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Diário Literário Online

A face obscura do homem

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/09/2012


    
Rilvan Batista de Santana










A face obscura do homem
(romance)


















Ano 2012




Rilvan Batista de Santana


A face obscura do homem
(romance)






Ouvimos sempre dizer que as pessoas más são incapazes de nos encarar firmemente. Não há maior tolice. A desonestidade encarará fria e firmemente a própria honestidade, em plena luz do dia, sempre que houver algum proveito a tirar.
Charles Dickens - Escritor inglês




ANO 2012











Apresentação

           
           
Diz adágio popular que “quem conta um conto aumenta um ponto” e é pura verdade, a realidade é crua, inóspita de emoção, desumana, às vezes, transcende o limite da maldade humana. O conto e o romance bem contados aproximam a história trágica de uma comédia, de uma coisa prazerosa, além de possibilitar ao autor o uso de artifícios e técnicas literárias para esconder a verdadeira identidade dos personagens e o uso de eufemismos para as verdades mais duras sem constranger o escritor, ou seja, a ficção boa ou ruim não tem limite na mente do autor, tudo se pode fazer para prender a atenção do leitor. 
A história “A face obscura do homem” é uma narrativa que ocorreu nos finais dos anos 50, do século passado, na cidade de Itabuna, no Sul da Bahia, com uma família que hoje não se tem notícia do seu paradeiro, pelo tempo decorrido, os verdadeiros personagens devem estar bem velhinhos ou mortos, talvez, os seus descendentes ainda estejam por aí, mas sem o estigma do passado.
Gostaria de construir um texto épico de heróis ou vilões, com prenomes, nomes e sobrenomes, personagens conhecidos como “Os Sertões” de Euclides da Cunha, onde ele cita nominalmente todos os personagens de sua história, com os seus erros, os seus acertos, os seus equívocos, as suas fraquezas e as suas verdades. Euclides em “Os Sertões” disseca os fatos com frieza e lógica de um engenheiro historiador ou um historiador engenheiro, diferente do poeta Homero de “Ilíada” e de “Odisseia”.
Os fatos narrados a seguir encontravam-se escondidos no interior da minha mente sob o manto da censura, o tempo e a falta de memória do povo moveram-me no sentido de compartilhar o que eu soube através dos mais velhos, pessoas idôneas e isentas que conheceram os fatos e os principais personagens in loco. Se alguém ainda não se interessou tornar público essa história, é que naquela época houve uma operação abafa do assassinato de Dr. José Maria, um dos principais personagens, a viúva e filhos foram para sempre morar em Salvador e o suposto criminoso tomou chá de sumiço.
Não me interessou o crime em si, pois todo crime é de natureza irracional, nada justifica tirar a vida de alguém - só em legítima defesa, mesmo se esgotar todas as possibilidades de não fazê-lo -, é o lado mau do homem, mas interessou-me a lógica do crime e a motivação sui generis dos seus autores. Supõe-se que o assassinato de Dr. José Maria decorreu de uma mente doentia e manipuladora que em nome da fé e da paixão secreta pela sua mulher o matou sem deixar rastro da autoria.
O livro “A face obscura do homem” é a tese que contraria o juízo de Rousseau em que “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, o homem nasce com a natureza maniqueísta do bem e do mal, o sujeito desenvolve mais o bem ou o mal conforme as circunstâncias que a vida lhe oferece. Se alguém nasce numa família equilibrada, de pessoas educadas, de pessoas cordatas e ordeiras, dificilmente essa pessoa será má, salvo em casos patológicos, é muito comum novelas e filmes representarem bem os psicopatas da sociedade e os males que podem causar. 
Para o criminoso, Dr. José Maria representava o mal, a encarnação do diabo travestido de bom, para os seus algozes, não se tratava de um homem santo e pecador, isto é, com qualidades e defeitos, porém, um homem-mau com a capa de homem-bom, arrebanhando não prosélitos, mas admiradores incondicionais que o elegeram como modelo de comportamento e ideias religiosas diferentes.
Para o narrador de “A face obscura do homem”, Dr. José Maria não era a encarnação do bem nem do mal, mas um homem com virtudes e defeitos como todos os homens e sabia como ninguém explorar mais as virtudes do que os defeitos, embora não fosse um beato, um homem de igreja, praticava como ninguém os ensinamentos que Jesus Cristo deixou: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, mas de acordo com suas ideias de homem e de Deus.
Enfim, fecho esta apresentação desculpando-me a priori com o leitor que se me faltou recurso literário para prendê-lo até o fim da história, eu concito-lhe que vá até a última página, porque a verdade é mais importante do que os sofismas literários que alguns autores empregam para tornar o seu texto atrativo.  Se eu consegui contar todos os fatos com isenção, fiel aos acontecimentos ocorridos, mesmo sem a beleza dos textos de Machado, de Graciliano, de Rego, de Lobato, de Alencar, mas com a lógica de Euclides da Cunha, satisfar-me-ei pelo dever cumprido.

O autor

Itabuna, 20 de Janeiro de 2012.



1

O crime

Naquele dia, 29 de junho de 1958, Dr. José Maria Alves Andrada comemorou o seu quadragésimo oitavo aniversário e o final da Copa do Mundo entre Brasil e Suécia em Estocolmo, em sua linda mansão, onde o Brasil excedeu às expectativas e ganhou a partida final com um placar folgado, além de revelar Pelé para o mundo do futebol. Portanto, o conhecido criminalista itabunense teve dois fortes motivos para comemorar naquela data: o seu aniversário e o Brasil Campeão do Mundo da bola pela primeira vez. 
              Desde cedo, os empregados se desdobravam para que tudo ficasse de acordo o desejo de dona Clô que embora abominasse as extravagâncias festeiras do marido e não entendesse nada de futebol, jamais lhe contrariava, principalmente, naquele dia que o marido completava mais uma data natalícia.
            Diferente de Dr. José Maria, extrovertido, bonachão, amante das mulheres, do bom vinho, da cerveja, do Whisky e de um bom prato, dona Clô era introspectiva, modos comedidos, educada na tradição antiga em que a mulher era preparada para ser dona de casa e mãe - o seu único excesso era participar de tudo que ocorria em sua igreja a contragosto do seu marido que embora não a proibisse, criticava-lhe o zelo exagerado que tinha com as coisas de sua paróquia -, dona Clô não tinha a altivez das mulheres corajosas e independentes, era uma personalidade pálida, fácil de ser controlada...
            Ela era mais nova 10 anos do que o marido, porém, seu semblante fechado e suas roupas por demais comportadas lhes davam uma aparência mais velha, havia até quem dissesse que dona Clô tinha a mesma idade do marido, que de certa maneira era um exagero, se maquiada e noutros panos ou sem panos, ela era uma morena supimpa, sua roupa desajustada escondia um corpo escultural.
Eles descendiam de duas famílias ricas, Dr. José Maria quadruplicou o patrimônio com o seu trabalho de advogado, os armazéns sempre cheios de sacos de cacau e as fazendas de gado ainda mais repletas. Dona Clô não contribuiu diretamente para o aumento significativo de sua herança, não tinha faro para os negócios, talvez, por confiar na boa administração do marido, todavia, contribuiu com parcimônia nos gastos pessoais, com economia doméstica, havia quem a chamasse de sovina e miserável.
Dona Clô não era mão-de-figa, é que negócio naquela época era coisa de homem, o homem era o cofre da família, o chefe, o principal provedor do lar, aquele que zelava pelo bem estar da mulher e dos filhos, o homem podia tudo, inclusive, ser infiel... A mulher não trabalhava fora de casa, era educada desde cedo para casar, ser mãe e doméstica, enfim, a mulher dependia moral, financeira e economicamente do homem. 
Antes das 20 horas do dia 29 de junho de 1958, a mansão do casal ficou cheia de convidados que se espalharam pela piscina, pela sala de jogos, pelo salão de dança e todas salas da mansão, teve gente letrada que preferiu escarafunchar a biblioteca enquanto a festa não começasse, porém, ninguém ficou impedido de bebericar o seu whisky, a sua cerveja, o seu refrigerante, sua salada de fruta, sua canjica, seu milho cozido ou assado, sua pamonha, seu pedaço de bolo, seu tira-gosto, todos sem exceção, eram servidos a contento pelos diligentes garçons.
Faz-se necessário lembrar ao leitor que junho é mês de Santo Antônio, São João e São Pedro, além das comidas juninas, farta no Nordeste nesse período, foi contratada uma banda de forró para animar a festa. Todos balançaram o esqueleto, exceto dona Clô e o padre italiano Apollinario Gaiardoni que condenavam o forró, enquanto padre e anfitriã confabulavam, Dr. José Maria, exímio forrozeiro, se esbaldava nos braços das damas aos olhos intrigados da esposa.
Às três horas da madrugada, Dr. José Maria, cheio de brincadeira com os serviçais, subiu para o pavimento superior com uma garrafa de whisky e meio grogue. A maioria havia deixado a festa, alguns parentes dos donos da casa e alguns amigos se refugiaram nos quartos de hóspedes ou se estiraram nos sofás. Os garçons e o pessoal da cozinha aproveitaram o fim da festa para comer o que sobrou e ultimar a arrumação, exigência da dona da casa, que os serviçais não deixassem um prato ou uma panela sem lavar, se eles não pudessem arrumar os quartos que deixassem os pátios e a cozinha limpos.
Dr. José Maria passa pelos quartos e vai direto para sua sala, um misto de gabinete de trabalho, biblioteca e aposento, ultimamente, ele a usava com frequencia face aos desentendimentos constantes com dona Clô. Não estava completamente bêbado, mas se levasse um empurrão não teria pernas. Foi grande o seu susto quando abriu a porta:
- Você aqui!?
- Desculpe-me, estava com sono e este sofá – apontando o sofá - é gostoso...
- Então, continue!
- Não, aqui é o seu refúgio preferido! – acrescentou:
- Mas, gostaria que ouvisse antes o que diz Hebreus para os desobedientes ao Senhor – fez a leitura: “Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, E não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hebreus 12.5,6.11).
-Não entendi porra nenhuma! Estou bêbado! Deixe pra amanhã sua lição de moral...
- Não haverá amanhã...
.- Então, vá embora e me deixe!... - jogou-se no sofá.
Às 11:45 horas, os dorminhocos acordaram com os gritos dolorosos de Talita, a filha mais velha do casal, a moça gritava desesperada, porque havia encontrado o seu pai com uma peixeira cravada no peito esquerdo. A reação da moça contaminou o coração mais duro, ela chorava e soluçava compulsivamente, fez-se necessário a intervenção urgente de um médico para acudi-lhe. Os outros filhos, Samuel e Júnior, também, ficaram desesperados e chorosos, porém, Talita era a xodó do pai, o seu bem-querer, portanto, todos lhe compreendiam a dor e o desespero.
Dona Clô foi às lágrimas e ao desespero, todavia, lamentou sua vida mundana, o seu afastamento de Deus e a negação religiosa do marido, entre uma lágrima e outra. Queixou-se da festa e da bebida, argumentou que se o marido não tivesse colocado tanta gente dentro de casa e não tivesse bebido a ponto de se apagar, o criminoso não lhe teria assassinado enquanto dormia, pois José Maria era um homem bravo, grande e forte, jamais seria morto sem luta.
A polícia não possuía, naquela época, recursos técnicos e científicos atuais. O delegado era “calça curta” e o médico-legista, apenas, fazia o levantamento cadavérico, informava a causa da morte – “lâmina de metal cortante que transfixou o peito esquerdo etc., etc.”, e quando muito recolhia as impressões digitais. O crime só era desvendado quando as provas eram testemunhais ou quando a prisão era em flagrante. Afora esses parcos recursos os crimes entravam no rol do esquecimento.
Os amigos e a comunidade itabunense choraram a morte do seu líder e benfeitor, e, prometiam que a tragédia não ficaria impune mesmo que levasse anos para descobrir o criminoso, ele teria que ir para trás das grades e purgar na terra os horrores do inferno!...
2

Cinco anos antes

           
Em 19 de março de 1953, Itabuna estava engalanada para receber o novo pároco. Havia uma grande expectativa dos cidadãos católicos (maioria absoluta, naquela época), todos ansiavam mudanças nos destinos da igreja de São José, padroeiro da cidade. O antigo pároco, velho e esclerosado, foi recolhido ao mosteiro Beneditino de Salvador, para descansar e morrer em paz. Essa mudança decorreu por interferência do prefeito e outros líderes políticos, de coordenadores e vice-coordenadores de grupos religiosos e dos movimentos comunitários, enfim, da sociedade civil e religiosa da cidade.
Às 16 horas, todos preocupados com o atraso do novo pároco - previsto para o início da tarde -, um automóvel pára de repente na frente da igreja, para alívio das beatas e satisfação dos demais, é que logo se reconheceu pelo solidéu, a figura impoluta de Dom João Santos da Silva, bispo da diocese de Ilhéus com jurisdição no Sul e extremo Sul da Bahia.
A igreja estava repleta, gente se apinhava por todos os lados, o bispo e mais três padres entraram na nave em fila indiana, ninguém ainda sabia quem seria o pároco, porém, um deles chamou a atenção pelo porte e pelo jeito europeu: alto, branco, cabelos loiros e olhos azuis e não tinha mais de 35 anos de idade, soube-se depois que se chamava Apolinário Gaiardoni, o novo pároco.
O padre Apolinário Gaiardoni além de bonito, ele era um exímio orador, com recursos retóricos brilhantes, mas conservador demais para sua idade (os mais esclarecidos esperavam um discurso com menos fanatismo e mais progressista), todavia, a assembleia atribuiu o radicalismo exegético do novo padre ao desejo de agradar o bispo que se encontrava presente.
Ele usou o “diabo” e o “inferno” para “punir” maus católicos, àquelas pessoas que se afastavam da igreja, de sua religião de nascimento, religião dos seus pais e dos avôs, religião do papa, sucessor de São Pedro, e, recorriam às bruxarias e às seitas protestantes, com cenas tão dantescas e convincentes, que sua retórica sobrepujou o falso conteúdo. 
Dona Clô, toda serelepe, não se cansou de ajudar para que tudo ocorresse nos conformes: arrumação da sacristia, flores nos vasos, tolha de mesa, limpeza das imagens e faixas de boas vindas ao novo pároco. Embora tivesse fama do sovina, nas coisas de sua igreja, ela não poupava tempo nem dinheiro, dois meses antes da posse do novo pároco, Dr. José Maria teve que despender alguns recursos no retelhamento, na pintura e nos retoques de pedreiro para que a igreja estivesse pronta para o tão aguardado acontecimento.
Dr. José Maria não era herege nem beato, tinha sua maneira de acreditar em Deus, nutria por Jesus Cristo grande respeito histórico, herdara dos pais o gosto pelo trabalho e o faro para os bons negócios, exercia também a profissão de advogado criminalista, ultimamente, andava meio desleixado com suas causas, os seus negócios o absorviam, frequentava a igreja católica mais por insistência da mulher do que movido pela fé. Ele era um homem bem informado, leitor de bons livros, gostava de poesia sem descuido das ciências jurídicas, cultivava como ninguém os textos filosóficos e a biografia dos seus autores.
No dia da posse do novo pároco Dr. José Maria se vestiu com esmero, encomendou um terno novo ao seu compadre Juca, pois os outros estavam surrados das lides forenses, não queria ir, achava as homilias chatas e repetitivas, costumava dizer com humor para uma coisa por demais conhecida: “... igual missa de padre”, porém, dona Clô, mostrou-lhe a importância do evento: a substituição de um pároco velho, que havia batizado os seus filhos, por um padre de ideias novas de “sangue nas veias” que certamente, iria dar um novo impulso na igreja de São José, o pai de Jesus Cristo e o padroeiro da cidade.  
A posse do novo pároco foi um sucesso, dona Clô leu uma mensagem de boas vindas ao novo pároco, representando todos os grupos, foi bastante diplomática: generosa com o pároco que saiu (problemas de saúde e merecido descanso), e, esperançosa com os novos rumos que o novo padre iria imprimir na paróquia. Valorizou no seu discurso o trabalho e a união de todos os membros da paróquia, que não mediam esforços nem tempo para que tudo ocorresse de acordo o calendário planejado anualmente. E, findou tecendo rasgados elogios ao seu marido que como rei Salomão construiu o Templo de Jerusalém, ele havia feito com os seus recursos, uma reforma no prédio da igreja que duraria para sempre.
Dr. José Maria estranhou a mania de grandeza da esposa, a comparação do seu feito com a magnificência do Templo de Salomão, mas atribuiu o arroubo de dona Clô à importância histórica do momento. Nada é para sempre nem mesmo o legado deixado pelo filho de David e protegido de Jeová e do profeta Natã.

3

Sport Bar


O Sport Bar, misto de cabaré e cassino, era o “Bataclã” de Itabuna.  Dr. José Maria fez dele a extensão do seu escritório, onde descarregava suas tensões do dia a dia com as mulheres de “vida fácil” ou papear com os coronéis do cacau. Não jogava, não gostava de jogo, gostava mesmo era de boa bebida ou boa comida. Entre sorte no jogo e azar no amor, preferia não jogar para ter sorte no amor. Teve vários casos extras conjugais sem criar limo, somente Maria José, morena cor de jambo, lhe tinha mexido o coração... 
Maria José acabara de completar 21 anos de idade quando chegou de Maruim para casa de Helvécia, uma caftina de escol meretrícia, amiga dos coronéis do cacau e amiga de unha e carne do criminalista José Maria - que lhe socorria na polícia e na justiça em decorrência dos fuzuês de sua casa -, assim que a moça desembarcou do pau-de-arara e foi acomodada, Helvécia foi avisar ao advogado com escritório na J.J. Seabra: 
- Doutor, chegou uma “carne fresca”, do jeitinho que o senhor gosta!...
- Helvécia, minha flor de laranjeira, é igual à Zarolha!? – e deu uma sonora gargalhada de desdém.
-Não acredita doutor? Então, dê um pulinho lá em casa e verá!...
Helvécia não mentiu. Maria José não tinha nenhuma experiência mundana, saiu de casa por ignorância dos seus pais e dos costumes de sua época. Prometida ao primo em casamento desde adolescente, que além de não honrar a promessa de matrimônio, ele fugiu depois de lhe roubar a inocência e o cabaço, deixando a pobre moça na casa do sem jeito para casar, então, ela não teve outra saída, senão, deixar seu pedaço de chão e vir para o Sul da Bahia atraída pela riqueza do cacau.
Nos primeiro dias na casa de prostituição, Maria José sentiu-se “um peixe fora d’ água”, tudo era estranho, não aceitava deitar com homem sem namoro, sem amor, não tinha jeito... Quando o seu “agenciador” lhe levou para Helvécia, o fez com promessa de trabalho doméstico, cuidar da limpeza e cozinhar, por isto, rejeitou todos os pretendentes que a caftina lhe ofereceu, foi necessário paciência e tempo para convencê-la conversar com Dr. José Maria:
- Minha filha, depois de Oscar Marinho, ele é o homem mais rico da cidade, além de ser um brilhante advogado!
- Dona Helvécia, ele é casado, tem três filhos...
- Minha filha, a maioria tem mulher, elas contribuem para chamego fora de casa por questão religiosa, é o caso de Dr. José Maria, depois do filho mais novo, ela fechou-lhe as pernas e o coração! – justificou a dona do prostíbulo. E, Acrescentou:
- Minha filha, se o doutor gostar de você e montar casa, acabou tempo ruim!
- Eu sei...
Pouco e pouco Maria José foi se envolvendo com o criminalista. Não houve pressa, o advogado deu tempo ao tempo, compreendia a dificuldade afetiva da jovem, não havia muito tempo, ela deixara a família, a vida de roça, o desengano de um casamento, e, aventurara-se num pau-de-arara em busca de trabalho, usada por pessoas de má fé, é colocada numa casa de prostituição, ambiente de luxo, mas de promiscuidade e vender o corpo seria o seu meio de vida.
- O senhor não desiste, né!?
- A vida me ensinou que nada é fácil, só não quero ser inconveniente, se não deseja conversar?...
- Não, não, o senhor é a única pessoa que frequenta esta casa de bons modos...
- Não pensei, pensei que não quisesse falar comigo!
- É que... é que... não estou acostumada...
- Entendo.
- O senhor não entende, quem entende são as minhas amigas que pra dormir e comer, elas são obrigadas levar pra cama sujeitos fedorentos e bêbados!... – acrescentou:
- Faz um mês que cheguei. Arrumo e faço a comida da casa, mas não sei quanto tempo isso vai durar, dona Helvécia quer que eu trabalhe com homem!
- E, por que não trabalha?... – provocou.
- O senhor conhece a razão.
- Helvécia já está impaciente!...
- Não nasci pra ser puta! – acrescentou:
- Um rapaz me convidou pra roça...
-Por que não foi?
- Ele parece gente boa, mas...
- Mas... mas... o quê?
- Não conheço o moço. Morar numa roça, só quando se gosta e confia!
- O tempo traz estabilidade e bem-querer...
- Desculpe-me doutor, estou aqui por ter amado e confiado num cafajeste!
- Agora, eu que lhe peço desculpa!...
Doutor José Maria conhecia sua história tão bem quanto Helvécia – ele combinara com a caftina, em segredo, pagar a diária da moça -, que a acolheu, porém, queria ter certeza dos sentimentos verdadeiros de sua protegida. Ele não esperava que a moça corresse para os seus braços, porém, aguardava com paciência que ela baixasse a guarda e quando ela decidisse ir pra cama, se não fosse por amor, fosse por bem-querer, sem pressão, movida por afeto e admiração.
Doutor José Maria, agora, tinha um pé em Helvécia e outro no “Sport Bar” do seu amigo Juca. A dança lhe atraía - Fred Astaire tupiniquim - e ajudou-lhe conquistar o coração da irresistível sergipana. Quando saía do escritório, finais de semana, dirigindo seu “Aero Willys” modelo americano, deslumbrado que nem jovem, ia buscar Maria José para mais uma noitada dançante e só deixavam o cabaré, quando um ou outro não se aguentava mais de tanto rodopiar no salão.
Eles eram felizes...
Naquela manhã, no escritório, doutor José Maria é tomado de surpresa com a presença de Juca. Embora Juca lhe recorresse de vez em quando para solucionar problemas de ciúme e bebedeiras dos seus clientes – alguns coronéis se agrediam, causando danos materiais e físicos -, em geral, para pagamento de prejuízo, naquele dia, ele chegou nervoso e cedo ao escritório
- Já soube!?
- O quê?
- O crime!
- Não soube de nenhum crime!
-Ontem, à noite, no “Sport Bar”... – o advogado perde a paciência
- Homem de Deus, desembuche!
- Assassinaram Vavá Leal! – e completou:
- Tão me acusando!...
- Você prestou um serviço à sociedade. Parabéns!
- Mas, eu não matei!!!
4

O almoço


Alguma coisa existia que Dr. José Maria não sabia explicar a antipatia gratuita que sentia pelo padre Apolinário Gaiardoni. Se acreditasse em espiritismo, diria que havia ficado algo pendente entre ele e o sacerdote na outra encarnação, mas era muito racional para acreditar em história da carochinha, acreditar naquilo que não tem sustentação lógica e questionava-se: “onde já se viu ter que morrer pra ficar melhor?”, coisa de Alan Kardec e seus seguidores.
Ele atribuía à mente, “as manifestações mediúnicas”, pessoas com grande capacidade de concentração energética, capazes de gerar fenômenos inexplicáveis, que o leigo acha ser gente do outro mundo, mas que a ciência classifica, apenas, como fenômenos paranormais.
Por isso, não sabia explicar a repulsa que sentia pelo sacerdote, talvez fosse sua empáfia, sua auto-suficiência agressiva, sua ostentação intelectual, sua altivez inteligente, o dono da verdade...
Gostava mesmo era do seu antecessor, que embora fosse um homem de cultura excepcional, cultivava a humildade e a compreensão. Em seus muitos anos de pároco, o padre Mário jamais se envolveu em fuxico ou foi alvo de conversas desairosas e maledicência dos seus fiéis, se não fosse a idade e a saúde em particular, não teria sido substituído. Não usava o cargo nem a autoridade religiosa para usufruir benesses, se locupletar, embora sempre limpo, suas vestes eram surradas pelo tempo, luxo só uma bengala com cabo de marfim que ganhou de dona Clô no seu aniversário e, depois de muita insistência.
Apolinário Gaiardoni já se tornara íntimo da família Andrada, começou com dona Clô, ganhou a confiança dos filhos e esmaeceu no dono da casa, mas de acordo a sabedoria popular que diz: “quem beija a boca do meu filho, deixa a minha adocicada”, o Dr. José Maria foi cedendo e o padre foi impondo sua presença, seus conselhos, enfim, indispensável para família do advogado, os almoços e os jantares com o padre viraram rotina, dispensava convite, Dr. José Maria aproveitava para exprimir suas convicções religiosas e o que pensava do cristianismo, principalmente, cutucar a religião católica e por extensão, o padre Apolinário Gaiardoni:
- Padre, o celibato não é empecilho para que os jovens procurem o caminho do seminário? 
- O homem solteiro está mais disponível para as coisas da igreja!
- E, mais disponível para fornicações...
- O trigo supera o joio... A igreja tem sido dura com os desvios dos seus sacerdotes!
- Nem tanto, o padre N., por exemplo, tem uma concubina e filhos e não deixou de celebrar suas missas...
- O padre N. pediu licença, mas o processo ainda se arrasta na burocracia do Vaticano! – justificou.
- Burocracia ou omissão!?
- Eu prefiro acreditar em “burocracia”, é grande a distância entre o Brasil e a Itália, além de milhares de processos que a Santa Sé tem para analisar! – dona Clô toma parte:
-Meu filho, a igreja não pode ser responsável pelos desvios dos seus membros, a carne é fraca...
- Eu sei. Mas, de acordo Bíblia, o homem nasce no pecado desde Adão e Eva, eu falo da demora do Vaticano responsabilizar os seus membros e execra com rapidez quem lhe é contra! – dona Clô muda de assunto:
- O nosso querido padre Apolinário quer conhecer uma fazenda de cacau – virando-se:
- Não é, padre?
- Sim. Mas, a decisão é do seu digníssimo esposo!
- Viajarei para “Ouro Achado” amanhã, se quiser vir comigo...
- Aceito o convite. – acrescenta:
- Sou catarinense e filho de alemães. Lá em Santa Catarina, de cacau só os doces de chocolate e os ovos de Páscoa. Quero conhecer a fruta e o cacaueiro! – enquanto o padre falava, dona Clô apressava as cozinheiras:
- Vamos meninas, estamos morrendo de fome!...
Não demorou muito, o almoço começou e Dr. José Maria se conteve, a circunstância lhe exigia prudência e educação, além disto, não queria desagradar dona Clô, extravasaria sua cisma no “Sport Bar”, com Maria José, na pista de dança, nada melhor do que um dia após o outro, bronca é arma de trouxa...

5

Bangalô


            Helvécia tinha a experiência da idade, como uma pitonisa predizia com acerto o futuro de suas “meninas” e não foi diferente com Maria José: “minha filha, se o doutor gostar de você e montar casa, acabou tempo ruim”, em menos de 6 meses, Dr. José Maria montou casa na Avenida Garcia, um reduto de prostituição que se findava e pouco e pouco era substituído por famílias de classe média e o bangalô de Maria José acelerou essa mudança pelo luxo que ostentava e a valorização que deu ao trecho.
            Diferente da esposa, introspectiva, sem muita conversa, “tem um rei na barriga” para alguns, Maria José era dada à amizade, pouco tempo depois, conquistou a amizade das famílias, principalmente, das moças de sua idade que não lhe chamavam de Maria José, mas de “Lia”, o doutor José Maria adorou: “Maria José é nome de velha, Lia é suave”, além delas pouco se lixarem se Lia era a esposa ou a amante, importava ser gente boa, gente da gente.
            Depois de um mês de instalada no bangalô, Lia, com jeito e muito cafuné, pediu ao amante que trouxesse para Itabuna, os pais e os irmãos, o advogado resistiu no início, alegou quebra de privacidade, mas foi se rendendo aos argumentos de Lia, ela justificou que junto da família, em particular, os seus velhos pais, ficaria mais sossegada, que o amante não se preocupasse com o aumento de despesa, os seus irmãos eram trabalhadores, logo, cada um procuraria o seu destino, que não haveria quebra de privacidade, a casa era grande, que os velhos ficariam hospedados nos quartos dos fundos.
            Não demorou muito tempo, dona Clô tomou conhecimento da moça, não tossiu nem mugiu, não comentou nada com o marido, talvez, tenha confessado ao padre Apolinário, a traição do marido, era egoísta demais para comunicar ao mundo suas fraquezas, também, não seria ouvida, a maioria das mulheres de sua classe passava pelos mesmos dissabores, não se conhecia homem de dinheiro ou coronel do cacau que não mijasse fora do caco...
            Naquela época, era costume a mulher pagar com a vida a fraqueza da carne com o amém da sociedade e a tolerância da lei, enquanto a infidelidade masculina era prova de virilidade e machismo.
6

Ouro Achado

A fazenda “Ouro Achado” era uma sesmaria. Quando o doutor José Maria a comprou, ela era menor, mas ele foi comprando fazendas menores e anexando às terras do “Ouro Achado”, assim, a fazenda ficou enorme, que se estendia do município de Itabuna até perto de Ilhéus dos dois lados do rio Cachoeira. O pessoal que toma conta da vida alheia afirmava que o nome “Ouro Achado”, devia-se ao fato do advogado ter comprado a propriedade por uma bagatela, a preço de banana, certo que havia exagero, mas a verdade é que o doutor José Maria não dava ponto sem nó...
            Promessa feita, promessa cumprida, demorou menos de um mês que dona Clô disse ao marido que o padre gostaria de conhecer uma fazenda de cacau, para que o sacerdote tivesse seu desejo satisfeito. Não foi fácil o casal convencê-lo da necessidade dele se despojar da batina, comprida e escura, para se embrenhar nos cacauais e nas matas, escanchado em burros ou em mulas, até a sede principal da fazenda.
            A família Andrada usava um Jeep Willys com tração para viagens das roças. O Jeep era o carro recomendado para estradas de chão, porém, imprestável em certas situações, principalmente, quando chovia muito, as valetas e a lama deixavam as estradas intransitáveis e perigosas, então, os fazendeiros socorriam-se dos velhos e seguros animais para transporte de pessoal e de cacau.
            Mas, a viagem ocorreu sem percalços, o carro chegou a menos de 2 quilômetros da casa grande, onde alguns moleques já aguardavam os donos da fazenda “Ouro Achado” e o seu convidado, com vários e cuidados animais.
Apolinário Gaiardoni observava cada detalhe, parecia um menino deslumbrado com o primeiro brinquedo, nada lhe escapava aos ouvidos e aos olhos: uma cobra em ziguezague que passava no caminho, o canto do bem-te-vi, o canto do curió, o canto do guriatã, o calango que passava em disparada em cima das folhas secas, provocando susto na comitiva, a preguiça pendurada na árvore, os pés de cacau carregados, tudo era novidade para o sacerdote.
A sede da fazenda ficava num terreno elevado, numa chapada, embaixo, extensa planície onde os animais pastavam. O acesso era feito por uma estrada de paralelepípedo que ia até o passeio e entrava pelas laterais e avançava uns 10m no fundo, formando um grande retângulo, feito por exigência do proprietário para que não nascesse mato ao redor da casa. Não muito distante da sede, um pomar enchia de orgulho, pela variedade de frutas, dona Clô.
Outros luxos da sede eram a canalização de água que o proprietário fez duma nascente que ficava a menos de um quilômetro, um motor de luz que a deixava iluminada e uma grande capela, um oásis de conforto numa terra inóspita, privilégio de poucos.
Apolinário Gaiardoni recebeu no segundo dia que chegou: um par de botas cano alto, um chapéu de abas largas, calça de cáqui e camisa de brim manga comprida, tudo para que pudesse entrar na mata e nas roças de cacau sem possibilidade de perigo, tudo assessorado pela prestimosa dona Clô...
Naquela manhã, ciceroneado pelo administrador da fazenda “Ouro Achado”, o padre, dona Clô e doutor José Maria, montados em belos animais, eles começam percorrer as diversas roças de cacau. Dona Clô recebia pálidos cumprimentos, cumprimentos reservados à patroa, enquanto o seu marido recebia efusivos abraços de bem querer, de amizade desinteressada e sincera.
Os camaradas não enxergavam no doutor José Maria um patrão, mas um sujeito afortunado igual, um sujeito sem pabulagem, um sujeito que se podia confiar e, que muitos camaradas não hesitariam arriscar sua vida se preciso fosse para salvá-lo.
Ele adentrava nas casas dos camaradas com tanta simpatia, abraçava os mais velhos, colocava os meninos no colo, distribuía presentes para garotada, socorria uma mãe num vestido ou num remédio, adiantava salário para alguma necessidade, estimulava a agricultura de sobrevivência, enfim, o trabalhador não lhe tinha queixa.
O padre Apolinário Gaiardoni ficou boquiaberto com a popularidade do seu anfitrião, ensaiou segui-lhe, mas não tinha jeito, não possuía o mesmo carisma do advogado, ademais, quando os peões sabiam que o homem era padre, a espontaneidade dava lugar à carolice e ao respeito exagerado, homens e mulheres pediam a benção do sacerdote com devoção.
Dona Clô promoveu o casamento de todos os amancebados da fazenda numa grande missa de domingo. Alguns camaradas recusaram, inicialmente, o convite, mas cederam aos argumentos da patroa: que o céu não recebia amasiado, que o concubinato era um grande pecado, que os filhos não poderiam ser batizados ou crismados na Santa Madre Igreja, que aproveitassem a estada do padre, que padre naquele fim de mundo era um sinal de Deus para remissão dos pecados etc., etc.
Naquela época não havia vassoura-de-bruxa, se alguém tirasse uma foto do alto, teria uma imagem fechada de cacaueiros de folhas verdes. As roças eram extensas florestas em que os trabalhadores podiam caminhar protegidos do sol, salvo as áreas cabrocadas. Ali e acolá se encontrava um ribeirão ou alguma nascente de água limpa.
Quando dava meio dia, o camarada abria o seu embornal embaixo de uma árvore frondosa e fazia sua refeição com jabá, carne de sol, toucinho, ovo, feijão e farinha, sem dispensar, antes da refeição, uma talagada de cachaça para lhe abrir o apetite. Após encher a pança, de ter comido e bebido a fartar, ele tirava uma sesta e retornava ao trabalho três quartos de hora depois. 
Doutor José Maria não era ciumento, mas tinha por regra não confiar em ninguém, nem no amor nem nos negócios, lera quando jovem um conto oriental que nunca lhe saíra da cabeça. A história dizia que um pai, todos os dias, pegava o seu filho pequeno e o colocava sobre a mesa e pedia-lhe que pulasse e antes que o moleque se esborrachasse no chão, ele o pegava nos braços, certo dia, ele repetiu a ordem, porém, não o pegou, deixou que o pimpolho caísse e recomendou: “não confie em ninguém, nem mesmo no seu pai”. Por isto, ficou cismado de dois ou três gestos do padre e dona Clô, mas mordeu a língua, poderia ser chifre na cabeça de cavalo...
Os camaradas gostavam quando doutor José Maria estava na fazenda “Ouro Achado”, havia sempre clima de alegria, nos finais de semana, ele promovia: futebol, sinuca, pescaria, corrida de jegue, pau-de-sebo, mas o pessoal se amarrava mesmo era quando ele mandava buscar um sanfoneiro, aí o forró entrava pela noite e acabava no outro dia e ninguém sabia quem era o patrão ou o empregado, todos se misturavam no salão ao som da sanfona, da zabumba e do pandeiro. Se algum sujeito tomado pelo álcool saísse da linha, era logo dominado e levado pra casa.
Naquela manhã, o padre, dona Clô e o marido prosavam no alpendre da casa.  Apolinário Gaiardoni estava mais leve e mais solto. Tudo era novidade: o cacau, o gado, os cavalos, as mulas, os burros, os jegues, as matas, a simplicidade dos camaradas, as nascentes de água limpa, a riqueza da fauna, as hortas dos trabalhadores e acima de tudo a filantropia dos donos da fazenda que repetia em agradecer. Tabaréu da cidade, ele teve ao longo da vida, pouco contato com roça, ignorava quase todas as coisas e o que sabia de zona rural, Apolinário Gaiardoni aprendera nos livros.
Dona Clô, reservada, introspectiva, naquela manhã, também, estava mais leve e mais solta, talvez, por já terem decidido o retorno para cidade. O doutor José Maria não se podia levar em conta, sempre estava de bem com a vida, se não fossem os seus compromissos comerciais e jurídicos, moraria na roça, gostava do cheiro de mato, principalmente, do cheiro de alfazema das caboclas. Naquele rincão, ele dispensara, somente, as casadas e as comprometidas. Não era ousado, porém, as morenas se insinuavam, então, ele ficava na casa do sem jeito... 
Portanto, naquela manhã, todos estavam felizes, quando o dono da casa de chofre puxou conversa:
- Padre, quem é Jesus Cristo?
- O filho unigênito de Deus!
- Bem... Todos nós somos filhos de Deus pelo batismo de acordo as Escrituras Sagradas, porém, a minha dúvida é se Jesus Cristo é “Filho Único de Deus” ou um marco da História Universal?
- A fé me fez padre... Acredito que Jesus Cristo é “Filho Único de Deus e Redentor da humanidade”!
- Os judeus e os muçulmanos não pensam assim!
- Nós, cristãos, respeitamos judeus e muçulmanos, Maomé e Moisés tiveram um lugar especial na obra de Deus, mas Jesus Cristo foi o único que venceu a morte e não pecou...
- Acho que Jesus Cristo foi homem justo, o maior personagem da História Universal, mas têm coisas que contêm nos Evangelhos que se explicam mais pela fé, não pela razão!... – dona Clô interrompe-o:
- Meu filho, deixe o padre Apolinário em paz, ele veio descansar, não em missão religiosa! – o padre contemporiza:
- Não se preocupe dona Clô, acho a discussão interessante, ademais, dialogar com doutor José Maria, acrescenta, saio no lucro, ele tem uma vasta cultura!...
- Não, é sua bondade, eu que acrescento sua sabedoria aos meus conhecimentos. Eu não estudei Exegese! – continuou:
- Padre, deixe dona Clô pra lá... Se não for inconveniência, gostaria de continuar com o papo!
- Fique à vontade!
            - A Ressurreição de Jesus Cristo, por exemplo, é uma questão de fé!...
            - Por que razão?
            - Bem, Mateus 28:5-6 e outros evangelistas registram a ressurreição de Jesus Cristo. Ele aparece aos discípulos e Tomé duvidou, mas o Senhor lhe tirou a dúvida. Todavia, não existe lógica científica Ele ter comido e bebido após a ressurreição... 
            - Qual é o mal Ele ter comido e bebido? Ele, apenas, quis dizer aos incrédulos: “Eu estou aqui, não sou um fantasma, creiam!”
            - Padre, pense comigo: Se Ele foi crucificado e ressurgiu dos mortos, só poderia ter feito em espírito, concorda?
            - Sim!
            - Pelo que sei, espírito não come nem bebe, concorda?
            - Sim!
            - O homem é naturalmente corruptível, isto é, de carne e osso, matéria que apodrece enquanto que o espírito é indestrutível, concorda?
            - Claro!
            - Conclui-se que a ressurreição de Jesus Cristo é matéria retórica, discursiva – “E, não crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Então, eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; o que Ele tomou, e comeu diante deles”. (Lucas: 24: 41-43) -, que coloca em cheque a natureza divina de Jesus Cristo. - o padre Apolinário Gaiardoni estava perdido, mas não perdeu o prumo nem a autoridade:
            - Doutor José Maria, as coisas de Deus não são explicadas como as coisas do homem. O conhecimento do homem é relativo, nem sempre a ciência tem resposta para o que busca. A única maneira do homem se encontrar com Deus é através da oração, ou seja, da fé. A interpretação exegética das Escrituras Sagradas não deve ser tomada ao pé da letra, de suas figuras literárias, a interpretação das Escrituras Sagradas, deve ser feita em sua essência, além disto, os livros bíblicos têm mais de 2000 anos com enésimas traduções desde Gutenberg.  – percebia-se que o padre estava nervoso.
            - Padre, a nossa discussão é sobre a ressurreição, que junto à eucaristia, ao batismo, à remissão dos pecados e à promessa de vida eterna, são os fundamentos do cristianismo. Não devemos negligenciar a exegese, eu sei que muita coisa é simbólica, porém, é o símbolo que materializa a fé, portanto, a discussão procede e merece a nossa reflexão, a fé cega é boa para o coração e não pra alma Aliás, na história das religiões, os mártires, os homens santos, morreram sustentados pelas suas convicções religiosas, eles não eram idiotas...
            - Eu sei. São Paulo é o exemplo bíblico maior de fé consciente. Doutor das leis judaicas, escritor de mancheia, perseguidor dos cristãos, depois de convertido, de perseguidor passou ser perseguido. Ele foi prisioneiro, exilado e decapitado pelo imperador Nero, tudo em nome da fé, foi quem fundamentou o pensamento cristão, defendeu a ressurreição como ninguém: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 12-14). Além de São Paulo, temos defensores da doutrina cristã de peso como São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, Santo Agostinho, Santa Tereza D’ Ávila e por aí afora, todos intelectuais brilhantes que tiveram uma vida santa e uma fé fundamentada na razão. – concluiu o padre.
            - Padre, eu lhe parabenizo pelo conhecimento elevado do cristianismo, não poderia ser diferente, tratando-se de um padre jovem, estudioso, atualizado, porém, o senhor não me respondeu se Jesus Cristo de carne e osso (matéria corruptível) subiu aos céus ou o que foi dito nos Evangelhos, não passa de figura retórica!?
            - Com todo respeito ao senhor, acho uma discussão estéril. Jesus Cristo foi ressuscitado em espírito e não em matéria corruptível, o fato dele ter comido e bebido, atribuo às coisas de Deus que não têm explicação, mas aceitação. Porém, gostaria que se senhor não vê Jesus Cristo como a segunda pessoa da “Santíssima Trindade”, o visse como a maior personalidade histórica de todos os tempos, que pregou a não violência, a fraternidade, a igualdade e o amor, para o historiador Will Durant: “seria um milagre ainda mais incrível que apenas uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora ideia da fraternidade humana”.  – dona Clô explode:
            - Bem, chega!... – puxou o marido para o almoço, enquanto alertava Apolinário:
            - Padre, perdoe este homem, ele tem ideias de ateu!... – doutor José Maria não deixa por menos:
            - Querida, se eu mereço perdão, só Deus pode me perdoar, o nosso amigo Apolinário não possui este mister, mesmo em nome de Jesus Cristo, eu não acredito que um pecador possa absorver os pecados do outro (riso). Não sou ateu, sou cartesiano. Gostei do seu papo, muito inteligente, mas pouco convincente, por isto, peço-lhe, a priori, outra oportunidade para discutirmos sobre criação, evolução, a natureza de Deus, deus personalizado e outros mistérios, dou-lhe a minha palavra que não o importunarei mais. – o padre não lhe disse sim nem não. Dona Clô que lhe deu a resposta:
            - Tenho certeza, querido, que o padre Apolinário lhe dará outra oportunidade e esclarecerá suas dúvidas. 
7

Os Jagunços

Costuma-se dizer que a história do Sul da Bahia foi escrita com sangue e suor, as páginas, a terra do cacau, o sangue, a tinta, a caneta, o bacamarte, os camaradas e os jagunços, os escrivães.
            Além do jagunço, que cuidava das questões de terra, dos caxixes, promovido pelos coronéis, geralmente, embrenhado nas matas, impune às decisões da polícia e da justiça, havia o bravata, o valentão, o criminoso comum, que assolava as cidades com suas atrocidades, às vezes, ele era contratado por alguém de recurso para tirar a vida de algum desafeto, dentre esses malfeitores, Itabuna lembra-se de Zé Nick, Helvécio, Vavá Leal e Vaqueirinho, protótipos de Natário da Fonseca de “Tocaia Grande”.
            Em tempo remoto, no início do município de Itabuna, o nego Zé Nick virou mito. Sargento por bravura do Exército e burareiro, aterrorizou a polícia e a população itabunense e a Região de Rio do Braço com suas arruaças e os seus crimes. Acreditava-se que ele tinha o “corpo fechado”, que “envultava”, que as balas da polícia e dos seus inimigos não feriam o seu corpo.
Conta-se que pra matar Zé Nick, os assassinos aproveitaram-no bêbado, e, com foice e machado lhe deram cabo, mesmo assim, ele não morreu de imediato, foi necessário os assassinos usarem o seu próprio punhal para lhe trespassar o coração e quebrar a mandinga. 
Em tempo menos remoto, Vavá Leal foi o terror de Itabuna. Arruaceiro, freqüentador assíduo de prostituta, temido pelos policiais, admirado por alguns e odiado por muitos, foi assassinado a tiro por Juca dono do Sport Bar, segundo os cochichos que corriam de boca em boca na época. O motivo do crime não ficou bem esclarecido, mas se atribuiu a ciúme de mulher de vida fácil e rixa velha.
Juca, suposto assassino, não foi preso, pessoa querida dos coronéis, da polícia, do promotor, do juiz e amigo de Dr. José Maria, não pisou os pés na delegacia. Se houve testemunha, nenhuma compareceu às autoridades, ademais, a morte de Vavá Leal foi um mal necessário, um bem para sociedade, difícil de desvendar face à quantidade de seus inimigos.
Dr. José Maria triplicou e quadruplicou sua fortuna na defesa e na acusação dessa escória da sociedade.
8

Ano de 1939


            Os tropeiros da fazenda Boa Hora desciam em direção a Ilhéus. Manuelzão, chefe do grupo, berrava com os camaradas para que cuidassem dos animais, escolhessem terreno que tivesse menos lama (havia chovido dois dias antes), mais enxuto, para que cavalos e éguas não ficassem atolados e sofressem acidentes com o peso dos sacos de cacau. A égua madrinha ia adiante com o cincerro chocalhando ao pescoço e puxava a tropa com imponência como se conhecesse cada palmo do terreno, aos tropeiros restavam escolher o trilho bom.
            Manuelzão levava o cacau do boqueirão vizinho à fazenda do coronel Manduca Castro para o armazém de Água Preta e de lá para Ilhéus e entregue nos depósitos dos Kaufman.  Homem de confiança de doutor José Maria, seguia à risca suas ordens e a ordem foi que esse cacau chegasse ao destino antes de qualquer chuvarada.
Sua relação com o patrão era do tempo de adolescentes. O seu pai tinha sido capataz do coronel Teodoro Alves, pai de doutor José Maria, quando o filho do coronel entrava de férias escolares, corria para fazenda Boa Hora. Embora o coronel tivesse muitas fazendas, o adolescente José Maria preferia passar as férias com o seu companheiro de peraltices e travessuras, o comprido Manuelzão, o filho único do capataz. 
 Moços, eles se encontravam em final de ano, é que José Maria já estudava Direito em Salvador e a distância dificultava o ócio na fazenda. Porém, quando o “patrãozinho” aparecia, agora, ambos de barba e bigode, além das pescarias e dos forrós, eles montavam a cavalo e iam curtir no “Buraco da Jia”, zona de meretrício de Água Preta, até o dia amanhecer.
Eles não eram de briga. O estudante de Direito se comprazia em dançar, tomar whiskys ou cerveja e quando faltavam ambos, descia na goela, uma cachacinha com limão e mel. Porém, quando algum intruso cismava com o “doutorzinho”, Manuelzão, as prostitutas e os camaradas da fazenda caiam em cima do pobre diabo.
Manuelzão nunca gostou de estudar, fez até o 4º. Ano primário por insistência do seu pai e do coronel, este, queria vê-lo doutor, prometeu-lhe custear os estudos na capital, mas esbarrava na má vontade e falta de gosto aos livros do moleque.  Manuelzão gostava mesmo era de se escanchar num cavalo, colher cacau, tomar o mel de cacau, jogar uma pelada nos finais de semana, mergulhar no rio para fisgar acari, pegar traíra e tilápia de rede, e, nas noites de final de semana, trocar umbigadas com as negras do “Buraco da Jia”.
Tivera a promessa de ajuda do “patrãozinho”: “Manuel se o meu pai morrer primeiro, eu irei lhe dar umas terras para você plantar cacau”, promessa feita, promessa cumprida, assim que o coronel Teodoro morreu, doutor José Maria assumiu os negócios da família e um dos seus primeiros atos foi comprar umas terras perto da Boa Hora e passar em nome de Manuelzão, deu-lhe independência e autoestima, como reconhecimento, ele prometeu ao “patrãozinho” que ia cuidar do seu futuro, mas nunca ia lhe deixar. Não quis ocupar o lugar do seu pai, também falecido, ficou como tropeiro principal da fazenda.
Seria capaz tudo para atender ao doutor José Maria, mesmo que pusesse em risco sua vida. Sabia que havia uma questão de limite com as terras do coronel Manduca que se arrastava desde o coronel Teodoro, pouca coisa, uma tira de uns 10 hectares, um nada para o tamanho das fazendas de ambos os coronéis do cacau, mas muita coisa para gerar uma contenda.
A justiça já tinha decidido a favor de doutor José Maria, porém, o coronel Manduca não se conformou, alegava tráfico de influência, que o advogado conhecia do juiz ao oficial de justiça, que tinha usado tráfico de influência na sentença, por isto, jurou resolver a questão ao seu modo, desta data em diante, aumentou-se o efetivo de cabras na Boa Hora, a região conhecia a fama má do coronel Manduca.
Homem desalmado, que tinha construído um latifúndio produtivo se apropriando das terras dos pequenos posseiros a guisa de nada, que usava o caxixe, que usava, principalmente, a tática de coerção e intimidação, porém, essa tática não daria certo nem com o coronel Teodoro, menos ainda com o seu filho, pois, pai e filho não eram de briga, mas eram turrões quando a ocasião exigia e o pretexto alegado pelo doutor José Maria era que se cedesse no pouco, teria que ceder no muito às ambições sem limite do coronel Manduca, ele sempre ira querer mais...
Manuelzão vinha mastigando essas reminiscências, quando alguns metros de distância da tropa, por trás de um montículo surgem pistoleiros atirando em direção aos tropeiros, um deles é atingido no peito e cai como uma jaca do cavalo, os demais, num instinto aguçado de sobrevivência se jogam no chão e procuram se defender como pode atrás das árvores, os animais fogem da linha de tiro e se embrenham nos cacauais, o tiroteio começa.
O tiro que derrubou o negro Joaquim, seria para Manuelzão, mas por segundos, ele havia saído da tropa para mijar, foi sua salvaguarda, além de evitar uma carnificina, ele pode, rastreando, surpreender os jagunços por detrás do monte e forçá-los se expor para alvo dos clavinotes dos seus companheiros. Salvou-lhes, também, a escuridão da mata fechada, embora fosse ainda tarde.
Quando Manuelzão ouviu o primeiro tiro, de maneira prudente, colocou-se à retaguarda dos jagunços, aí, ele forçou-lhes o movimento e a vulnerabilidade. Agora, os tropeiros refeitos do susto, protegidos pelos troncos das árvores derribadas ou outro obstáculo qualquer, tornaram-se invulneráveis, e, à medida que o clavinote de Manuelzão cuspia fogo, as baixas dos jagunços se sucediam, quando restou um jagunço, o chefe dos tropeiros, rastejando como cobra, com cuidado necessário, surpreende o último jagunço e toma-lhe a arma:
            - Companheiros, parem de atirar e venham até aqui!!! – o fogo foi suspenso...
            O cabra foi manietado e amarrado no tronco de um cacaueiro. Os tropeiros mais afoitos queriam lhe dar cabo, queriam vingança pela morte do negro Joaquim, porém, foram arrefecidos pela palavra firme do seu chefe:
            - É covardia matar alguém com as mãos amarradas... Além disto, ele será útil ao patrão vivo e não morto!
            O dia amanhecia quando eles recuperaram todos os animais, inclusive, os sacos de cacau que foram atiçados fora enquanto os animais fugiam. Foi grande a matança: morreram 7 jagunços mais o negro Joaquim. O jagunço que sobrou deu na língua, disse a Manuelzão e aos demais que tinha sido obra do coronel Manduca, ele que havia contratado Zé Vermelho, famoso pistoleiro alagoano, para intimidar o dono da fazenda Boa Hora e tomar posse na raça do boqueirão.
            A polícia de Ilhéus desceu às pressas para Água Preta e de lá pra Boa Hora. A segurança da fazenda foi reforçada. Doutor José Maria se fez presente, o coronel Manduca foi pego de surpresa e preso. Jogaram-lhe tanto processo em cima que seus advogados não conseguiram impedir dele descer para penitenciária de Salvador.
            Dois anos depois, sentou-se, pela primeira vez, no banco dos réus, um coronel do cacau pelos crimes que praticou. Após réplicas e tréplicas dos advogados e da promotoria, o coronel Manduca Castro, ouviu do juiz, a sentença de 28 anos, 3 meses e 15 dias de prisão na penitenciária da capital, sem direito a sursis.
9

 Jesus veio para perdoar

Um ano depois que Lia instalada no seu “bangalô”, agora, com a barriguinha na boca, mais um filho ou filha do advogado José Maria, a caminho, ela começou se soltar mais socialmente, porque além da gravidez, os pais e os irmãos lhe deram mais segurança emocional e passou acompanhar sua mãe à Igreja Católica aos domingos e feriados. No início, elas não chamaram a atenção da assembleia nem do pároco, mas à medida que o tempo passava, o pessoal que zela pela vida alheia acendeu a chama da curiosidade e não demorou que todos ficassem sabendo que eram a amante e a “sogra” do criminalista e fazendeiro José Maria.
            Lia no início não percebeu os olhares enviesados e os cochichos insistentes, mas à medida que o tempo ia passando, esses gestos e atitudes indiscretas começaram lhe incomodar, porém, deu tempo ao tempo até o dia que ela foi convidada pelo pároco através do seu sacristão:
            - Filha, onde mora?
            - Padre, eu moro na Avenida Garcia?
            - A senhora é casada?
            - Não, sou amancebada...
            - Pode me dizer o nome do seu amásio? – perguntou por perguntar, ele já sabia.
            - Não!
            - É que as famílias...
            - Não me aceitam, não é!?
            - Silêncio.
            - E o senhor me aceita?
            - A maioria decide...
            - Não me incomoda esses hipócritas, quero saber do senhor!?
            - A igreja é da comunidade itabunense...
            - Eu moro aqui!
            - Eu sei, porém, não se é feliz com a infelicidade do outro!...
            - Eu posso saber quem é o “outro”?
            - Chamei a senhora para comunicar que a nossa paróquia não lhe quer como membro e não desejo prolongar a discussão. Tá?...
            - Como o senhor disse, a igreja é da comunidade, portanto, eu sou da comunidade e não cometi nenhuma heresia para deixá-la de freqüentar! – o padre perdeu a paciência:
            - A senhora é insolente!!!
            - Não, não sou... O senhor é que não segue os ensinamentos de Jesus Cristo que trouxe o perdão para todos os pecadores: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”, portanto, Jesus veio para perdoar! - O padre descontrolou-se:
            - A senhora é mesmo insolente, quer me ensinar os Evangelhos? Saia, saia da minha sacristia, a comunidade tem razão!!!
            - A comunidade ou dona Clô!? – o padre não lhe deu resposta, deu uma rabanada...
            O advogado soube no mesmo dia a desfeita que sua amada sofreu pelo sacerdote. Decerto, sua esposa estava por detrás de toda essa maldade em conluio com o pároco. Não sabia explicar o motivo da aversão que sentia pelo religioso, às vezes, sua presença lhe causava asco, o fato é que doutor José Maria não gostava dele, pior, tinha que representar uma amizade que não sentia por Apolinário Gaiardoni para não contrariar sua mulher e alguém lhe atribuísse ciúme.
            Teve inveja de Henrique VIII que para solucionar um problema de casamento, rompeu com a Igreja Católica e fundou a Igreja da Inglaterra. Se possuísse esse poder, anularia seu casamento com Clô, confiscaria os bens da igreja em Itabuna, desterraria Gaiardoni para os quintos do inferno e faria de Lia uma bispa. Mas, não tinha esse poder nem era desalmado como o rei inglês.
            Conhecia a carolice de dona Clô, sua beatice, seu apego pelas coisas da igreja, senão, estaria pensando em infidelidade conjugal, pecha que rejeitava com firmeza quando esses pensamentos lhes vinham à mente. Todavia, havia diminuído a intimidade entre marido e mulher desde que o padre chegou à cidade do cacau, sexo, agora, era obrigação. Se no fosse o amor que sentia por Talita, Samuel e Júnior, seus filhos e amigos, já teria deixado de vez o lar.
            Sempre havia mijado fora do caco - eu não sou tuberculoso para comer no mesmo prato, argumentava -, mas sempre preservou a família. Pirocar fora era um costume, mais do que costume, uma tradição antiga, lei de macho, quem não pirocasse na rua, não teria o respeito dos seus amigos e não amigos, não era homem, mas um frouxo.

10

A educação do ódio


            Houve tempo para ouvir as últimas frases de Apolinário: “o salário do pecado é a morte”, “quem prevarica tem que morrer”, “Deus pune com a espada os infiéis” e “o adúltero é queimado no fogo do inferno”. José Maria não sabia qual a razão de tanto ódio, a priori, reprovou a educação do ódio que o sacerdote estava passando para criançada. Talita e Samuel vibravam com o desfecho da história, Júnior estava meio absorto e Clô só faltava pular da cadeira de tanta admiração pelas palavras de sabedoria do padre.
            Ele soube depois que Apolinário lhes contava a história de infidelidade de Betsabá e o rei Davi e a profecia de Natã. Davi após engravidar a mulher de Urias, um dos seus dedicados oficiais, ordenou-lhe que deixasse de imediato o front e voltasse para casa, porém, Urias desobedece-lhe com base no código de guerra dos hititas que proibia o sexo antes da luta, na casa do sem jeito, o rei ordena aos seus oficiais que deixassem Urias sem apoio militar e fosse morto pelos inimigos.
            A Bíblia registra que as profecias de Natã foram cumpridas: houve grandes tribulações no Reino de Israel, o primeiro filho de Davi e Betsabá morreu e também o príncipe Absalão. A paz e a prosperidade voltaram a reinar em Israel com a morte de Davi e a assunção do seu filho Salomão com Betsabá.
            Uma história contada e recontada por todas as gerações, hoje, de somenos importância, apenas de valor histórico, que não ofereceria nenhuma reprovação do dono da casa se não fosse o sutil veneno retórico de Apolinário. Ele usava um dos pecados do homem para colocá-lo pouco e pouco contra mulher e filhos já que era sabido de todos que ele tinha amante, por isto, entrou de supetão na sala e na conversa: 
            - Posso saber o motivo de tanto ódio, padre?
            - Não, não é ódio, é justiça divina!
            - Não entendi!...
            - Fiz um comentário do crime de Urias, com a garotada e dona Clô...
            - Ouvir o final de sua conversa, desculpe-me, mas não entendi o motivo de tanto ódio!?
            - Ódio dizer que “o salário do pecado é a morte” ou “quem prevarica tem que morrer”, por exemplo?
            - Jesus Cristo veio para perdoar...
            - Sim, Porém, quem busca o arrependimento, o pecador contumaz, lhe é reservado o fogo do inferno! – Talita cochichou no ouvido de Samuel.

     - Engraçado... (risos) padre... (risos)... o senhor não leu o capítulo do Evangelho que Pedro pergunta: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Respondeu-lhe Jesus: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18:21-22). O bom senso diz nesta leitura que setenta vezes sete, é a predisposição infinita de Deus perdoar. Noutra passagem do Evangelho, Jesus Cristo desafia o homem e lhe proíbe de apontar o dedo quando uma mulher é flagrada em adultério e teria que ser apedrejada de acordo a lei mosaica: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra”  (João 8,1-11). – E, finalizou:

                - O senhor no seu ministério não deveria fazer o mesmo!?

                - Além de padre, eu sou um ser humano, limitado, não tenho a natureza perfeita de Jesus Cristo. Hoje, as vicissitudes são maiores e o homem está mais consciente dos seus erros e o custo de sua infidelidade!

                - O senhor deveria trocar o Novo Testamento pelo Torah dos judeus em suas missas...

                - Doutor José Maria, a Bíblia é o Novo Testamento e o Velho Testamento, um texto completa o outro!

                - Mas, Jesus pregou novos tempos, uma Nova Aliança, reduziu os 10 mandamentos do Pentateuco em dois, não pregou “olho por olho e dente por dente”, portanto, ele não pregou o ódio, mas o amor!... – os meninos bateram palmas. Apolinário reprovou-os:

                - Filhos, Deus ralha com meninos intrometidos e mal educados! – José Maria define a educação dos filhos:

                - Meus filhos, mais respeito com o nosso sacerdote – virando-se para Apolinário:

                - Padre, eu quero que os meus filhos cultivem o bem-querer, o amor, o Deus complacente, o Deus de misericórdia, o Deus de perdão, o respeito a todos, e, não o sentimento de vingança, de maldade, enfim, a educação do ódio!

                O padre saiu bufando de raiva, pelo menos, uma semana José Maria ficou livre dele. Dona Clô reclamou o tempo todo com o marido, alegava birra do marido com o santo homem e culpava os filhos pelo malsucedido da conversa.

11

 

Mais um Andrada

 

                Quando ele soube do ocorrido, o rebento já tinha pulado da barriga de Lia e já estava embrulhadinho em finos panos no seu berço laqueado (última moda) ou aconchegado nos braços da mãe, avós, tios e vizinhos. Todos queriam abraçar o pequerrucho Pedro, logo, chamado de “Pedrinho”, não faltavam bem-querer e paparicação...

José Maria torcia para que nascesse menina, contrariando a regra, Lia desejava um menino, ambos tinham argumentos convincentes: ele alegava que tinha uma filha e dois filhos, portanto, mais uma menina, teria dois casais, além disto, ele justificava que a mulher é mais amorosa com os pais e o filho homem é menos amoroso, mais machão e menos família; Lia, tinha medo que a filha se casasse com um troglodita e viesse sofrer, então, fosse puta e sofresse muito mais.

Naquela noite, a noite que Pedrinho veio ao mundo, José Maria estava numa das fazendas. Ele não esperava que Lia desembuchasse naquele mês, menos ainda, naquela semana, menos ainda, naquela noite, mas pelo “sim” ou pelo “não”, deixou “Mãe Otaciana” de sobreaviso. Não houve dificuldade no parto, a dificuldade foi o irmão de Lia acordar a parteira no meio da noite. A simpática velhinha, sem delongas, vestiu um casaco de frio, calçou um sapato, protegeu a cabeça com um xale e com passsinhos miúdos, instantes depois, ela já puxava o moleque para luz com dedicação e perícia.

Criança não parece com ninguém, criança parece com criança, mas Pedrinho não negava o pai. Ele herdara alguns traços inconfundíveis, a exemplo dos olhos esverdeados, o nariz e os dedos compridos das mãos, afora uma pinta preta na parte interna da coxa esquerda. José Maria brincava: “filho de puta, tira a mãe da culpa”. Naquela época não havia exame de DNA e se houvesse não seria necessário, o moleque era cagado e cuspido o pai.

O caixa do Sport Bar, naqueles dias, foi reforçado. O advogado saía do escritório no final da tarde e ia comemorar o nascimento de Pedrinho. Não bebia muito, o seu prazer era reunir os amigos, as prostitutas, dançar e falar da criança de dias como se tivesse anos.

Ele estava feliz, curtia momentos de felicidade, pois tinha o amor de Talita, de Samuel, de Júnior e de Lia. Lia que amava Pedro e ele que amava a ambos.

12

 

O beijo do pecado

 

                Dona Clô já ajudava nos trabalhos da igreja (afora o polpudo dízimo) desde o velho padre. Agora, com Apolinário Gaiardoni, as coisas do Senhor redobraram, não havia empecilho que a prendesse, se preocupava mais com os trabalhos da igreja do que com os trabalhos de sua casa. Naqueles dias que doutor José Maria acordava com a macaca e lhe cobrava mais compromisso doméstico e de esposa, melhor seria se não o fizesse, ela justificativa sua necessidade de servir a Deus com lamúria e choramingação, deixando-o com sentimento do pior dos hereges, aí, ele voltava-se para os braços de Lia.

                Não havia mais casamento de Clô e José Maria, restavam compromissos conjugais e companheirismo. O amor e o sexo já não existiam na relação de ambos, sexo, agora, não passava de impulso, hábito adquirido ao longo de anos de convivência, de vez em quando, José Maria não controlava o seu instinto animal e Clô se deitava passiva.

                Naquela manhã, - caro leitor, não me pergunte o dia nem a hora, apenas, eu sei que foi num momento infinito -, ela limpava o sacrário, quando distraidamente, caiu o cálice esparramando as hóstias pelo chão da igreja -, do nada, surgiu Gaiardoni para socorrer-lhe, sem explicação, boca e boca se uniram, selando, assim, o beijo do pecado.

                Foi como se uma descarga elétrica tivesse atingido cada célula de cada protagonista. Se alguma máquina fotográfica indiscreta tivesse registrado aquele momento, registraria a cena, mas não mediria o calor e a intensidade do beijo. Só o gênio de um artista seria capaz de pintar o fulgor daquela paixão contida. Não levou muito tempo as bocas coladas e, seria pecado reduzir o significado daquele beijo contando os segundos, mas foi eterno enquanto durou no dizer do poeta Vinícius de Moraes.

                Envergonhada, ela não se aguentava nas penas, articulou algumas palavras imperceptíveis como se quisesse justificar o beijo do pecado, o beijo da traição, o beijo diante do altar de Jesus, o beijo da blasfêmia, o beijo de Judas, ou, o beijo do amor.

Ele levantou-se no pique, não parecia envergonhado, não seria temeridade afirmar que Apolinário construiu na mente aquele momento, talvez, não tivesse imaginado a circunstância, mas havia o desejo contido de tê-la nos braços e embebedar-se de seu amor. Hoje, ele compreendia a falta de afeição que sentia pelo seu marido, atribuía às contendas religiosas, certo que não gostava de sua petulância, não gostava do enfrentamento religioso que lhe fazia Jose Maria, porém, naquele momento, descobriu que havia muito mais do que antipatia, a causa principal era o ciúme latente que sentia de Clô, inconsciente, não aceitava que outro a amasse, tivesse por casamento o direito de usar o seu corpo. Não entendia o marido deixá-la por um amante qualquer, mais ainda, não entendia ele montar casa para amante e ter filho, na mesma cidade, além de adultério, era um desrespeito e uma afronta...

Também, não lhe afligiu nenhum sentimento de culpa religiosa, ter cometido blasfêmia tê-la beijado em frente à imagem de Jesus Cristo na cruz. Não havia planejado aquele momento, não tinha cometido adultério, ela não era adúltera, adúltero era o seu marido. Ele fizera o voto de castidade, sim, como todos os padres de sua ordem, porém, a maioria absoluta se deitava com mulher ou com homem. Nunca vira com bons olhos a condenação do sexo pela igreja, condenar o sexo pra Apolinário Gaiardoni, era violentar a natureza e Jesus Cristo escolheu muitos homens casados para apóstolo, e, na história da igreja católica, muitos papas tiveram amantes e filhos.

Clô lhe despertou tesão desde que a conheceu, não pelo fato dela ser rica, mas por sua fibra e seu cuidado com as coisas da igreja, afora, esconder embaixo de trajes comportados, o corpo de uma linda mulher., não que a tivesse apalpado, ou, a tivesse visto nua, no entanto, podia se adivinhar na leitura das linhas de sua fisionomia o que se escondia embaixo daqueles panos.

Clô continuou sem jeito depois do beijo, porém, as pernas não lhe doíam mais, o lhe doía, agora, era o sentimento de culpa: pensou no marido, pensou nos filhos, pensou nos amigos e nos inimigos, que iriam pensar dela se soubessem do seu flerte com o pároco? Eles iriam apedrejá-la como tentaram apedrejar Maria Madalena!... Não queria ser taxada de “amante de padre Gaiardoni”, não queria virar, quando morresse, “mula-sem-cabeça”, como dizia o povo, nem concubina de padre, se não fosse possível conter os seus impulsos de mulher, iria para outra igreja, mas não cederia, preservaria sua moral e de sua família, no entanto, Apolinário lhe fez ver o contrário:

- Perdoe-me, eu não resisti...

- Vamos esquecer tudo!

- Impossível, foi um ato premeditado...

- O quê!?

- Não posso esconder de Deus nem de ti o meu amor...

- Sou uma mulher casada...

- Com um homem que não te ama!

- É meu marido perante Deus e pai dos meus filhos!

- É pai dos seus filhos e marido no papel, deixou de sê-lo desde que montou casa para amante...

- Aqui, em nossa região é normal, até os maridos pobres têm amantes!... – continuou:

- Condição necessária, em nossa terra, para preservar o casamento.

- Uma pessoa esclarecida e independente não se sujeita à humilhação pública!

- O importante é que a família está unida!

- O adultério não tem importância desde que a família esteja unida?

- É mais ou menos o que os homens e as mulheres pensam!...

- Então, não é pecado te amar, desde que você continue casada?

- Para mulher não existe tolerância! – e completou:

- A Bíblia diz: “... qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus: 5: 32), portanto, quem se aproxima da mulher repudiada comete adultério...

- No confessionário, o seu marido é o rejeitado!... – Clô não se conteve:

- O senhor não tem o direito de revelar segredo de confissão!

- Não existe ninguém neste altar além de mim e ti!

- Silêncio.

Clô não lhe respondeu, não seria necessário, Apolinário Gaiardoni conhecia sua alma. Ela lhe compartilhava em segredo de confissão, os seus sonhos, as suas angústias, os seus medos, os seus sofrimentos e as estripulias de José Maria. Ele sabia mais do que ninguém que o seu casamento não passava de fachada, se não era rejeitada com palavras, era rejeitada com ações. E, quando ela ameaçou se retirar, foi envolvida nos braços fortes do padre, não mais ficou sem palavra ou envergonhada, enlaçou com os braços o seu pescoço e se entregou...

Começava, ali, sob os auspícios da cruz de Jesus Cristo, o romance entre duas pessoas parecidas nas sutilezas do coração, mas de almas diferentes.

13

O assassinato do padre

 

Não se apoquente caro leitor, não faça ilações precipitadas, não foi o padre Apolinário Gaiardoni que foi assassinado, embora num primeiro momento, todos os seus desafetos se alegraram com o crime - alguém espalhou a notícia do seu assassinato na cidade de Itororó -, porém, quem foi assassinado foi o padre Sebastião de Oliveira Alves.

Diziam as más línguas que esse sacerdote não era “flor que se cheire”, que não se apartava de um revólver 38 embaixo da batina. O motivo do crime não foi mulher, mas conflito de terra de família com o fazendeiro Pierre Santos. O padre se arvorou de valente e espalhou que se vingaria de quem matasse o seu pai: “.se matarem meu pai, eu tirarei a batina e vingarei sua morte”. Não teve tempo de se vingar, algum inimigo contratou o pistoleiro Manoel Caboclo que o despachou primeiro. 

O leitor apressado poderá perguntar ao autor o que tem alhos com bugalhos? Se não foi Apolinário Gaiardoni assassinado – àquela altura, o principal suspeito do crime de José Maria -, com certa razão, todavia, o registro da morte do padre de Itororó fez-se necessário, oportuno, para explicar o sentimento de ódio que a população itabunense alimentava pelo padre Gaiardoni, mesmo depois de dois anos do seu desaparecimento, as pessoas ainda choravam a morte de José Maria e o desejo de vingá-lo.

É justo dizer, neste capítulo, para desencargo de consciência, que é cedo para imputar-lhe a autoria do crime, embora José Maria fosse muito querido, outros suspeitos foram mencionados no inquérito. A igreja católica afastava qualquer coisa que o incriminasse, por isto, transferiu o sacerdote pra bem longe. Não havia provas materiais da tragédia, apenas, insinuações e boatos de sua relação amorosa com Clô, ou seja, nada de concreto e muito de suspeição, e, acusações sem provas materiais ou circunstanciais não se sustentam num processo...

No entanto, o burburinho de infidelidade de dona Clô e o assassinato do padre Sebastião vieram desmistificar a imagem de santo dos padres, aqui e acolá, eles se envolviam em negócios escusos, compravam fazendas de cacau, tinham filhos, montavam casas para amantes e exercitavam outras profissões, principalmente, na educação. Com a vinda dos capuchinhos para o Sul da Bahia e os exemplos de trabalho, de estoicismo, de probidade, de dedicação ao próximo, de desapego material e de vida santa que eles passavam, logo, a igreja católica retoma sua credibilidade como agente de fé e de evangelização junto aos católicos da região cacaueira.

14

Fazenda Invernada

 

Ficava pra o lado de Itapé, hoje, deve ter outro nome desde que foi vendida pelos herdeiros de José Maria. Uma fazenda mista, mais cacau do que pasto. O nome “Fazenda Invernada” foi dado por dona Clô, ela havia feito uma viagem ao Rio Grande do Sul e lá conheceu as invernadas para criação de gado. 

O rio Cachoeira cortava ao meio a fazenda Invernada, águas limpas, naquela época, o rio não era o repositório de esgotos das cidades que nasceram em suas margens. Dona Clô adorava a invernada por vários motivos, mas o principal, é que a fazenda não ficava muito distante de Itabuna. Ela, Talita, Samuel e Júnior se esbaldavam nas águas do rio Cachoeira, em alguns pontos do rio, as margens eram cobertas por um areal que pareciam as praias de Ilhéus.

Depois que José Maria adquiriu a Invernada, ninguém mais ousou derrubar um pé de pau, ele entendia, já naquela época, que o desmatamento desequilibraria o ecossistema, por isto, não aumentou os pastos, incrementou os currais de confinamento do gado e aumentou de cacaueiros nos boqueirões, portanto, as matas virgens eram o principal patrimônio da Invernada.

Um ano antes de sua morte, José Maria escolheu a Invernada para passar o São João. Era costume, nessas datas festivas, ele e a família irem para uma das fazendas mais próxima, depois que ele adquiriu a Invernada, ela era a eleita, pois era a fazenda que mais atrativo oferecia aos filhos e a dona Clô, porém, no ano 2007, ela apresentou alguns pretextos que até os seus filhos, também, preferiram não acompanhar o pai.

José Maria gostava de gente, gostava de companhia, com a recusa da esposa em acompanhá-lo, decidiu pela primeira vez, levar sua amante Lia e o seu filho Pedrinho. Embora os agregados da casa grande, os caipiras e suas caboclas não fossem muito devotos de dona Clô, ficaram arredios num primeiro momento, com a presença de Lia e do seu filho, mas pouco e pouco foram se soltando e menos de uma semana depois, Lia extrovertida e simpática, virou beiju de feira, era dona Lia pra lá e pra cá, enfim, conquistou do menino ao menos menino e ao velho, da garota à mulher madura, todos sem exceção, as mulheres mais moças substituíram “dona Lia” por Lia, numa relação de velha intimidade.

Pedrinho, ainda pimpolho, foi o que mais gozou com as férias. Acostumado com o pai só dentro do bangalô, esporadicamente, dava uma volta pela cidade de carro, no colo do pai, estava deslumbrado, pra ele, tudo era novo, tudo era bonito, e não se cansava de cobrar de José Maria outros passeios:

- Ah, painho, por que nunca trouxe mamãe aqui?

- Filhinho, no outro São João, nós viremos pra cá!...

- Tá longe, painho?

- No próximo ano! – Pedrinho, recorre à Lia:

- Mãezinha, um ano é longe?

- Não, Pedrinho, logo passa... – Pedrinho teve outra ideia:

- Por que não moramos na fazenda?

- Se esqueceu dos seus avós, Pedrinho?! – Lia já irritada.

- Painho traz meus voinhos... – Lia pede socorro a José Maria:

- Meu amor, acuda-me!...

- Filhinho, painho vai trazer vovô e vovó pra aqui e vamos todos morar na fazenda!...

Com o jeitinho de José Maria, Pedrinho se conformou, não mais voltou ao assunto, talvez, porque confiasse demais no seu pai que lhe fazia todos os gostos e mimos. Assim que Pedrinho nasceu, uma das primeiras coisas que José Maria fez, foi providenciar o seu reconhecimento em cartório, se alguém quisesse conquistar sua amizade e sua proteção, tivesse afeto espontâneo por Pedrinho e paparicasse sua mãe, os vizinhos de Lia descobriram esse lado fraco do advogado e todos se esforçavam cair em sua graça...

Porém, um ano depois, o destino conspirou contra o pai e o filho, não houve outro São João na fazenda, ele foi morar muito longe tangido por um inimigo de ódio, que a polícia mostrou-se incapaz, por algum tempo, em descobrir o criminoso, todavia, deixou para Pedrinho uma irmãzinha, a Maria Eduarda, gerada da paixão desvairada de um homem por uma mulher e correspondido, não por uma paixão, sentimento impulsivo e perigoso, mas pelo amor ágape de uma mulher, que não era sua esposa no papel, mas que chorou a morte do seu amásio até o fim dos seus dias e não descansou enquanto não o vingou...

Naqueles dias, tomar banho no rio Cachoeira, montar a cavalo com Pedrinho e mil brincadeiras, arrastar o pé no forró com Lia, ser ungido na língua nagô pelo preto velho da fazenda e tirar leite no úbere da vaca, ao canto do galo, deixaram, decerto, José Maria feliz.

15

A família é a identidade do homem

 

Crescia mais e mais a intimidade de Apolinário Gaiardoni na casa do advogado José Maria Alves Andrada. Intimidade com o dono da casa, com os filhos e muito com dona Clô, a dona da casa. O padre sentia-se à vontade, cada vez mais. As conversas, o bate-papo, os saraus literários, às vezes, passavam de meia noite.

Apolinário Gaiardoni tinha um bom papo, era um estudioso das ciências humanas, discorria com desenvoltura o conhecimento da época, porém, de quando em vez, claudicava nas exegeses bíblicas e era evasivo quando o assunto era sua família. Clô debitava suas falhas na conta dos muitos afazeres da paróquia.

Porém, José Maria, perspicaz, matreiro, desconfiava que houvesse algo mais além do que cansaço do padre. Se o padre claudicasse num ou noutro texto bíblico, seria irrelevante, mas era de costume ele se enrolar quando o advogado, estudioso da Bíblia e de ideias racionais, se aprofundava nas argumentações, várias vezes, era salvo no gongo por dona Clô:

- Meu filho, a Bíblia tem muitos livros e não é necessário sabê-los de cor. Além disto, a prática do Evangelho exige sabedoria e não profundo conhecimento filosófico! – José Maria não concordava, mas por educação, calava-se.

Gaiardoni, também, era econômico quando falava sobre sua família. Media cada palavra, falava “an passant”, o máximo que se arrancou dele, é que os seus pais eram alemães, tinha mais dois irmãos, um homem e uma mulher e que era catarinense da cidade de Joinville, Santa Catarina.

O arguto José Maria achava que o padre escondia algum segredo, procurava atinar o que era, quando chegava perto, Apolinário Gaiardoni resvalava, porém, era como se fosse o gato que se esconde e deixa o rabo de fora: seus deslizes sobre a Bíblia, as informações imprecisas da família, uma carta recente ou a visita dos pais ou irmãos... eram elos que não se fechavam na cabeça do advogado.

Às vezes, queria cutucar o passado do padre, todavia, era contido pela discrição e dona Clô, mas, um dia, marcou um tento significativo:

- Padre tu és de origem alemã e tem nome italiano!? – Apolinário gaguejou, Clô chegou na hora agá!...

16

Queixas embaixo dos lençóis

 

Ao contrário de Messalina, Clô estava cansada e saciada. Cada dia, Apolinário a sentia mais gulosa de sexo. O pudor que ostentava no dia a dia, desaparecia na cama com o padre, uma desavergonhada... Alegava que o marido lhe deixava carente, que só tinha olhos, ultimamente, para sua amante, o que não era verdade no todo, José Maria era um garanhão, um macho sedento de sexo, as mulheres do Sport Bar, tinham-no como um dos melhores clientes, tanto no bolso como na cama, porém, Clô tornava-se cada vez mais arredia com o marido, os pretextos eram os mais diversos, desde uma simples dor de cabeça à menstruação.

Foi naquele clima de sexo que Apolinário, reprimido por necessidade e estratégia, queixou-se do seu marido:

- Amor, ele é uma pedra no sapato! – Clô fez-se desentendida:

                - Quem, coração?

                - O seu marido!

                - Deixe-o pra lá, ele é advogado, polêmico, são recursos dialéticos!...

                - Suas perguntas são capciosas, às vezes, indiscretas!

                - Coração, não se queixe, tenho lhe socorrido nos apuros!

                - Obrigado. Mas se tiver gente de fora, suas perguntas ardilosas irão me desqualificar, não é?!

- Use o contra-argumento inteligente, coloque-o contraparede, se necessário, use sofismas de pouco alcance para o leigo, pesquise perguntas ardilosas de sua profissão, não deixe que ele tome o seu fôlego, controle os seus impulsos, use uma dialética inteligente! – Apolinário a escutava boquiaberto, dia a dia se surpreendia com Clô, embaixo daquela máscara de poucos amigos, escondia-se uma amante que lhe proporcionava prazer nunca tido, além de uma inteligência emocional singular, não lhe deu resposta, puxou-lhe com jeito, penetrou-a com volúpia e se algum desavisado passasse ali no quarto, ouviria os gritos lancinantes de dona Clô:

- Mais!... Mais!... Mais!... Meu padreco!... Meu padreco!... Meu gostoso!... Fo... Fo... foda sua puta!...

 

17

Armadilha do destino

 

Os dois homens se encontraram na rampa que dava acesso ao navio por acaso, pareciam irmãos gêmeos. A pele, a altura, os cabelos, os olhos, a idade e os traços fisionômicos pareciam moldados na mesma forma. Poderiam ser irmãos de verdade se um não fosse de Caxias do Sul, gaúcho e filhos de alemães, e, o outro, joinvillense e filhos de pais italianos, além do fato que os seus pais nunca foram próximos nem no Brasil nem nesses países de origem. Coincidência!...

Em comum, naquela viagem, é que ambos tomaram um navio do “Lloyd” brasileiro em Florianópolis e desembarcariam em Salvador, daí em diante, ambos pegariam um navio da “Companhia Baiana de Navegação”, o gaúcho iria pra Porto Seguro e o catarinense iria para Ilhéus, cidades do Sul e extremo Sul da Bahia.

Porém, na rampa do navio do “Lloyd”, o mal começou tomar conta do bem por algum tempo, mas não por todo tempo, com a carteira que caiu do bolso de um dos passageiros:

- Senhor!!!

-Sim!?

- Sua carteira!. – o outro tomou um susto, bateu a mão no bolso, realmente, lhe faltava a carteira.

-Oh!... Obrigado. – completou:

- Se eu estivesse como Honório de Machado de Assis, jamais a teria de volta!

- O senhor é advogado?

- Sou. Não me chame de senhor, afinal, parecemos ter a mesma idade!?

- Completei 35 primaveras, faz pouco!...

- Não me diga?... Completei este mês, também, 35 anos de vida! – O advogado lembrou-se de um detalhe:

-Aliás, ainda não nos apresentamos! – o outro estende a mão:

- Apolinário Gaiardoni, padre diocesano!...

-Padre!? Ah, Ah, Ah... Agora, sei que este casco velho não vai afundar!... – e acrescenta:

- Hans Manfred Spitznamen, seu criado!...

- Alemão?

- Não. Filho de alemães!...


18

Triunvirato


Caro leitor, não fique assustado, não é o triunvirato de Júlio César, Marco Licínio Crasso e Pompeu, o primeiro triunvirato romano, o triunvirato aqui, da nossa história, não foi triunvirato, foi triângulo amoroso de Apolinário Gaiardoni, Clô e Rita. O título triunvirato veio à mente pelos perfis aguerridos dos três personagens. Apolinário e Clô são velhos conhecidos, Rita precisou ser flagrada nos braços do padre para entrar na história e não mais sair.
A sacristia não ficava nos fundos da igreja, mas numa casa contígua que servia de moradia para o padre e sacristia ao mesmo tempo, uma porta lateral dava para o salão da igreja. Lá, ficavam as toalhas do altar, algumas imagens, as batinas, os vasos de flores e outros acessórios. O acesso era limitadíssimo, afora Clô, Rita e mais duas ou três velhas beatas, tinham acesso.
Naquela manhã, a mulher de José Maria, como sempre, foi uma das primeiras que chegou à igreja, depois de meia dúzia de decrépitas senhoras, deu uma olhada e não viu o padre para o canto de entrada. Sorrateira, entrou na casa do padre sem ser convidada ou esperada e quase vinha abaixo se não se agarrasse numa mesa de jacarandá no centro da sala, ao flagrar sua amiga Rita, esposa do temido coronel do cacau, Honório Ladaró, nos braços de Apolinário Gaiardoni. Na casa do sem jeito (escandalizar, seria escandalizar-se), manhosamente, voltou e aguardou o sacerdote começar o culto.
Rita, loira de cabelo comprido escorrido, altura mediana, corpo violão, mãe de três filhos menores de idade, mais nova que Clô, meiga, era a mulher, o xodó e o bem-querer do fazendeiro Honório Ladaró. Chamava-a de “minha santinha”. Homem rude, moço ainda, que fez fortuna no cabo do facão e do machado, derrubando mata virgem e plantando cacau, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo, não hesitaria matar a mulher amada se soubesse que era traído e arrancar os bagos do malfeitor.
Se a situação lhe fosse favorável, Clô não hesitaria ter escrito uma carta anônima para Honório Ladaró, denunciando a traição de sua mulher e o traidor, por isto, usou o ditado do povo que “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, mexer com um sacerdote, naquela época, seria a mesma coisa que mexer num vespeiro de resultados imprevistos: vai lá que o brutamonte do fazendeiro mata a mulher e o amante, e, a policia descobre que sua carta foi a causa do crime!? Não, não seria tão imprudente...
Não é verdade que a mulher é sexo frágil, mulher não é instintiva, mulher é racional, ela domina suas emoções e controla o homem que é impulsivo e descontrolado quando se apaixona... Depois do flagrante de Rita, Clô fechou as portas e o coração para Apolinário. Não o recebia mais sozinha em sua casa, os empregados eram orientados não recebê-lo (inventassem desculpas...), salvo, se os seus filhos e o marido estivessem presentes, ia à missa no inicio do horário e voltava depois dos ritos finais e deixou as obrigações da igreja alegando saúde fragilizada.
Apolinário, sagaz, maquiavélico, quis lhe chantagear, contar tudo ao seu marido, depois, deixar Itabuna pela porta do fundo e desaparecer para sempre, mas Clô, de repente, mostrou-se determinada e valente:
- O senhor será o responsável pelas consequências!...
- Mas, querida...
- Não sou sua querida!
- Mas, Clô!...
- Por favor, “dona” Clô!... – o padre apelou:
- Depois de tudo, Clô!?
- Depois de tudo, o quê!? O passado seria presente para mim se houvesse significado, portanto, reverendo, o passado passou!
- Será que passou para Dr. José Maria?...
- Não! Acredito que para Dr. José Maria e o coronel Honório Ladaró, o passado será um presente sinistro e fúnebre!...
- Não tenho medo de morrer!
- Triste daquele que ferir o coração do coronel Ladaró, a morte lhe será um bálsamo...
- Não sou culpado de sua mulher me assediar!
- Não sei se terá topete para lhe dizer que Rita foi a culpada, mas se lhe disser, pode ter certeza, o senhor será amarrado e arrastado pelo cavalo do coronel Honório Ladaró até suplicar para que ele lhe dê cabo da vida! – completou:
- Não mais me procure, não frequente como antes minha casa, escolha o momento que o meu marido e os meus filhos estejam presentes, faça da discrição uma segunda natureza... Irei esforçar-me para manter a aparência, espero que a recíproca seja a mesma. Passe bem!...
19
Tempo de harmonia

Não fingida ou social, mas harmonia verdadeira do casal Andrada depois que Clô flagrou Rita nos braços de sacerdote. Ela percebeu que Apolinário Gaiardoni era na galinhagem pior do que o marido, este, não tinha feito votos de castidade ou fidelidade com Jesus Cristo ou sujeito à jurisdição do Vaticano, ademais, qual o homem de posse da terra do cacau que além da esposa não tinha amante? Todos. Montar casa para outra mulher era uma regra e não uma exceção, então, tudo voltou com dantes no reino de Abrantes...
            Apolinário, depois que Clô rompeu com sua intimidade e lhe disse o fundo do cacho, ele diminuiu a frequência na casa do advogado José Maria, reservou horários que o dono da casa estava presente ou os seus filhos para visitá-los, mesmo assim, com espaços esporádicos e não mais manteve conversa a só com a dona da casa, todos estranharam suas atitudes, mas as explicações foram convincentes: “Estou muito ocupado na igreja..”, .”A sacristia está sendo retelhada...”, “O bispo me convocou para um trabalho em Ilhéus etc., etc.” Os Andradas foram se acostumando com sua ausência e ninguém mais lhe cobrava sua presença.
            Porém, doutor José Maria que conhecia a alma humana como poucos e acostumado às lides dos tribunais do crime, atribuiu sua pouca frequencia às pegadinhas exegéticas que deixavam o sacerdote de saia justa, ou, algumas questões que sempre levantavam dúvidas sobre sua origem:
            - Padre, o senhor ainda não me respondeu por que sua origem é alemã e o seu nome de família é italiano!?
            - Doutor José Maria, eu acho que estar havendo um equívoco, eu já lhe expliquei a minha origem e o significado do meu nome! – irritado.
            - Por favor, é uma curiosidade genealógica, não quero levantar nenhuma celeuma...
            - Fique à vontade, não existe nenhum problema lhe explicar tantas vezes forem necessárias...  – acrescentou:
- Minha mãe era alemã e o meu pai nasceu em Blomberg, estado de Renânia do Norte – Vestfália, localizado no distrito de Lippe, região administrativa Detmold, Alemanha, após 5 meses os  meus avós terem chegado de Nápoles, Sul da Itália, portanto, o meu nome é uma homenagem aos meus ascendentes italianos!...
20
O salário do pecado é a morte



            A igreja estava lotada. Não se falava em outra coisa a não ser no crime da Maria Braúna. Maria Braúna não tinha importância econômica ou socialite, mas era conhecida pelos grandalhões do cacau e dos abastados comerciantes de Itabuna, pelos exímios serviços de lavadeira que prestava para essa gente. Era uma morena de uns 45 anos, forte como uma baraúna e bonita como suas flores amarelas. Ela morava na Bananeira, um bairro ribeirinho, formado por um amontoado de barracos e casas de tijolo sem reboco.
            Um crime de infidelidade conjugal, comum naquela época de machões, de certo modo, amparado pelas brechas da lei e desculpado pela sociedade, se não tivesse sido Maria Braúna, não teria havido nenhuma repercussão, principalmente, não teria havido o choro e a solidariedade das mulheres de bem, das mulheres de bens e das raparigas. Houve, inclusive, um pálido manifesto dessas senhoras na Avenida J.J. Seabra.
Soube-se depois que Maria Braúna era amancebada com um vaqueiro e lhe deu oito filhos, porém, em decorrência do seu trabalho, o vaqueiro passava dias sem vê-la e doído de saudade dos filhos, no entanto, quando voltava pra casa, cumpria como ninguém o seu dever de pai e de amancebado.
Todos os vizinhos queixaram a morte de Maria Braúna, mas lamentaram, também, o infortúnio do nego Zé, é que Maria e Zé eram benquistos no bairro. Eles eram solidários, prestativos, e, figurinhas indispensáveis nas festas juninas e nos forrós dos compadres e das comadres de finais de semana.
Muitos não entendiam e alguns duvidavam que “dona” Maria Braúna tivesse se deitado com João Freire, conhecido como de “Boca de Ouro”, mas o diacho que ambos foram mortos nus na mesma cama, os fatos e as evidências dispensavam testemunhas de acusação, bastavam às autoridades do júri, as declarações dos peritos e da polícia que fizeram o levantamento cadavérico, não havia como negar a motivação do crime.
O crime teve versões diversas, alguns diziam que Zé foi avisado da traição de sua mulher por um bilhete anônimo, outros, que “Boca de Ouro” andou se gabando nos botecos de cachaça que fazia algum tempo que montava na morena, portanto, Zé estava com os cornos crescidos, mas a versão que mais se sustentava era a versão do copo: o nego Zé estava na fazenda há alguns dias, Maria Braúna sentiu-se só e foi convidada para uma festa na casa de uns conhecidos, lá, encontrou-se com “Boca de Ouro” que não lhe deixou em paz enquanto ela não lhe permitiu uma dança, uma dança puxou outra, até altas horas da noite e nos intervalos alguns rabos-de-galo. Maria Braúna serenada, cheia de goró, aceitou os préstimos de “Boca de Ouro” lhe levar para casa, não se sabe qual foi o artifício sedutor que ele usou pra lhe levar pra cama, sabe-se que a levou e morreram de braços dados.
A igreja estava superlotada, o padre Apolinário Gaiardoni mais eloquente que nunca, pegou o bonde da oportunidade de Maria Braúna e desceu o malho nos homens da terra, principalmente, os burareiros, os grandes comerciantes e os coronéis do cacau sobre a cultura de infidelidade masculina, somente os homens tinham esse direito absurdo, embora não existisse o direito escrito de matar a mulher infiel, as autoridades e a sociedade faziam vista grossa para os criminosos de mulheres adúlteras.
Apolinário Gaiardoni invocou o princípio da igualdade: que a mulher tinha o mesmo direito do homem, afinal, os tempos eram outros, que não se vivia mais no tempo do homem de Neandertal, mas no meado do Século XX, se o casamento não desse certo que se usasse o instrumento jurídico do desquite e cada um seguisse o seu destino, que o homem não substituísse os sentimentos de amor pelos instintos irracionais da paixão!...
O padre não usou de eufemismo com nego Zé, disse à assembleia que o criminoso foi um desalmado, um egoísta, um sanguinário, um elemento de sentimentos primitivos que além de tirar duas vidas, deixou oito filhos sem o carinho e sem a proteção da mãe, que Maria Braúna não era adúltera, mas uma mulher trabalhadeira, mãe insubstituível, que tinha sido vítima de bebedeira e apetites sexuais reprimidos pela ausência constante do amásio, e, quem garantia ali – apontou para os homens da assembleia – que o motivo de sua ausência constante não fosse outra mulher, lá, na fazenda?... 
Apolinário Gaiardoni justificou que não estava fazendo a apologia da mulher adúltera, que Jesus Cristo foi duro quando disse: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para cobiçá-la já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28). Porém, fez justiça quando os escribas e fariseus trouxeram uma mulher flagrada em adultério para ser apedrejada, segundo a lei de Moisés, todavia, escribas e fariseus não contavam com a sabedoria do Mestre: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. E, voltando-se para os homens, o padre pergunta:
- Os senhores sabem o que ocorreu? Acredito que todos sabem o que ocorreu: acusados pela própria consciência, eles foram se retirando um a um, a começar pelos mais velhos. A mulher não foi apedrejada e foi perdoada por Jesus Cristo com a recomendação que não a pecasse mais.
Quase todos estavam fascinados com a palavra firme do padre Apolinário na defesa da lavadeira Maria Braúna, por extensão, na defesa da mulher, para ele, a sociedade deveria acordar de sua letargia, de sua insensibilidade e do seu desinteresse contra essas barbáries, cometidas com o falso argumento de defesa da honra. Disse que nenhum criminoso de mulher adúltera ficava na cadeia, ou melhor, que não havia notícia que alguém tivesse sido levado a júri por esse tipo de homicídio, que esses crimes não passavam da escrivaninha do delegado etc., etc.
A zoada de uma mosca quebraria o silêncio da igreja, todos estavam voltados para Apolinário Gaiardoni, cada palavra sua era triturada e assimilada, parecia que dali em diante a sociedade itabunense e o Sul da Bahia e o restante do país teriam a civilização de suecos, que a região não seria mais uma terra de ninguém, quando uma voz arrastada e firme, quebra esse estado de nirvana:
- Seu padre me permite uma palavrinha!? – todos, num instante, se voltaram para o homem que num gesto incomum ousou interromper a fala do sacerdote e surpresa maior, é que não era qualquer Zé ninguém, mas o temido por uns e idolatrado por outros, o coronel Honório Ladaró!...
-Fique à vontade coronel!
- O senhor vai me desculpar... bonito o seu palavrório... o senhor seria um bom advogado se não fosse padre... são coisas de Deus... não irei discutir – pigarreou:
- Eu cheguei aqui com a mão na frente e outra atrás... desmatei mata... plantei cacau... tive que matar pra não ser morto... não me envergonho não, senhor padre... que Deus me perdoe!... – completou:
- O nego Zé teve razão matar os dois... o senhor me desculpe... é a lei da terra e o senhor não vai mudar com sua boniteza de sabedoria... eu faria o mesmo que nego Zé... a minha santinha não me dará esse desgosto... o senhor conhece sua devoção... ela cuida de mim e dos moleques com dedicação... mas se fizer igual a Maria Braúna, o meu amor é menor do que meu ódio!... – não completou a fala (não houve necessidade), foi aplaudido e abraçado até pelas mulheres.
O juízo dos costumes arraigados é maior do que a lógica da palavra...

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Sherlock Holmes



Ele não tinha o jeito nem o nariz adunco do detetive de Sir Arthur Conan Doyle, mas era arguto e perspicaz tanto quanto o súdito de sua majestade inglesa. Havia sido sargento da briosa polícia militar da Bahia, porém, pediu baixa definitiva da corporação depois de um bacharelado em Direito e alguns cursos de detetive que fez no Rio e São Paulo, munido dessas teorias, abriu um escritório na Avenida Sete de Setembro em Salvador com mais dois colegas, um deles, especializado em causas Cíveis, o outro, em causas criminais, e, ele, dono do escritório e ex-militar Pedro Marques, em investigação particular.
            Não tinha a experiência dos grandes detetives, no entanto, não lhe faltou serviço desde que mandou afixar uma placa de bronze na frente do escritório, onde se lia: “Dr. Pedro Marques, Advogado e Detetive”.  Não demorou muito tempo, o bacharel das ciências jurídicas e sociais, deu espaço definitivo para o detetive Pedro Marques que se instrumentalizou dos recursos mais modernos de sua época como máquinas fotográficas à distância, binóculos, gravador de voz (disfarçados), lupas, telefone, automóvel, máquinas de escrever, colhedores de digitais, etc., etc.
A maioria dos seus clientes era de mulher traída ou homem traído, alguns crimes que a polícia não desvendava e roubos, porém, naquela manhã, no seu escritório, alguém lhe pedia que fizesse uma investigação suis generis:
            - José Maria, foi um enorme prazer lhe reencontrar, assim poderemos matar a saudade dos velhos tempos!
            - Pedro, o prazer é meu, mas gostaria de sua ajuda!...
            - Não me diga?... Dona Clô está lhe chifrando!?  - gargalhada...
            - Não, seu filho de Sherlock Holmes!
            - Então, desembuche, pra você, eu irei a pé a Itabuna!...
            - Eu sei! Você é o meu melhor amigo que tive na faculdade!
            - Pois, fale!
            - Eu quero investigar o padre da minha paróquia!
            - Ficou maluco!? Mexer com a igreja católica!
            - Eu tenho meus motivos, posso contar com você?
            - Claro. Eu sou seu amigo, além disto, o profissional não pode se dar ao luxo de rejeitar serviço, se for necessário, investigarei até o papa!
            - Assim que se fala!...
            José Maria passou mais de duas horas discorrendo cada detalhe: a personalidade do padre, as gafes que ele cometia em relação aos textos bíblicos, o seu nome de família italiano e sua origem alemã, a falta de informação dos seus parentes (quase cinco anos na paróquia, nunca recebeu a visita nem de um primo, menos ainda dos pais ou dos irmãos), o sotaque mais gaúcho do que catarinense etc., etc.
            Fez lhe ver que não havia nada de pessoal com Apolinário Gaiardoni, que admirava sua retórica, os seus conhecimentos gerais, admirava o seu trabalho à frente da paróquia, mas que havia alguma coisa de falso no padre e cismava que ele fosse um impostor e surpreendesse a comunidade itabunense com alguma maldade e depois fugisse.
            Passou-lhe alguns recortes de jornal com fotos e informações, inclusive, a foto da posse com o bispo de Ilhéus, indicou-lhe algumas cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul para confirmação de sua origem, os endereços das dioceses de lá, principalmente, das capitais desses estados do Sul do país, enfim, um dossiê completo para descobrir se Apolinário Gaiardoni era Apolinário Gaiardoni de verdade.
            Pedro Marques ouviu tudo, fez algumas anotações, tirou algumas dúvidas, observou, atentamente, as fotos do padre e concluiu com a ressalva:
            - José Maria, o custo da viagem vai ser alto, além dos meus honorários, não sei se vale a pena se não existe nada de pessoal!?
            - Juro-lhe que não existe nada de pessoal, é cisma minha... Quanto às despesas de investigação não se preocupe – sacou do bolso um cheque já preenchido e lhe entregou:
            - Tudo isso, José Maria!?
            - Quero que o meu amigo se hospede em hotel de primeira e não em espelunca, viagem de avião e não ande de ônibus – e acrescentou:
            - Quero lhe ver, também, bem vestido, por isto, deixei pago na Loja X, uma dúzia de calças e camisas sociais e mais três ternos para ocasiões especiais, afinal, sua investigação poderá envolver autoridades religiosas e civis! – Pedro Marques ficou sem palavra.
            Começava, naquela manhã, abril de 1958, o outro lado da história do padre Apolinário Gaiardoni.
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O mistério

Foi um vexame a morte por envenenamento de Rita Ladaró, mulher do coronel Honório Ladaró, em circunstância esquisita e suspeita. O coronel se encontrava na fazenda quando aconteceu o sinistro: - ela foi encontrada morta na cama e sobre a cômoda uma garrafa de vinho francês “Château Hant Brion” e dois cálices sujos de vinho.  Soube-se depois que o vinho continha forte dosagem de arsênico. Filhos, parentes, serviçais e vizinhos não souberam ou não quiseram informar à polícia nada além do dia a dia da casa e que não foi diferente, também, naquele dia 7 de setembro do ano de 1957.
            O coronel foi trazido às pressas da fazenda pelos amigos. Aturdido, ele não entendia como uma pessoa religiosa, que parecia de bem com a vida, tomaria uma atitude drástica daquela. Morrer não é uma dúvida, é uma certeza da vida, porém, naquela idade, na flor da mocidade, não era justo aquele fim.
            Na saída para o sepultamento, a população de Itabuna lotou a Praça da Cadeia, defronte, o bangalô do coronel. Algumas pessoas, movidas pela curiosidade, outras, irmãs de fé e outras pessoas, empregados e ex-empregados de Ladaró.
            O padre Apolinário Gaiardoni estava inspirado: exaltou as virtudes de mãe, de esposa, de amiga e de religiosa de Rita Ladaró. Disse que não estava ali pra julgar o ato tresloucado da irmã de igreja, Jesus Cristo a perdoasse assim como perdoou Maria Madalena, e, finalizou exaltando as qualidades de esposo e pai de família do coronel Honório Badaró, que Deus lhe desse a resignação e o alívio na dor da perda, que dali em diante, ele lembrasse não dos momentos ruins, mas dos momentos bons que viveu com a esposa, que tomasse como divisa de vida, o adágio oriental que diz: “um dia feliz na vida de um homem vale por um ano”, portanto, Rita teria lhe proporcionado dezenas de anos felizes.
            Embora D. Clô fosse inimiga não confessa de Rita Ladaró, lhe prestou as últimas  homenagens como se nada tivesse ocorrido entre ambas, chorou pesarosa o tempo todo, foi prestimosa com Honório, não menos obsequioso foi Dr. José Maria com o coronel Ladaró, pois além de amigos de noitada do “Sport Bar”, eram vizinhos de fazenda.
            Enquanto a gente de Mimia da funerária preparava o esquife e trasladava para o carro fúnebre, D. Clô surpreendia o padre Apolinário Gaiardoni com o cochicho:
            - Padre, “Château Hant Brion” não é o seu vinho preferido?...
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Quem procura acha

           
           
Foi um dia estafante para doutor José Maria, antes das 8:00 horas sua secretária telefonava informando que o seu escritório tinha muita gente: vestiu às pressas a calça e o paletó, deu um nó na gravata e foi em jejum para o escritório, não quis nem uma xícara de café, por mais que dona Clô insistisse.
Não encontrou nada que não fosse corriqueiro: ajuizar novos processos, agilizar outros, soltar arruaceiros da cadeia, marcar data de júri, agendar audiências e ouvir novos clientes, porém, quem mais lhe tomou tempo foi o coronel Honório Ladaró, o homem não daria trégua à vida, enquanto não descobrisse quem foi o assassino de sua mulher.
A perícia encontrou dois cálices com restos de vinho “Château Hant Brion”, um cálice com veneno, noutro, o vinho estava puro, se deduzia que o assassino, antes de colocar o arsênico na garrafa, tinha enchido o seu cálice, além de confirmar a hipótese da polícia que Rita não tinha se suicidado, mas estava com alguém íntimo naquela noite, um amante?  Não se sabe, suspeição...
Na saída do caixão, dona Clô fez uma pergunta ao padre Gaiardoni, ainda não respondida: “Padre, Château Hant Brion não é o seu vinho preferido?”, porém, o fato de se gostar de uma marca específica de vinho não significa que é indício para incriminar ninguém, quem é que não gosta desse vinho? A maioria que bebe, gosta. Além de qualquer inimigo não declarado do padre poderia ter usado o “Château Hant Brion” para incriminá-lo se soubesse do seu caso com Rita, principalmente ela, dona Clô, e aí, não seria somente um escândalo, mas dois escândalos de estragos irreparáveis na sociedade itabunense.
Embora doutor José Maria primasse pela profissão, no seu escritório era rigorosamente atendido pela ordem de chegada, mas quando deu de cara com o coronel Honório Ladaró, ficou sem jeito, quis fazê-lo exceção, não poderia ser diferente, pois eram amigos de noitadas no “Sport Bar”, vizinhos de fazenda, além de alimentar uma enorme admiração pela história do coronel que de trabalhador nas fazendas dos outros, tornou-se um dos maiores produtores de cacau do Sul da Bahia:
- Coronel ent...  – não completou:
- Não, doutor José Maria, eu não tenho pressa... – não teve, foi o último, quando adentrou o gabinete do advogado, passava das 11: 00 h, cerimonioso, acomodou-se na poltrona:
- Doutor José Maria, eu vim lhe pedir um favor!...
- Estou às suas ordens Honório, mas antes, vamos tirar o “doutor”!
- Aqui, tenho que lhe tratar de “doutor”, lá no “Sport Bar” ou na fazenda, é José Maria!
- Estamos a sós, dispensemos o título, mas diga-me homem, em que posso lhe servir?
- Faz 6 meses que a “minha santinha” me deixou... – não completou, a voz ficou embargada.
- Hum!..  Hum!... Hum!... As más línguas andam dizendo que o coronel já tem outro pote na cantareira, e, que é uma belezoca de morena!... - brincou o advogado.
- José Maria – rompeu a formalidade –, eu posso lhe jurar que foi depois que “minha santinha” morreu. Realmente, é uma morena muito bonita, lecionava os meninos dos trabalhadores na fazenda sede.  Não pensava tão cedo ter outra mulher, mas tenho três filhos pequenos, ela vai me ajudar na educação dos meus filhos, fiquei na casa do sem jeito como dizia o capitão Natário da Fonseca! 
- Eu lhe conheço Honório, sei que você nunca mijou fora do caco, a não ser com as meninas de Helvécia, coisa sem importância, caixa de esperma... Mulher mesmo só dona Rita, sua amante e esposa. Mas, em que posso ser útil?  O coronel não veio me pedir um favor?! – Honório desconversou:
- Cheguei aqui bem mocinho, trabalhei como um condenado na roça de cacau de muitos fazendeiros. Nos finais de semana, enquanto os outros camaradas iam beber e putear, eu ficava na fazenda lavando a minha roupa e preparando a carne de sol e jabá pra fazer o bornal com a comida do dia a dia. Economizei cada tostão e comprei o meu primeiro pedaço de terra. Derrubei mata, cabroquei, plantei cacau, matei muito cabra safado pra não morrer e os que queriam tomar minhas terras, hoje, eu sou um homem de posse, não sou rico, mas só descansarei em paz quando eu souber por que razão a “minha santinha” suicidou-se ou alguém a matou!
- Coronel, não seja modesto, o senhor é um dos homens mais ricos dos Sul da Bahia e quiçá do estado. Tem três filhos lindos para criar e uma mulher nova que lhe irá cuidar, não seria melhor deixar a finada esposa descansar em paz, onde estiver?
- Os amigos mais próximos têm a mesma opinião, porém, eu tenho opinião diferente, ela está no céu, eu que estou ardendo a mente aqui na terra, não tenho dormido direito, tenho que desvendar esse mistério: se ela foi envenenada ou suicidou-se!...
- Eu sei coronel. Não é fácil uma companheira de tantos anos, morrer misteriosamente...  Deve ter havido um grande motivo ou foi uma crise de depressão, não notou algum comportamento estranho antes dela morrer?

- Não! Ela estava alegre, brincalhona com os filhos, com os empregados, comigo, enfim, de bem com a vida!...
- Bem... é um mistério... – e, acrescentou:
- Mas... mas... homem de Deus, qual o favor que lhe posso fazer?
- Nós sempre fomos amigos – o coronel Honório Ladaró, nunca ia direto ao assunto, voz mansa, enrodilhava como cobra a conversa, estudava as pessoas antes do “bote”, diziam os empregados que era um perfeito estrategista: descobria as fraquezas do inimigo ante de atacá-lo, quando alguém ia lhe vender uma fazenda, ele negaceava, recusava, fazia corpo mole, até o pobre diabo lhe vender a propriedade por menos do valor -, somos vizinhos em várias fazendas, nunca pegamos a mesma quenga por respeito mútuo, confio na sua inteligência, daria a metade do que tenho pra ter o seu saber... – foi interrompido:
- O coronel só me traiu com “Zarolha” ah, ah, ah!...
- Naquela época não éramos amigos!
- Desculpe-me coronel, foi uma brincadeira!
- Não tem importância... – continuou:
- Pois é, José Maria, eu vim lhe pedir pra junto com os seus amigos polícias, a morte de Rita seja esclarecida logo!
- Coronel, eles estão bem adiantados na investigação, mas são movidos por interesses não confessáveis, além disto, trabalham, ao mesmo tempo, em vários casos. Eu tenho um colega que é detetive particular, um ás na profissão, possui todos os recursos modernos da profissão, mas é caro e mora em Salvador!
- José Maria mande buscá-lo, contrate o homem e não poupe dinheiro e se houve assassino, seria melhor que a mãe dele o tivesse abortado antes de nascer!
- Somos amigos na alegria e seremos mais ainda na dor, prometo-lhe que Pedro Marques, o detetive, não irá me faltar!...
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Pedro lhe faltou



Prezado José Maria:

Estou em Santa Catarina, não lhe digo onde estou por medida de segurança. Li o seu pedido através do escritório, lamento, mas não poderei ir a Itabuna, agora, enquanto não cumprir o nosso contrato não ficarei sossegado. Tenho recebido através do Banco do Brasil, suas remessas em dinheiro, portanto, faz-se necessário findar um serviço para começar outro.
Não estou lhe enrolando, suas suspeitas não são mais suspeitas, o homem é um bandido de alta periculosidade!...  Não me escreva citando nome nem fatos, vá que sua carta caia em mãos erradas, além de ameaçar sua segurança e a minha, o trabalho que fiz será jogado no lixo, as provas do crime ainda são insuficientes...
Acho que o nó górdio será desatado no Rio Grande do Sul, viajarei pra lá daqui a duas semanas.
Se a polícia investigativa da Bahia não descobrir o crime do seu amigo, diga-lhe que aguarde um pouco mais, quem sabe se o seu caso e o dele não são faces de uma mesma moeda!? Se eu estiver no veio certo, mataremos com uma cajadada dois coelhos e quiçá mais de dois e colocaremos na gaiola um pardal.
Mais uma vez lhe peço prudência, não mexa com o diabo, ele poderá lhe dar uma rabanada fatal, poupe sua curiosidade...
Do seu amigo e colega das noitadas no cabaré de Anita Preta,
Pedro

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Elite Bar

Uma mistura de lanchonete, sorveteria e bar de snooker o seu forte. Naquela época, era a coqueluche, todos, comerciantes, advogados, médicos e comerciários desciam à Rua J. J. Seabra, e, iam jogar snooker, tomar uma cerveja, tomar um whisky com gelo, ou, lanchar no “Elite Bar”.
Não havia cisma de família frequentar aquele ambiente feito mais pra homem, é que as mesas de bilhar e snooker ficavam no fundo do estabelecimento, separado por uma divisória de madeira e vidro na lanchonete e sorveteria, os jogadores adentravam por uma porta lateral no recinto do jogo. 
Não havia arruaça, briga, ou seja, qualquer desconforto que desagradasse a clientela e comprometesse o nome da casa comercial, se algum desavisado quisesse perturbar  o ambiente, era convidado ir embora, se resistisse, a polícia era chamada e poucos minutos depois o arruaceiro saía da casa de entretenimento por bem ou por mal.
Naquela tarde apareceu no bar, um rapaz franzino, moreno, de boa estatura, convidando algumas pessoas para o jogo de snooker, não parecia saber jogar, perdia mais do que ganhava: espirrava o taco, suicidava, cegava, mostrando-se inapto para o jogo, no jargão dos jogadores, um pixote, mas um pixote diferente, um pixote que não reclamava quando perdia, parecia blefar...
Não fumava nem bebia, quando muito, tomava um cafezinho ou uma água mineral, apresentou-se como vendedor de remédios. Não gostava do baralho, porém, era viciado no jogo de snooker. No segundo dia de sua estada em Itabuna, em particular, nas mesas de jogo do “Elite Bar”, fez-se conhecido na roda de jogadores, como trouxa, pixote, otário, todos queriam jogar com ele, pois a vitória era certa, porém, no terceiro dia, a surpresa:
-Vamos jogar uma partidinha, amigo! – convidou o forasteiro.
-Eu só jogo apostado, topa? – ele fez corpo mole:
-O senhor me dá quantos pontos de vantagem?
-Quem dá ponto é o doutor!...  – disse-lhe Louro Prata com galhofa...
Louro Prata era um sujeito engraçado, uma mistura de negociante, guarda-noturno e pedreiro. Não tinha nada, além de muitos filhos e um humor apurado. Quem não o conhecia, o tomava como rico, ele só falava em fazenda, gado, cacau e muito dinheiro, por isto, apelidaram-no de “Louro Rico”, mas era gente boa.
-Quanto o senhor aposta?
-O seu bolso é o meu limite!... – gracejou Louro Rico...
Começaram jogar. Louro Rico não era um ás do taco, porém, dava suas tacadas com certa desenvoltura. Ganhou apertado a primeira e a segunda partidas, mas foi perdendo à medida que a aposta crescia. Os “perus” passaram justificar as vitórias do “forasteiro” pela imperícia de Louro Rico com o taco de snooker, os mais fanáticos atribuíam suas derrotas àquela data: sexta-feira 13!...
O badalo do relógio de parede batia 19:15 horas, quando adentra ao bar,  doutor José Maria, que de costume, tomava sua cervejinha e brincava algumas partidas de snooker, antes de ir para casa. Já conhecia an passant o forasteiro, surpreendeu-lhe quando o viu jogando com Santinho apostado. Santinho era afamado no taco, quem o conhecia não lhe convidava para apostar ou jogar, por isto, ficou de espreita observando o desfecho do jogo.
As duas primeiras partidas, Santinho ganhou com certa folga, na terceira partida, triplicaram-se as apostas, muitos assistentes apostaram por fora, em menor monte porque o forasteiro embora tivesse crescido no jogo, ainda não inspirava confiança e quem apostou nele, apostou com vantagem de pontos e de dinheiro!...
Santinho deu a saída e espalhou as bolas vermelhas e uma delas caiu na caçapa, mas foi só, o forasteiro pegou na bola vermelha e deixou para o adversário a bola rosa e a preta na mesa, ou seja, a soma de 13 pontos, os analistas de plantão – depois do jogo -, afirmaram que o forasteiro tinha feito de propósito para marcar o dia 13!... Santinho jogou com força na bola rosa, ela bicou e engasgou na caçapa, foi o seu fim, o forasteiro fechou o jogo.  
Àquela altura, a torcida e a admiração pelo forasteiro tomavam corpo, os brios de Santinho foram mexidos, as apostas cresceram ainda mais na quarta partida e a responsabilidade do forasteiro também, embora não tivesse mandado ninguém jogar em seu taco, alguém poderia não se conformar com o prejuízo e culpá-lo pela derrota.
Santinho não jogou, ficou de taco na mão, o forasteiro ao invés de saída espalhafatosa, jogou com tanta perícia na primeira bola 1 – ao arrumar as bolas na saída do jogo, ele deixou uma bola 1 em posição estratégica -, foi pouco e pouco, eliminando as vermelhas, a bola amarela, a bola marrom, a bola verde, a bola azul, a  rosa e finalmente a preta com a soma de 82 pontos.
O burburinho começou tomar conta do salão. Jogadores de outras mesas largaram os tacos e fecharam as contas e correram para mesa de snooker de Santinho e o forasteiro, um deles quis saber se o forasteiro era o mesmo que havia sido taxado de pixote:
-O homem é batuta no taco, deitou no chão pra enganar urubu! – o outro insiste:
-Mas, ele não sabia nem pegar no taco...
-João, deixe de ser orelhudo, o homem se fez de santo pra ser visitado! - O outro ficou calado.
A sala estava agitada... Alguns perdedores insatisfeitos culpavam Santinho pelo prejuízo, eles relutavam em reconhecer a habilidade do forasteiro, que o desconhecido havia crescido em decorrência do nervosismo de Santinho, e, que o tira-teima seria a negra de cinco partidas, mas com a saída de Santinho, o forasteiro contra-argumentou:
-Não, senhores, sai o jogo quem ganhou a partida anterior! – um dos perus gritou:
-Não em uma negra de cinco! – a maioria o acompanhou...
O forasteiro ficou na casa do sem jeito. Santinho abriu a partida e usou sua jogada de sempre: a bola branca impactava com força no monte de bolas em forma de triângulo, geralmente, duas ou três bolas caíam nas caçapas, mas naquela partida, somente a bola seis foi encaçapada, voltou jogar na bola 1 e não teve sucesso, então, foi a vez do forasteiro...
O salão estava lotado, se uma mosca passasse faria zoada, doutor José Maria cochichava com os amigos, mas com os olhos grudados no jogo. Passou a torcer e simpatizar o adversário de Santinho, ele temia que se Santinho perdesse, o rebu fosse formado, culminando com violência, por isto, chamou Hortêncio – sujeito valente, responsável pela morte de muitos ladrões vagabundos no Bairro Cajueiro, reduto famoso de prostitutas, cujos randevus eram identificados com lâmpada vermelha na porta - seu protegido e pediu-lhe que ficasse de olho e defendesse o rapaz se fosse necessário.
O forasteiro, calmamente, circulou a mesa de snooker, olhou para o adversário como se o estudasse, depois foi encaçapando uma a uma todas as bolas.  No final, sobraram as bolas 6 e 7, insuficientes para Santinho virar o jogo. 
A bola 6 estava no seu ponto enquanto a bola 7 estava colada à direita da caçapa do meio e a bola branca quase na posição da bola 5, para o jogador comum, a bola 6 oferecia mais facilidade, porém, para demonstrar habilidade absoluta, ou vaidade, o desconhecido com maestria, deu um toque com efeito na face menos frontal da bola 7, ela bateu no lado menor do retângulo da mesa, em seguida no lado esquerdo, e, deslizou como se estivesse teleguiada e caiu na caçapa do mesmo lado direito de onde saiu. Os apupos e aplausos não foram contidos, todos estavam estupefatos, boquiabertos!...
Santinho, numa atitude indelicada, jogou o taco sobre a mesa. O mesmo peru que condicionou a saída de Santinho, agora, instigava que todos tinham sido enganados pelo forasteiro, que se apresentou como pixote para surrupiar e ludibriar o dinheiro dos incautos perdedores, mas Santinho foi correto:
-Pare com isso Chico Reis, quem joga apostado, esconde o jogo pra não espantar o parceiro! – mas, Chico Reis insistiu, quando surgiu Hortêncio:
-Camarada não perturbe o ambiente, o seu amigo foi decente quando reconheceu a derrota e não quer retaliação! – Chico Reis não aguentou:
-Eu sou indecente? Quem lhe pediu palpite? Se Santinho e os meus quiserem, esse pilantra irá devolver o dinheiro por bem ou por mal! – Hortêncio de “parabelum” na mão, de um pulo se colocou ao lado do forasteiro:
-Venha seu canalha buscar o dinheiro, mato e quem lhe seguir – doutor José Maria intercedeu:
-Não Hortêncio – o nome do pistoleiro gelou a maioria -, não é necessário usar arma de fogo, eu acredito no bom senso de todos – virando-se pra turma:
-Meus amigos, todos aqui me conhecem, não sou covarde, mas não gosto de injustiça, não quero ver uma gota de sangue derramada do parabelum de Hortêncio por causa de jogo e injustiça, mereceram perder pra ter malícia adiante - apontando para o forasteiro:
-Este rapaz foi debochado, mangado, chamado de trouxa de pixote e não levantou a voz. Ele não enganou, mas agiu profissionalmente, nós que fomos incautos e não percebemos que ele é um exímio jogador, desde Louro Rico. Louro não perdeu por falta de sorte, superstição boba de Sexta-feira 13, perdeu por não ter o mesmo padrão de jogo deste rapaz, aliá, aqui nesta cidade, ninguém joga igual, agora, os senhores querem ganhar apelando para ignorância, na força bruta, isto é falta de espírito esportivo, é não saber perder, isto é desonestidade!... – os agitadores baixaram a cabeça em assentimento, aí, ele pergunta o nome do rapaz:
-Walfrido Rodrigues dos Santos, mas todos me chamam de Carne Frita! – doutor José Maria voltou-se para plateia:
-Carne Frita, senhores, é o rei da sinuca, a lenda viva da mesa de pano verde, o homem que desbancou Rui Chapéu! –Todos bateram palmas, nascia um novo ídolo, do ódio à idolatria: Carne Frita!...
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Recaída


Dois meses depois da morte de Rita, a paixão reprimida, os trabalhos da igreja, as carnes latejando sexo e a ausência constante do doutor José Maria, contribuíram para novo affair  de dona Clô e o padre Gaiardoni. Se antes as coisas eram escondidas, agora, Apolinário tomava mais precaução nos encontros com a mulher do advogado.
A beatice de dona Clô ajudava os adúlteros, ela entrava e saía da casa do pároco sem despertar suspeita, quem iria macular a honra de uma mulher religiosa, fazendeira, voluntária social e esposa de um dos mais proeminentes homens da terra?  Por outro lado, o padre Apolinário Gaiardoni aparentava o guardião mais severo dos princípios morais e religiosos. Se uma paroquiana ousasse vestir um vestido extravagante, fora dos padrões normais, era chamada a atenção e se insistisse, ela seria convidada não participar das missas enquanto não refizesse suas atitudes, além do castigo de rezar centena de Padre Nossos, Ave-Marias e Santa-Marias.
Dois meses depois da morte de Rita, Apolinário Gaiardoni, ultimava também, a reforma da igreja e esperava inaugurar a nova igreja no Natal.  Mandou construir laje onde tinha telhado, ampliou o salão da assembleia, construiu sanitário público, gradeou alguns espaços e fez uma bela pintura. Não tinha tempo para nada, todas as tensões que o afligiam despareceram na labuta do trabalho.
Os paroquianos vibravam com o trabalho do seu pároco. Todos queriam sua igreja bonita para o cinquentenário de emancipação política de Itabuna. Embora faltasse algum tempo, havia um clima bairrista com o município de Ilhéus e o cinquentenário da cidade reforçava sua independência, por isto, desde o ano de 1955, quando o prefeito Ferreira da Silva, reestruturou e modificou algumas ruas como a Duque de Caxias, Miguel Calmon, Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, culminando com a Rua da Lama, Sete de Setembro, J.J. Seabra, Avenida Cinquentenário... – Hoje, a Avenida Cinquentenário é a principal rua comercial da cidade.
Esse tempo de paixão recolhida pelo padre fez de Clô mais amante e menos esposa com José Maria. Na cama mostrou-se devassa, mais despudorada, mais lasciva, mais lânguida, deixou de lado o papai e mamãe, o feijão com arroz, e, partiu para feijoada completa que deixou José Maria assustado:
- Querida, houve o quê?...
- Hem!? 
- Você está diferente... Antes tudo era pecado!
- Eu era boba... não quero perder meu maridinho para outras... – dengosa.
 -Nunca irá me perder!
-Nem pra Lia?
- Lia é um caso!...
- E, se eu tiver um caso?...
- Eu mato você e o seu caso!
- Você não tem um caso?...
- Mas é diferente...
- Qual a diferença!?
- Eu sou homem!
- Adultério é crime, não é um ilícito civil! – José Maria, mais humorado, usou a persuasão:
- Minha filha, eu sei que tu és inteligente, bem informada, mas é uma coisa cultural, nenhuma uma lei vai modificar a consciência coletiva de um dia pra noite. A sociedade aceita o homem ter seus casos fora do casamento, mas se a mulher tiver desonra a família!
-É hora de mudar!!! – destilando ódio...
- Eu sou advogado, sei que a lei é dinâmica, depende muito da consciência social, porém, desde Bíblia que tem mulher adúltera e homem com harém!
- É uma realidade...
Aquilo que não tem jeito, jeito é aceitar, mas não se conformar... Dona Clô nunca se conformou, cedo, rompeu com alguns ditames dos pais. Se tivesse sido do gosto do seu pai teria estudado o suficiente pra fazer uma cartinha, mas estudou o suficiente pra ensinar e era dona de muitas prendas: era exímia no bordado, no piano, na pintura, na culinária e na administração doméstica.
Atribuía o seu caso com o padre Apolinário à sua carência afetiva, não que lhe faltasse nada de material, tinha uma casa confortável, empregados à disposição, três lindos filhos, mas nunca se conformou com a vida da rua do marido. Quantas vezes desejou tê-lo de lado?  E, quantas vezes ele chegou farto de sexo? Inúmeras! Por isto, se rendeu às primeiras cantadas melosas de Apolinário Gaiardoni.
Recaída justificada...

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A enchente

As águas do rio Cachoeira desciam aos borbotões em direção ao mar de Ilhéus levando animais, toras de madeira, baronesas, árvores caídas, a força da água impressionava, em certos trechos, as águas passavam pelas pedras numa velocidade que nenhum vivente seria capaz de manter uma canoa navegável, porém, se não fosse lúgubre, não causasse tanto dano, deixando populações ribeirinhas sem eira nem beira, numa miséria de chorar qualquer coração endurecido, dava-se gosto ver, a revolta da natureza com a agressão do homem. 
            Os lugares baixos da cidade foram invadidos pelas águas do rio Cachoeira: Bananeira, Mangabinha, Rua da Jaqueira, Laranjeiras, Miguel Calmon, Sete de Setembro e Rua da Areia, esses lugares foram os mais atingidos, com exceção da Praça Adami que naquela época, era um pequeno monte com mais de 3 m de altura onde muita gente se apinhava com medo da água que avançava.
As casas de bloco e os barracos eram tragados pelo rio por uma força natural como se fossem de papelão.  Nada que a enchente do rio Cachoeira não arrastasse: casas, pontes, toras de madeira, sofás, camas e outros objetos, mas o que chamava mais a atenção era a lâmina de baronesa que se formava por quilômetros com o rio seco e quando a enchente ocorria, a esteira de baronesa deslizava na água, uniforme, suave e bela, levando em cima de suas folhas e bulbos, galináceos, cobras, lavandeiras, garças e até caititus.  
            No infortúnio é que se descobre a grandeza da alma humana, não faltava voluntário para socorrer algum sobrevivente que desesperado que se agarrava à comeeira de uma casa submersa ou algum náufrago que na agonia clamava por socorro, geralmente, com um dos braços estendido e dando os últimos nados de cansado. Botes inflados e canoas deslizavam nas águas em lugares de ruas submersas procurando gente desabrigada. 
            Essa enchente de 1954 foi uma enchente menor do que a enchente de 1914 e menor ainda do que a enchente de 1967, mas de igual valor destrutivo, não houve registro histórico, sua transmissão foi oral, das pessoas sofridas, das pessoas que perderam o pouco que tinham, foi uma enchente suis generis, sem as chuvas torrenciais das outras, pegou todos os habitantes citadinos de surpresa, é que as chuvas torrenciais
começaram na Serra de Itaraca, município de Vitória da Conquista e abundaram nas cabeceiras dos rios Salgado e Colônia, e, desaguaram no Rio Cachoeira de Itabuna.
O rio Cachoeira pouco e pouco foi subindo, ultrapassando margens, penetrando nas casas ribeirinhas, tomando ruas, formando lagos e outros rios, num quadro de cenas horríveis, dantescas, destruindo sonhos e aumentando a leva de miseráveis da cidade.
Porém, a molecada nem estava aí, brincava de picula, nadava (as águas do rio Cachoeira nem eram tão poluídas), soltava barquinhos de papel nas correntezas, enfim, a molecada pintava o sete...
Um parêntesis:
Algum leitor exigente irá perguntar o que tem o advogado José Maria ou dona Clô com essa história de enchente? Em que vai contribuir essa história de enchente na trama em que o padre Apolinário Gaiardoni é o principal suspeito do crime? Sim e não! Sim, porque se conhece os traços psicológicos do personagem através de suas atitudes, de sua vida privada e social e nessa enchente, José Maria mostra o seu lado filantrópico, solidário, por isto, tornou-se tão querido e endeusado na comunidade itabunense.
Fecha parêntesis.
Naquela época, Apolinário Gaiardoni, residia há um ano em Itabuna, pouco se movimentou para socorrer os desabrigados, argumentou que sua igreja não tinha dinheiro, o dízimo estava em baixa... Não disponibilizou a casa do pároco para receber alguns desabrigados, não fez campanha de roupas e alimentos para vestir e matar a fome daqueles miseráveis, para não lhe ser injusto, é necessário que se diga que fez alguns pedidos de somenos importância ao poder público.
Por outro lado, doutor José Maria disponibilizou alguns carros da fazenda para transportar o que restou de móveis e utensílios de cozinha, encheu os armazéns de cacau de desabrigados, transportou os doentes em seu carro de passeio para o hospital, doou roupas, alimentos, remédios e colchões, não como se desse esmola, homiziado em seu gabinete, delegando aos prepostos o cumprimento dessas tarefas, mas participou in loco de todas essas ações, porém, sua solidariedade foi digna de ser contada pra seus filhos e netos quando chegou numa casa de desabrigados e encontrou uma mulher chorando de dar dó:
 - Onde vou abrigar meus 12 filhos, senhor!?
 - Alguém vai ter piedade da senhora!...
- Que Deus lhe ouça, senhor!
            - Não sei se Ele me ouvirá, mas eu lhe ouço!
            Uma semana depois, a mulher recebeu uma casa com tudo que o rio havia levado...
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A morte no navio
R. Santana

Há três dias que um navio Lloyde deslizava lentamente sobre as águas da costa brasileira, com o itinerário de Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador e Ilhéus. O padre Apolinário Gaiardoni e o advogado Hans Manfred pareciam velhos amigos: frequentavam o salão de festa juntos, o convés, as cabines da tripulação, o piloto e os imediatos. Todos tomaram como irmãos gêmeos, o padre e o advogado e eles deixaram acreditar no parentesco... O padre não frequentava o cassino nem bebia, mas gostava de nadar na piscina e era acompanhado por Manfred, despertando cobiça das moças pelo porte atlético que ambos ostentavam. O padre um pouco mais recatado, enquanto o amigo gostava de chamar a atenção das donzelas e não donzelas.  
             Os camarotes eram quase contíguos, ambos se visitavam a todo tempo. Camarotes exteriores, com grandes janelas, mobiliário funcional, ducha/wc, frigorífico, armário amplo, aquecimento/ar condicionado, cama de beliche de aço, pia de rosto e etc.
            Esses três dias foram suficientes para que ambos conhecessem suas histórias, famílias, aonde ia cada um, o advogado tinha saído do Rio Grande Sul, da cidade de Porto Alegre, para Porto Seguro; o padre, de Santa Catarina para Diocese de Ilhéus e se fixar na paróquia de Itabuna.  Apolinário Gaiardoni lhe confiou o segredo da fortuna que levava, doada pela colônia italiana de sua terra, para solucionar alguns problemas de caixa da diocese ilheense.
            Gaiardoni concelebrou com o capelão do navio. Hans assistiu à missa escondido na assembleia, justificou que havia sido seminarista, conhecia todo ritual católico, porém, após deixar o seminário para estudar direito, havia se desligado completamente da igreja católica e ingressado na igreja adventista, seus estudos sobre Lutero contribuíram, também, para essa decisão: - a igreja fundada por Jesus Cristo, ao longo desse quase 2000 anos de existência, havia cometido erros imperdoáveis, o mais recente tinha sido a tolerância do papa com os promotores da Segunda Guerra Mundial.
Compreendia as razões de Martinho Lutero contra as indulgências, o sacerdotalismo, o celibato, a infalibilidade papal e a adoração de imagens, que a salvação eterna não depende só de boas ações, mas é uma dádiva de Deus através da fé. em Jesus Cristo. Além disto, Lutero traduziu a Bíblia do latim para o alemão, tornando-a mais acessível e mais popular entre os povos germânicos e os bretões. Porém, o protestantismo não lhe preenchia a alma, havia mudado na prática, mas o conteúdo doutrinário era o mesmo.
 Ultimamente, estava lendo em inglês, as revistas “SEICHO-NO-IE” (presente dum colega) de Masaharu Taniguchi, líder espiritual japonês e ficara impressionado com a leitura das Sutras Sagradas e os valores morais espirituais dos seus aforismos: “Família e Deus”, “O ser humano é filho de Deus”, “Valorizar os antepassados”, “O mundo fenomênico é projeção da mente”, “Viver é harmonia com a natureza”, “A longevidade da vida depende das boas ações”, “A paz é o bem maior do homem”, “Felicidade é conviver em comunhão com as forças universais”, etc.
Não deixara sua religião, entendeu que a “SEICHO-NO-IE” era mais uma filosofia de vida com elementos pescados no cristianismo, xintoísmo e budismo que daria para conciliar com sua prática cristã, além disso, ele estava procurando algo novo, que norteasse sua vida, que não fosse empecilho para o seu projeto mundano em Porto Seguro, extremo Sul da Bahia, mas o destino quis que tudo fosse diferente...
Já passava das 20:00 horas, não havia mais ninguém nos corredores do navio, quando o padre Apolinário deu uns toques no camarote de Hans que naquela noite, ele foi dormir mais cedo do que de costume:
- Foi dormir mais cedo, hoje, meu querido seminarista?
- Padre, esses dias fora dos meus, bateu-me uma saudade dolorida...
- Eu já me acostumei, o sacerdócio é solitário. Passo meses sem receber uma linha escrita ou enviar ou lhes enviar alguma carta... – de repente, mostrou ao amigo uma garrafa de “Château Hant Brion”:
- Trouxe para comemorarmos!
- O quê?
- Nossa amizade!...
- Mas, desde que nos encontramos, nossa amizade parece século... – disse com riso.
- Eu sei. Tenho lhe estudado todo tempo... Não sei se é qualidade ou defeito, mas acho que o meu querido seminarista deixou de ser padre por causa de mulher! Não foi?
- Sim e não! – e contou-lhe a causa de abandono do seminário:
- Eu estava no finalzinho do curso quando me apaixonei por uma jovem da minha idade... Não sei se foi ela a causa principal para não me consagrar ao sacerdócio, acho que ela pode ter sido o elemento catalisador, porém, não aguentava mais o estudo dogmático da igreja... Sou cartesiano, não aceito os raciocínios pela fé, sem discussão, gosto de conhecer as causas e os efeitos – pigarreou:
- Helena surgiu!...
- E daí?
- Casamo-nos, fui estudar Direito, mas...
- Mas o quê?...
- Fomos felizes por um ano. Ela morreu num acidente de carro...
- Lamento. Acho que lhe cutuquei onde não devia!?
- Não se culpe, o pior passou, já vai longe o tempo, a dor foi substituída pela saudade de amor... – o padre muda de assunto:
- Você acredita na Providência?
- Destino?
- Intervenção de Deus...
- Seja claro, padre!
            - Disse antes que lhe tenho estudado...  Acho que Deus não aprovou sua saída do seminário, por isto, nos encontramos no momento que mais preciso, é o que chamo providencial... – Hans ficou impaciente:
            - Gaiardoni meu amigo, desembuche!
            - Preciso de sua ajuda!
            - Se puder lhe ajudarei. Por favor, seja claro!
            - É segredo, promete-me guardá-lo!?
            - Sim!...
            A tripulação do “Lloyde” estava em polvorosa, é que, lá pra tantas do dia, a camareira foi arrumar o quarto de Hans Manfred e o encontrou morto! Parecia que dormia de tão acomodado que estava, que tinha se preparado para morrer: mãos cruzadas sobre o peito, olhos fechados, de meias, todo composto, estirado na cama.
            Foram encontrar Apolinário Gaiardoni em oração. Foi grande sua surpresa, caiu em pranto, chorou como se tivesse perdido um parente próximo...
            O médico do navio emitiu um atestado de óbito em causa da morte tinha sido um infarto fulminante.
            Apolinário tomou todas as providências necessárias para que o corpo do amigo e todos os seus pertences chegassem aos seus pais em sua terra natal.

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Pedro Marques



            Chegou a Itabuna no final de maio de 1958, depois de um mês no Sul do país e uma parada no Rio de Janeiro. Chegou à cidade numa Quarta-feira e a primeira que fez foi se acomodar no “Hotel Portugal”, no dia seguinte, foi ao escritório de doutor José Maria, mas não o encontrou – estava numa das fazendas.
            Aproveitou o final de semana e a ausência do advogado, por conta própria, começou esmiuçar o crime ou suicídio da mulher do coronel Honório Ladaró, já que a missão de Apolinário Gaiardoni estava parcialmente solucionada não obstante algumas interrogações sem resposta, porém, com mais alguns elementos, fecharia o caso.
            Esteve com Honório Ladaró e conversou com as serviçais de sua casa. Conversou com o delegado e alguns investigadores interessados e havia muita gente interessada desde que o coronel estabeleceu um prêmio polpudo para quem primeiro solucionasse o enigma da morte de Rita.
            Foi ouvindo uma palavra aqui, outra acolá, levantou à vida pregressa de Rita, sua religiosidade, as amizades mais chegadas, o apego aos filhos, sua idade, a idade do coronel Honório Ladaró e seu apego mais às suas fazendas do que sua mulher. Sem bazófia, sem chamar a atenção de ninguém, mas metódico, profissional, formou em poucas horas um juízo quase perfeito sobre o caso Rita Ladaró que com mais alguns contatos, colocaria o criminoso na cadeia, por cautela, poupou tecer comentário quando encontrou o casal José Maria:
            - Que prazer lhe rever meu Sherlock Holmes – José Maria era efusivo de natureza, deu-lhe um abraço aconchegante e encheu-lhe de perguntas:
            - Quando chegou? Gostou da viagem? Quantos dias você vai ficar em Itabuna? Nunca mais me deu notícias?...
            Pedro Marques, calmamente, sem atropelo –aprendera no exercício da profissão de detetive – foi dando-lhe as respostas:
            - Cheguei faz uma semana. Se eu gostei da viagem? Claro. Não sei ainda o tempo da minha estada nesta princesinha do Sul da Bahia, mas volto logo assim que der por encerrado o meu trabalho. Por conta própria, fiz algumas investidas no caso da mulher do coronel Ladaró... – José Maria se interessou e tentou puxar o ex-colega de faculdade para biblioteca, mas Pedro Marques o deteve com jeito:
            - Deixe-me tomar fôlego homem! – brincou:
            - Dona Clô, o seu marido é muito apressado!  Parece que nasceu de sete meses?...
            - Não, doutor Pedro, ele sempre foi assim, vive o dia de hoje como se fosse o último!...
            Pedro Marques voltou ao carro, combinou com o taxista o seu retorno, pegou alguns embrulhos no banco traseiro do automóvel e adentrou, novamente, na mansão, desta vez encontrou a família junta, sem conversa de trabalho, foi entregando os presentes a cada filho, por último, ao casal José Maria:
            - Talita, tu vais ficar ainda mais linda com essa volta de ouro, última moda das mulheres cariocas!  – recebeu um abraço e um beijo de agradecimento da primogênita...
            - Samuel, como tu és um homem, para não esquecer o teu horário de encontro com a namorada, trouxe para ti um bonito “Mido”!  - sem esperar agradecimento:
            - Júnior, para que tu não fiques com inveja de Samuel, trouxe para ti, também, um relógio! – em seguida:
            - Eu sei que a bolsa é o último no chique das madames, por isto, dona Clô, trouxe-te esta linda bolsa de couro de jacaré! – por último, José Maria:
            - Meu prezado José Maria, para que partilhe do teu presente, trouxe um litro de whisky e um “Château Hant Brion”, safra... – foi interrompido por dona Clô:
            - Château Hant Brion!?
            - Sim. Já tomou?
            - Não!!!
            Não existe dureza de coração que não se renda a um gesto de carinho. A família Andrada não precisava de presente, porém, o gesto de Pedro Marques deixou a família mais atenciosa e mais prestativa, com exceção de José Maria que era amizade antiga, até dona Clô se rendeu aos obséquios do detetive e advogado. No início, ela ficou espinhada quando Pedro Marques lhe perguntou se já tinha tomado o vinho Château Hant Brion, depois mandou a cisma passear.
            O almoço foi servido. O detetive falou das viagens que tinha feito no Sul e Sudeste do país. Falou das praias da cidade do Rio de Janeiro, do carnaval, das mulatas, do humor carioca, das principais cidades de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, em particular, Caxias do Sul e Porto Alegre. Exaltou a limpeza dessas cidades, o índice de desenvolvimento humano, o urbanismo e a cultura influenciada na imigração europeia, principalmente, os alemães, os italianos e os poloneses.
            Talita queria saber mais e não saciava sua curiosidade: jurou que antes de conhecer o estrangeiro, gostaria de conhecer as coisas boas do seu país. Samuel aproveitou para dizer ao pai que gostaria de estudar e trabalhar em São Paulo, único lugar do Brasil onde não havia miséria. Júnior discordou dos irmãos, prometeu ao pai que quando terminasse os seus estudos de agronomia em Cruz das Almas, iria tomar conta das fazendas.
            A conversa ia solta quando Dr. José Maria com jeito dispensou a mulher e os filhos e puxou, discretamente, Pedro Marques para biblioteca. Ele estava cioso de informações sobre a missão que confiara ao seu colega detetive, suas cartas eram lacônicas e cheias de metáforas, portanto, nada melhor do que “tête-à-tête”, olho no olho, perguntas e respostas, carta é unilateral, às vezes, técnicas, que o receptor fica a ver navio.
            Assim que adentraram na biblioteca, José Maria não deu fôlego ao seu amigo de faculdade, foi necessário Pedro Marque discipliná-lo:
            - Calma, meu amigo, uma coisa de cada vez, temos o tempo todo para o relato!
            - Eu sei, mas me diga logo, o padre é um bandido conforme sua carta? – exigiu José Maria.
            - Não!
            - Mas, você escreveu...
            - Eu sei o que escrevi, fiz isso para que você não desse a língua nos dentes, porém, existe ainda pergunta sem resposta!
            - Então, desembuche homem!
            - Qual ou quais?
            - Se Apolinário Gaiardoni é Apolinário Gaiardoni! – José Maria se impacientou:
            - Mas filho de Deus, mais de um mês viajando, escarafunchado a vida desse homem, você vem me dizer isso!!!
            - Calma, José Maria, é que surgiu um sósia e uma morte em um navio, se esse homem é impostor, não temos provas para lhe desmascarar, a coisa foi bem articulada!
            -Não entendi bulhufas: sósia, morte no navio...
            - É uma longa história, dê-me tempo, vou esclarecer...
            Relatou que de posse das informações que lhe havia dado, viajou para Santa Catarina, bateu na porta de várias dioceses, conheceu vários parentes e amigos do sacerdote, todos confirmaram sua vinda para diocese de Ilhéus e ratificaram reconhecê-lo nas fotos dos jornais...
            - Então, meu caro amigo, missão cumprida!
            - Não de tudo, seus irmãos têm estranhado alguns detalhes de suas cartas!
            - Como?
            - Na assinatura, que o padre não gostava de escrever carta datilografada e alguns lapsos de família... – João Maria se exultou:
            - Então, meu amigo, a missão está incompleta!?
            - Sim. Por isso, fui a Caxias do Sul e a Porto Alegre, buscar informações sobre Hans Manfred Spitznamen!
            - Esse Hans é o quê?
            - Hans é o sósia que lhe falei de Gaiardoni, mas morreu de infarto nessa viagem do navio!
            - E, daí?
            - Pode não ter sido Hans que morreu e sim o próprio Gaiardoni!
            - E tomou o seu lugar só por ser sósia? Sua máscara cairia na primeira missa... Não existe lógica!
            - Não existe lógica? Nesse caso, sim! – completou:
            -Então, analisemos: Hans, sósia, advogado, coroinha, fez seminário, mulherengo, não se consagrou por não aceitar o celibato... – José Maria não se conteve, deu um murro na mesa:
            - Uai!... Claro, tudo se encaixa, porém, a Igreja Católica daria seu beneplácito ao perfeito substituto, ele não seria denunciado por falsidade ideológica, os fins justificam os meios, afinal, o homem só faltou se consagrar, se formar, é advogado...
            - Claro, meu amigo José Maria, porém, existe um conjunto de suposições que se comprovadas, ele iria pra cadeia!
            - Por exemplo?
            - Um crime!
            - Não foi infarto?
            - Existe um atestado de óbito do médico do navio!
            - Então?...
            - É estranho um rapaz novo, porte atlético, “vendendo saúde” no dizer dos seus conterrâneos de Caxias do Sul morrer de infarto! – continuou:
            - Além disto, Apolinário trouxe uma fortuna em espécie para Diocese de Ilhéus!
            - Esse dinheiro foi entregue ao bispo de Ilhéus?
            - Não sei!
            - Meu caro Sherlock Homes, peças não se encaixam nesse tabuleiro de xadrez. Entendo que como detetive, você explore todas as hipóteses, mas não acredito que esse rapaz, esse Hans Manfred tenha tomado o lugar de Apolinário Gaiardoni, por vários motivos... – discriminou os motivos:
- Um advogado tem mais futuro nesta terra do que um padre; um atleta não vai viver em contrição permanente e o padre que conheço é tradicional, acho que nunca cantou uma de nossas moças de Itabuna, e, se o dinheiro foi entregue na diocese, toda sua teoria cai por terra, então, temos aqui não o Hans, mas o verdadeiro Apolinário!
- José Maria, você é uma pessoa boníssima, acredita no ser humano sem reserva, porém, o mundo é formado por atores e canastrões, por isto, não se pode confiar de todo na aparência, “o homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”, ou seja, nem sempre a primeira impressão é verdadeira, cada um de nós representa um papel e os atores são divinos...
- O que você quer dizer com essa retórica?
- Que evitemos conceitos prontos... Hans ou Apolinário pode estar representando tão bem que é difícil saber se Hans é Hans ou se Gaiardoni é Gaiardoni!
- Quer dizer que estamos malhando em ferro frio, não é?
- Eu sei que tu estás ansioso, não é pra menos, mas é cedo para festejar ou baixar a guarda!
- Estou ansioso é verdade, mas a guarda será baixada com a verdade, não meia verdade! – quis saber mais:
- Foi discreto na mesa, mas...
- O caso Rita?
- Sim. Sei que andou xeretando aqui e acolá, o quê descobriu?
- Meu caro José Maria, as coisas não são tão fáceis assim... Eu juntei alguns elementos, todavia, não lhe posso adiantar o nome do criminoso. Só posso lhe dizer que foi uma mente criminosa de alta periculosidade, por isto, seja econômico no tratamento desse assunto e do padre, é perigoso!...
- Quer me assustar!?
- Não!
- Dê-me um bom motivo para esse cuidado!
- Criminoso inteligente!...


30
Encontro indesejado


Domingo, 7:00 horas da manhã, a igreja de Gaiardoni estava superlotada. Mais uma homilia de Apolinário que deixou a assembleia de queixo caído. O homem falou sobre a hipocrisia dos fariseus, que alguns católicos usavam a igreja como simples ostentação social. Alguns davam polpudos dízimos mais para aliviar os seus pecados do que movido pela fé.
Cobrou mais atuação dos fiéis, que se espelhassem nos protestantes: exemplo de fé, de trabalho de conversão e tomara Deus que dentro de mais duas décadas, eles não ultrapassassem os católicos. Enquanto o católico era tímido no estudo da Bíblia e não trabalhava na conversão dos indecisos, os protestantes eram determinados na conversão e estudiosos da exegese.
Desceu o malho nos fazendeiros e nos novos ricos: a maioria além da mulher, montava casa para rapariga ou a mantinha na casa de Helvécia, mãe Júlia, Pedrina, ou, nos prostíbulos do Bairro Cajueiro, Buraco-da-jia, Rua do Sport Bar... Uma indecência a olhos vistos de infidelidade. A única função da esposa era cuidar da casa e dos filhos e ir pra cama com um marido bêbado e nojento, e, se ela desafiasse esse costume machista e essa cultura malvada, seria brutalmente assassinada com o descaso da sociedade.
Disse que com algumas exceções, os homens da terra não eram comprometidos com sua fé e com sua religião. A igreja não era somente oferta, missas aos domingos, mas disponibilidade, exemplo, edificação da casa de Deus em bases sólidas para que ela não caia com as tempestades e os infortúnios que a vida nos reserva. 
Enfim, exortou Mateus (23, 13-22), que condena o fingimento:
(....)
- Ai de vocês, guias cegos! Pois vocês ensinam assim: "Se alguém jurar pelo Templo, não é obrigado a cumprir o juramento. Mas, se alguém jurar pelo ouro do Templo, então é obrigado a cumprir o que jurou." Tolos e cegos! Qual é mais importante: o ouro ou o Templo que santifica o ouro? Vocês também ensinam isto: "Se alguém jurar pelo altar, não é obrigado a cumprir o juramento. Mas, se jurar pela oferta que está no altar, então é obrigado a cumprir o que jurou." Cegos! Qual é mais importante: a oferta ou o altar que santifica a oferta? Por isso, quando alguém jura pelo altar, está jurando pelo altar e por todas as ofertas que estão em cima dele. Quando alguém jura pelo Templo, está jurando pelo Templo e por Deus, que mora ali. 
-Assim seja!...
Pedro Marques, na última fila, estava embasbacado com o discurso do padre, deu vontade de voltar para casa e deixar que José Maria continuasse com sua cisma, aliás, que importância tinha para o advogado se Gaiardoni não fosse Gaiardoni? Nenhuma. Atribuía essa cisma à dinheirama que o fazendeiro tinha no banco e não tinha onde gastar, então, lhe contratou para fuçar a vida alheia, coisa que não lhe apetecia...
Gostava de desafios, desvendar crimes quase insolúveis, mas naquele caso, o único crime seria o erro essencial de pessoa. Oficialmente morreu Hans e não Gaiardoni! Se ele estivesse a serviço do mal, justificaria a empreitada. E, se alguém tivesse de lhe investigar, esse alguém seria a Igreja Católica, a única prejudicada.
Esperou com paciência que os paroquianos fossem embora para falar com Gaiardoni. Não foi fácil, as meninotes, os moleques e as velhas assediavam-no o tempo todo com perguntas e afirmações ingênuas, mas de beata preocupação:
- Padre Apolinário, eu posso vir de vestido estampado para festa de São João?...
- Padre, sua bênção!...
- Eu vou deixar pra limpar a sacristia à tarde!...
- Padre, eu posso participar das quadrilhas juninas?
- Não!  – a única resposta.
Mas, quando surgiu oportunidade, Pedro Marques se apresentou:
- Padre, eu sou Pedro Marques, advogado e detetive, mais detetive do que advogado. Eu gostaria que o senhor me concedesse alguns minutos, é possível?...
- Detetive, em que lhe posso ser útil?
- Fui contratado pelo coronel Honório Ladaró! – mentiu.
- A informação que lhe posso dar é de domínio público!
- É de domínio público que Rita Ladaró tinha um amante!? – claudicou, mas esbravejou:
- Senhor...isso.. isso é uma infâmia!... O coronel sabe disso?
- Não!
- E, a polícia!?
- Não!
- Quem sabe disso?
- Eu, o criminoso e alguém que gosta de “Château Hant Brion”!...
- Muita gente gosta desse vinho!
- Mas, sem estricnina!
- Não foi arsênico?...

- O senhor está bem informado, hein?
- Não existe ninguém nesta comunidade que não saiba disso!
- E o amante?...
- Senhor, dona Rita tinha uma conduta ilibada, nunca soube de nada que lhe denegrisse... - Pedro deixou de rodeio e foi direto ao assunto. Aproveitou o convite do padre que lhe puxou para uma sala reservada:
- O senhor era o amante de Rita!
- Eu!?  Apenas, lhe dava orientação espiritual... – sem convicção, continuou:
- Se tivesse sido seu amante, a polícia já teria me convocado para depor, não acha?
- Talvez, pela sua posição religiosa e para não despertar a fúria do coronel Honório Ladaró, tenha procurado outro caminho para descobrir o criminoso, mas a polícia vai lhe convocar, não sei quando! – pigarreou, deu tempo ao tempo para novas elaborações e acrescentou:
- Padre, nós não devemos continuar esse jogo de gato com rato, esconde-esconde... Quando eu decidi vir aqui, é que já tenho todas as cartas do baralho na mesa e o blefe é perigoso na investigação, portanto, é inútil disfarçar!
- Se o Senhor está tão convicto que sou o principal suspeito por que razão não me denunciou!?
- Simples, não foi o senhor que a envenenou, mas se o coronel Ladaró descobre que foi chifrado, principalmente pelo padre de sua igreja, ele irá mandar lhe matar mesmo que o senhor se esconda na Cochinchina...
 - Bem, não lhe posso mais negar, tivemos um caso... Ela se queixava que o marido era um bruto, tinha outras mulheres, inclusive na fazenda, então... – não terminou:
- Ai, o senhor fez uma caridade – cheio de riso – não foi!?
- Não! Eu me apaixonei por Rita...
- Sua fama de mulherengo vem de longe, padre! – continuou:
- O pessoal do navio que lhe trouxe pra cá me falou de seu affair com as moças!
- Acho que o senhor está me tomando pelo meu colega de viagem!...
-Não, Hans Manfred Spitznamen!
- Hans Manfred morreu!...

31

Fatalidade?...


No dia 8 de junho de 1958, às 19 horas, começava a “Copa do Mundo”. No Brasil só se falava em Pelé e Garrincha. Pelé, a coqueluche da época; Garrincha, o virtuosismo, o homem das pernas tortas que deixava o adversário maluco de dribles e firulas desconcertantes.  Pelé, com 17 anos de idade, era o Neymar de hoje, a grande esperança... O Brasil começou bem, deu de 3 a 0 na Áustria.
            Nessa Copa do Mundo, o Brasil não estava entre os favoritos. Os favoritos eram Alemanha Ocidental, a campeã de 1954, Hungria, União Soviética, Inglaterra e Suécia por sediar o torneio e ter grandes jogadores. O Brasil jogou no “Grupo 4”, com Áustria, Inglaterra e União Soviética. Nas “Quartas de Final”, o Brasil bateu o país de Gales e na “Semifinal”, o nosso país arrasa a seleção francesa e parte para “Final” com a Suécia.
            A partida final foi disputada no estádio “Rasunda”, um estádio europeu de gente ariana, mas que se rendeu aos talentos de Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Didi, Gilmar, Zagallo e os demais jogadores. Antes do jogo, a “Seleção Canarinho”, teve que abrir mão do seu uniforme tradicional, pelo fato da Suécia ter a mesma cor da camisa, e, jogar com o seu uniforme azul que ficou vaticinado no dizer de Dr. Paulo Machado de Carvalho: “Nós vamos vencer, vamos jogar com a cor do manto de Nossa Senhora Aparecia” - o Brasil teve nesse jogo o primeiro titulo de campeão da “Copa do Mundo”, com o placar de 5 a 2 em 29 de Junho de 1958.
            O leitor apressado pode pensar que o contador desta história, perdeu o fio da meada e criou o capítulo da Copa do Mundo de 1958, que nada tem haver com o padre Apolinário, nem com dona Clô, nem com Dr. José Maria, nem com Manfred Spitznamen, e outros personagens... Porém, se tiver paciência e atentar para o título deste capítulo: “Fatalidade?...” e o seu desfecho, irá compreender que enfocar aquele momento festivo foi necessário, pois o principal personagem, doutor José Maria, morreu no dia que esse torneio findou e Pedro Marques, detetive de nomeada, foi assassinado no dia que esse torneio começou.
            No dia 8 de junho de 1958, às 19:00 horas, a metade de machões da sociedade itabunense estava ouvindo o jogo no Sport Bar, regado à bebida e ao aconchego das prostitutas. Lá, dentre outros, estavam Pedro Marques e doutor José Maria no meio da fanfarra e dos gritos de gol do Brasil em cima da Áustria.
O jogo foi televisionado, porém, era preferível ouvir o jogo pela Rádio Nacional ou Rádio Globo à imagem trêmula, em preto e branco, das TVs.
Às 3:15 h da madrugada, Pedro Marques e José Maria quase que não se aguentavam em pé. O advogado insistiu continuar bebendo, então, o detetive se despediu dos demais e tomou o caminho do “Hotel Portugal”. O advogado, com a voz meio embolada, insistiu que o detetive continuasse até o fim da noite:
- Pe...Pe...dro, me... meu a...mi...go, nã...não...vá... em...bora...
- Vo... vou... vi... viajar a... amanhã  Zé, me...me... dei...xe!!!
O detetive saiu cambaleando, mas se esforçando para se aprumar, quando, quase no final da Rua Sete de Setembro, encontrou-se com um marginal que lhe exigiu, sob a ameaça duma peixeira, que lhe entregasse a carteira e o relógio. Não obstante Pedro Marques tivesse sido atacado por detrás e não muito sóbrio, não se rendeu logo, deu um golpe de judô no adversário, mas teve a infelicidade de cair em cima da faca, embolado com o marginal.  
A morte brutal de Pedro Marques repercutiu em todo estado da Bahia... O governador despachou para Itabuna um batalhão de soldados “Cosme e Damião” que vasculhou a cidade, mas não encontrou o assassino. O adiantado da hora e a madrugada chuvosa contribuíram para ausência de testemunhas. A família do detetive se deslocou para Itabuna e providenciou o translado do corpo para Salvador. Dr. José Maria não poupou dinheiro nem esforço para que tudo ocorresse bem, a família de Pedro Marques foi hospedada em sua casa.
Algumas autoridades duvidaram de latrocínio, mas crime de mando, execução... Por conta de sua profissão, o detetive tinha muitos inimigos ocultos. Alguns poucos sabiam o verdadeiro motivo de sua passagem por Itabuna, dentre esses poucos, o padre Apolinário, doutor José Maria e dona Clô.
A missa de corpo presente foi celebrada pelo padre Apolinário Gaiardoni que alegou não ter conhecido muito bem o detetive, mas que os seus amigos atestaram sua idoneidade moral, seu compromisso com a polícia, com a lei, com a justiça, que seu trabalho de detetive de crimes insolúveis, com a descoberta de malfazejos, seria lembrado e seguido por longo tempo por essa categoria de homens de denodo e de compromisso com o bem estar da sociedade.
Dona Clô, na porta do velório, chorosa e racional, clamava pela justiça humana e divina!...

32

15 de Junho

Uma semana depois do assassinato de Pedro Marques, dona Clô e o padre Apolinário conversaram na sacristia e não embaixo dos lençóis. A missa ainda não tinha começado, além disto, o padre gripado, afônico, pediu ao seu colega Passos que assumisse os trabalhos da igreja naquele Domingo, 15 de Junho de 1958. Os amantes estavam preocupados com os últimos acontecimentos, dona Clô foi quem iniciou o diálogo:
            - Mais um crime no rol dos insolúveis!
            - Não sei não!...
            - Essa polícia é incompetente, até hoje, não descobriu o crime de Rita Ladaró!
            - Eles estão investigando! – acrescentou:
            - Aliás, o detetive me disse que havia sido contratado por Honório Ladaró pra auxiliar a polícia nas investigações!
            - Acho que blefou...
            - Tem certeza que foi um blefe?
            - Absoluta. O coronel é pão duro, não ia trazer detetive de Salvador... Não ia se dar a esse desfrute!
            - Não sei...
            - Disse-lhe mais o quê?
            - Que não fui o assassino de Rita!
            - Ele sabia quem a envenenou?           
- Sim!
- Mas...
- Clô, deixe de sutileza, não me queira tornar culpado de um crime que não pratiquei!
- Calma, mas se o coronel descobre seu caso com Rita...
- Tu achas que estou me borrando de medo desse assassino fazendeiro, não é Clô?  Não tenho medo dele nem dos seus capangas. Aliás, não tenho medo desses devassos desta terra de primitivos, que maltratam suas mulheres e cuidam bem das raparigas e amantes. Rita fez o que muitas deveriam fazer: encher a cabeça de cornos desses maridos infiéis! Clô, antes que alguém me mate, irei denunciar para todo Brasil, as leis às avessas desta terra, a corrupção dos costumes, a hipocrisia social, a sujeira debaixo do tapete, o consentimento doentio das mulheres que ao invés delas lutarem por mudança, se acomodam e se homiziam dentro de casa, então, sublimam na religião, o casamento e a fé que não possuem! – fez uma pausa e continuou:
            - Nós, também, somos cúmplices ou vítimas dessa sociedade pervertida e imoral, tu não penses que José Maria é melhor do que Ladaró, eles são cartas do mesmo naipe, se ele já tivesse sabido do nosso affair, nós não estaríamos aqui, conversando nem esmiuçando quem matou sicrano ou beltrano, mas no cemitério com Rita Ladaró!...
            Dona Clô ficou pensativa, descobriu de chofre um Apolinário que não conhecia, não poderia desdizer-lhe, afinal, Apolinário falou a verdade, as mulheres da terra, eram reprimidas, infelizes, sufocadas, usavam a religião para não encarar seus problemas de frente.
Porém, pensava: “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa... Se Pedro Marques não conhecia Gaiardoni, que consideração lhe tinha para avisar, apenas, que ele não é o criminoso, mas outro indivíduo e que a polícia não ia tardar descobrir? Deveria haver mais coisas, certamente, havia muito caroço embaixo do angu, o detetive vir de Salvador só para lhe confortar? E, se o coronel não conhecia o detetive, quem o indicou e os porquês?...” E, contra-atacou:
- Tudo que falou da mulher grapiúna é verdade, mas qual é sua verdade?
- A minha verdade?
- Sim!
- É de foro íntimo!...
- A polícia vai acreditar em sua elaborada versão? Se o detetive veio de tão longe para lhe dizer que não é o criminoso, poderia ter lhe dito quem foi o homicida, não?
- Concordo, mas ele não me disse. Ele me procurou por outro motivo, que é particular, não tem haver com esse crime. Só quem lhe contratou tem o nome do criminoso!
            - Quem o contratou?
            - Ele me disse que foi o coronel Honório!
            - Não acredito. O coronel nunca o tinha visto mais gordo...
            - Conhece alguém que privasse de sua intimidade?
            -Meu marido!
            - Então, ele deve saber quem envenenou Rita!?
            - É possível!... – Clô quedou-se pensativa.
33
Segredo revelado


Naquela noite de céu estrelado, enquanto o navio da “Lloyde” singrava o Atlântico brasileiro, Gaiardoni trabalhava convencer seu colega de viagem, Manfred Spitznamen, para que assumisse sua identidade... Não foi uma tarefa fácil, o padre teve que usar argumentos bíblicos, doenças, exemplos de vida e intervenção divina para que o filho de germânicos tomasse o seu lugar. Manfred não se preocupava com os rigores da Lei nem a reação da Igreja Católica, mas relutava aceitar o pedido do seu amigo por falta de convicção pessoal e vocação religiosa.
Já tinha sido coroinha, ex-seminarista, agora, estava mergulhado na leitura de revistas “SEICHO-NO-IE” de Masaharu Taniguchi. Ficou impressionado com as Sutras Sagradas e os valores morais espirituais dos seus aforismos: “Família e Deus”, “O ser humano é filho de Deus”, “Valorizar os antepassados”, “O mundo fenomênico é projeção da mente”, “Viver é harmonia com a natureza”, “A longevidade da vida depende das boas ações”, “A paz é o bem maior do homem”, “Felicidade é conviver em comunhão com as forças universais”, etc., etc.
Entendeu que a “SEICHO-NO-IE” era mais uma filosofia de vida com elementos morais e religiosos pescados ali e acolá, que a “SEICHO-NO-IE” daria para conciliar com sua prática cristã sem lhe exigir sacrifício, mas se travestir de padre, assumir funções religiosas obrigatórias, vida monástica, celibatária, trato com as beatas no dia a dia, dogmas indiscutíveis, religiosos fanáticos, era lhe pedir demais, e Gaiardoni nem ninguém tinha esse direito, nem mesmo por amor a Jesus Cristo.
Recomecemos o diálogo do Capítulo 28:
            - Gaiardoni meu amigo, desembuche!
            - Preciso de sua ajuda!
            - Se puder lhe ajudarei. Por favor, seja claro!
 - É segredo, promete guardá-lo!?
            - Sim!
            - Por esta cruz!?
            - Gaiardoni, eu não gosto de jurar, aliás, Jesus Cristo recomendou que não se deve jurar de nenhuma forma (Mateus5:34-37), não é estranho o sacerdote confiar seu segredo sob juramento?
            - Não é crime o falso testemunho? O juiz não usa a Bíblia para juramento das testemunhas num processo criminal? Entendo que o juramento não deve ser feito à toa, mas quando se compartilha  vida e uma grande missão, é necessário que se conheça o grau de cumplicidade e compromisso dessa pessoa ou não?
            - E, se essa pessoa não tiver interesse?...
            - Que se permaneça o segredo!
            - Gaiardoni, tenho ojeriza a juramento, porém, dou-lhe minha palavra que a nossa conversa não ultrapassará os limites deste camarote  nem sob tortura!
            - Palavra empenhada, compromisso assumido?
            O, - Calma Gaiardoni, o meu compromisso é guardar o segredo que me confie,  não compartilhar de suas ideias!
            - Nem por uma causa nobre!?
            - Homem de Deus, se confia em mim, fale logo de uma vez!...
            - Quero que tome o meu lugar!
            - Tomar o seu lugar!? Não entendi...
            - Eu vim lhe pedir para assumir a identidade do padre Apolinário Gaiardoni – fez uma pausa, estudou o seu interlocutor e prosseguiu:
            - Manfred, eu sou portador de grave insuficiência cardíaca, os médicos me deram pouco tempo de sobrevida. Se quisesse ter mais alguns de vida que  eu evitasse qualquer tipo de esforço físico... Não comuniquei nada aos meus superiores porque descobri quando fui indicado para diocese de Ilhéus, paróquia de Itabuna, porém, sinto que não terei tempo para cumprir essa missão, o nosso encontro foi providencial!
            - Lamento a gravidade de sua doença, embora sua fisionomia lhe traia, porém, tenho um modo de vida diferente do sacerdote, além das implicações jurídicas e morais que teria de enfrentar se tudo viesse à tona!
            - Tenho abusado da saúde esses dias para lhe acompanhar... Fiz tudo de propósito, quis lhe estudar, conhecer o seu caráter, afora sua fraqueza por um rabo de saia, você não é má pessoa, é um sujeito do bem!
            - Obrigado pelos encômios, mas não estou preparado!
            - Deixes de modéstia, homem! Fostes coroinha, seminarista, quase sacerdote, conheces todos rituais católicos, que tu mais desejas?
            - Manfred convencer Manfred!...
            - Manfred, existe um provérbio chinês que para se andar mil léguas, tem que se dar o primeiro passo, se convença apenas do primeiro passo, é longa a jornada!...
34
A face obscura do homem
(Fim)
O objetivo desta história é provar que todo homem tem uma face obscura. Freud diz com propriedade que as coisas ruins ficam armazenadas no subconsciente, que o inconsciente é responsável pelo que perpassa no consciente, tem gente que sabe administrar os seus desajustes mentais e ser do bem. Porém, algumas pessoas por mais que sublimem, por mais que reprimam, por mais que racionalizem, elas não conseguem controlar suas paixões, seus devaneios, suas maldades, seus instintos primitivos. 
A mente humana é uma caixinha de surpresa, ninguém conhece ninguém, não é verdade a sabedoria popular que diz: “Quer conhecer o outro, comam sal juntos...” Quantos casais levam uma vida em comum por anos e não se conhecem? Inúmeros. Nesta história que se finda, José Maria é surpreendido por Clô no fim da vida, Pedro Marques subestimou a gravidade da investigação  que José Maria lhe confiou e morreu de graça, Honório Ladaró conhecia “Santinha” e não Rita, e, Apolinário Gaiardoni vivia sob o segredo de Manfred, enfim, todos tinham o seu lado obscuro.
Porém, não se deve confundir o criminoso eventual, movido por circunstâncias, por mente psicopata, sociopata. O criminoso eventual é movido por uma grande emoção, um ideal político, um ideal religioso, uma vingança ou autodefesa, O psicopata não tem sentimento, não tem sensibilidade, é perverso, é zero emoção, é capaz de simular um estado de pesar em cima de um corpo que abateu ou ajudou executar. Os crimes praticados por Suzane Richthofer e Elize Matsunaga têm as características de mentes psicopatas e servem como exemplos para diferenciar o criminoso comum do psicopata.
Hoje, com peritos qualificados cada vez mais, com os recursos técnicos de DNA, luminal, balística, pólvora robusta, reprodução do crime, etc., etc., esses psicopatas são desmascarados antes que o corpo apodreça no túmulo, mas há 50 anos, no interior do país, crimes cometidos por mentes desestruturadas, sujeitos perversos, sem coração, entravam no rol de crimes perfeitos e impunes. E, quando não havia saída, nenhuma resposta técnica da polícia e envolvia o poder econômico, pessoas poderosas da sociedade, a operação abafa e os esquecimentos prevaleciam.
Abre parêntesis:
É compreensível que o leitor, neste momento, esteja ansioso para conhecer o desfecho, conhecer o criminoso ou os criminosos, porém, alguns ajustes e algumas justificativas se impõem antes do fim.
O titulo: “A face obscura do homem” foi esclarecido, mas o número 34 do último capítulo tem sua magia e seu mistério. Para o contador de história, esticar ou diminuir a trama não é tão difícil, difícil é o encadeamento dos textos e a lógica da história. Hoje, com o dia a dia atribulado, as pessoas reclamam por textos concisos, gostosos de ler e rápidos, por isto, o encerramento no capítulo 34 que exprime a soma de 3 mais 4 igual a 7, que é um número mágico tanto quanto o número 13.
Toda viva alma do Ocidente ou do Oriente sabe que o mundo foi feito em 7 dias, dos 7 heróis gregos, dos 7 sábios da Grécia, das 7 colinas de Roma, das 7 maravilhas do mundo, dos 7 pecados capitais, dos 7 sacramentos... Portanto, quem ainda não conhecia a magia do número 7 e acredita em numerologia, irá lhe preferir mais que o número 13.
Leitor amigo, o contador de história, às vezes, usa alguns recursos literários e gramaticais não por ignorância, mas para tornar o texto menos erudito e mais compreensivo e a linguagem coloquial satisfaz às demais linguagens escritas.
Bem, feitos os esclarecimentos, convido-lhe que voltemos à cena do assassinato de José Maria no capítulo1.
Fecha parêntesis.
Capítulo 1
- Mas, gostaria que ouvisse antes o que diz Hebreus para os desobedientes ao Senhor! – fez a leitura:
 “Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, E não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hebreus 12.5,6.11).
-Não entendi porra nenhuma! Estou bêbado! Deixe pra amanhã sua lição de moral...
- Não haverá amanhã!
- Então, vá embora e me deixe!... - jogou-se no sofá.
- Ainda irás me entregar à polícia!?
- Clô, a cadeia é o lugar de mulher infiel e assassina!
- Eu sou inocente... Eu sou vítima das circunstâncias... Eu sou sua vítima!...

Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna – ALITA
Gênero: Romance

Itabuna, 12 de Setembro de 2012.

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