Saber-Literário

Diário Literário Online

O cadáver - R.Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/11/2013


O cadáver

R.Santana

 

 

Ele estava ali estirado, o cadáver, o nada diante do tudo e tudo diante do nada, mas o tudo é o nada... Deus, ó Deus, onde estás que não vês o nada?! Nós todos, somos o nada diante de Ti! O nada é o cadáver, mas o cadáver já foi o tudo e o tudo um dia será o nada! O nada é o que existe...

            Meu Deus, meu Deus, por que o tudo um dia tem que ser o nada? Não basta à angústia do homem não saber de onde veio, quem é, e, para onde vai? É preciso ainda ter consciência que não é nada?! Se os nossos dobrados de lágrimas e dor chegassem a Ti, o mundo deixaria de ser imundo e seria mundo. Deus, ó Deus, se o homem fosse tudo, deixaria de ser besta fera, desumano, desalmado e passaria ser humano!... 

            Deus, ó Deus, as frias carnes depositadas ali na pedra fria da funerária, serão comidas pelos vermes sem cerimônia, não importa para o verme, se um dia essas carnes foram vestidas por cambraia, seda, algodão, casimira, brim, cáqui ou jeans.  Se a carne é de sábio ou de ignorante, o que importa para o verme que a carne será sua comida, depois, verme e carne serão pó e mais do que nada.

            Meu Deus, meu Deus, é justo ao homem o nada?! Nenhuma morte é digna, a morte é a indignidade da vida. Se o apóstolo diz: “Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.” (Cf. 1Co 6:19,20). Como justificar a presença do Deus no nada? Não seria mais fácil dizer que Deus nunca esteve no corpo do homem? Portanto, o nada sempre foi o nada desde o início dos tempos!...

Estava ali o cadáver, pranteado e amado pelo tudo, tudo que amanhã será nada. Cadáver maniqueísta que foi bom ou mau e que viveu bem ou mal, qual o lado que o verme primeiro vai comer? Se o verme for bom, primeiro ele vai comer o lado mau se o verme for mau, ele vai começar pelo lado bom. Na vida não existe meio termo, só existe o bem ou o mal.

Porém, quando a vida se esvai, resta, somente, o cadáver, a luta entre o bem e o mal não tem sentido. O tudo não chora à chegada do nada, o tudo chora à exiguidade da vida, o tudo percebe que não é nada.

Estava ali estirado, o cadáver, sem vida e sem alma, mas será que existe alma, independente do corpo? Ou, alma é a energia que anima o corpo e se exaure deixando o cadáver? Os cientistas já conseguiram captar (filmar) a “energia” que se esvai do corpo nos estertores da morte. Há, hoje, quem advogue que esse processo não é instantâneo, leva em média, 20 dias para que o moribundo se torne cadáver.

Filhos, mulher, parentes, e amigos, choram e se descabelam sobre o cadáver, mas o cadáver é o nada, então, eles devem estar chorando, lembrando de tudo que é nada, a separação é eterna, a ressurreição e a reencarnação são embasadas na fé... Será que o nada um dia voltará ser o tudo? Ou, sempre o tudo será nada?  Mistérios que o homem ainda não conseguiu decifrá-los, mas aceitá-los.

Ah, pais! Não devem chorar, porque o cadáver ali não é mais o seu filho, é um corpo depositado na pedra fria e indiferente da funerária, é um corpo estranho, não responde mais ao seu clamor, é o tudo diante do nada, ele não mais será acalentado no seio da família, pois o mundo da possibilidade exerceu o possível e desordenou a ordem natureza.

Em vão é o esforço do homem para juntar riquezas em detrimento da vida se o nada é o fim. Quantas vidas são ceifadas pelo vício e ambição material? Não se pode contar. O homem moderno ainda continua com idéias atávicas, sua mente pouco evoluiu em relação ao tempo, os cientistas afirmam que o cérebro do homem tem uma grande parte inexplorada. Se a mente humana tivesse desenvolvido todas suas potencialidades ao longo do tempo, sua espiritualidade fosse zen, ele tivesse mais amor à vida e à natureza, o nada seria diferente... 

Deus, ó Deus, por que fez do tempo o nosso cutelo? Não se entende a exiguidade de vida que destes a vossa criação diante do tempo infinito! Um meteorito leva centenas de anos para se desintegrar (morrer) no espaço enquanto o homem e as outras espécies, a vida é fugaz. Se a vida é tão curta, melhor é morrer... Se não nascêssemos não teríamos a angústia que somos nada, a exiguidade da vida desperta insegurança no homem desde o nascimento á morte.

Chora humanidade que hoje é tudo e amanhã será nada!... Chora alma minha que hoje é vida e amanhã será o meu cadáver depositado no inferno, onde os vermes não deixarão em paz as minhas frias carnes, devorando as carnes boas e as carnes más!... Se as promessas de vida eterna e remissão dos pecados de Jesus Cristo não se cumprirem, debalde foi nossa luta entre o bem e o mal!...

 

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons no site Recanto das Letras

03.10.2011.

1 Responses to O cadáver - R.Santana

  1. Realmente, mestre Rilvan Batista de Santana, somos: tudo e nada, nada e tudo. Nem podemos respirar por outra pessoa, nem narrar onde foi parar o fôlego do cadáver sem ser subjetivo. Entretanto, adorei o seu tudo em revelar e escrever que nada somos, mas para Deus somos tudo. Amei. Temos que dá sentido a vida, em vida, mesmo olhando para o cadáver que todos teremos de ser. Salve Deus. João de Paula.:.

     

Postar um comentário

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Patrono

Patrono

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Todos os nossos textos, abaixo, estão licenciados no Creatve Commons.
Tecnologia do Blogger.