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Joaquim Maria Machado de Assis R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 07/08/2015

Joaquim Maria Machado de Assis - 
R. Santana

Alguém poderá argumentar lendo este texto como que no século XXI, um incauto qualquer ainda perde o seu tempo para escrever sustentando o fatalismo, o determinismo ao invés de sustentar o livre arbítrio, tese consumada por tantos doutos das ciências humanas em voga e das tradicionais. Responder-lhe-ia que estou usando do seu livre arbítrio e não do meu determinismo para colocar no papel as minhas idéias retrógradas. E, entre os textos científicos que hoje dizem uma coisa e amanhã diz outra, prefiro ficar com a sabedoria popular que é empírica e milenar. Se não fosse ousadia (não é nova a proposta), sugeriria aos homens de ciência que eles construíssem um tratado conciliando os dois pensamentos filosóficos, porque somente crendo num destino traçado pelo Criador é que se explica essa história de determinação e sucesso literário de Machado de Assis.
Mas se alguém contra-argumentar usando o livro de Deus que Ele deixou como herança para o homem a escolha do bem e do mal, replicarei que lá também está escrito que “...não cairá uma folha da árvore sem o consentimento do Deus”, noutro lugar está escrito: “... ele nasceu cego para que se manifestasse a vontade de Deus”, ou seja, temos um livre arbítrio relativo com forças desconhecidas por trás.

Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e morreu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Filho do mulato Francisco José de Assis e da portuguesa da ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado. O pai de Machado era descendente de escravos alforriados. Cedo ficou viúvo, casou-se com Maria Inês. Moraram algum tempo, no sítio de D. Maria José Barroso Pereira, esposa do senador Bento Barroso Pereira, como agregados.
Com a morte do marido, Maria Inês muda-se para o bairro de São Cristóvão e consegue um emprego de doceira numa escola do bairro. A história não lhe é justa porque ela se não foi responsável diretamente na sua formação intelectual, ela o foi na sua formação moral e nos meios de sua subsistência na adolescência.
Pasme leitor, não existe registro que Machado tenha freqüentado escola regularmente. Sabe-se que ia vender doces na escola onde trabalhava a madrasta. Acredita-se que na hora das aulas, Machado ficava às espreitas assistindo as aulas.
Aprendeu francês com madame Gallot, proprietária de uma padaria. Inglês e latim com o pároco de sua igreja e ainda o ajudava como coroinha. Mais tarde aprendeu alemão. Sempre foi um autodidata intelectual. Traduziu Vítor Hugo e Edgar Allan Poe.
Os seus conhecimentos versavam em Filosofia, História Universal, Português, Sociologia, História do Brasil, além dos idiomas estrangeiros. Ou seja, açambarcava todo conhecimento de sua época.
Era uma figura esteticamente inexpressiva: mulato, baixo, gago, epilético. Nada chamava sua atenção. Embora não fosse antipático, era por demais tímido e retraído, talvez, pela vida solitária que levou na infância e adolescência, morrendo-lhe cedo a única irmã. Sua determinação, sua inteligência, seu gênio universal, entretanto, fizeram-no o maior escritor brasileiro de sua época e um dos escritores mais lidos do mundo.
Carolina Xavier de Novaes, portuguesa, irmão do inexpressivo poeta Faustino Xavier de Novaes, foi sua mulher e seu principal porto seguro. Quatro anos mais velha do que ele, Carolina entrou na vida de Machado e fez morada, não pela beleza física, possuía atributos naturais comuns às jovens de sua época. Porém, suas qualidades morais e intelectuais eram raras, de certa forma contribuíram para quase três décadas de feliz convivência conjugal. Conhecia e lia os principais romancistas brasileiros e portugueses, além dum conhecimento razoável da cultura francesa e inglesa.
Aos 15 anos publica seu primeiro trabalho literário na revista Marmota Fluminense. Seu primeiro emprego de relevância foi de aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial que tinha como diretor o famoso romancista Manoel Antônio de Almeida. Muitos anos depois ingressa no Ministério da Agricultura Comércio e Obras Públicas e aposenta-se como diretor do Ministério da Aviação e Obras Públicas, cargo mais importante depois do ministro.
No mundo intelectual, Machado foi cronista, tradutor e crítico literário. Escreveu poesias contos e romances. Embora tenha sido influenciado pela escola romântica e realista, Machado é Machado, tem estilo próprio.
Machado de Assis é um dos maiores escritores da língua portuguesa pela criatividade, capacidade analítica, sintética e uso correto da gramática. Cada palavra dos seus textos é pesada, medida e calculada é como se ele tivesse tido o cuidado de ir colocando tijolo por tijolo numa grande parede de tijolos à vista. Olha o prumo, se o tijolo não precisa ser cortado para se adequar ao espaço ou se ele não está destoando quanto à cor e ao tamanho dos demais. A concisão ortográfica dos termos, capítulos curtos (vide Dom Casmurro), suspense e dúvidas do desfecho, histórias curtas (por isso cultivou o conto mais do que o romance), textos introspectivos, desconfiado quanto à essência do ser humano, entretanto, são textos amadurecidos e recheados de humor.
Nos seus primeiros livros, embora tenha desenvolvido conteúdos inteligentes quanto à forma, nota-se um romantismo ingênuo, com histórias românticas em que o leitor, a priori, imagina o desfecho. Livros como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e outros marcam a primeira fase da obra de Machado de Assis de um autor que ainda não tinha definido o seu estilo. Há quem afirme que até nessa primeira fase, Machado é original.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro etc., temos aí um escritor amadurecido, um artista da palavra e do enredo. Seus temas são universais, é o primeiro escritor brasileiro e quiçá do mundo que um defunto volta para falar de sua vida e numa atitude mórbida saúda o verme responsável pela degenerescência da sua matéria. Em Quincas Borba fala de amor e desilusão, todavia, a obra que atinge o ápice, particularmente, é Dom Casmurro.
Dom Casmurro é uma obra narrativa em que o autor explora fundo os mistérios da alma humana e da simulação. Todos personagens escondem o seu verdadeiro eu, começando por Bentinho principal personagem da história que passa o tempo todo simulando o conflito entre seguir a carreira eclesiástica para cumprir as promessas de D. Glória, sua mãe, ou gritar para o mundo seu amor por Capitu.
José Dias, falso médico, agregado da família Santiago e fiel escudeiro de Bentinho, exerceu uma diplomacia ímpar para conciliar os conflitos e os interesses da família de D. Maria da Glória até sua morte.
Escobar é a peça chave de um triângulo amoroso que não deixa o leitor certo de sua infidelidade. A semelhança de Ezequiel e Escobar pode ter sido estratagema que Machado colocou para justificar a traição de Capitu ou deixar o leitor mais cioso dos fatos, pois por ironia do destino, Capitu era parecidíssima com a mãe de Sancha Gurgel, mulher de Escobar, sem nenhum parentesco ou afinidade, não chegou conhece-la.
É sabido que é uma trama com lugares comuns que se passa na alta sociedade do Rio de Janeiro. Entretanto, é uma verdadeira arte na construção das frases, nos capítulos curtos, no elemento da dúvida e na adoção de um vocabulário inteligível.
Em 20 julho de 1897, a Academia Brasileira de Letras torna-se uma realidade e Machado de Assis é seu primeiro presidente, ao lado de Joaquim Nabuco, Barão de Lorato, Raimundo Correia, Aluísio de Azevedo, Clóvis Beviláqua e tantos outros expoentes das nossas letras.
Fechamos esta crônica com a tese de conciliação do determinismo e do livre arbítrio. Como um negro, pobre, gago, epilético, suburbano, que não freqüentou a escola regularmente, pode se tornar um dos maiores escritores do mundo e o fundador e presidente de uma Academia de Brasileira de Letras? E a resposta é sempre evocar a missão que cada um tem aqui neste pequeno e grande planeta.

Rilvan Batista de Santana
 Licença: Creative Commons 
Itabuna, 12 de fevereiro de 2008.

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