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Carta para Cyro de Mattos R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 12/05/2013



Carta para Cyro de Mattos
R. Santana
Prezado Cyro de Mattos.

Recebi o seu livro de contos “Berro de fogo” com dedicatória de 25.04, deste ano. Fiquei feliz ser lembrado por um dos grandes escritores da Bahia, quiçá, do nosso país. Porém, se a nossa amizade permite, peço-lhe licença para substituir de sua dedicatória o termo “escritor” por “amigo”, pois não sou digno desse epíteto conferido aos nossos homens de letras: “Este Berro de fogo e outras histórias” para o prezado escritoramigo - Rilvan Santana, homenagem e amizade.  Itabuna, 25.04.2013, Cyro de Mattos”. 
Existe gente que pensa que é necessária muita erudição, ser um ás da língua portuguesa e versado noutros idiomas para ser romancista, contista, cronista, poeta, dramaturgo, ledo engano, escrever ficção é cachaça, o germe está no sangue, é loucura... Encher um texto de citações e referências, não significa que o sujeito é uma artista da palavra, porém, significa que essa pessoa é um erudito, um intelectual, ou, um pseudointelectual, geralmente, essas pessoas não produzem, mas vomitam e escrevem ideias alheias até os seus últimos dias de vida.
Nessa linha de raciocínio que o artista da palavra não necessita erudição convencional, mas imaginação e gênio, eu lembro-me que nos anos 60, a empregada doméstica Carolina Maria de Jesus publicou seu livro com o título: “Quarto de despejo” que se tornou Best seller nacional e foi traduzido para vários idiomas, hoje, é marco na literatura feminina do país.      
            Estimado Cyro, li o seu livro e gostei de tudo, todavia, fiquei impressionado com o conto “Berro de fogo”, não pelo tema e enredo, mas pela linguagem fácil, pela poesia, pela força da natureza, pela riqueza subjacente da flora e da fauna, o conto “Berro de fogo”, no meu jeito tabaréu de ser, não é prosa, sim, um grande poema escrito em prosa.
Ali, a posse da terra e os posseiros são pano de fundo, o que se valoriza é o conflito psicológico do homem em ceder ao desejo injusto dono da terra e não praticar a lealdade, a amizade e a justiça, é que torna o conto um paradigma, pois muito já se escreveu sobre o assunto de expansão de terra e expulsão de posseiros pela força. Ali, meu caro Cyro de Mattos, seu conto fez a diferença e o novo, o conflito de Dezinho em matar o seu amigo, o velho Jovino e obedecer ao coronel Francisco Barreto Magalhães Roboredo, o coronel dos olhos verdes, é o clímax da história de ”Berro de fogo”.
Dezinho homiziou-se na fazenda Vista Formosa, tangido do sertão dos Gerais, não para fugir da justiça, mas para fugir de um problema existencial que foi a perda de três dedos no estouro de um foguete e daí em diante ser chamado de “mãozinha” pelos amigos e conhecidos e rejeitado pelas donzelas casamenteiras, mas por ironia do destino, lá na fazenda Vista Formosa, é que matou o seu primeiro homem por tê-lo chamado de “mãozinha” e ser achincalhado pelos demais. 
Embora Dezinho tivesse sido aceito e valorizado pelo coronel Barreto, seu complexo de inferioridade não diminuiu, o foguete deixou para sempre sua assinatura não mão esquerda, o foguete deixou-lhe ferrado como se ferra um boi, porém, ele não teria cometido deslealdade e matado Jovino nas Serras dos Quatro Porcos se o homem que o acolheu, o coronel Barreto, não o tivesse empurrado para o buraco da maldade: “Mãozinha, peste é o pagamento que você me dá? Se esqueceu de tudo que tenho feito por você aqui nos meus pertences?”, então, Dezinho na casa do sem jeito, tirou a vida do amigo, mais que amigo, mas aquele que lhe deu a arte de viver.
O seu conflito existencial não desapareceu ter feito o gosto do coronel dos olhos verdes, ao contrário, mudou de tamanho, agigantou-se por ter derramado o sangue de um inocente. Quê custaria ao coronel tê-lo deixado morrer da morte natural? Nada! Além do mais, Jovino era dono de uma nesga de terra que se colocasse um jegue dentro o rabo ficaria do lado de fora. Usura do coronel, sim! Mau caráter, sim! Jovino não, Jovino o enfrentou e morreu traído pelo melhor amigo e algoz e não pelo covarde coronel!...
O sangue de um inocente não deixou Dezinho em paz. As aparições do corpo de Jovino vinham e voltavam na cabeça de Dezinho, cenas dantescas e noites indormidas.  Ele resolveu voltar para o sertão dos Gerais e lá trabalhou como ajudante de vaqueiro uma maneira de honrar o seu pai que foi um vaqueiro de quatro costados na fazenda do coronel Belmiro, mas o corpo de Jovino o perseguia e lhe rogava por justiça, então, largou tudo e voltou para o Sul da Bahia para reparar o irreparável.
Não mais voltou para o coronel Barreto, foi trabalhar como leiteiro na Vila de Santa Margarida Efigênia. Na Serra dos Quatis, ele ficou de espreita esperando o coronel Francisco Barreto Magalhães Roboredo passar. Não demorou muito tempo o coronel desceu pra cidade e no meio do caminho, no seu belo animal, Dezinho “berrou fogo” nos olhos verdes do coronel...
Estimado Cyro, “Berro de fogo” além da boa prosa, tem um detalhe suis generis, que não me lembro ter lido noutro lugar: é uma narrativa na primeira pessoa e o protagonista quem conta a história ao escritor-leitor, isto fica evidente no desfecho quando Dezinho lhe narra sua angústia: “Vosmecê quer saber se o sono voltou e eu passei a ter meu  sossego? Não voltou, Cyro.  Deu agora pra infernar os meus pensamentos a danação das duas mortes, a de Jovino e a do coronel Barreto...”
Às vezes, temos diferenças de ideias, mas reconheço sem nenhuma puxação que o ilustre alitano figura entre os escritores e poetas baianos de expressão maior como Jorge Amado, Adonias Filho, Telmo Padilha, Hélio Pólvora, Euclides Neto, Ildásio Tavares, Jorge Medauar, João Ubaldo Ribeiro e Sônia Coutinho e no dizer do escritor e jurista Marcos Bandeira na fundação da ALITA, “Cyro de Mattos, aqui, é o único que pra ser imortal só precisa morrer”.
Porém, nem sempre os grandes homens são reconhecidos por seus conterrâneos no seu tempo, foi assim com Jesus Cristo, Castro Alves, Paul Cézanne, Beethoven, Rui Barbosa, Anízio Teixeira, George Cantor, Paulo Freire, Noel Rosa, depois de mortos, vieram o reconhecimento e as honrarias. Tem sido assim com Cyro de Mattos pelo seu temperamento difícil e franco, tem sido alvo de cizânias e ingratidões, a maioria dos seus conterrâneos não sabe separar o homem limitado, pecador, efêmero, mortal, de sua obra literária, ilimitada, atemporal, perene, eterna.
Porém, é necessário esclarecer que Cyro de Mattos não é o único escritor e poeta que não goza de reconhecimento merecido, é cultural, coisa de povo subdesenvolvido... Se Machado de Assis, José de Alencar, Drummond, Cora Coralina, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, tivessem nascidos lá fora, seriam tão festejados tanto quanto William Faulkner, Ernest Hemingway, Sidney Sheldon, Morris West, Oscar Wilde, Goethe, Dostoiévski e Gorki, pois deixando de lado a nossa inferioridade tupiniquim, a nossa literatura é rica em quantidade de títulos, qualidade técnica e criatividade.
Enfim, obrigado pelo presente, para mim foi uma honraria receber seu livro autografado pelo Correio, de acordo o poeta: “Oh! Bendito o que semeia/ Livros… livros à mão cheia…” Itabuna, 12 de maio de 2013.
Saudações alitanas,
Rilvan Batista de Santana

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