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Carta para Amanda (II)

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/04/2012

Carta para Amanda (II)

 Querida Amanda:

                   Confesso-lhe que fico lisonjeado com os seus elogios. Quem não gosta de ser paparicado? Todos nós, pobres mortais, portanto, eles não me constrangem tanto como nas cartas anteriores, mas ainda me incomodam quando tu me chamas de intelectual. Não sou intelectual, eu não tenho o estofo dos grandes pensadores, sou econômico de conhecimento e não fiz nada ainda para o bem da humanidade. Todavia, recuso-me ser um pseudointelectual, lestes a “Carta para Elma”, onde coloco de maneira explícita o que penso deles. Eu sou o quê? Eu sou um simples autodidata e um leitor contumaz, um escrevinhador, um Jeca na escrita de Monteiro Lobato, um Quasimodo na escrita de Vítor Hugo, nada mais que isto.

            Querida amiga, eu sou apaixonado pela escrita: “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”, é através da escrita que registramos todas as ações e pensamentos do homem. Porém, escrever não é um ato simples, é dolorido, difícil, espremido, é parido, é necessário que o escritor tenha vocação e determinação para garimpar as palavras certas na construção de uma escrita, de um texto.

            No início, surge uma ideia, depois outras ideias, que como anéis de uma mesma corrente, formam períodos, orações, hipóteses, definições, conceitos, teorias e encerram num pensamento. Conhecer a gramática é fundamental do ponto de vista técnico, linguístico, etimológico, mas sem a sensibilidade do artista, o canto do poeta, o texto é árido, sem gosto e sem sal, é ciência, a mesma diferença entre o limão e a limonada, a mesma diferença entre o poeta tradicional, de rima e métrica, e, o poeta atual de verso livre, sem rima nem métrica.

            Querida Amanda, talvez, me faltou talento para lhe explicar com mais detalhe entre a literatura genial e a escrita erudita, por isto, valho-me de alguns exemplos conhecido por mim e por ti e conhecido por mais alguns: Platão e Aristóteles, Leonardo da Vinci e Dante Alighieri, Francis Bacon e Descartes, Paulo Coelho e Monteiro Lobato, Manuel Bandeira e Euclides de Cunha, Rui Barbosa e Castro Alves, Fernando Pessoa e Camões, etc., etc. Todos são geniais, mas uns são gênios da palavra, outros, são gênios do conhecimento e da erudição.

            Aqui, Amanda, na terra do cacau, os nossos escritores e poetas tupiniquins herdaram os mesmos senões, alguns, são eruditos poetas e escritores, outros, são gênios do verso e da prosa: Jorge Amado, Adonias Filho, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Firmino Rocha, Lucrécia Rocha, Minelvino, Plínio de Almeida, Euclides Neto, Hélio Pólvora etc. e etc., são gênios da palavra, outros, que não são gênios, em respeito não foram citados, são os eruditos da palavra, que no conjunto, também, são importantes na história das artes e da cultura do Sul da Bahia.

            Amanda, o mês passado fui vítima da maledicência, do deboche, de conversas desairosas, de achincalhe de duas poetisas de estimado valor literário da nossa terra, sobre as minhas falhas intelectuais, a minha falta de talento literário e a minha saúde mental.

Não me fiz de rogado com as críticas literárias, não sou poeta, não sou escritor, mas incomodou ridicularizar-me sobre a minha saúde, pois além de uma conversa falsa, leviana e irresponsável, nenhum ser humano é doente por desejo, a doença é adquirida involuntariamente, então, é congênita, portanto, é desumano qualquer achincalhe, qualquer deboche.

Sem nenhuma presunção, sem nenhum paralelo, quero lhe pedir vênia, para transcrever um trecho de uma crônica de Rubem Alves, intitulada “Saúde Mental”: “Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram que, eu na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.” – Ele completa: “Comecei o meu pensamento fazendo uma lista de pessoas que, do meu ponto de vista tiveram uma saúde mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para minha alma: Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei, Nietzsche ficou louco, Fernando pessoa era dado à bebida, Van Gogh matou-se, Wittgenstein alegrou-se ao saber que ia morrer em breve; não suportava mais viver com tanta angústia, Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica e Maiakovski suicidou-se”.

Eis aí minha amiga Amanda, a complexidade entre a lucidez e a loucura, a linha que separa a lucidez e a loucura é a mesma que separa o ódio e o amor, uma linha tênue...

Conheço-te, tu és malvada, provocativa, mesmo sendo uma alma boa e uma pessoa proba, não abre mão do seu feeling questionador, abelhudo, curioso, vasculha a alma humana como ninguém, novamente, me questiona sobre o nosso padre, se ainda penso a mesma coisa de suas práticas religiosas, dos seus discursos prolixos e sem encadeamento, das suas análises exegéticas decoradas...

Quero abrir um parêntesis, antes de lhe responder, que se eu fosse espírita, acreditaria que na outra encarnação fui um padre. Um dos meus livros: “O enviado”, que se encontra no Portal Domínio Público do MEC, se desenrola com a história de um padre impostor, agora, estou escrevendo outro, “A face obscura do homem”, que está no XVI Capítulo que a personagem principal é um padre, Acho que estou purgando os meus pecados, colocando-os em minhas histórias.

Vamos lá, minha amiga, irei satisfazer sua curiosidade, sua boa bisbilhotice: não existe nada de pessoal entre mim e o padre, é uma pessoa culta, inteligente, mas as nossas ideias são conflitantes, as nossas ideias não poderiam ser diferentes, eu sou leigo, não tenho o mesmo embasamento teórico religioso, a minha fé é mais razão e intuição do que coração, ele, ao contrário, sua fé é plena por vocação e formação teológica, além de ser um estudioso da exegese.

Porém, é necessário dizer-lhe que nesta semana, ele fez uma homilia estudada e menos prolixa. Não sei se ele me deu a honra de ler o meu ensaio, publicado em 08.06.2010, no blog: http://saber-literario.blogspot.com e no Portal do MEC: www.dominiopublico.gov.br, com o título: “O homem nasce para ser feliz?...”, onde chamo atenção duma passagem do Evangelho que Jesus Cristo come e bebe com os apóstolos depois de ressuscitado, contrariando as leis da Física e do bom senso.

Amanda, eu não sei se entendeu ou já tinha prestado atenção sobre o fato, irei fazer um comentário complementar, aproveitando o gancho do nosso ilustre sacerdote que discursou sobre a dúvida de André (João 20: 1-30). A dúvida de André é de natureza humana - vejo e creio.  Todavia, questiona-se Jesus Cristo ter ressuscitado para André e para outros discípulos em carne e osso (matéria corruptível), depois de penetrar e sair em perispírito (energia pura), num recinto fechado.

O sacerdote justificou que na dimensão divina tudo é providencial... Ora, nós sabemos disto, mas se Jesus Cristo não quis quebrar a lei do homem e morreu na cruz como um cordeirinho, jamais Ele iria violentar as leis da matéria por capricho e exibicionismo, criada por seu Pai, o seu Deus, o nosso Deus!...

Hoje, minha amiga, nós sabemos depois da Relatividade de Einstein, que essa conversão é possível, mas, querida Amanda, veja que equação complicada: E = m.c², traduzindo: energia é igual à massa vezes a velocidade quadrada da luz (300.000.000 milhões/metros/segundo), a equação contrária seria: M = e:c².

Tu não entendestes bulhufas!? Então, minha querida amiga, risque tudo e sigamos o conselho do professor Remy de Souza: “... mulher, política e religião, não se escolhem, se abraça...”, se o pensamento do professor Remy de Souza não lhe convence, siga o que diz a Bíblia: “Sem a fé é impossível agradar a Deus, pois quem Dele se aproxima crer que Ele existe e que recompensa os que O buscam” (Hebreus 11,2).

Ufa!!! Estou cansado, minha amiga, os ponteiros do relógio acima da minha escrivaninha, marcam 4:35 horas, os galos já estão se movimentando no quintal para anunciarem o novo dia, enquanto as galinhas cacarejam ao seu redor. Eu vou aproveitar o lindo dia para fazer caminhada, pois estou na “pior idade”, a “idade de junta”,  junta dor aqui e dor acolá...

Falei tanto da prolixidade do sacerdote e reconheço que sou um prolixo incorrigível da escrita.

                                                Do teu amigo, que te preza e estima,
 Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 16.04.2012

 


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