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NÃO FOI GRAHAN BELL! - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/06/2017



F:\MC_05)_PublicTextosBLOGs\07 IlustraçõesPublicadas\2 IlustrInventeModa\2017\Y70614NãoFoiGrahanBell.jpgHá mais de dez anos, estou escrevendo uma história familiar. Vou parando e recomeçando várias vezes. Em uma dessas retomadas senti que precisava me abastecer de maiores informações sobre a Imigração Italiana. Isso me levou ao encontro do excelente livro de Deliso Villa, Storia Dimendicata, editado na Itália pelo Ente Vicentine nel Mondo. Entrei em contato com o editor para comprar o livro e fui informado que não estava a venda, era distribuído gratuitamente. Solicitei um para mim e me pareceu que ficaram contentes em enviá-lo para o Brasil.

NÃO FOI GRAHAN BELL!


Com um dicionário em mãos e o Google Tradutor no teclado, deleitei-me com uma leitura preciosa e agradável, indispensável para nós descendentes de italianos. Aqui e agora quero mostrar a história verdadeira de uma “pequena grande invenção feita por um pobre emigrante”, relatada no livroa nas páginas 206, 207 e 208. Solicito escusas ao autor e a boa vontade do leitor para minha dificultosa e provavelmente imprecisa tradução, que vem a seguir:

A história do telefone merece ser recontada. Ela se insere em um período de invenções extraordinárias que mudou nossas vidas. É uma descoberta relacionada à emigração italiana e destaca significativamente a vulnerabilidade dos emigrados.

Antonio Santi Giuseppe Meucci [nascido em Florença, a 13 de abril de 1808 e falecido em Nova Iorque, a 18 de outubro de 1889] * era um anarquista florentino que se refugiara em Havana após os motins de 1831, na Itália. Ele trabalhava como mecânico-chefe na Opera Tacon House. Foi ali que teve a ideia de criar um aparelho que lhe permitisse comunicar rapidamente para seus funcionários, ordens de montagem e desmontagem de cenários: na prática, seria um dispositivo para transmitir a sua voz à distância.

O Teatro acabou sendo devastado por um incêndio e, por isso, Meucci mudou-se para os Estados Unidos. Vivia com dificuldade fabricando velas e, ao mesmo tempo, ia aperfeiçoando seu projeto. (Nessa sua fabriqueta, Garibaldi trabalhou por três anos.)

Somente no ano de 1857 conseguiu falar com clareza, a partir de sua casa com o galpão da fábrica, graças a uma linha telefônica desenvolvida por ele mesmo. Assim nascia o telefone.

Meucci não tinha meios para patentear sua invenção maravilhosa. Mas, em 1871, finalmente conseguiria. Entretanto não conseguiu renovar a patente, por não poder pagar o imposto. Cinco anos mais tarde a patente caducou.

Em 1876, certo Graham Bell, um especialista em problemas de comunicação oral, apresentou um projeto de aparelho telefônico ao Escritório de Patentes. Duas horas depois, no mesmo ofício, apresentou-se um tal de Professor Elisham Gray, um físico, com outro projeto de telefone. Foi uma coincidência de um mesmo golpe, não só porque os dois projetos apresentados eram praticamente iguais, mas porque ambos eram estranhamente semelhantes ao projeto de Meucci, que caducado já não valia mais. Gray processou Bell, mas perdeu o processo.

A partir de então, Bell desfrutou com grande habilidade a invenção, fundando uma empresa, a Bell Telephone Company, que em pouco tempo se tornou uma das mais poderosas empresas dos Estados Unidos.

O clamor do processo tinha mobilizado um grupo de emigrantes italianos, que queriam ver reconhecido o mérito da invenção para Meucci. Porém eles também eram pobres e não foram capazes de arcar com as despesas de um julgamento.

Mas dois americanos acabaram então por tomar a iniciativa. Acusaram Bell, não exatamente por ter roubado a invenção do italiano, mas por conscientemente ter jurado em falso ante o ofício de patentes, dizendo que a invenção era dele. Foi uma colocação absolutamente correta, porque o sistema americano aceita o roubo com notável tolerância, mas considera gravíssima a falsidade em ato público.

O eco dessa denúncia foi enorme. Até o Governo interveio. Mas a empresa de Bell já estava tão poderosa que forçou o próprio Presidente dos Estados Unidos a suspender a investigação.

A disputa, entretanto, havia tomado uma conotação política; estava em jogo o respeito às regras democráticas, isto é, o princípio da igualdade dos cidadãos, poderosos ou fracos, perante a lei.

A investigação foi retomada sob essa ótica. Descobriu-se que Meucci, em 1871, com a patente no bolso, se apresentou à Western Telegraph Company, uma empresa de telégrafo, que ficou muito interessada no projeto, mas depois desistiu dele. Os desenhos não foram devolvidos, alegando que o haviam perdido...  Meucci, ingênuo, resignou-se e aceitou a alegação.

A Suprema Corte dos Estados Unidos não se resignou e reabriu o processo. Descobriu-se então que a empresa Bell pagava grandes somas à Western Telegraph Company para desfrutar da patente de Meucci, aquela mesma que havia sido “perdida”... Resumindo, a Suprema Corte reconheceu, em 1886, os direitos do italiano. A invenção era sua: o Telefone Bell deveria ser chamado de Telefone Meucci.  Além disso, a Bell1 foi condenada a pagar ao italiano uma modesta anuidade vitalícia.

Foi uma vitória de princípio, sem efeito prático, porque a patente de Meucci não era mais válida e Bell estava livre para explorar comercialmente a invenção. Bell tornou-se extremamente rico e Meucci chocantemente pobre. Ele não tinha dinheiro nem para pagar o aluguel de onde morava.

Foi seu patrão quem teve piedade daquele velho octogenário, com a aparência patriarcal de sua grande barba branca, que suportava seu infortúnio sem reagir, porque não tinha os meios para fazê-lo. Uma verdadeira imagem da injustiça.

O patrão renunciou de receber dele o dinheiro do aluguel e acabou por doar a casa para uma comissão de emigrantes italianos, com a condição de que o velho inventor vivesse ali tranquilamente seus últimos dias. Posteriormente a casa foi transformada num museu em memória daquele gênio desafortunado.

[Somente em 11 de junho de 2002, o Congresso dos Estados Unidos reconheceu oficialmente Meucci - através da Resolução Nº 269 - como o verdadeiro inventor do telefone. Além do telefone, o genial italiano idealizou um sistema de filtros para depuração da agua e introduziu o uso da parafina na fabricação de velas.] *.

Esta é a desventura de um emigrante que poderia se tornar milionário em dólares, mas que morreu na miséria, vítima do provavelmente primeiro e mais clamoroso caso de espionagem industrial da história.

* [Notas minhas]
Fonte: Deliso Villa - Storia Dimendicata - Edizione a cura dell’Ente Vicentini nel Mondo”- 2010 - 36100 Vicenza – Corso Fogazzaro, 37 (presso C.C.I.A.A.) Telefono 0444/25000.

Mateus Cosentino

Sampa – 14.06.2017

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