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O dia que eu me senti importante

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/01/2013


O dia que eu  me senti importante
R. Santana

Sempre gostei de ser o último da assembleia ou o último da mesa. Acho que nunca perdi o complexo de inferioridade, aprendi com o mundo. As pessoas, afora os bajuladores, nunca elogiam, sempre elas querem puxar o tapete. O primeiro romance que publiquei, fiz a introdução elogiando um conhecido professor de português desta terra, mas ao invés de me agradecer, de me parabenizar pela criatividade e coragem de exposição, ele teceu críticas sobre as sutilezas da língua, mais uma questão de estilo. Resguardando as devidas proporções históricas e saber, a mesma coisa das “Réplicas” e “Tréplicas” de Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro.
Às vezes, prefiro sacrificar uma próclise, uma mesóclise ou uma ênclise, por exemplo, mais por ser agradável ao ouvido do que não sacrificar as normas da gramática. A língua é dinâmica, quem faz o idioma é o povo, o que é errado hoje pelos filólogos, é incorporado amanhã pela força da repetência popular. É evidente que as convenções têm que ser seguidas, mas sem prejuízo da comunicação e da criatividade.
Caro leitor, eu não quero lhe ser enfadonho, o preâmbulo foi para justificar o título e o episódio que lhe irei contar e que me deu força e ânimo para continuar escrevendo, mesmo que alguém não goste do que escrevo, escrever para mim é um prazer, é um gozo, é uma maneira de exorcizar o “demônio de ideias” que me persegue.  E, sou feliz viver no tempo da Internet, pois não existe barreira de comunicação e divulgação, se daqui alguns anos o que escrevi não for alimentado, não for literatura, o destino será o lixo eletrônico.
O episódio ocorreu no início dos anos 70. Escrevi, naquela época, algumas crônicas para  o”SB Informações e Negócios”, semanário de Nelito Carvalho e redator o poeta e jornalista Plínio Aguiar. O “SB Informações e Negócios” era o jornal de maior prestígio de Itabuna, naquele tempo, um luxo editorial, combativo e independente, em seu quadro funcional integrava os melhores jornalistas e articulistas, os leitores e os intelectuais afirmavam sem pejo que “o domingo sem o SB em Itabuna não é domingo”, com razão, o jornal de Nelito Carvalho foi um diferencial no jornalismo itabunense.
Dentre essas crônicas que escrevi para o “SB Informações e Negócios”, duas ficaram registradas na minha memória: “Buracolândia” e “Colônia Nosso Lar: Obra de fachada”. A primeira, por tecer uma crítica humorada e de fina ironia pela buraqueira da cidade; a segunda, por mexer na obra social de Fernando Dantas, nesta quase fui linchado.
A “Colônia Nosso Lar”, hoje, é o “Lar Fabiano de Cristo”. Fernando Dantas adquiriu uma área significativa e fundou uma casa de utilidade pública que abrigava e alimentava menores carentes e que não tinham pais. Lá, havia escola, horticultura, quadra de esporte e um zoológico, tudo bonitinho, tudo arrumadinho, mas havia muita conversa desairosa na comunidade sobre a finalidade das verbas públicas e comportamentos suspeitos de funcionários com os menores. Com base nesses fatos, fiz a minha crônica: deu um pega pra capar, uma dor de cabeça dos diabos, ameaça de processo e outras coisas, mas Nelito e outros amigos influentes aguentaram as pontas e ficou o dito pelo não dito.   
Ney Ferreira, coronel da reserva da polícia militar, professor de Direito da UFBA, genro de Antônio Balbino e deputado federal, leu uma dessas crônicas e quando o saudoso deputado estadual Daniel Gomes informou-lhe que me conhecia, Ney Ferreira pediu-lhe que me convidasse, fui encontrá-lo no apartamento presidencial do “Lord Hotel”:
- Mas é um menino!...
- Ney, já passa dos dezoito anos de idade! – informou-lhe Daniel Gomes, brincando.
- Franzino e baixinho, Daniel, não lhe daria mais do que 17... – virou-se pra mim:
- Rapaz, eu gostei de sua crônica, você escreve como gente grande, parabéns!
Até hoje, desconfio que foi conversa de político, o deputado federal Ney Ferreira quis conquistar o meu voto e os votos dos meus eleitores, ele era candidato à reeleição e o cronista tupiniquim, candidato a vereador.
Porém, deixei seu apartamento cheio de sonhos de escritor: Nei Ferreira, advogado de quatro costados, genro de governador, presidente do Vitória de Salvador, oficial da polícia baiana, um dos próceres do MDB nacional, político de vasta experiência e prestígio tinha elogiado a minha crônica, confesso-lhe leitor, saí da lá com 2 m de altura de vaidade e 120 kg de presunção: - porque foi o dia que alguém me fez sentir importante!...

Autor: Rilvan Batista de Santana

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