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Aparência

Postado por Rilvan Batista de Santana 08/11/2012

Aparência

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R. Santana



Duas gatas, uma da família Santiago, outra da família Oliveira, elas tinham por hábito circundar pela vizinhança todos os dias. Não faziam isto pela necessidade de sobrevivência, essas bichanas tinham tudo de seus criadores: ração diversificada, banho, médico veterinário, penteado e freqüente visita aos CatShops para aquisição das últimas novidades. Nunca tinham comido um rato, pra quê? As barrigas sempre estavam cheias. Naturalmente, não gostavam dos ratos. Tinham aversão, vontade de comê-los quando os encontravam mas, para sorte deles estavam sempre de fome saciadas.
Caty e Felina eram os seus nomes. Caty era mais moça, estava no fulgor da adolescência e Felina um pouco mais velha, no início da idade adulta. Ambas tinham como hobby, passear todos os dias pela vizinhança à caça de namorados. Depois do seu breakfast, elas se arrumavam, se empericlitavam, esperavam os criadores dormirem e diziam: “pernas pra que te quero?”, começavam a noitada.
- Caty, eu já estava desistindo. Por quê demorou tanto? – Ah!... Não demorei tanto assim querida Felina, está mal humorada? Se não quiser, não sairemos hoje. – Não querida, não estou mal humorada, é coisa da TPM, estou com os hormônios à flor da pele, não é nada com você, estou sim, precisando dum gato macho pra descarregar minhas tensões. – Assim começou aquele dia, melhor diria, assim começou àquela noite de boemia das duas gatarronas.
- Psiu!... Ó Felina! Aí vêm dois miaus mancebos. Deixa seu azedume de lado, vamos nos comportar como duas jovens educadas. – Realmente, Caty estava com o seu feeling aguçado, dois bichanos surgiram do nada e apressaram apresentar-se:
- Félix e Fidelis às suas ordens senhoritas miaus – adiantou Félix, o mais galante e o mais bonito. Félix tinha o pelo luzidio claro, com rajadas cinzas, olhos esverdeados, cara arredonda, corpo longelíneo e forte. Fidelis era o reverso da medalha: feio, raquítico, pelo ralo, cumprido e cara de poucos amigos.
- Eu sou Caty e a minha amiga aqui Felina. Prazer em lhes conhecer. Vocês são daqui? Não me lembro de lhes ter visto antes nessas redondezas?... – A Senhorita miau tem razão, moramos do outro lado da cidade, hoje, é que decidimos romper a rotina e debandar por aqui – respondeu Félix.



Conversa vai conversa vem entre os casais, Félix muito desprendido, falou de sua genealogia, de sua pura raça, dos seus gostos e de suas conquistas, monopolizava às atenções, enquanto Fidelis pouco falava ou nada falava a maior parte do tempo. Fidelis por pouco não tinha sido alijado do grupo se não fosse a maturidade e a educação de Felina que mesmo a contragosto não deixava que o constrangimento tomasse assento no gostoso bate-papo e a noite fosse encerrada com um grande final. Por isto, Felina se desvelou em solicitude e préstimos para que Fidelis se sentisse bem e relaxado.
- Caty vamos embora? Já é tarde, despeçamos dos nossos amigos. - Por favor, iremos levar as senhoritas miaus em casa – falou Félix. – Não é preciso senhores miaus. Além de ser inconveniente, moramos distante uma da outra – disse Felina. – Eu levo Felina para casa e Félix leva Caty! – Foi a vez e a voz de Fidelis para pôr ordem nas coisas. Sugestão aceita, cada um pegou sua gata e foi levá-la à sua moradia.
Dois dias depois elas se reencontraram. Felina estava saltitante, cantarolava baixinho, respirava e transpirava felicidade, tinha visto “passarinho verde” de tanta alegria como dizem os mais velhos. Doutro lado, Caty estava pra baixo, mal humorada, irritada e pra pouca conversa.
- Que cara você está hoje Caty!... Brigou com o mundo? – É a única que tenho! – Não, não é a única que tens. Se lhe fiz alguma coisa, somos amigas, desembuche!.. Fui sua amiga no último encontro deixei pra você Félix, aquele pedaço de mau caminho. – foi a gota d`água, Caty explodiu: - Você é sabichona, não é sua gata velha? – Eu, gata velha? Sou um pouco mais velha do que você, ademais não sei o porquê de sua irritação? – Não sabe hein? Pois vou abrir suas ouças e seus desentendidos. Você sabia que aquela boniteza do Félix não passava dum capado?... Por isto, largou-o pra cima de mim. Fui burra. Laranja madura na beira da estrada ou estar bichada ou tem maribondo no pé como diz o poeta. Não pense que eu não notei suas treitas, deixou-me conversando com o Félix enquanto dava em cima do Fidelis, não foi? – Não, não foi, fui apenas gentil com Fidelis enquanto você embevecida e caída por Félix, deixava-o de escanteio e entregue a mim. Quer saber de uma coisa? O feitiço virou pra cima do feiticeiro, nunca vi um gato tão gostoso como Fidelis!... Namoramos o resto da noite. Ele sempre queria mais. Minha filha, ele deixou-me completamente estrompada, porém, saciada. Nunca encontrei um amante mais perfeito... – Caty ouvia sorumbática, reflexiva, tinha perdido as palavras e o ímpeto, começava lembrar que Felina e Fidelis tinham sido largados à mercê da sorte enquanto ela e Félix paqueravam, não era justo descarregar na boníssima Felina seu azedume e frustração.
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- Felina estou errada, peço-lhe desculpa. Fui cega, enganei-me pela aparência, você me desculpa? – Você e eu não tivemos culpa do que ocorreu. Ninguém enganou ninguém, nem Félix nos enganou! Seu orgulho de macho deixou seu sentimento ferido incapaz de dizer que era castrado. A culpa foi dos seus criadores pelo crime que cometeram contra à natureza. Por isto neguinha (tratamento carinhoso), dê-me um abraço e façamos as pazes da guerra que não houve – os abraços foram efusivos.
- Então, Caty, me conta como descobriu a fraqueza de Félix? – Ah Felina, na hora H, ele mesmo contou a história de sua castração choramingando e ao invés de ter raiva, fiquei com pena dele, passamos o resto da noite conversando sobre amenidades do dia-a-dia para desanuviar o seu sofrimento. – Caty, desse fato tiramos uma lição: não devemos concluir nosso pensamento sobre algo ou alguém pelo único critério da aparência. -Você tem razão Felina, as aparências enganam!...
E assim terminou a desastrosa aventura amorosa de Caty e a ventura de Felina.


Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de letras de Itabuna – ALITA
rilvan.santana@yahoo.com.br






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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 27/06/2012
Reeditado em 03/08/2012
Código do texto: T3747246 
Classificação de conteúdo: seguro


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