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A casa de espíritos “Xis” R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 20/12/2015

A casa de espíritos “Xis”
R. Santana


            Depois de aposentado, viúvo, filhos criados, ateu, sou ainda rijo para não me acomodar, comprei uma fazenda de cacau para os lados de Pau Brasil no Sul da Bahia. Não o fiz com intuito de investimento, gerar mais riqueza, mas com o desejo de sair do sedentarismo da cidade grande e gozar melhor qualidade de vida no campo. Eu imaginei que uma fazenda fosse o melhor lugar para descarregar o estresse de 35 anos de lides jurídicas como advogado criminalista, o que não foi verdade.
            A fazenda “Mata Atlântica” fica no sopé de uma serra, embaixo, um extensivo vale que facilitou cabrocar a terra para o plantio do cacau e cortada por ribeirões. A água para abastecimento da sede foi encanada de um minador que fica num outeiro, o antigo proprietário ainda fez uma grande represa para aproveitar esse manancial perene. A “Mata Atlântica” é uma fazenda grande, 20% de mata, um lugar paradisíaco para se viver.
            Quando comprei a fazenda, estranhei que havia uma casa não bem cuidada que poderia ter sido a casa grande de antes, mas não quis detalhes, bastava ater-me à produção de cacau, seu potencial, se não havia vassoura-de-bruxa e quantos empregados permanentes, além disto, eu a adquiri por uma pechincha, aquilo que não tivesse do meu gosto, seria corrigido depois, após três meses, comentei com o administrador, o negro Damião:
            - Providencie reformar àquela casa, dentro de três meses, a casa grande será lá! – ele negaceou:
            - Mas...  doutor... é uma casa... mal... – desembuche Damião!
            - Doutor José Armando, o povo diz que é mal-assombrada!
            - Eu sou ateu, não creio nessas baboseiras... Damião, já viu uma alma?
            - Nunca, doutor!
            - Então, providencie a reforma da casa! – e acrescentei:
            - Ah, inclua no projeto uma garagem.
            Quatro meses depois, e, não três meses, a casa ficou pronta. Não mexeram na estrutura. O telhado francês acompanhou a garagem contígua. O piso porcelanado, chuveiros quentes, janelas e portas de sucupira maciça, grades de ferro para janelas e portas, duas suítes, ventiladores de teto, instalação elétrica embutida, forro de PVC,


reservatório de água enorme, boxes de blindex e toda avarandada, sem afetação, poder-se-ia dizer que a casa abandonada transformou-se em mansão.
            Fiquei deslumbrado e orgulhoso com o meu feito, assim que pude, eu tomei posse da casa. Nos primeiros dias, não notei nada de estranho, então, conversei com os meus botões: “travessura de rato é alma penada para essa gente”. Mesmo ateu, reconheço que a fé conforta psicologicamente o coração do homem e o deixa mais humano, mais solidário, e, mais forte na adversidade, enquanto a falta de fé deixa-o infeliz, o coração empedernido, a mente atormentada e psicologicamente inseguro.  Portanto, não estava preparado quando começaram aparecer coisas estranhas que as chamei de fenômenos naturais, mas ao longo do tempo, comecei me assustar, sem explicação lógica, passei acreditar em possibilidades espirituais...
            Certo dia, em hora e lugar não combinados, cutuquei Damião:
            - Você acredita em fantasma?
            - Alma do outro mundo?
            - Claro!
            - Patrão, a vida não acaba aqui, o corpo desaparece...
            - Sim, a morte é o fim!
            - Desculpe-me doutor, o espírito permanece. Não os vemos porque se encontram em um lugar diferente do nosso, mas eles nos veem e até conhece os nossos pensamentos, João escreveu: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.” (I São João – 4:1). Há espíritos bons e maus, os evoluídos estão distantes de nossa dimensão, os não evoluídos estão próximos de nós e fazem coisas estranhas...
            - Isto é fé, não é razão, Damião!
            - Perdoe meu patrão, fé sem razão é inócua, veja o que disse Allan Kardec: “Fé inabalável é aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade”. Tiago corrobora: “Assim como corpo sem espírito é morto, assim também, a fé sem obras é morta” Tg Cap. 2:16. Considere aí que toda obra é fundamentada na razão!
            - Seu conhecimento de espiritismo é grande, hein Damião!?
            - A “Bíblia” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo” são os meus livros de cabeceira. Sou um autodidata, tive pouca escolaridade, esforço-me para entender a religião à luz do espiritismo – e acrescentou:
           
- Se eu tivesse o conhecimento do doutor...
Eu saí dali frustrado, pensei que obteria respostas para as minhas preocupações, alguém na fazenda havia me falado que Damião frequentava o “Centro Espírita Chico Xavier ” e era kardecista de carteirinha, porém, eu saí, apenas, com um pouco mais de doutrina. Não culpei Damião, não lhe disse as coisas estranhas que estavam acontecendo na casa que reformei, o meu orgulho de ateu foi mais forte.
            Naquele dia, também, aconteceu o que relutava aceitar: quando voltei para casa um pouco antes das 19 horas, ao abrir à porta e adentrei casa dentro, ouvi vozes que vinham da cozinha. Não me afrouxei, acendi as lâmpadas, fui até à cozinha, encontrei a mesa posta com resto de café nas xícaras e pedaços de pão, o susto não foi menor do que a carreira, gritei pelos meus seguranças:
            - Pedro! João! Pedro! João!... – os homens socorreram-me incontinenti:
            - Diga patrão! Houve o quê!? Estamos aqui! – mais seguro de mim, procurei lhes acalmar:
            - Calma, calma, calma, rapazes!
            - O senhor nos chamou aos gritos!
            - Medo... encontrei a mesa... – Pedro me interrompeu:
            - Patrão, o pessoal fala que esta casa é mal-assombrada! – João completou:
            - Não quero botar pilha, mas uma noite dessas, saiu um homão aí pelos fundos, perguntei o que ele estava fazendo não me respondeu e desapareceu, acho que era uma alma penada. Não lhe contei Pedro!?
            - Preferimos não lhe assustar! – voltando-se pra mim.
            Estimado leitor, Pedro e João apareceram na fazenda, assim que a comprei, me pedindo emprego, disse-lhes que se entendessem com o administrador, não havia onde colocá-los, mas pelo porte físico avantajado deles, Damião sugeriu-me que os contratassem como seguranças da fazenda, porque na região, naquela época, havia muito roubo de cacau ainda nos cochos.
            Os rapazes faziam ronda nas barcaças, no armazém de cacau, e na casa grande (sede), das 20:00 horas às 6:00 horas. Armados com revólveres e espingardas 12. Não eram mais chamados para nenhum serviço fora desse horário.
             Pouco e pouco, eles foram adquirindo minha confiança, várias vezes, durante o trabalho, eu lhes chamava para que tomassem café comigo.
           

Algum tempo depois do café misterioso, Pedro e João comunicaram ao administrador que iriam deixar o emprego. Damião me fez ciente. Insisti que eles ficassem por mais algum tempo até o contrato de outros seguranças, mas eles foram irredutíveis e foram embora, na casa do sem jeito, sugeri ao administrador que testasse dois camaradas da lida do cacau como seguranças e deu certo.
            Não me lembro do dia, lembro-me que foi num final de semana, a hora foi mais ou menos perto da meia noite que cheguei a casa. Passei pelos seguranças e lhes desejei boa noite. Assim que meti a chave na porta, fui agarrado por dois braços fortes e empurrado para dentro de casa. Não percebi quem era, a luz lusco-fusco e o telhado avarandado escurecia o ambiente, não dava para ver alguém que se escondesse atrás da parede à direita, só reconheci Pedro e João quando já estávamos dentro de casa e a porta fechada. “Lucy” e “Malink” estavam estirados no sofá.
O meu susto foi maior que o medo. Pensei que eles estivessem em apuros na cidade e tivessem usado esse estratagema para não chamar a atenção dos moradores da fazenda. Mas o pensamento logo foi desfeito, quando começaram me chamar de “velho sovina” , “miserável”, “advogado de merda”, etc. Acostumado com o psicológico de bandido, eu esbocei reação, mas logo fui contido por um safanão. João não usou meias palavras:
- Queremos joias e dinheiro! – não me intimidei:
- Acham que sou idiota para guardar joias e dinheiro neste fim de mundo, rapazes!? – Pedro deu-me um soco na barriga que contorci todo corpo, refiz-me e continuei:
- Não trago dinheiro para este fim de mundo! – repeti.
- Quando começar lhe cortar... – João desembainhou a peixeira.
- Cadê o dinheiro!? - João marchou em minha direção, mas de repente, num pulo certeiro, “Malink” unhou sua mão com ferimento profundo que a faca lhe caiu da mão. Pedro pegou a espingarda 12, e, atirou no gato duas ou três vezes em vão, a arma pisou e o pavor começou tomar conta de todos nós quando numa voz cavernosa, gutural, profunda, um som quase inaudível, difícil de traduzir, saia da garganta de “Lucy” e “Malink”:
- Nesta casa não será mais derramado o sangue de um justo!... – Esta foi a única frase completa que captei dos estranhos animais. Todavia, compreendi an passant que os


antigos donos da fazenda tinham sido assassinados pelos pais de Pedro e João. Agora, eles queriam repetir o crime, mas não iriam conseguir porque eles estavam ali de guardiões.
            A sala esfriou como se ar condicionado estivesse ligado no máximo. “Lucy” e “Malink” ficaram enormes, maiores que um homem de 1,80 m, eles mostravam seus dentes raivosos para Pedro e João. Suas cabeças giravam sobre os ombros numa grande velocidade. Os Olhos transmitiam uma luz em feixe e localizada, como se a luz fosse trespassar os corpos dos malfeitores. Porém, o mais surpreso estava por vir: eles se transformaram num casal bonito elegante. Ele, um homem de meia idade, cabelos grisalhos, simpático, de terno escuro e sapatos pretos de verniz; ela, uma linda mulher, balzaquiana, morena, cabelos cumpridos, pele viçosa, vestida de maneira elegante.
            Pedro e João não se aguentavam nas pernas. Parados, de olhos arregalados, já desprovidos das armas, não corriam porque lhes faltavam forças nas pernas e nos pés. As mentes confusas ainda não tinham entendido que os seus pais tinham matado aqueles dois seres, agora, eles estavam ali para que mais uma morte não fosse perpetrada naquela casa e agradeciam a mim, tê-la restaurado.
            - Eu sou Dr. Roberto Mascarenhas de Andrade! – apresentou-se.  
            - Eu sou Margareth Garret de Andrade – acrescentou:
            - Nós agradecemos ao Dr. José Armando ter restaurado nossa casa!
            Depois das apresentações, eles desapareceram... “Lucy’ e “Malink” continuavam deitados no sofá em posição original. Agora, dono da situação, eu gritei pelos meus empregados e prendemos os meliantes e os entregamos no dia seguinte às autoridades do lugar.
            Hoje, não sou mais ateu, procurei uma igreja e estudo os Evangelhos. Não vendi a fazenda nem me desfiz dos gatos, pois eles são instrumentos de espíritos que não atingiram à perfeição, mas são espíritos do bem.

Autor: Rilvan Batista de Santana


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