.







  



  

  











           



                              

             

           

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