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Mãe Anastácia

Postado por Rilvan Batista de Santana 09/01/2013


Mãe Anastácia

R. Santana


            Assim que Christina deixa o Shopping Iguatemi de Salvador e pára no primeiro semáforo, o seu carro é tomado por moleques que vendem água mineral, biscoito caseiro, doces, frutas ou limpa o para-brisa com água e sabão numa operação recorde e eficiente. Christina não quis nada, dispensou todos os moleques com doçura e educação, porém, um deles insistiu e jogou dentro do carro, em seu colo, um panfleto que convidava visitar os serviços espirituais de uma mãe de santo pra o lado de Matatu de Brotas, a Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê.
            Christina, católica de nascimento, pouco se deixava guiar pela fé, não conhecia pelo nome, meia dúzia de santos de sua igreja, jamais se sensibilizou ou quis conhecer seitas de oguns, oxuns e orixás, terreiros, muito menos visitar a Yalorixá ou algum Babalorixá, para bem da verdade, ela não sabia nem o que esses títulos significavam, cresceu ouvindo falar de candomblé, pai de santo, mãe de santo, cigana, cartomante, vidente, sensitivo, bruxo, mas nada disso lhe tocava o coração, todavia, aquele panfleto lhe mexeu com o coração e a razão, mais com o coração do que com a razão, eis aí o que dizia o panfleto:
           
“Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê tem mais de 25 anos de santo e sua casa é aberta a todos que buscam... Atende com JOGOS DE BÚZIOS E CARTAS com hora e dia marcados, conforme sua ligação. Lembre-se: os orixás vão lhe mostrar o caminho certo a ser percorrido.”
               
Christina não conhecia Flávio nem Roseli, ambos tinham sido colegas de faculdade de Ricardo. Quando o seu marido convidou os seus ex-colegas de faculdade para trabalharem em sua empresa de venda de carros novos e usados, ela foi contra sem muitos argumentos convincentes, mais ciúme de Ricardo do que razões profissionais:
- Não se mistura negócio com amizade!
- Querida, estou contratando dois profissionais de qualidade administrativa comprovada, cursos no exterior, ele irá gerir o departamento comercial e Roseli o RH, não é só amizade! – Christina não se conteve:
- Eu sou idiota Ricardo? Vocês já foram pra cama! – Ricardo não tossiu nem mugiu, deu-lhe as costas e saiu. 
Enquanto subia a rua procurando a casa da Yalorixá Anastácia no endereço indicado no panfleto, Christina ia rememorando os argumentos do seu marido para trazê-los do Rio de Janeiro para Salvador, ela tentou demovê-lo da ideia, argumentou custos, que o mercado baiano estava cheio de bons administradores, não teve jeito, ele bateu pé e os dois estavam lá na empresa de Ricardo há mais de um ano. Agora, ele não se cansava de celebrar a vinda de Flávio e Roseli para capital baiana, ao passo que cada dia, ela se tornava mais infeliz com a indiferença e o desprezo do marido, por isto, resolveu, mesmo sem a fé dos seguidores, consultar a famosa mãe Anastácia para encontrar resposta que lhe tirasse daquela tormenta e cisma.
Certamente, a casa de terreiro da Yalorixá não era naquele luxuoso sobrado colonial, exceto a sala em que ela foi atendida, não havia vela a bruxulear os santos, não havia ostentação, tudo era discreto sem ser vulgar, porém, os móveis e o prédio denunciavam a prosperidade da mãe de santo. A antessala onde os consulentes aguardavam a Yalorixá parecia o consultório dum médico de nomeada.
- Filha, antes das cartas, oremos ao Pai Ogum para que as causas de suas dificuldades sejam reveladas e pisadas com os cascos do seu cavalo e eliminadas com a força de sua espada... – começou a Yalorixá:
   
- Ó Pai Ogum, a vida desta jovem senhora está confusa e conturbada, peço-lhe que lhe indique o caminho a seguir e lhe dê coragem e força para que ela esmague todo o mal que a persegue. Com sua proteção, ela terá segurança e o apoio de guias e orixás, que a paz de Oxalá seja perene em sua vida... Assim seja e assim será!  - feita a oração, a mãe de Santo começou a leitura das cartas, Christina nervosa e tensa não se aguentava na cadeira... A primeira carta foi Valete de Espadas:
- Filha, o naipe de espadas indica violência e desgraça. Homem sedutor, mas traiçoeiro e mau caráter lhe persegue... – Fez um “Anh!” e a Dama de Espadas caiu na mesa:
- Filha, ele e ela estão em conluio para lhe destruir!... Mulher bonita, mas perigosa e traiçoeira... – a mãe de santo foi interrompida por Christina:
- Meu Deus! Meu Deus! Ricardo deveria estar aqui, mãe Anastácia! – e desabou em pranto. 
A sessão de cartas foi interrompida, Christina emocionalmente desabou, mãe Anastácia e suas filhas de santo colocaram-na num quarto para descansar. Coincidência ou não, o Valete e a Dama de Espadas, significavam de maneira clara, os seus desafetos Flávio e Roseli. A mãe Anastácia não os conhecia, portanto, não era coincidência, as energias de Exu e Ogum, tinham sido canalizadas de maneira certa, decerto, essas entidades fariam justiça através da Yalorixá e foi sua promessa assim que Christina saiu do transe:
- Filha, a mãe Anastácia lhe promete com ajuda dos meus guias espirituais, debelar o mal de sua vida, a concórdia e a paz voltarão reinar no seu lar. O seu marido irá reconhecer o seu erro e lhe pedir perdão, mas para isto acontecer, a filha terá que ter muita fé e obedecer aos conselhos desta Yalorixá Xoroquê, a começar pela sua iniciação, deseja ser iniciada!? 
Sim! - promessa feita, promessa cumprida, dias depois o bem vence o mal.
Pareceu que tudo foi arranjado, pois Ricardo chegou num momento em que Roseli estapeava o marido numa crise histérica, xingando-lhe para quem a quisesse ouvir:
- Seu veado, seu xibungo, seu pedófilo, me traindo com esse fedelho – o rapazinho não se aguentava nas pernas de medo, trêmulo, não conseguia recompor sua roupa -, nós tínhamos um plano para nos dar bem com Ricardo e você não consegue deixar a bicha enrustida por mais tempo!?
- O quê!? – todos tomaram susto com o aparecimento inesperado do patrão. O plano foi esclarecido: Roseli bonita e atraente assediaria o seu ex-colega, agora, patrão, e, quando ele estivesse completamente apaixonado, o divórcio de Christina e a extorsão do marido traído, deixariam Ricardo em maus lençóis, inclusive, financeiro.
Ninguém sabe se as coisas feitas da Yalorixá foram providenciais, certo é que o mal por si se destrói sem a intervenção dos orixás.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 09.01.2013 

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