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A dama de preto R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/05/2017


A dama de preto

R. Santana


I
O senhor Manduca era o seu fiel escudeiro. Percorriam um raio de mais de 30 km quase todos os dias. Não trocavam confidências, eram conversas amenas, agradáveis, do dia-a-dia. Ele nunca lhe perguntou o que ela fazia naqueles becos, naqueles cortiços, naqueles prédios velhos, naqueles cafofos, naqueles bairros pobres e naquelas habitações miseráveis. Apenas cumpria suas ordens e mais nada. Ao longo desses 3 anos que se conheciam, a rotina era a mesma: ela parava o carro no estacionamento do Jacarandá Shopping Plaza, fazia algumas compras, do feijão ao remédio, de quando em vez, algumas roupas, deixava o seu carro estacionado, entrava no táxi de Manduca e chispava para algum endereço.
Tinham se conhecido naquele estacionamento por conta do acaso. Manduca tinha ido levar uma senhora ao shopping e na saída, foi parado por aquela jovem que lhe estendeu um endereço:
-Boa noite, o senhor conhece esse endereço? – perguntou-lhe.
-Conheço o bairro, lá não será difícil localizar a rua! – respondeu-lhe.
Ela era uma linda morena, esguia sem ser comprida, de formas proporcionais, sistematicamente usava roupas, calçados e acessórios pretos, por isto, o epíteto que lhe dera Manduca: “a dama de preto”. Apresentara-se como Paula, só Paula, sem nome de família e sem sobrenome. Ele nunca lhe perguntou onde morava, onde trabalhava, o que fazia e de quem descendia, se casada ou solteira. Para Manduca interessava-lhe a féria do dia. Aposentado, comprou um táxi para ajudar no sustento da mulher e de um filho adulto deficiente. Não era íntimo de Paula mas no decorrer desse tempo, pouco e pouco ia surgindo uma amizade e um respeito paternos. Não conhecia os propósitos da filantropia de Paula, dos seus mistérios, dos disfarces que ela usava para não ser reconhecida nem agradecida. Ultimamente, lhe aprazia mais as horas que passava ao seu lado, ser testemunha das ações filantrópicas daquela mulher, do que o pagamento pelas viagens do táxi. Não ligava mais o taxímetro, fazia uma estimativa, tirava a média por baixo e fechava a fatura todo final de semana.


II


Pela terceira vez eles entravam no Jardim das Papoulas, embrião de um bairro pobre da terra soteropolitana. Um bairro onde o poder público quase ainda não tinha chegado, de ruas estreitas e grandes ladeiras. Era um acinte à natureza chamar aquele antro de promiscuidade e pobreza, de moradores miseráveis de jardim. O nome papoula era uma alusão tosca da planta que fornece ópio e bonitas flores. O nome oficial era bairro do Pequeno Rio, uma homenagem dos edis da cidade a um grande ribeirão que corta uma mata que fica na extremidade sul daquele bairro e é o point dos seus moradores.




Os moradores não gostaram do nome oficial do bairro. No Brasil, é comum leis e decretos de cima para baixo nascerem mortos, pois são engendrados e paridos nos gabinetes dos políticos sem ouvir os setores interessados. Por isto, Correios e prefeitura tiveram de engolir o nome que o povo batizou. No início as correspondências oficiais vinham com a ressalva: “Pequeno Rio - Jardim das Papoulas”, porém, o comércio privado e seus moradores insistiram no apodo Jardim das Papoulas que os legisladores que sucederam os antigos, acharam por bem fazer uma ementa: “... doravante o nome Pequeno Rio será substituído oficialmente por Jardim das Papoulas, atendendo aos interesses daquela comunidade... Sala de sessões da Câmara... Salvador...”, os seus moradores pouco se lixaram para essa retardatária mudança...
Manduca parou a táxi no final de uma rua onde uma escada de alvenaria incrustada num barranco dava acesso a uma chapada com várias casas e barracos. Ele e Paula subiram à escada levando várias sacolas de mantimentos e remédios. Era a terceira vez que Paula assistia àquelas pessoas, naquela tarde, o endereço escolhido, foi de uma família que tinha sobre um catre um filho desmilinguido e doente.
-Dona, já não tinha nada pra comer. A senhora foi enviada por Deus!... – disse a dona da casa.
-Passou a febre do menino? – perguntou-lhe Paula.
-Já. Levei ele ao posto médico. O ex-patrão de meu companheiro comprou os remédios. – esclareceu a mulher.
-Não quero que falte nada ao menino, lembre-se que você prometeu-me como afilhado!... – cobrou-lhe Paula.
-Prometi-lhe e vou cumprir D. Paula. Estou deixando arranjar um emprego. Fiz o curso médio. Por amor vim parar nesse lugar. Sou devota de Stº. Expedito, padroeiro das causas impossíveis, irei dar volta por cima se Deus quiser!... – prometeu-lhe a mãe do menino.
-Não se aflija Clara, estou deixando que haja um tempinho para encaminhar com o padre daqui o dia desse batizado. Quanto às despesas, deixe-as comigo. – garantiu-lhe Paula.

III


À saída do Jardim das Papoulas, Paula e Manduca se deram conta que o dia tinha escurecido. Paula ocupada com o menino e sua mãe, não tinha percebido que o tempo tinha passado rapidamente e naquele ermo de casas e ruas mal iluminadas, cedo ainda, assim que o Sol se escondia, era uma ousadia, estranhos transitarem ali àquela hora, por isto, cuidaram de retornar o mais rápido possível.
O táxi tinha ficado embaixo, em frente dum barraco, uns 20 metros distantes da escada. Quando retornaram, a rua exibia uma iluminação lusco-fosca, não se via uma alma viva, de repente, surge um mulato escuro, saído do nada, de arma em punho, determinando:
-Passe o dinheiro e a chave do carro, coroa!!! – gritou com Manduca.
-Pode levar o carro e esses relógios. Não temos dinheiro!... – intercedeu Paula.
-Não lhe perguntei sua vadia, se não tem dinheiro, vai ter que me dar outra coisa que gosto muito e têm dias que não sei o que é mulher – Paula tremia como vara verde. Se mantinha de pé com grande esforço. Manduca o tempo todo na mira do malfeitor. Embora não fosse covarde, as circunstâncias lhes eram adversas. O mulato além de novo, era alto e forte, Manduca não daria para meia missa, o meliante o arrebentaria num safanão, ele era o senhor absoluto da situação mas o adágio popular diz que quando Deus tarda, Ele vem no meio do caminho:
-Irmão, deixe o pessoal em paz!... – o elemento por pouco não disparou a arma do susto...
-Não se meta! Essa vadia vai ser minha e quem atravessar no caminho, deixo-o furado como uma tábua de pirulito, vá para o inferno seu negro nojento! – o negro não se mexeu. Com voz calma, parcimonioso nos gestos, tentou apaziguar os ânimos, não se incomodando com os insultos:
-Zé Maria, essa dama não é vadia, é uma moça da sociedade e vai ser a madrinha do meu filho com Clara, então irmão, vamos deixar eles saírem numa boa!... – cutucou o diabo com vara curta. Numa destreza felina, Zé Maria deu-lhe um tapa com o revólver que o negro saiu cambaleando e sangrando pelo nariz. A reação foi cinematográfica, veloz como um raio, o negro puxou uma faca e gritou: “olha Zé!...”, quanto este virou-se, uma faca lançada com destreza e velocidade, penetrava-lhe no abdome, um palmo acima do umbigo; outra, lhe foi cravada no peito, em milésimo de segundo. O meliante, antes de cair, ainda atirou a esmo. O negro com frieza inglesa, limpou o nariz que continuava sangrando e falou-lhes:
-Fiquei na casa do sem jeito. Se não fosse ele, seríamos nós! Quem beija a boca do meu filho a minha endossa. Eu não deixaria que ele fizesse nenhuma maldade com a Senhora, comadre, nem que tivesse de tombar neste chão. Agora, fujam daqui, a polícia não tarda chegar!...

IV



O fato deu na página policial do jornal “A VOZ”, no rádio, na televisão, sem muito estardalhaço. Era mais um crime atribuído à queima de arquivo, briga de quadrilha, calote de droga etc. Todavia, o redator da matéria do principal jornal, chamava à atenção das autoridades, que a vítima José Maria Sodré, não tinha passagem pela polícia como viciado ou narcotraficante, não obstante ser malquisto por muitos moradores de Jardim das Papoulas, por ter um gênio irascível e briguento.
O negro Zé Maria não tinha envolvimento com droga. Tinha fama de mulherengo e meia dúzia de filhos com mulheres diferentes. Era briguento, principalmente, quando entornava na garganta uns goles de cachaça. Afora isso, era prestativo e solidário com a comunidade. Carapina requisitado em grandes construções de casas e prédios. O seu sepultamento foi acompanhado por uma enorme quantidade de gente. Conjeturava-se que sua morte tinha sido obra de algum marido traído.


V


A “dama de preto” desapareceu do bairro e da vida de Manduca. No dia do crime, ele a tinha trazido de volta para o estacionamento como fazia todos os dias. Manduca ainda esteve no shopping várias vezes na esperança de encontrá-la mas debalde. Fez o mesmo trajeto uns 20 dias. Não entendia Paula ter desaparecido sem deixar rastro, afinal, ambos não tinham cometido nenhum crime, exceto não ter comunicado o fato à polícia. Mas como iriam explicar a história de um negro que saiu da nada e lhes salvou a vida? E, como ele iria falar de Paula, dessa mulher misteriosa se ele não conhecia sua identidade? Será que ela se chama Paula, Maria, Joana, Patrícia ou nenhum desses prenomes? Tinha-a apelidado por “dama de preto” pois era o seu traje preferido. Lembrou-se que o cabelo não parecia original mas uma sofisticada peruca. Não sabia e não tivera interesse nem de gravar a placa do carro dela, não era adivinho do que viria ocorrer, interessava-lhe somente ganhar seu dinheiro, enfim, estava atado de pés e mãos. Uma semana depois do sinistro, recebeu por um moleque, um envelope recheado de dinheiro com um bilhete feito de recorte de letras: “...pelo serviço prestado, obrigada. Confio na sua discrição”. Quando lembrou do moleque, era tarde...
Pensou em voltar ao bairro do Jardim das Papoulas, localizar o negro, o moleque e sua mãe, porém, seria uma empreitada arriscada. Seria identificado e alvo de vingança dos parentes da vítima, do criminoso e seus comparsas. Resolveu deixar que as coisas seguissem seu curso e a polícia desse o desfecho.



VI


Um mês depois, Manduca papeava com os colegas, quando uma viatura da polícia civil pára e do carro alguém pergunta-lhes:
-Os senhores conhecem Armando Nonato dos Santos? – os taxistas ficaram um olhando para o outro, absortos, exceto Manduca, que saindo do meio deles apresentou-se:
-Sou eu!...



Foi levado â delegacia. Ele soube lá que num telefonema anônimo, a polícia ficou sabendo detalhes do crime, a exemplo do dia, da placa do carro e a quantidade de pessoas no local.
-Senhor, qual foi sua participação nesse crime? Perguntou-lhe o delegado.
-Nenhuma doutor!
- O senhor foi visto no lugar do crime, acompanhado duma mulher e mais um elemento além da vítima!
-Fui levar uma passageira lá, quando ia voltar...
-O senhor conhece essa mulher?
-Não!
- O senhor está mentindo! Os senhores foram vistos várias vezes naquele bairro. Temos testemunhas... – Manduca ficou perturbado por uns instantes, mas retornou à normalidade com fleuma de quem não tem culpa.
-Doutor, eu não sou mentiroso. Na minha idade, não tenho nada para esconder. Realmente, fui lá algumas vezes com aquela senhora. Ela pedia-me para estacionar o carro, pegava os alimentos, remédios, às vezes, roupas e desaparecia por algum tempo naqueles becos e ruas. E, eu permanecia no meu carro esperando ela voltar. – esclareceu Manduca ao delegado.
-Do jeito que o Senhor fala, essa mulher é a reencarnação da madre Tereza de Calcutá ou de irmã Dulce! – ironizou o delegado.
-Senhor, já lhe contei tudo que sei. Para mim, essa jovem senhora é uma pessoa do bem. Não sei detalhes de sua vida, o que faz e onde mora. Sei que se chama Paula, foi o nome que me deu. Depois do que ocorreu, tenho dúvidas se é Paula!...
-Para mim, o senhor foi omisso e conivente com o crime. Vou provar sua culpabilidade e quero ver a justiça deixá-lo mofando por um bom tempo atrás das grades – Manduca estava com vontade de gritar.
-Perdão doutor, não fui omisso nem conivente. Fiquei com medo de uma retaliação. Fui chamado e aqui estou, dizendo tudo que sei, entretanto, não posso incriminar ninguém ou ser falso testemunho.
O delegado encaminhou o inquérito à justiça, incriminando o Sr. Armando Nonato dos Santos, por conivência, omissão e obstrução de provas pelo crime de morte de José Maria Sodré, vulgo Zé Maria. O Ministério Público o indiciou e a Juíza de 3ª. entrância, da 2ª. Vara de Criminal da Comarca de Salvador, aceitou. Por ser réu primário, sem flagrante delito, ter endereço fixo, seu advogado por habeas corpus, solicitou da justiça que seu cliente respondesse o processo em liberdade.
Na saída do presídio, quando o criminalista Dr. Mardson Abreu Jr. foi ao seu encontro, Manduca expressou sua incompreensão com o delegado:
-Ele me tratou como um marginal. Queria que eu desse conta da minha cliente e do criminoso. È justo isso, doutor!? – esbravejou.
-Ab hoc et ab hac senhor!
-Não entendi nada, doutor!
-Senhor, é uma expressão em latim para dizer que alguém atirou a esmo, a torto e a direito... isto é, o delegado não sabendo quem é o verdadeiro culpado ou culpados, lançou-lhe acusações gratuitas, convencido de que o senhor sabe do paradeiro dos demais. – explicou-lhe o advogado.
-Acredite em mim, doutor! Juro por Cristo que é o Juiz dos juízes que não conheço essa gente das Papoulas. Até a mulher que sempre pegava o meu táxi, não sei sua identidade. Se encontrá-la por aí, acho que a reconhecerei, mas não sei o seu nome o que faz, onde mora, a família... conversávamos amenidades e quando perguntei-lhe porque não fazia aquele trabalho às claras para que servisse de exemplo, ela foi taxativa: “... não quero louros nem estátuas se não quiser me prestar serviço, procuro outro”. – justificou Manduca.
-Como advogado, sua palavra para mim tem fé de ofício, tenho o dever e a obrigação de sustentar no tribunal ou onde quer que valha, mas como pessoa, comungo com o delegado, sua história parece um conto de fada!... - disse-lhe Dr. Mardson.



VII


A audiência em juízo foi agendada para um mês depois. Manduca andava inquieto, estressado, preocupado, como iria depor na justiça fatos que não podia prová-los. Para sua mulher, tinha escamoteado a verdade, não lhe dissera que a “dama de preto”, fazia aquele trabalho há uns 3 anos, seria o mesmo que cutucar onça com vara curta. Ela iria lhe encher o saco com suas ciumeiras. Com sua imaginação fértil, seria capaz de criar histórias da carochinha, do arco da velha, de amor e infidelidade conjugal.
Faltando uns quatro ou cinco dias para a audiência, ao cair da tarde, Manduca preparando-se par ir embora, enquanto conversava com um colega de trabalho, alguém prendeu uma mensagem no limpador de pára-brisa dianteiro do seu carro, onde se lia: “... estou acompanhando seu processo. Fique despreocupado que os honorários do seu advogado, serão pagos por mim. Por motivos profissionais e pessoais não poderei me apresentar como partícipe desse infortúnio, mas prometo-lhe que o verdadeiro criminoso vai apresentar-se”.
Manduca leu e releu o bilhete. Paula, Maria, Joana, Josefa ou o diabo que valha, era mais arteira e ardilosa do que imaginara. A polícia não conseguira localizá-la, não obstante ela não ter praticado nenhum crime, afora a obrigação moral que ela teria de se apresentar à polícia e ter relatado todos os fatos para inocentá-lo
O fórum estava movimentado. Era a primeira audiência. O juiz iria ouvir Manduca. Ele já tinha decorado tudo que iria responder. Não acrescentaria um til nem tiraria uma vírgula do que foi dito na delegacia. Também, não faria nenhuma referência ao bilhete recebido. Simpatizava com o trabalho filantrópico de Paula, ademais ele e ela não tinham nada com a história do crime, tudo não tinha passado duma fatalidade, ele e ela não eram réus de joça nenhuma, mas vítimas da marginalidade que joga solto no país do Oiapoque ao Chuí. Não compreendia o interesse das autoridades em apurar esse crime de marginais. Teve a oportunidade de conversar com o seu advogado:
-Doutor a polícia e a justiça empenhando-se tanto em descobrir quem matou esse marginal? – questionou Manduca.
-Soube que a vítima trabalhava e era o protegido dum ricaço da construção civil. Deve estar custeando os advogados. Aliás, deve ser muito rico, pois a família contratou dois eminentes criminalistas.- esclareceu-lhe Dr. Mardson.
-Bem logo vi que debaixo desse angu tem caroço!... – brincou Manduca.
O movimento de advogados, oficiais de justiça e promotores era grande, quando surge no corredor uma jovem morena, alta de cabelos castanhos e traje bege, sapato alto, tudo nas esticas, ladeada por uma moça mais jovem e um rapaz, com algumas pastas nas mãos, quando alguém anuncia:
A juíza chegou! – foi o suficiente para que alguns puxa-sacos fossem ao seu encontro e sua ante-sala ficasse mais movimentada.
Manduca ficou, praticamente, sozinho num canto, até o seu advogado engrossou o séqüito. Porém, quase que teria um faniquito quando a meritíssima Dra. Fabiana Maria Machado adentra no recinto:
-Boa tarde senhores! – a juíza saúda a todos e vai direto pra sala de audiência, acompanhada do seu séqüito, Manduca a observa de soslaio, o suficiente para que o seu coração disparasse com uma boa dosagem de adrenalina: “não é possível, é Paula... Não pode ser!!!”. Ficou absorto, sem uma gota de sangue, por pouco não desabou, porém, chamou à atenção de um preposto que estava no computador:
-Senhor, estar sentindo alguma coisa?...
-Foi um ligeiro mal estar, acredito que pela emoção de ser ouvido daqui a pouco!... – contemporizou Manduca.


VIII



Manduca foi ouvido. A juíza fez algumas perguntas que ele já tinha as respostas. Os promotores e os advogados fizeram algumas intervenções. O quadro do crime era o mesmo. A polícia ainda não tinha encontrado o criminoso. A família clamava por justiça. Manduca não tirava da cabeça que a juíza era Paula. A voz a identificava. Quanto ao resto, os empecilhos em reconhecê-la decorriam por conta dos disfarces. A juíza não estava de roupa preta, não estava de óculos escuros, usava sapatos altos e não tênis, não estava de peruca de comprida e grossa cabeleira e estava ali à luz do dia e não ao seu escurecer como sempre fazia quando lhe encontrava, além da autoridade que ostentava, que não se podia levantar suspeição sem provas contundentes.
A juíza lhe deixou mais confuso, não lhe olhava de soslaio, por baixo, mas tête-à-tête, como para provocá-lo, um desafio à sua memória visual.

IX


Um mês depois, um negro chamado João Silva, comparece ao distrito policial acompanhado de sua esposa Clara e seu advogado, apresentando-se como responsável pela morte de Zé Maria. O delegado recalcitrante, resistiu em acreditar, achando que ele estava fazendo o papel de boi de piranha, não querendo tomar seu depoimento. Foi necessário uma ameaça velada do advogado:


-Meu caro Xavier, você é meu amigo, não quero tomar nenhuma outra providência, salvo, se for necessário. O meu cliente será um prato apetitoso para imprensa baiana que há longo tempo corre atrás dessa “mulher de preto”, doida pra desvendar esse mistério. Meu cliente irá até faturar com esse “furo”!... – foi o bastante para que o delegado o levasse a sério, não queria passar um atestado de negligência e inaptidão no exercício da função ao secretário e ao governador.
Uma semana depois o delegado e o Secretário de Segurança Pública, reuniram a imprensa com o desfecho do crime e um sucinto relatório: “o criminoso tinha se apresentado, alegando legítima defesa, inclusive com um histórico médico, datado do dia do crime, que numa queda ele tinha fraturado o nariz, forte lesão no rosto e quebrado dois incisivos. Além do atestado com a mesma data do dia do crime, tinham sido feitos exames datiloscópicos e as impressões digitais do criminoso confesso, eram as mesmas encontradas nas duas facas cravadas na vítima. Para que não houvesse dúvida, tinha sido encontrado um pedaço de papel sujo de sangue no local do crime que tinha o mesmo DNA do confesso criminoso”.
O delegado e seu superior hierárquico jogaram uma pá de cal na fantasia de que havia uma mulher misteriosa, com o epíteto de: “a dama de preto”. Houve sim, uma mulher e um taxista de meia idade que estavam acuados, sob a mira do revólver de Zé Maria, que estava extorquindo o homem e ameaçava molestar sexualmente a mulher, quando o criminoso confesso tentou intervir para que o pior não ocorresse, foi pego de surpresa com um safanão de revólver na cara e reagiu.


X



Um ano depois o júri inocentou o criminoso, embasado no princípio da legítima defesa. O testemunho da Manduca e de outro morador que apresentou-se a posteriori quando os fatos adquiriram notoriedade pela imprensa, foram decisivos. As provas técnicas e a má reputação do rufião deram o remate.
Manduca voltou trabalhar sem sobressaltos. Sua mulher jamais soube de suas andanças com uma mulher desconhecida e misteriosa. Hoje, rejeitava o pensamento de juíza ser Paula. A imprensa escrita e televisada não falaram mais no assunto. Seu advogado foi regiamente pago. Agora entendia Paula, se ela fosse encontrada, as aves de rapina e os urubus que sobrevivem da desgraça alheia, jogariam no poço todo bem que ela tinha espalhado para colocá-la na fogueira da suspeição do mal que ela não tinha feito.
Certo dia, uma jovem senhora de preto, de supetão, diz-lhe:
-Há pedras no caminho dos que fazem!...
-Senhora, o caminho também tem muitas flores que perfumam nossa passagem!..




Autor: Rilvan Batista de Santana


Licença: Creative Commons


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1 Responses to A dama de preto R. Santana

  1. UM PERFEITO CONTISTA
    UM CONTO MARAVILHOSO.
    MENTE ILUMINADA PELA CRIATIVIDADE.
    E O QUE MAIS AMEI FOI À CONCLUSÃO: " ... O CAMINHO TAMBÉM TEM MUITAS FLORES QUE PERFUMAM NOSSA PASSAGEM!..".
    É TUDO DE BOM.
    PARABENS ESCRITOR E PROFESSOR PELA GENIALIDADE...
    JOÃODEPAULA.:.

     

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