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O vermelho do arco-íris - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 19/10/2017

O vermelho do arco-íris
R. Santana

            O mundo veio abaixo quando o advogado Paulo Gustavo Duskin soube que seu único filho homem é gay. No início, alimentou a esperança que tudo não passasse de futricas de vizinhos, despeito e inveja de amigos e familiares frustrados com o desempenho escolar de seu filho, pois Miguel com menos de 30 anos de vida é reconhecido como um infectologista de grande reputação no estado da Bahia e no país, porém, colocados tête-à-tête, seu filho foi duro e claro:
            - Meu pai, cuide de sua vida sexual que cuido da minha!
            - A minha é de natureza de homem, não de xibungo!
            - O Senhor é homofóbico, lamento! – Paulo Gustavo conteve-se pra não lhe dar uns sopapos.
            Naquele dia, foi a última gota d´água que fez o copo transbordar: pouco tempo depois, Paulo Gustavo recebeu um convite de casamento de Miguel, convite padronizado com os nomes dos nubentes, acima, à direita e à esquerda; abaixo, os nomes dos pais, fotos dos pervertidos, etc. O convite não lhe foi entregue pessoalmente, mas entregue à velha empregada que o colocou em cima da escrivaninha de seu escritório.   Após lê-lo, em voz baixa, fez alguns impropérios e xingamentos: “agora, o xibungo é Micaela, a “noiva”, e o outro veado Thiago é o “noivo”, safados... nojentos...”, “eu não vou ter estômago pra aguentar tanta nojeira... vou vomitar...”, “o filho da puta conseguiu enxovalhar o nome de minha família, mas...”, “renego-o para sempre, filho de Sodoma e Gomorra”, “peço a Deus que sua consciência seja mais pesada que a tampa de sua tumba”...
            Depois que leu o convite, Paulo Gustavo despiu-se de suas roupas suadas pelo trabalho forense, tomou banho, esquentou sua comida no micro-ondas, deixada pela empregada como de costume, acendeu um hollywood, deu umas baforadas, angustiado, ele tomou da escrivaninha caneta e papel e começou escrever para o filho:


Para:
Micaela? Não! Miguel:

Recebi seu convite de casamento que me causou repulsa, uma afronta!  Jamais pensei que você tivesse coragem de enxovalhar a dignidade de nossa família, acintosa e publicamente. Não fiquei feliz, antes, nessas condições, ficaria feliz se fosse para reconhecer seu corpo na pedra de um IML num lugar qualquer.
Não acredito que um padre ou um pastor irá fazer do sacramento do casamento uma ação de heresia. O casamento é um sacramento sagrado, não para 2 maricas, mas um ato de fé aos pés da Santa Cruz de um homem e uma mulher que se amam e aptos à reprodução humana. Certamente, vocês irão fazer uma ação simulada diante de um desses padres “moderninhos” ou dum pastor pederasta, jamais diante de um homem de Deus.   
A Bíblia condena a pederastia há 2000 anos: “E com homem não te deitarás, como se fosse uma mulher. Isto é, abominação” (Levítico 18:22).  Lá adiante, ele completa: Deus disse: “E se um homem se deitar com homem como se fosse com mulher, ambos fizeram abominação, certamente, serão mortos: o seu sangue está neles” (Levítico 20:13). A Bíblia adverte: “Não seja controlado pelo seu corpo. Mate qualquer desejo pelo tipo errado de sexo” (Colossenses 3:5).
Miguel, não culpo Sigmund Freud por sua homoafetividade, você sempre “disputou” sua mãe comigo. Lembro-me do seu chamego infantil com Júlia, e ao invés de ficar com ciúme, ria-me por dentro pelo seu interesse pelo sexo oposto, não considerava esse desejo infantil incestuoso, pois incestuoso foi Édipo ao se casar com Jocasta, sua mãe, e filhos tiveram. Considerava seu interesse por sua mãe uma fase natural do desenvolvimento infantil, um fenômeno psicológico que iria definir sua opção heterossexual no futuro.
Orgulhava-me quando você namorava as “gatinhas” em sua adolescência. Não havia sinais de homossexualidade, mas, “espada”, macho, homem. Depois que você foi estudar medicina, longe de sua cidade e de seu estado, aparece-me como veado passivo, “noiva” e, vai se casar. Claro que não vai me dar netos (depósito de fezes não é útero), dessa relação espúria, pecaminosa, de amor doentio, de homossexualismo, de mente perturbada.
Miguel, eu acredito que a OMS não foi feliz quando retirou o homossexualismo da lista de doenças, ninguém nasce com formação genética (existe o fenômeno hermafrodita, mas é outra história), ou psicológica gay, assim como ninguém nasce pedófilo, drogado, alcóolatra, jogador compulsivo, são vícios, são doenças adquiridas, desejos e impulsos não contidos, são condutas condenáveis de libertinagem, de licenciosidade, de devassidão, que podem ser revertidas com terapias embasadas na Psicologia, na Psicanálise, na Psiquiatria. Por isto, Miguel, eu sugiro-lhe que se quiser honrar a minha memória, procure ajuda nessas ciências, depois que me for...
Miguel não se iluda com os estímulos da sociedade, com os apelos escusos da mídia escrita e televisada. A sociedade é hipócrita, em nome do livre arbítrio, dos direitos individuais, do respeito à diversidade, ela dá uma de João-sem-braço, “politicamente correta”, ela promove a cultura do cinismo, fecha os olhos para os abusos desses segmentos, inclusive, nas escolas.
Os pais dessa sociedade hipócrita de hoje, são iguais aos narcotraficantes: eles vendem drogas para o filho do outro e as proíbem, terminantemente, para o seu filho; é fácil aceitar o filho gay do outro e, são intolerantes com o seu filho.
Não faz muito tempo, você me chamou de homofóbico, não sou homofóbico, não cultivo o ódio nem a intolerância nem estimulo a violência aos homoafetivos, porém, não lhe aceito nem lhe aceitarei nunca como Micaela, porém, não perco o sono se o filho ou a filha do outro é homossexual, não sou a palmatória do mundo pra corrigir os desvios de conduta sexual de A e B, se não resolvo meus problemas como irei resolver os problemas alheios? Para mim, esses veados não fedem nem cheiram, trato-os com respeito, mas não com amizade.
Miguel, outra coisa que me chocou nesse convite, ricamente trabalhado, foi mudar seu nome masculino para nome feminino, além de acintosamente, acrescentar o meu nome, o de sua mãe, in memoriam, como os pais da noiva “Micaela”. Já não se identifica com o seu gênero? Deixou de ser homem pra ser mulher? Decerto, você está com transtorno de personalidade por essas pseudoteorias de ideologia de gênero. Quando o recém-nascido vem ao mundo sua genitália é masculina ou feminina, salvo, as aberrações da natureza, como é o caso do hermafroditismo, androginia.
Rapaz ou, moça? Já não sei! Sei que gênero não é uma construção social.  Gênero é a formação biológica de órgãos genitais de homem ou de mulher. Identidade de gênero e ideologia de gênero são construções sociais, ideias abstratas, crenças sem base científica. A criação de um terceiro gênero ou de um quarto gênero, etc., tem por objetivo, de acordo alguns estudiosos, tirar a primazia histórica da família de homem, mulher e filhos. Essa desestruturação da família convencional surgiu com Karl Marx em que tudo seria submetido aos interesses do estado, inclusive, a família.
Enfim, não irei ao seu “casamento”, não reconheço Micaela como filha. O meu filho Miguel morreu quando tinha 16 anos de idade. Agora, eu morrerei com essa memória que o tempo não conseguiu corromper.  O meu sangue, decerto, manchará as cores do seu arco-íris e deixará o vermelho do seu arco mais vermelho.  Reprimendas eternas, Paulo Gustavo Duskin.


Uma hora depois:
           
- Delegado, veja isto! – Uma carta sobrescrita: “Para o doutor Delegado - Nesta”. O advogado deixou claro que seu ato foi voluntário e um protesto pela ignomínia do filho, a sociedade hipócrita e a mídia desprovida de  princípio ético e moral. Pensou tirar a vida do filho no dia de seu “casamento”, porém, não tinha natureza criminosa, por isto, fez-se vítima.








Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
           
           


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