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Adultério de sangue R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 04/01/2014

Adultério de sangue
R. Santana


O negro Lubião, filósofo do povo, dizia que: “quem conta um conto, aumenta um ponto”, não deixa de ser verdade, mas o conto mesmo com pontos a mais ou pontos a menos, é diferente de história da carochinha que é produto da imaginação popular e não história de verdade, portanto, caro leitor, permita-me que lhe conte essa história vulgar de “Adultério de sangue” que ocorreu na cidade de Simão Dias, interior do estado de Sergipe. 
            Hoje, ainda é comum mulheres e homens morrerem por prática de infidelidade conjugal, porém, bem menos do que no meado do Século XX, naquela época, infidelidade era tipificada por lei de crime contra honra e passível de processo e crime de morte, além de grande intolerância social. A traição feminina não era tolerada de nenhuma forma e a traição masculina a sociedade fazia vista grossa, salvo, quando o atraiçoado resolvia lavar sua honra com sangue.
            Para evitar contaminação do autor nessa história de "Adultério de sangue”, é que lhe convido leitor, deixarmos de lado os “entretantos” e partirmos para os “finalmentes”, que os protagonistas falem o que ocorreu naquele dia bonito de Sol naquele pedaço de chão nordestino:
            - Pelo amor de Deus, compadre Dedé, não me mate nem a Júlia! – protegendo a amante com o corpo da mira da arma do marido.
            - Não me chame de compadre, Dedé!
             - Somos compadres de batismo, somos primos, temos o mesmo cognome, temos negócios juntos... – o marido traído o interrompe:
            - Chega! – a esposa interveio:
            - Dedé, ultimamente, você não liga pra mim, os nossos filhos que ainda nos mantêm juntos!
            - Mulher, tu és venenosa e dissimulada, ainda ontem, tu me fizestes juras de mulher apaixonada, embaixo dos lençóis! – o amante empurra a amante pra o lado e a encara:
            - É verdade, Júlia? Se for, tu és maquiavélica e dissimulada!
            - Eu não sou maquiavélica nem dissimulada! Tu não és santo, tu que me conquistaste com promessa de casa em Aracaju e dinheiro, tu que urdistes toda trama, jamais quis trair meu marido!
- Tu és cínica, não mexi uma palha para te conquistar, tu arquitetaste várias situações comprometedoras, principalmente, quando compadre Dedé viajava, quantas vezes eu fui chamado por ti? Tu fingias de doente...
O marido, agora, aturdido e cheio de dúvida (in dubio pro reo) não queria mais fazer justiça por conta própria, pois já não sabia qual era o mais reles, todavia, continuava empunhando a arma pra ambos, talvez tudo acabasse diferente se o amante não usasse de um velho truque para surpreendê-lo:
- Tenente Raimundo! - instintivamente, Dedé se virou assustado com a presença inoportuna da autoridade policial máxima do município que acumulava as funções de chefe do destacamento (6 soldados, um cabo e um sargento), e, delegado da cidade, mas não havia nenhum policial, um velho truque para distrair o adversário, o bastante para que Dedé amante lhe pulasse em cima e tentasse tomar o seu revólver,  mas no esfrega-esfrega, Dedé disparou um tiro à queima roupa que lhe trespassou o coração e o amante despencou agonizante no chão. Júlia aproveitou o entrevero e tentou fugir, não foi muito longe, foi agarrada e esfaqueada por aquele que deixou de ser seu marido, o marido traído.
A repercussão do duplo homicídio chegou à capital do estado, ganhou manchetes nos jornais. O governador designou um delegado doutor para acompanhar o processo. Dedé se apresentou às autoridades depois do flagrante. Não se falou noutra coisa em Simão Dias por muito tempo. A maioria absoluta da população lamentou a morte dos amantes, mais de Dedé amante, mas achava que Dedé enganado fez o que tinha de fazer, ele estava na casa do sem jeito, honra manchada se lava com sangue...
O júri foi concorrido, chegou jornalista de tudo quanto foi lugar. Não havia televisão nem emissora de rádio, mas o serviço de alto falante da cidade passou dias anunciando o libelo jurídico. As famílias das vítimas contrataram dois advogados da capital e Dedé contratou um rábula da terra de reconhecido saber jurídico.
Foram três dias de embate forense. O promotor foi mais pálido em seus argumentos do que uma camisa desbotada pelo tempo. Os advogados de acusação fizeram jus ser escolhidos pelas famílias das vítimas, porém, o velho rábula arrasou, usou de todos os recursos disponíveis para provar a inocência do seu cliente, o mais decisivo foi um empregado do comércio de ambos que testemunhou as vilanias das vítimas. Disse que fazia tempo que Dedé era enganado, debochado e todos os seus empregados tinham conhecimento do adultério de sua mulher com o seu primo e não entendia por que o patrão levou tanto tempo pra descobrir a infidelidade do primo e de seu cônjuge.
Os jurados decidiram pela inocência de Dedé que ganhou a liberdade por 7 X 0. Os seus amigos e familiares festejaram sua saída do presídio e a cidade de Simão Dias continuou com sentimento de macho e não de cabrão. Dedé amante foi pranteado por muito tempo ao contrário de sua amante Júlia. Ela era lembrada pela prevaricação e responsável pela tragédia e foi sepultada para sempre na consciência das pessoas. 

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons


1 Responses to Adultério de sangue R. Santana

  1. Mestre Rilvan Batista, seu conto, sua história, parece um filme passando diante de uma tela a frente da gente, em 3D. a gente fica participando da historia , além de ler. Parabéns por tamanha criatividade literária. Seu leitor. João de Paula.:.

     

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