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Apologia de Mateus R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 31/12/2013

Apologia de Mateus
R. Santana

Hoje, acordei tomado de dor no coração e na alma, não de dor física, mas de dor moral com autoestima no chão. Quero deixar de beber e não consigo... O delirium tremens toma conta de minhas mãos, é assim todas as vezes que deixo de beber, mesmo que seja por um dia, o remédio é tomar uma ou duas talagadas, aí me sinto outro homem. Eu decidi que doravante não irei mais beber, cheguei ao fundo do poço, daqui sairei sem vida, mas quero deixar de viver, sóbrio, consciente, não quero responsabilizar ninguém pelo ato tresloucado que penso tomar, nem usar o pretexto da bebida para justificar o meu fim.
Fui casado com Telma 35 anos, há 5 anos deixei-lhe sozinha com o apartamento, casa de praia, carro e mais da metade da minha aposentadoria. Não lhe culpo de minha desgraça, não é fácil conviver com alguém que faz do vício sua razão de viver, além do bafo permanente de bebida e crises de agressão por motivo fútil ou nenhum motivo. Telma é uma santa mulher, foi compreensiva e resignada todo esse tempo, ela não me deixou, eu que a deixei pra não vê-la mais sofrer, sem fanfarrice, deixei-a por amor aos cuidados dos filhos e desapareci... Hoje, moro numa velha quitinete alugada que há anos clama por reforma.
Não me queixo de Telma, mas me queixo dos filhos. A filha mais nova deixou o armário e mora com “sapatão” em Dom Avelar, periferia de Salvador. Não sei que fazem pra sobreviver, acho que montaram um prostíbulo do gênero homem com homem e mulher com mulher. O meu filho mais velho é um cabrão...  Não sei se seus filhos são meus netos naturais ou meus netos emprestados. Embora meu filho seja trabalhador, responsável, profissional de sucesso, é um marido banana, um frouxo, mulher e filhos fazem-no peteca!...
Porém, nos raros momentos de sobriedade, quando o pensamento me empurra para autocrítica, culpo a mim as falhas de caráter dos meus filhos, pois lhes dei escolas de primeira, aprendizado de piano, práticas de esporte, tudo lhes dei, menos exemplo de pai. Desde que deixei sua mãe, também lhes deixei... Se as circunstâncias da vida levam-me encontrá-los, fujo deles como o Diabo foge da cruz. Não quero mais vê-los, desejo-lhes que sejam felizes e compreendam que quis ser um bom pai, mas fui derrotado pelo vício e não quero meu retrato de alcoólatra pendurado em suas mentes depois que me for para sempre, alguns resquícios de dignidade e orgulho ainda restam em mim.
Casamos muito jovens, Telma é 2 anos mais nova, portanto, tenho 60 anos de idade, ela tem 58 anos de vida. Ela é uma mulher honesta, sempre viveu para o lar e filhos, não bebe e não fuma, é vaidosa, nos áureos tempos, renovava o guarda roupa o tempo todo, não tem vício, seu hobby é acompanhar a vida dos artistas e não desgrudar da principal novela da noite. Somos diferentes nos gostos: não gosto de novela, televisão só canal de esporte, em particular, o futebol. Acostumei-me com a rua, quando trabalhava, voltava pra casa no horário de dormir e finais de semana programava saída com os colegas de trabalho, eles não me faltavam em boates e barzinhos.
Fui adúltero todo esse tempo de casado com Telma, não por querer, mas empurrado pelas circunstâncias: minha mulher se negava me acompanhar nos compromissos sociais e no divertimento, então, buscava na rua o que não encontrava em casa. Eu sei que não lhe fui fiel, todavia, não existe nada pior do que um sujeito frívolo e sociável, casado com uma pessoa misantropa, antissocial.  Às vezes, a infidelidade nascia na mesa dum barzinho, duma festa, sem nada programado a priori, sem relação afetiva, sem amor, mas puro desejo animal de cruzar a fêmea, o sexo pelo sexo.
Festeiro contumaz, biriteiro social, Fred Astaire do interior, sempre fiz sucesso com as mulheres, curtia o momento... Depois da boate não mais encontrava a minha consorte por uma noite, jamais deixei que uma doudivana atrapalhasse o meu casamento com provocações e insinuações. Telma sempre foi preservada desse desgosto.  Ela sabia que depois do trabalho, eu ia pintar e bordar nas casas noturnas e bares, bebendo e me divertindo, mas que tudo ficava para trás quando eu atravessava a soleira da porta de volta pra casa.
Mais do que amar minha ex-mulher, eu me preocupava com sua dependência, ela não tem profissão, nunca trabalhou fora, não sabe fazer uma feira, não tem iniciativa numa situação limite, eu que tinha de providenciar as coisas mais simples, por isto, não lhe deixei antes por pena e o fiz depois de filhos adultos e arrumados. 
            Nunca pensei que o meu fim fosse o ostracismo depois de trabalhar mais de 35 anos num grande banco privado e ter constituído uma família em princípio estruturada.  Eu jamais me iludi quanto à aposentadoria do ponto de vista de salário, depois de 5 anos, o salário já havia achatado mais de 5 %, mas enganei-me em relação às amizades dos ex-colegas, recorri a muitos em vão... Gente que ajudei e continuava na ativa, deu-me as costas!...
            Por isso, resolvi suicidar-me. Sei que ninguém tem esse direito de dispor desse dom que Deus lhe deu, mas a vida para mim não tem mais sentido. Hoje, com 60 anos de idade, longe da mulher e filhos, sem amigos, longe de parentes, doente, escravo da bebida, não vejo outra saída para me libertar. Já havia pensado no suicídio outras vezes, todavia, alimentava sempre um fio de esperança que a vida me desse outro rumo. Esforcei-me, procurei ajuda de profissionais da área, participei de algumas sessões do AA em Salvador, mas terminei por desistir, a dependência da bebida era maior do que a minha fraca vontade.
            Nunca fui muito de igreja (não tinha tempo), não sei se existe vida depois da morte na reencarnação ou na ressurreição ou na metempsicose de Platão... Acho que a fé é uma semente que não cresce no coração dos incrédulos, nunca liguei pra essas concepções religiosas nem para esses preceitos filosóficos, para mim, acho que temos somente uma vida e temos que aproveitá-la ao máximo enquanto vale a pena e o fiz, agora, a minha vida é sofrimento e dor.
            Hoje, acordei mais cedo do que de costume, aliás, não preguei os olhos pensando no meu desfecho... Já havia preparado uma dose cavalar de estricnina e colocado na geladeira para tomar no dia seguinte, tempo para fundamentar minha decisão nesta apologia, mas às 11:00 horas, Judite, uma simpática senhora que o tempo não apagou sua beleza, moradora do andar de cima, bateu insistente em minha porta, pensei fazer ouvidos moucos, levei segundos infinitos antes de abrir a porta,  depois cedi, ela nunca havia me ocupado, pensei: “será a minha última boa ação”, fui ao seu encontro:
            - Algum problema dona Judite?
            - Não, é que o senhor é o único madrugador do prédio, vim ver se algo lhe tinha ocorrido... – estendeu-me a Bíblia já aberta e fiquei perplexo quando li:
"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". (Mateus 11:28-30).

            Coincidência ou ação da Providência?...


Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

1 Responses to Apologia de Mateus R. Santana

  1. Olhando por outro lado, o Mateus viveu e aproveitou bem seu modo de vida, fez sua diferença e estilo. Ninguém é igual a ninguém, adestrado, domado, alguém fez a diferença e viveu ao seu bel-prazer. O Mateus soube fazer sua vida. Quem deve julgá-lo? Eu, a mulher dele, a sociedade? Ou Deus? Em relação a ser salvo da estricnina, é, realmente, uma providência divina. Fica o contexto para o leitor fazer as considerações finais. Isso é que é arte de escrever, onde o autor e o leitor ficam à vontade para decidir e opinar. João de Paula.:

     

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